29.7.09

Dipirona

Na primeira vez fui parar no chão do banheiro. Eu já estava dormindo. Quando meu corpo começou a coçar. Primeiro as mãos, depois os pés, depois o corpo todo. Pensei que fossem as malditas muriçocas. Usei uma coberta, mas não adiantou. Ela, a coceira, só aumentava. Levantei, vesti uma calça, uma camisa de manga e enrolei outra camisa na cabeça, como um ninja, só os olhinhos de fora. Ainda assim meu corpo não parava de pinicar. Soltei um porra bem grande, acendi a luz e sai pela sala. Foi quando Hulk não me reconheceu de ninja e começou a latir e a atacar minhas pernas. Eram duas da manhã, aquilo foi um inferno. Pensei que fosse enlouquecer. Meu corpo estava em chamas. Então arranquei a roupa e corri para o chuveiro. A água gelada abrandou a minha loucura. Foi assim que fui parar no chão do banheiro. Eu ainda tinha sono e dormi ali mesmo. Hulk dormiu ao lado do vaso.

No dia seguinte fui ao médico. A consulta era às dez horas. Às onze chamaram o meu nome. Era uma médica. Alta, magra, elegante, óculos, cara de metida. Eu comeria.

- Pois não, seu Paulo?
- Quase morri essa noite. Uma coceira. Pensei que fossem as muriçocas...
- Hum, uma urticária...
- É, uma coceira dos infernos.
- Tem algum tipo de alergia, seu Paulo?
- É isso que quero descobrir.
- Vamos fazer alguns exames. Coisa simples.

Simples, o caralho. Primeiro deram umas beliscadas em meu braço. “Tá vendo só, não doeu nada”, disse a putinha. “Então você gosta de beliscões?”, respondi. Depois tiraram minha camisa e rasparam minhas costas. Percebi a cara de nojo da putinha. Problema dela. A vida é uma grande merda para todos. Alguns carregam tijolos sob o sol quente, outros escrevem cartões de natal, e outras raspam as costas suadas de um gordo. Então a putinha colou uns adesivos nas minhas costas e disse para eu voltar no dia seguinte. Alertou também para que eu não lavasse as costas nem transpirasse de forma alguma. Mole para um gordo que vive no calor da Bahia. Uma semana depois eu estava com os resultados. Marquei a revisão. A consulta era às nove horas. Cheguei às oito e quarenta. Já eram dez horas, e nada. Chamaram uma velha que chegou depois. Então fui até a putinha da recepção, que falava num daqueles telefones pendurados na cara.

- Com licença - eu disse.
- Um instante, senhor.
...
...
...
- Pois não, senhor?
- Me diz uma coisa. Os velhos por aqui têm atendimento prioritário?
- Não, senhor.
- É que você acabou de chamar aquela velha. Ela chegou depois de mim.
- A doutora mandou chamá-la, senhor.
- Mas minha consulta era às nove. Já são mais de dez.
- Um instante, senhor.
...
...
...
- Pois não, senhor?
- Pois não, o caralho. Por que a médica chamou a velha antes de mim?
- Desculpa, senhor, eu não sei informar.
- Você não sabe.
- Desculpa, senhor.
- Você não sabe, ninguém sabe, a ordem é essa, não tem ordem, abaixo a organização, anarquia total, todo mundo louco, todo mundo maconhado aqui nessa porra.
- Desculpa, senhor.
- Tudo bem. Então manda alguém limpar essa porra – eu disse rasgando o envelope dos exames e jogando sobre o balcão.

Não foi daquela vez que descobri a causa da minha alergia. Mas tempos depois, aconteceu novamente. Eu estava na agência. Quando veio a coceira. Uma coceira dos infernos. Fui parar em outra clínica. A consulta era às 14 horas. Às 15 chamaram meu nome. Era outra médica. Uma velha, toda maquiada e antipática. Não comeria nem a pau.

- Pois não, seu Paulo?
- Quase morro essa manhã. Uma coceira. Já é a segunda vez.
- Uma urticária.
- É, minhas costas tinham uns calombos deste tamanho.
- O senhor tomou algum medicamento, seu Paulo?
- Não, eu vim direto pra cá.
- Eu digo antes, antes da coceira, o senhor havia tomado algum remédio?
- Um analgésico. Pra dor de cabeça. Nada forte. Só uma dorzinha aqui do lado.
- Qual o foi o analgésico?
- Dorflex.
- Dipirona.
- Dorflex.
- Dipirona.
- Bem, tava escrito Dorflex.
- Dipirona. É o nome da substância ativa.
- Ok, você venceu.
- O senhor é alérgico a dipirona, seu Paulo. Sugiro não ingerir mais nada que tenha essa substância. Ou o senhor pode ter um choque anafilático e morrer.
- Um choque o quê?
- Anafilático. E morrer.
- Porra.
- Mais alguma coisa, seu Paulo?
- Então, nada de dipirona?
- Nada de dipirona.
- Ok.
- Mais alguma dúvida, seu Paulo?
- Eu vi uma reportagem sobre um tratamento bacana de calvície. Ouviu algo a respeito?
- É um comprimido, seu Paulo. Um tratamento muito bom e avançado. Nós realizamos aqui na clínica. Em 2% dos casos pode gerar impotência, mas nossos pacientes estão tendo muito sucesso, quer ver umas fotos?
- Impotência?
- Apenas 2% dos casos.
- Ok, obrigado.
- Mais alguma coisa, seu Paulo?

Eu não queria mais nada. Só viver em paz. Mas a gripe vem tomando conta da cidade. E semana passada tomei um Benegripe. Era mais barato. E quando vi que estava escrito, Dipirona Sódica, foi tarde demais.

18.7.09

O Jardim da Saudade

- Michael foi o maior de todos – disse Carreiro.
- Calma aí – eu disse – Michael botou pra fuder, mas ele não foi o maior.
- Como não, Bono? Michael foi brilhante. Em tudo que fez.
- Só no início.
- O cara se destacou na família, teve uma trajetória dramática impressionante, era determinado, eficiente, consciente...
- Aí é que tá. Consciente nem tanto. Michael tinha uma cabeça conturbada. Ele não sabia se o que fazia era certo ou errado. Na verdade, Michael queria ser o pai. Esse sim foi o maior de todos. O velho era o poderoso chefe. Acima do certo e do errado. Michael era temido, Vitor Corleone era respeitado. Até pelos inimigos. Ele era o padrinho, cara, o padrinho. Sabe o que isso significava pra aquele povo? Uma coisa meio sagrada, essa porra, tipo Zico e Flamengo. Sou fã do Michael, Carreiro, mas o Vitor foi o maior gangster da história do...
- Lá vem o caixão.
- Porra, caixão grande do caralho.
- O cara tinha 140 quilos.
- Aquela é a viúva?
- É.
- Gostosa.

Eu não conhecia o defunto. Era um conhecido de Carreiro. Saiu do jogo por problemas numa cirurgia de estômago. O funeral estava cheio. Aquilo de sempre. As mesmas conversinhas. As mesmas convenções. Alguém começou um discurso. Falando do gordo, falando só bem, é claro. Odeio esses discursos. Ele se foi, mais que um amigo, quando o conheci, tão cheio de vida, adeus, fulano. Quem discursa sempre sai como o sensível, o defunto como herói, e todo mundo chora. Falar nisso, a viúva chorava muito. E o cara tinha 140 quilos. Aquilo me deu um pouco de esperança. Então era possível alguém chorar por mim. Talvez não passasse em branco no belo e melancólico jardim da saudade. Quantas pessoas iriam ao meu enterro? Quantas iriam de verdade, porque queriam e não pela mera tradição de ir a enterros? Haveria discurso? Só falariam bem, é claro. Hipócritas. Será que sentiriam minha falta como sentiam daquele gordo? Como seria a vida sem mim? Ou melhor, como seria a vida dos outros sem mim? Pensando bem, seria normal. A vida de todo mundo seria normal. Todos morrem e a vida segue. Minha mãe ia chorar um pouco, ela chora por tudo, mas depois de duas ou três semanas, os dias correriam normalmente. E quem sabe a rua tivesse até um pouco de paz em dias de jogos do Flamengo. Meu Deus, a viúva chorando e eu ali imaginando a era pós-Bono. Meu ego é desprezível. Ao contrário da viúva, que era muito gostosa. As viúvas são sempre gostosas. Eu queria comer aquela viúva. De quatro. Eu metendo, e ela, de vestido preto, chorando baixinho. A viúva só perdia pra uma freira que se aproximou do caixão. Que freira linda. Eu queria comer aquela freira. Depois disso, o funeral não teve mais nada de interessante. Fizeram uma força da porra pra carregar o gordo, enterraram, e todo mundo saiu devagar. O sol de Salvador estava se pondo.

- Você viu aquela freira? – eu disse.
- Porra, linda, branquinha – disse Carreiro.
- Porra, que hora é essa?
- Tá cedo ainda.
- Então vou te fazer uma oferta irrecusável.
- Manda.
- Um acarajezinho.
- Só se for agora, Bono. Conheço um aqui perto.

8.7.09

Gatinhas e Gatões

Eu tenho um primo. Ele tem uma dessas bandas de axé. Vivia me convidando para os shows. Não é bem a minha praia. Mas eu não fazia nada naquela noite, e queria prestigiar o garoto. Então eu fui.

Era uma dessas festas jovens de Salvador. Cheia de gente bonita. Com aspas, quero dizer. Na verdade, cheia de brancos, brancas e olhos verdes. Negros, só cheios da grana. Engraçado, aquilo me fez lembrar que antigamente os shows em Salvador eram no Clube Espanhol, no Baiano de Tênis, lugares assim, dentro da cidade. Mas aí veio a negrada do pagode, junto com o povo da periferia de cabelo cheio de creme, e invadiu o Espanhol. Hoje a festa dos brancos é fora da cidade, lá na casa da porra, Sauípe, Jauá, sei lá. Isso como um diferencial. Para dizer que só vai gente bonita. Com aspas, quero dizer. Mas voltando ao assunto, o lugar estava cheio. Muita mulher gostosa. Nenhuma para mim, é verdade. Sei o meu lugar. Então peguei uma dessas vodkas que já vem com gosto de limão e fiquei só assistindo ao show.

Meu primo estava lá. Kinho, o nome dele. Já tem nome de artista baiano. Era o vocalista. Além de cantar bem, é bonito, o sacana. Nem parece meu primo. Moreno, alto, tal, aquele cavanhaquezinho ralo, carismático, cheio de piadas nos intervalos das músicas. As putinhas se descabelavam por ele. Kinho usava brinco nas duas orelhas. Elas achavam o máximo. É foda. Se eu usasse brinco, me chamariam de viado gordo; se eu tivesse tatuagem, me chamariam de gordo baixo-astral; e se eu tivesse cabelo grande, me chamariam de gordo medonho. Enfim, meu primo mandava bem, arrasava com as mulheres e usava brinco nas duas orelhas.

Quando o show terminou fui até o camarim para falar com ele. Uma mulher peituda e mais macho do que eu tomava conta da porta segurando um walk talk.

- Eu queria falar com Kinho – eu disse – diga que é Paulo, o primo dele.
- VOCÊ, primo de Kinho? – ela perguntou com a voz rouca.
- Olha só, Cássia Eller. Eu sei que não parece. Mas eu sou primo de Kinho. Se não quiser acreditar, tudo bem. Mas, por favor, ao menos faça seu trabalho e usa seu radinho aí pra chamar ele.

A peituda-cola-velcro falou qualquer coisa lá no walk talk, e depois disse:

- Pode entrar.
- Valeu, Rô Rô.
- Vá se fuder.

Logo encontrei Kinho. O sacana estava cercado de mulheres. Veio me dar um abraço.

- Fala, Paulão. Finalmente, gordo sacana.
- Kinho, as putinhas te adoram.
- Nem me fale. Tô comendo duas por dia.
- Nesse caso, tô de regime forçado.

Nessa hora apareceram mais três putinhas loiras. Queriam autógrafo. A primeira pediu para Kinho autografar na capa do cd. A segunda pediu um autografo na blusa. E a terceira sentou na porra de um puf, arreganhou as pernas, e pediu um autografo na calcinha. Kinho foi lá e escreveu bem devagar na buçanha dela, “Com amor e carinho, Kinho”. Que bucetão, pensei.

- Você não vai comer essa putinha? – perguntei a Kinho.
- Essas e outras, Paulão.
- Que inveja dos infernos.
- Vem com a gente. Tem outra festa agora. “Forró Gatinhas e Gatões”, em Stella Maris.
- Não sou público-álvo.
- E o blog como é que tá?
- Tá lá, aquela merda.
- Tenho que ir agora, Paulão.
- Vá lá, Kinho, Lasca todas.
- Fui.

Então Kinho saiu pelos fundos da casa com sua banda e um monte de putinhas. Também deixei o camarim. A peituda com cabelo no suvaco ainda estava na porta.

- Vou lá, Bethânia.
- Arranja uma pica pra se roçar, seu gordo.

Então peguei mais uma daquelas vodkas e dei o fora.