30.4.09

Duas Bombadas de Jeito

Naquele dia acordei tarde. Comi uma lata de sardinha com farofa. Dormi de novo. Acordei. Fiquei na janela. Comprei o pão. E agora estava ali, deitado no sofá. Eu e meu sofá. Havia cancelado a TV por assinatura. Poderia estar assistindo ao Bate-Bola da ESPN. Ao invés disso, estava puto, vendo o BA TV, com seus apresentadores idiotas e bregas dando notícias inúteis como o trânsito na frente do Iguatemi. Eu estava doido pra fuder. Uma nêga peituda na fila da padaria me deixou com o ovo coçando. Se Nina demorasse muito, eu teria que lascar uma bronha em homenagem àquela desgraçada peituda. Foi quando a apresentadora cafona do BA TV disse “boa noite” que Nina chegou.

- E aí, gordinho – disse Nina.
- E aí, pequena.
- O dia foi uma merda.
- Por que demorou?
- Engarrafamento no Iguatemi.
- Essa cidade vai parar. Um dia eu não saio mais de casa.
- Fez o quê hoje?
- Porra nenhuma.
- Não mandou nenhum currículo?
- Nada.
- Porra, Paulo!
- Que foi?
- Os pratos!
- Porra, esqueci.
- Prato de ontem de noite!
- Eu lavo, pode deixar.
- Preguiça dos infernos.
- Comprei o pão.
- Comprou de milho?
- Comprei.
- Lave os pratos pra gente tomar café.
- Eu lavo. Mas vamos dar uma antes?
- Mais tarde.
- Só uma.
- Eu preciso de um banho.
- Depois toma.
- Prefiro que você lave os pratos.
- Só uma pelo amor de Deus.

Nina topava todas. Fizemos ali mesmo, no sofá. Com tudo que tínhamos direito. O que os educadinhos chamam de preliminares a gente chamava de fazer uma putaria. E fizemos uma bela putaria. Uma roçadinha aqui, um beijinho ali, uma chupadinha aqui, um dedinho lá. E depois dei umas duas bombadas. Foi bom. Muito bom. Nina sabia ser uma cachorra como ninguém.

Então fui tomar banho. E eu estava lá, lavando meus ovos, agora mais tranquilos, quando Nina entrou no banheiro. Pra lavar a calcinha na pia. Aproveitou e também lavou minha cueca. Havia porra escorrendo por sua perna. Nina era maravilhosa. Não tinha essas frescuras que essas feministas por aí têm, não lavo cueca de homem, não esquento comida pra homem, não faço isso, não faço aquilo, comigo é diferente, homem tem que se fuder, homem não presta, prefiro meu vibrador. Balela. Pura balela. No fim das contas, toda feminista só quer o sagrado direito de levar umas duas bombadas de jeito. Isso sim. Mas como disse, Nina era maravilhosa. Passamos um tempo assim. Ela que botava dinheiro em casa. Nunca tive problema com isso. Acho que Nina também não. Ela só queria que eu lavasse os pratos, levasse o lixo, essas coisas.

- Pequena – eu disse.
- Oi – disse Nina.
- Quando eu arranjar emprego vou renovar a Sky e comprar uma máquina de lavar pra você.
- Tá certo.
- Me passa a tolha.

17.4.09

Eu Queria Batata Frita

O bom é que tinha um restaurante no prédio da velha agência. Seu Manuel abria pro almoço exatamente ao meio dia. Eu estava lá. E como qualquer restaurante a quilo, vem primeiro a parte das saladas. Peguei uns ovinhos de codorna. Na manha. Havia umas putinhas de regime e uns idiotas de gravata que colocavam folha ou pedacinhos de manga em seus pratos. Não sei por que, mas eu não acreditava em todos eles. Corretos, orgulhosos, confiantes. Olhavam para mim como se dissessem “Gordo!”. Eu apenas trincava o talher no prato, como se dissesse “Brócolis o caralho!”.

Eu queria batata frita. O problema é que as batatinhas acabavam logo. Não que Seu Manuel tivesse a melhor batatinha da cidade. Simplesmente por ser batata frita. E todo mundo come batata frita, inclusive as putinhas de regime. Para piorar, tinha um cretino que trabalhava num escritório de contabilidade que estava enchendo o prato de batatinha. E tive a impressão que quando o desgraçado pegou a última batata, olhou pra mim e sorriu. Assim que ele deu as costas, taquei um ovo de codorna em sua cabeça. A arma do crime quicou no chão e se escondeu debaixo da prateleira. O idiota olhou para trás, ajeitou seu topete e não viu nada. Eu já estava colocando minha omelete.

O restaurante estava cheio, mas achei uma mesa vazia. Logo depois, Rose, a garçonete, veio me perguntar se eu queria algo pra beber. Rose era gente boa. Sempre me servia as maiores fatias de torta africana. Ela tinha a cara do Catatau, do Zé Colméia. Mas era uma graça. Segundo Ramos, um Diretor de Arte experiente e fudião, Rose tinha o cu alto. Pedi a Rose uma Coca-cola. Pra rimar com a omelete. A omelete de carne me fazia lembrar de Lúcia, uma empregada que trabalhou lá em casa. Saudade de Lúcia e de suas omeletes. O restaurante enchia cada vez mais. Mas ninguém sentava ao meu lado. Claro. Havia outras mesas com pessoas agradáveis e havia a minha, com um gordo, de barba mal feita e esse cabelo fudido. É que o cara que está ficando careca é pior que o careca. Porque em cima fica aquele bagaço de cabelo, parecendo um louco. Eu também não almoçaria ao lado de um gordo. Foda-se. Era só eu e minha omelete de carne. Por fim, passei no caixa, assinei o caderninho, pendurei a conta e sinalizei pra seu Manuel. Antes, peguei um palito, é claro.

Mas quando cheguei ao elevador, tive de esconder o palito. Havia uma princesa esperando o elevador. Uma princesa morena. Magrinha e tal. Não fazia o meu tipo. Mas era uma princesa de peitinhos durinhos. Íamos subir só eu e ela. Entramos no elevador. Não costumo cantar mulheres assim, do nada. Nunca tive essa capacidade. Mas não custava tentar. A velha agência ficava no quarto andar. Tinha ainda quatro andares de garagem. Eu tinha oito andares para falar algo bacana para a princesa morena. “Você trabalha aqui?” – perguntei. Ela não respondeu. Ficou lá, olhando pra frente. Desgraçada. Quem ela pensava que era? Putinha magricela ordinária, nem bunda tinha. Então chegou o quarto andar, deixei o elevador, virei e disse “Putinha de merda!”. Foi quando a princesa morena, tirou uns fones do ouvido e perguntou “Desculpa, voce falou comigo?”. Mas aí o elevador fechou. Paciência. Peguei de novo o palito e joguei na boca. Era hora do meu cochilo de 20 minutos. Como sempre, dormi com a cabeça sobre a mesa e o palito na boca. Mas aviso, não tente fazer o mesmo.