29.5.09

Reprovados

Até onde a mediocridade pode nos levar? a) ao fracasso; b) ao fundo do poço; c) à loucura d) aos concursos públicos; e) todas as alternativas anteriores. Essa foi fácil. Mas nem sempre é assim. A maioria das questões são pesadas. E nem todos são craques. Nem todos sabem a resposta. É o meu caso. Por isso eu estava ali. Naquela sala cinza e sem graça. Era um daqueles cursos que preparam os despreparados para concursos públicos. Era aula de contabilidade. Repito: contabilidade. Como fui parar ali? Também não sei ao certo essa resposta. Lembro que por toda a vida meus pais sempre me sugeriram os concursos públicos. Naturalmente, como um cara legal e criativo, que não se imaginava trabalhar de gravata numa repartição pública, eu descartava a possibilidade. Mas a mediocridade dá suas voltas. Tive o exemplo do Vilela. Arquiteto frustrado que ganhava a vida, como diretor de arte, numa pequena agência de propaganda. Aos 40 e pai de família ainda ganhava uns 1400 conto. E carteira assinada o caralho. Aí um dia ele fez uma prova da Petrobrás e passou. Hoje dirige uma empilhadeira. Mas pôde colocar a filha numa escola particular. E olha que o Vilela era dos bons. Quanto a mim, mesmo quando terminei uma especialização, minha mãe disse, mas meu filho, por que você não faz um concurso? Vai ter o da Caixa. Coitada, ela sempre temeu que as coisas não dessem certo para mim. Engraçado, a velha me conhece melhor que ninguém. Lutei bastante. Mas sabe como é. O tempo passa e a porra do salário não ultrapassa aquela fronteira. Então eu lembrava do Vilela. Não é fácil admitirmos que não somos bons. Chega a ser poético entregar os pontos. E talvez gravatas não fossem assim tão piores que escrever títulos idiotas. Acho que por isso eu estava ali. Naquela sala cinza e sem graça. Lotada de gente sem graça. Estávamos todos nós. Os que não sabem fazer. Os que não conseguiram. Os que nunca conseguirão. Os CDFs de outras épocas. Os inúteis. Os reprovados. Os mais ou menos. Os perdedores especializados. Uma cassetada de Vilelas. Alguns chutando a última alternativa; outros, o caminho mais fácil. Mas como eu disse, nem sempre é fácil. Pelo menos para mim. Porque aquele professor falava e falava, eu não entendia porra nenhuma e me sentia ainda mais estúpido. Crédito, débito, balanço, ativo, passivo, raiz quadrada, hipotenusa, conta de dividir de três números, não sei quanto por cento, fx, x + y, vai tomar no cu. E num dos momentos mais serenos dessa vida, admiti minha total incapacidade, me levantei e deixei aquela sala cinza para trás. Não adiantaria tentar. Nunca fui bom em provas. Nunca fui bom em acertos. Até onde a mediocridade pode nos levar? Essa questão foi anulada. Porque ainda não descobri.

14.5.09

Ubirajara

O barzinho estava animado. Aquelas figuras de sempre. Todos dali da vizinhança. Alguns na sinuca. Outros na TV. Passava o jogo do Vitória. Em algum momento do segundo tempo o zagueiro fez uma gracinha na área, perdeu a bola, e o Vitória sofreu o gol.

- SÓ UM SOCO NA CARA DESSE FILADAPUTA! – berrou Seu Bira.

O que posso dizer de Seu Bira? Militar aposentado. Devia ter seus sessenta e pouco. Casado, duas filhas, uma neta e uma boa aposentadoria. Bigode grisalho. Era baixinho e também mancava de uma perna. Mas vou dizer uma coisa. O velho era durão. Desses tirados a macho. Era sergipano, cearense, ou pernambucano, paraíba, uma porra dessa. Esse povo sempre se acha mais macho que os outros. E aquela coisa, criado à moda antiga. Tinha lá suas intolerâncias. Seu Bira não gostava de homem de brinco, drogados, tatuagem, viadagem ou qualquer tipo de frescura. Uma vez estava o cara lá, todo pintado, dando entrevista durante uma parada gay. E Seu Bira, “Só um soco na cara desse viado!”. Tudo era um soco na cara. Todo mundo merecia um soco na cara. Uma vez foi Lula, Seu Bira odiava Lula. Lula falava alguma coisa na TV, e Seu Bira bateu na mesa, “Só um soco na cara desse analfabeto!”. Não sei o que houve com sua perna, deve ter sido no tempo do exército. Sei que juntou essa macheza toda nordestina ridícula com a carreira militar e deu que o velho era bruto. Muito bruto. Desses que impõem respeito e carteirada na fila do caixa do supermercado.

Mas eu falava sobre o jogo do Vitória. O filho da puta do zagueiro perdeu a bola na entrada da área, e o time levou um gol. "SÓ UM SOCO NA CARA DESSE FILAPUTA!". Seu Bira não quis ver o resto do jogo. Pagou a conta, cumprimentou os colegas e pegou o caminho de casa, que era pertinho dali. Era sábado. Seu Bira fez o de sempre. Passou na banca e comprou o jornal, passou na padaria e comprou pão e mortadela. Subiu devagar as escadas até o terceiro andar e abriu a porta. O som estava ligado. A esposa estava na igreja. Seu Bira chamou pela filha, “Ana Maria?”. Ninguém respondeu. Chamou mais uma vez, “Ana Maria?” e nada. Então foi até o quarto da garota. “Ana Maria?” E foi assim que Seu Bira me pegou enfiado no meio das pernas de sua filha caçula.

Já estou há algum tempo aqui procurando a palavra certa para expressar o que senti naquela hora. O mais próximo que consigo chegar é Morte. Senti a morte. “Ana Maria?”. É como se eu estivesse ouvindo agora. “Ana Maria?”. Estávamos deitados no chão. Minha bermuda estava um pouco arriada. Ana Maria de pernas abertas. Pau meio dentro, meio fora, e a voz de Seu Bira, “Ana Maria?” Meu pau encolheu em tempo recorde. Eu saltei e me larguei de bruços no chão. Só esperando a porra da facada. A porra da morte. Mas a morte não veio. Seu Bira desapareceu do quarto.

- Meu Deus! – disse Ana Maria.
- Ele foi pegar o revolver.
- Vá falar com ele.
- O caralho que vai.
- Meu Deus!
- Dá pra pular da janela?
- Vá falar com ele, Paulo!
- Puta que pariu! Puta que pariu!

Encontrei Seu Bira na cozinha. Bebendo água. Talvez o velho morresse do coração. Antes ele do que eu. Tentei lembrar de qual perna o velho mancava. Talvez ele exigisse esse negócio de casamento. Qual era a perna? Eu podia dar um chute e correr dali. Talvez ele me matasse. Morte. Eu estava fudido. E tremendo.

- Seu Ubirajara – eu disse. Ele queria que eu o chamasse assim.
...
- Seu Ubirajara.
...
- Olha só. Não tava acontecendo nada de mais. Eu tava em cima dela, mas não tava...
- Vá embora – Disse em voz baixa.
- É porque a gente tava...
- Vá embora.

Então fiz o que Seu Bira mandou. Fui pra casa. Fiquei sozinho no ponto, peguei meu ônibus, não sei como, mas fui pra casa. Pra minha cama. E fiquei deitado. Lembrando de tudo. A morte. O Cd. A massagem. A voz de Seu Bira. “Ana Maria?”. “Ana Maria?”. Aquela voz rouca. Os peitos de Ana Maria. O revólver. A morte. Seu Bira. A mão de Ana Maria em meu pau. O jogo que só acabava às seis. A faca. A perna de Seu Bira. A buceta de Ana Maria. Seu Ubirajara. A morte. E a morte. Lembrei de tudo. E senti febre o resto do fim de semana.