22.8.09

Rabuge

O desemprego é uma lástima. Já engordei quatro quilos. A gente levanta, come alguma coisa e volta. Levanta, come alguma coisa e volta. E assiste a qualquer porcaria na TV. Passava aquele quadro no telejornal. Pretos e pobres numa praça pública erguendo certificados rotos de cursos técnicos e implorando por uma vaga. Quem assiste aquilo? Só os desempregados. Uma mulher de meia idade pedia uma chance de assistente administrativa ou cozinheira ou serviços gerais. Bem vinda ao clube, dona. Ao clube dos sem qualificação, sem portfólio, sem perfil. Acredito que eles se divertem com aquilo, os diretores e assistentes, os que inventam o perfil. Nunca sei o que eles querem. Já fui reprovado até em psicoteste. Na antiga Telebahia Celular. Havia aqueles traços, desenhei uma banda de rock, devem ter achado que eu era algum tipo de louco, fanático ou coisa assim. Acho que sou a única pessoa no mundo reprovada num psicoteste. Fiquei imaginando, será que aquele povo, o da TV, na praça pública, será que aquele povo também passava por psicotestes? Será que eles também engordavam?

Uma coisa é certa. O ar é sempre quente nos piores dias. Desliguei a TV e fui buscar algum vento na janela. Nada. Vi apenas o Rabuge. Um velho amigo de infância. Estava sentado na sombra de uma árvore. Coincidência. Rabuge também não tem o que eles chamam de perfil. Parado há oito meses. Teve que vender o carro, sua alma. Soube que o primo da mulher que ele come ficou de lhe arranjar alguma coisa numa cervejaria. Eu queria ser como Rabuge. Apenas sentar embaixo de uma árvore e acender um cigarro. Não sei por que, mas acender um cigarro é como dizer “tá tudo bem” ou “tô cagando pra isso”.

Eu começava a sentir fome outra vez. Era melhor sair de casa. Quando eu já estava na porta, o telefone tocou. Pensei até em não atender.

- Alô – eu disse.
- Bom dia, eu queria falar com o senhor Paulo Bono.
- É ele.
- Senhor Paulo, aqui quem fala é Tatiana da Credicard...
- Vai me oferecer algum produto, Tatiana?
- Eu queria estar apresentando...
- Tô desempregado, e meu time perdeu em casa. Não é uma boa hora, benzinho.
- A Credicard agradece, tenha uma boa tarde.

Desliguei o telefone. Saí de casa e fui até a árvore da esquina. Onde estava Rabuge. Sentei.

- E aí – eu disse.
- E aí.
- Calor da porra.
- Tá foda.
- Maresia da porra.
- Tá foda.
- E a cervejaria?
- Botaram um negócio de um teste.
- E aí?
- Me fudi.
- Psicoteste?
- Que porra é essa? Não sou tão burro assim.
- Sei lá, porra. Que teste foi?
- Umas contas.

Falando em contas, lembrei que tinha de tomar cuidado com meus óculos. Sempre quebram quando estou desempregado.

- Mas tô botando currículo – disse Rabuge –, daqui a pouco me chamam.
- Me arranja um cigarro.
- Você fuma, Paulão?
- Vou fumar essa porra.
- E você? Achou alguma coisa? É propaganda, marketing, que você faz, né?
- Cogffh! Cogffh! É uma putaria dessa. Cogffh! Agh! Caralho!
- Que foi, porra?
- Cogffh! Cogffh! Toma a porra do seu cigarro.

11.8.09

A Cinta Liga

Regina comprou uma cinta liga, mas fazia cara de nojo na hora de chupar. Mesmo assim demos aquela velha trepada. Depois fiquei na TV. Ela foi para a cozinha, fazer sanduíches. Demorou um pouco, o pau subiu de novo, e fui atrás dela. Regina estava lá, raspando a maionese. Peguei em sua bunda e perguntei, posso meter, e ela disse, pode. Então ficamos ali. Naquelas metidinhas. Mas estava sem graça. Para ela também. Desisti e sentei na cadeira. Ela voltou para a maionese. Mas sabe como é, aquela bunda fazendo sanduíches, eu disse, porra, quero gozar. Então peguei Regina, joguei sobre a mesa, meti, meti, meti, mas Regina tinha pernas grandes, e aquelas pernas balançando no ar me desconcentravam, eu disse, vira, Regina virou, eu meti, ela disse, aí não, aí meti certo, meti, meti, meti, mas a mesa ficou num barulho dos infernos, e Regina disse, assim não dá, eu disse, porra, então senta aqui, e puxei a cadeira, e Regina sentou, cavalgou, cavalgou, cavalgou, aí fode meu joelho, ela disse, minha barriga e meu pau pequeno também não colaboravam, então levei Regina de volta pra cama, meti, meti, meti, mas já não estava tão bom porque o pau já estava pororoca, e pau pororoca, como diz o meu amigo Queixão é o pau meio mole, meio duro, fica dobrando na porta, é uma força da natureza, não dá pra segurar, pau pororoca não fode, aí o celular tocou, e Regina disse, é meu pai, tenho que atender, e eu disse, puta que pariu. E enquanto Regina conversava com o pai, fui bater uma punheta no chuveiro, rapidinha, pensando em qualquer mulher.

Regina e eu éramos mesmo dois palhaços. Mas dois palhaços sem graça. Porque não ríamos nada daquilo. Estava claro que entre a gente uma cinta liga era apenas uma cinta liga, não passava de um velho clichê.

Uma vez pedi para ela ficar, a gente fritava uma calabresa, fazia uma farofa, mas Regina preferiu almoçar com os pais, num restaurante da orla, de óculos escuros, moqueca de siri mole e caipiroska de kiwi. Além disso, ela queria viajar, eu preferia o cinema, era mais barato. Mas aí ela dormiu no Show de Truman. E pior, riu do Mestre Yoda. Fiquei puto com aquilo.

Mas Regina não tinha culpa. Somos o que somos, e Regina era o que era. Na verdade Regina era uma mulher comum. Quero dizer comum. Dessas que sonham com seu príncipe encantado, um príncipe belo e de virtudes, montado num cavalo do ano e importado, um galã que lhe dê flores, orgulho e provoque inveja em suas amigas. Regina era uma mulher normal, como essas que copiam tudo que o professor diz, se formam, são promovidas, fortes, independentes e são, por direito, frágeis e sensíveis para esperarem que seu cavaleiro de roupa fina e gel no cabelo lhe abram a porta do carro e paguem a conta do jantar. Ah, mulheres. Suas putinhas gostosas. Sou apenas um ferro velho com nada de útil a oferecer. Se ao menos eu tivesse uns 30 cm. Mas como dizem, quem gosta de pica é viado, mulher gosta de dinheiro. Pode até ser. Meu amigo Triguinho discorda, “Oxe, eu também só dou pra rico, meu filho!”.