20.9.09

O Garoto

Era uma cidade pequena. Pequena e estranha. Não havia muito que fazer. Kurtz e eu apenas rodávamos em seu velho Mustang à procura de um bar. Era preciso beber para disfarçar o tédio daquela cidade.

- Eu era pilhado, Bono. Achava que iam invadir o país justo no dia que eu tava de sentinela.
- Só tem lan house nessa cidade.
- Sofri pra caralho no exército, Bono.
- Só lan house.
- Mas foi no exército que aprendi a acordar cedo.
- Outra lan house.
- Aprendi a acordar cedo e a ser leal.
- Tô fudido.
- Sou leal aos meus comandantes.
- Caralho de tanta lan house.
- Leal aos meus comandados.
- Até agora não vi uma McDonald´s.
- Leal à minha família.
- Lan House tem um monte.
- Leal aos Ramones.
- Ôpa, um bar!

Estacionamos. Antes de descer, Kurtz pediu para esperar. Então meteu a mão no bolso e tirou um saquinho. Era pó. Fez três filinhas sobre o painel do carro e meteu o nariz.

- Pensei que tinha parado com essa porra.
- Eu parei, Bono. Mas o garoto é foda.
- Que garoto?
- Você sabe, o garoto.
- Que porra de garoto?
- O diabo, porra. Ele fica ali. O tempo todo. E não adianta lutar, o garoto sempre vence.
- Ok. Mas vamos logo, que eu tô com fome.

Entramos no bar. Era uma espécie de pub. Um lugar agradável. Tocava rock. Pouca luz. Pouca gente. Uma mesa de sinuca. Sentamos e pedimos as bebidas.

- Gostei daqui, Bono.
- É, mas você reparou que tem duas lan houses ali na frente?
- Essa cidade é estranha. Já percebi isso.
- Tá vendo aquele cara?
- Qual?
- O coroa com cara de nazista.
- Que é que tem porra?
- Pedófilo.
- Puta que pariu, meu irmão. Para de julgar as pessoas.
- Pedófilo escroto.
- Se você fosse rico, magro, bonito e tivesse cabelo, ninguém ia te agüentar, porra.
- Uma amiga minha, dessas miúdas, sem peito, parecendo uma menina. Tinha um namorado que era a cara desse filho da puta aí. Eu já desconfiava que ele fosse pedófilo. Quando eles terminaram, ela me disse que na hora de fuder, ele gostava que ela ficasse imóvel, paradinha e calada, enquanto ele bulinava ela.
- Porra, Bono. Vamos pedir um tira-gosto.

Pedi pititinga. Kurtz foi de iscas de frango.

- Aquele de gravata, Bono.
- Que é que tem?
- No mínimo, no primeiro degrau das drogas, cheira pó.
- Ele é muito estranho mesmo.
- Eu sou um sobrevivente, Bono. Conheço.

O serviço era bom. A comida veio rápida. Junto com mais duas doses.

- Porra, Bono. Olha aquela ali.
- A baixinha?
- A de verde.
- A pititinga tá fudendo.
- Eu sou leal à minha mulher, Bono. Mas o garoto é foda. Mulher branquinha assim...
- É foda, você dá um tapa assim na bunda, fica aquela marca...

POW! POW! POW! – O FRANGO TÁ DURO, POOORRAAAAAA! – berrou Kurtz, dando três tiros para cima.

Lembro que um dos garçons foi o primeiro a correr. As mulheres gritavam. Os homens corriam. Alguns pulavam no chão. Depois se arrastavam o mais depressa que podiam. E em questão de segundos, Kurtz e eu éramos os únicos sentados naquele pub.

- Tá maluco, porra?
- O frango tá duro, Bono.
- Porra de frango. Que arma é essa, caralho?
- Esse frango me lembrou meus tempos de caserna, Bono. Prove aqui essa porra.
- Porra, acho que me caguei, caralho!
- ALGUÉM TROCA ESSA PORRA DESSE FRANGO!
- Caralho, me caguei!

Eu vou dizer uma coisa. Toda guerra é escrota. E o que mais tem por aí é filho da puta que só aparece na hora de receber a medalha, e desaparece logo que a bomba cai. Por isso é raro encontrar um cara como o Kurtz. Um comandante leal. Um amigo leal. Há os que o chamam de louco. Há os que o chamam de estúpido. Acho que é tudo isso também. Nos conhecemos numa guerra suja e perdida nas fronteiras de Sergipe. Mas ele vive pelas bandas do Recife. De tempos em tempos nos falamos. Um dia desses, às sete horas, de uma manhã de domingo, o telefone tocou. Era o Kurtz.

- Bono, PORRA!
- Comandante.
- Como é que tão as coisas?
- Você sabe, sobrevivendo.
- O garoto, Bono.
- Que é que tem o garoto?
- Acho que me livrei do garoto, Bono. Já faz um ano.
- De fuder.
- Tô só na erva.
- Na manha.
- E o blog?
- Na mesma.
- Escreve uma história nossa, porra.
- Vou escrever.
- Mas sem putinhas, porra. Você só sabe escrever negócio de putinhas.
- Ok, sem putinhas.
- Você é um soldado leal, Bono.

6.9.09

1996

Como uma formiguinha que resiste à morte. Você dá uma chinelada, ela finge a própria morte, e quando você pensa que não, lá está ela, a formiguinha, andando outra vez. Você dá outra chinelada, e mais outra, ela sente o golpe, mas continua mexendo as perninhas. Então você dá mais outra chinelada, e mais outra, e mais outra, você espanca a formiga e pensa que venceu. Porque se você olhar de perto, bem de perto, ela está lá, mexendo nem que seja uma anteninha, arrastando seus últimos segundos de vida. Isso para mim é poesia. Sempre admirei os derrotados, os feridos que não se entregam e resistem ao capricho da morte. Aqueles que, por questão de honra, princípio, raça ou pirraça, não dão o braço a torcer e estão cagando para os vencedores. O vencedor pode ter a medalha, mas ele não tem a menor graça. Sou mais o pugilista que foi à lona, que já não enxerga porra nenhuma e cospe sangue na cara do campeão mundial. Sou mais o samurai que não se entrega nem fudendo, o bêbado que resiste ao tombo, contrariando a vontade de todos, o cachorro sem perna que ainda luta por um pedaço de bife, o desempregado que pendura a conta, o time rebaixado que tenta um gol de honra nos acréscimos. Eu torço para a formiguinha. Só não tenho um décimo da força que ela tem.

Digo isso porque aquele ano não foi dos mais fáceis. Era abril quando minha madrinha saiu do jogo. Uma parada no cérebro, uma coisa assim. Uma mulher elegante, extremamente inteligente, que me incentivava nos estudos. Lembrando agora, percebo que sua morte foi uma coincidência. Porque eu não estava nada bem. Era o segundo ano na faculdade. Havia matérias como administração, economia, teoria de não-sei-o-quê. Aulas intermináveis, assuntos impróprios. E eu não tinha nenhuma vontade. Certa vez uma dessas professoras me pegou dormindo durante aula. Falou em desrespeito, irresponsabilidade, imaturidade. Eu era imaturo, é verdade, por isso não a mandei tomar no cu.

O ano passava devagar, mas logo depois, recebi um telefonema. Meu grande amigo Deco, dos tempos de escola, havia sofrido um acidente. Um acidente fatal. O momento não podia ser pior. Porque 0s amigos começavam a se tornar raros. Era uma questão de sintonia, preferências. Era o tempo das academias, marombas, bombas, e camisetas apertadas. E eu, simplesmente, era gordo. Eu não conseguia entender. Havia uma roda de amigos, e de repente, um virava pro outro e dizia, se ligue, pulando no chão e fazendo flexões. Eu dizia, que merda é essa? Vocês estão malucos, porra? E ainda tinha um agravante, o pior de todos. O meu cabelo. Eu sabia que um dia ficaria careca, era minha última chance, então deixei o cabelo crescer. O problema é que meu cabelo era uma palha desgraçada, tinha que deixá-lo preso, se o soltasse, Phuff!, eu me transformava automaticamente no Capitão Caverna. E você sabe. Tudo que um adolescente quer por perto, por mais ridículo que ele seja, é encontrar outro adolescente mais ridículo do que ele. Então eu era o centro das piadas. Ganhei o apelido de Paulo Medonho. Era Paulo Medonho isso, Paulo Medonho aquilo, Paulo, corta essa juba, você tá medonho. Havia uma verdadeira campanha para eu cortar meu cabelo. Era incrivelmente feio, de verdade. Mas eu me recusava. E pagava por isso. É que os amigos da Lapinha estavam descobrindo novos amigos e já não faziam mais questão da minha presença. Certa vez ia ter uma viagem, uma viagem que fazíamos há séculos. Mas naquele ano, justamente naquele ano, o dono do carro me disse que não havia mais vaga para mim, me substituindo por um novo amigo, alguém com um cabelo humano e corpo sarado, que lhe fosse mais útil, é claro, o ajudando a se aproximar das putinhas. E aos 18 anos eu aprendia o quanto a amizade pode ser prática.

Mas a chinelada mais forte veio no mês seguinte. Minha avó saiu do jogo. A minha avó. A minha avó. A minha avó. A minha avó que me fazia pão assado na caçarola na hora da sessão aventura, que eu desconfiava ser umas das poucas pessoas que gostavam de mim gratuitamente, e que também me pedia para eu cortar o cabelo. Sabe a formiguinha? Foi a primeira vez que pensei em drogas. Mas eu não tinha coragem, nem dinheiro, nem competência. Aliás, não tinha perfil para nada. Foi nessa época que fui reprovado no psicoteste da Telebahia Celular.

Dias depois da minha avó, eu escuto no rádio sobre o Renato Russo. Era o que faltava. O mundo era outro. Já não tínhamos o Cazuza, nem o Curt Kobain. Era de se pensar no suicídio. Vivíamos no fantástico mundo da Boquinha da Garrafa, Dança da Tartaruga, Backstreet Boys, Britney Spears, Alexandre Pires, Ratinho, Malhação, banheira do Gugu, Cumpadi Washington e Carla Peres. E por falar em bunda, é evidente que não comi nenhuma naquele ano. O mais próximo que cheguei foi numa morena de Barra do Pote. Toquei violão, disse umas coisinhas engraçadas em seu ouvido, ela olhou pra mim, sorriu, mas olhou pro meu cabelo e preferiu outro cara. Nunca bati tanta punheta na vida como naquele ano.

96 levou não apenas algumas pessoas que eu gostava. Foi uma surra de cinto. Cada golpe levando um pedaço da minha carne, de meu sangue, de minhas células, de minha infância, de minhas proteínas. Acho que nem o bom Jack La Motta resistiria a tanto em um único round. Tem gente que diz que as feridas trazem maturidade. Eu digo que maturidade de cu é rola. Porque no dia 30 de dezembro, veio outro telefonema. Era do interior. Minha bisavó também havia saído do jogo. Confesso, já estava cansado. Pensei, ok, anos 90, vocês venceram. E antes do reveillon, fui até a barbearia perto da feirinha e disse, corta essa porra.