26.6.09

Dignidade

- Vamos esse?
- Com aquele homem idiota?
- Mas tem o Dustin Hoffman. Dizem que é muito louco.
- Ok.

Dizem que Salvador é uma cidade alegre. Com muitos lugares aonde ir, e muitas coisas para fazer. Eu digo que depende. Depende do que você procura. Eu não procuro nada. Ou quase nada. Um bom filme em cartaz já é o bastante. Naquela noite estávamos Nina e eu. Compramos os ingressos e fomos para a fila.

- Tootsie ou Kramer vs Kramer? – Nina perguntou.
- Kramer. É um porre o Dustin bancando a mulherzinha forte e talentosa.
- Nenhum bate a Primeira Noite.
- Verdade.
- Adoro.
- Tá aí. A Primeira Noite de um Homem é um verdadeiro clássico. Você pode colocar um desses jovenzinhos pra assistir hoje, que ele vai gostar. O mesmo filme, com os mesmos atores. Como a boa e velha família Corleone. A porra tem que ultrapassar o tempo. Isso que é o clássico. Porque ficam os idiotas falando da época de ouro do cinema, dos anos 20, 30. Como se para ser clássico o filme precisasse ser em preto e branco. Ontem tentei assisti o King Kong das antigas, o primeirão lá, não sei quando foi feito aquela porra. Desisti. Não por causa dos efeitos. Mas por causa das atuações. Já viu nesses filmes antigos? O cara tá lá correndo de um macaco gigante, e falando como se estivesse numa propaganda de antisséptico bucal. Vai se fuder, meu irmão. Você vê essas listas de melhores filmes de todos os tempos, e os vinte primeiros são dos anos 20, 30, 40. Ninguém mais pode filmar nenhum King Kong, nenhum, nem se o próprio Kong aparecesse e dissesse, “Dessa vez eu vou estrelar minha porra”. E mesmo assim ia ser uma merda, ia ser crucificado, um pecado com os “admiradores” da primeira versão. É, porque eles não apenas assistem aos filmes. São “admiradores”. “Entendem” da porra. Porque se você não “admira” Encouraçado Potenkim, você é um ignorante. Cidadão Kane é bom? É. Tem um bom roteiro, é uma história muito bem contada. Mas não veio mais nada depois daquele trenó de merda? Pelo amor de Deus. Quer ver? Brilho Eterno. Pronto. Brilho Eterno. Já tá até chato ver o monte de gente dizendo que ama Brilho Eterno. Mas eu prefiro o roteiro de Brilho Eterno que o de Cidadão Kane. Que se foda quem me achar ignorante. Mas é aquela coisa, não é de Orson Welles, nem do Billy Wilder, não tem nenhuma Hepburn. Ah, porra. E não é só no cinema não. É tudo. Falam da “Era de ouro do rádio”, dá “Era de ouro do teatro”, até da “Era de ouro do Futebol”. O cara hoje pode driblar o time todo, o goleiro, o juiz, a puta da mãe do juiz, que mesmo assim vão dizer, “Ah, rapaz, é porque você não viu Garrincha jogar”. Pelé. Pelé. Pelé. Porra de Pelé. Sou mais o Zico.

- Acabou?
- Quero que Pelé se foda.
- Acabou?
- Acabei.
- Meu Deus, como você é chato.
- Qual o caso? Eu sou obrigado a gostar do King Kong em preto e branco?
- Acabou?
- Que porra.
- Por que você tá olhando pra aquela mulher?
- Porque ela tá tomando uma Coca. E eu tô com sede.
- Sei, eu te conheço, Paulo Bono.
- Sério. Vou comprar uma Coca.
- Mas a sala já vai abrir.
- Você escolhe uns lugares. Depois eu entro. Você faz sinal com celular.
- Você vai reclamar dos lugares.
- Reclamo não, pequena.
- Então compra jujuba pra mim?
- Jujuba?
- Jujuba.

Fui até uma daquelas lanchonetes de cinema. Tinha fila. Eu ainda estava puto com aquela conversa toda. Cidadão Kane o caralho. Sou mais o roteiro de Cidade de Deus. Então chegou a minha vez. Havia uma putinha no caixa. Uma putinha magrinha.

- Quanto é uma Coca-Cola e uma jujuba dessas?
- A Coca é 3,50, senhor. E a jujuba é...
- Não, eu quero uma Coca pequena.
- A pequena, senhor, 3,50.
- Eu digo aquela de 300 ml.
- É a de 300 ml, senhor, 3,50.
- 3,50?
- Hum hum.
- Caralho.
- Vai querer a Coca, senhor?
- Claro que não.
- E a jujuba?
- Enfia no seu cu.

Sai dali. Sinceramente nunca senti esse estado de felicidade capaz de fazer alguém comprar alguma coisa numa dessas lanchonetes de cinema. Não que eu seja do tipo casquinha. A palavra não era dinheiro. A questão é que bastava descer a escada rolante que era possível encontrar um copo de 500 ml cheinho de Coca-Cola por apenas 2 ou 3 conto. O problema era que o filme já ia começar. E eu me atrasaria se pegasse aquelas filas da praça de alimentação. Ia ter que entrar na sala com as luzes apagadas. Situação que evito a todo custo. Porque a plateia adora a comédia de um gordo entrando numa sala escura de cinema.

Então fui ao banheiro. Havia um careca lavando as mãos. Eu me aproximei da pia. Me olhei no espelho, alisei a barba. O careca saiu. Então liguei a torneira, enchi a mãos e tomei um gole d´água. Adeus, sede. 3,50 por uma Coca de 300 ml? Eu era o Paulo Bono. Ainda tinha um resto de dignidade. É isso. Dignidade era a palavra.

Então entrei na sala. As luzes ainda estavam acesas. Nina acenou com a luz do celular. Havia escolhido uns lugares mais ou menos. Mas eu não ia reclamar. Sentei.

- Cadê a Coca?
- Bebi água da torneira.
- Mentira.
- Ôpa, vai começar.
- E a jujuba?
- Assista o filme, pequena.

O nome era Mais Estranho que a Ficção. Com Will Ferrell, Dustin Hoffman e a Emma Thompson. Não era em preto e branco. Mas valeu a pena.

10.6.09

Só Cachorro Grande

Nos tempos de Feira de Santana, as noites de segunda eram do poker. Não éramos exatamente um grupo de amigos. Simplesmente não tínhamos motivos para voltar pra casa. Queríamos apenas beber algum vinho e jogar um pouco de cartas.

A mesa estava pesada naquela noite. Um era dono de uma concessionária. Outro tinha uma fábrica de uniformes. Outro era dono de uma metalúrgica. E outro era um velho fazendeiro rico. Só cachorro grande. E eu. Um redator em início de carreira que ganhava 350 reais por mês. Você pode perguntar, que diabos você fazia ali, seu gordo fudido? Era Feira de Santana. Eu já havia contraído a mania de grandeza.

Mas a verdade é que não jogo tão bem assim, e as cartas não ajudavam. Ainda era cedo, e mais da metade das minhas fichas já tinham ido embora. A maioria para a mão daquele fazendeiro. O velho pagava todas e apostava alto. Sempre soltando a fumaça de seu charuto em minha cara. E se eu falasse alguma coisa, ele dizia, “apenas jogue, garoto!”. Eu começava a lembrar de Dona Zeni, a minha senhoria. Eu já devia dois meses de aluguel. Foi quando recebi aquelas quatro cartas. 10, J, Q e A de ouro. Faltava apenas o Rei para completar um Royal Straight Flush. Talvez fosse a minha vez de entrar para a história. O velho soltou mais uma baforada em minha cara. Bebi um gole de vinho e pedi uma carta. Lembrei do Mel Gibson naquele filme. E antes de virar a carta, mentalizei um maldito Rei de ouro. Quem sabe, dona Zeni? Quem Sabe? Então olhei a carta.

Essa não foi a primeira vez que joguei entre os grandes. Passei por uma pressão semelhante nos tempos da Lapinha. Já era tarde. O Largo estava vazio e todas as casas fechadas. Jogávamos palitinho na frente da igreja. Quando os “caras grandes”, meninos que tinham entre 16 e 18 anos, apareceram e disseram que também queriam jogar. Inventaram palitinho a bolo de Rider. Ou seja, quem perdesse levaria 15 chineladas de Rider em uma só mão. Era o tipo de desafio que dava vontade de chorar antes mesmo de jogar. Mas aquilo era a Lapinha. Não fazia bem fraquejar. O problema é que eu não jogava tão bem assim, nunca fui bom nas contas, e aquela pressão só piorava tudo. Um a um, foram todos escapando do jogo, enquanto eu permanecia. Alguém sempre soltava, “vai levar porrada, Paulinho!” Até que restaram apenas um grandalhão e eu. O grandalhão era meio burro, e eu tinha alguma esperança. Então ele pediu 3, eu pedi 2, e abrimos as mãos.

Lembrei. Maverick, o nome do filme com Mel Gibson. Pois é. Naquela noite, meu Rei de Ouro veio. E fiz meu Puta-Mega-Fucking-Royal-Straight-Flush. Quase tive um troço do coração. Olhei várias vezes. Olhei de novo. E olhei de novo. E era o Royal. Uma seqüência, de 10 a Ás, do mesmo naipe. E de ouro. O maior cachorro de todos. O picudão do poker. Com aquela mão, eu podia tomar a fazenda daquele velho escroto. Não só a fazenda, como também seu jatinho, seu barco, seus carros e o cu de sua filha. Tomei mais uma golada de vinho e apostei. Esperei o velho pagar para ver, mas ele subiu a aposta. Viva, Dona Zeni! Viva! Então apostei tudo e o velho pagou para ver. Detonei meu vinho, me levantei e joguei minhas cartas sobre a mesa. “Receba, filhos da puta! Porque eu fiz um Royal, e agora quero um quadro com minha foto nessa parede de merda!”, eu disse, jogando meu copo na parede. Ficaram todos petrificados com minhas cartas. O velho apagou o charuto, coçou o bigode e tomou um gole de vinho. O jogo acabou, eu ganhei, e Dona Zeni também.

Dizem que não acontece nada em Feira de Santana. Bobagem. Algo sempre acontece naquela cidade. E não estou falando dos desmanches de carros roubados. Em Feira, a cada segundo, tem sempre alguém ganhando e alguém se fudendo bonito. Naquela noite, chutei os cachorros. Tempos depois perdi tudo. Perdi todas as minhas fichas e voltei para Salvador. Feira de Santana é um blefe. A Lapinha era diferente. Éramos exatamente um grupo de amigos. Tudo era motivo de riso. Sabe no Tom e Jerry, quando cai uma bigorna na pata do Tom? Foi daquele jeito que minha mão ficou depois das 15 chineladas que levei e ecoaram pelo Largo da Lapinha naquela noite.