18.2.09

Nosso Carnaval

Eu até tentei. Uma vez peguei o dinheiro do estágio e paguei um bloco de carnaval. Por quê? Não sei. Talvez estivesse alegre naquele tempo. O suficiente para aguentar aquela coisa que eles chamam de avenida. Gente demais. Barulho demais. Axé demais. Ladrão demais. Sem falar no filho da puta que gritava lá de cima, “Vamos dar a volta no trio”. E quando isso acontecia, não importava se você não estava a fim de dar a volta na porra do trio. A alegria da Bahia carregava você. E foi numa dessas que tropecei numa gorda e caí feio. Lembro dos pés saltando sobre minha cabeça, e eu pensava, porra, bem que minha mãe avisou, “Cuidado pra não ser pisoteado”. Mas não deu tempo de sentir dor. A massa veio e me forçou a dar a volta no caralho do trio. Enfim, meus planos naquele carnaval era encontrar uma gringa. Daqueles ricas. Que me levasse pro seu quarto de hotel chique. Foderíamos durante todo o carnaval, e depois ela me levaria para a Europa. Mas foi diferente. O mito que todo mundo se dá bem no carnaval da Bahia consumia minha cabeça. Foi quando um amigo disse, “Bono, o segredo é a loló. Bota a nêga pra cheirar essa porra e agarra!”. Ok. Era a minha chance. Peguei a porra do lança, taquei na cara da putinha, e quando fui beijá-la, ela gritou, “Oxe, gordo, sai!”. Claro que não esperei para ver o encontro de trios. E no caminho de volta, com a perna toda assada, ainda levei um soco de uma mulher-macho de um metro e meio bem no meu rim defeituoso. O mais interessante é que no dia seguinte, minha vizinha, uma velha que não tem o que fazer, disse que me viu na Band. “Ô, Paulo, você tava mancando?”.

Foi o que eu disse. Tentei. Mas sabe como é. Não faço parte do que eles chamam de gente bonita, alegre e cheia de suingue. Talvez eu nem seja tão baiano assim. A verdade é que tô de saco cheio de Ivete Sangalo. E nunca mais dei a volta no trio.

Por outro lado, lembro que o ano passado foi assim. Eu estava em casa. Olhava pela janela os caras passarem vestidos de mulher e lotando o ônibus da Barra. Quando Nina chegou. Trouxe pão, vinho, biscoito, salame, e mais uns cinco filmes. Nina era foda. Depois ela disse, “Voltei a tomar o anticoncepcional. Pra gente fazer o nosso carnaval”. E eu disse, “Porra, parece verso de marchinha. Pega o vinho e vem pro sofá”.

6.2.09

Noveleiros

- Não se faz mais novelas como antigamente – ela disse.
- De jeito nenhum – eu disse.
- Guerra dos Sexos...
- Que Rei Sou Eu...
- Top Model…
- Porra, Gaspar e Saldanha...
- Eu adorava.
- Roque Santeiro...
- Boa!
- O cara rouba a parada e é dado como santo.
- Eu tinha o álbum de figurinhas.
- Eu tinha tesão na viúva Porcina.
- Hoje é tudo uma merda.
- Hoje a Regina Duarte é uma merda.
- E aquela filha dela?
- Quer outra?
- Quero sim.
- Chefe, mais duas, por favor.
- Eu digo isso, mas confesso que só saio de casa depois da novela.
- Sabe o que é uma merda?
- Ham?
- Esse negócio de “confessar” que assiste novela.
- Parece pecado, né.
- Besteira.
- Eu tenho um tio, ele mora lá em casa, não perde uma novela. Mas vá dizer que ele gosta de novela.
- Certa vez, fiz um curso. E tinha um idiota que andava pra cima e pra baixo segurando umas porras de uns filmes cults, Glauber Rocha, sei lá, pra dizer que era inteligente. Aí tava discutindo na sala sobre novela, e eu disse que gostava de algumas e tal, e que não era fácil escrever uma novela. Esse cara riu e fez uma piadinha. Mandei tomar no cu. E ficou aquele clima chato na sala.
- Um brinde às novelas.
- Às boas novelas.
- Mas, e aí? Você não quer ir pra outro lugar?
- Quanto é mesmo?
- 200.
- Com o cuzinho?
- Aí é 250.
- Acho que não vou querer, pequena.
- Faço uma promoção.
- Como é seu nome mesmo?
- Meg.
- Por causa da Meg Ryan?
- Por causa da Magali. Eu comia muito, e minhas amigas me chamavam de Mag. Aí, Mag, Mag, coloquei Meg. Mas sexy.
- Claro, claro. Mas sabe o que é Meg? É que você só fuderia comigo pelo dinheiro. Eu sei que você é uma profissional e...
- É do tipo romântico?
- Do tipo fudido. É que eu não gosto tanto de mim assim pra comer uma mulher sem se importar se ela tá gostando ou não. Tipo, receba, sua puta, engula essa porra e vá embora. Uma vez comi uma puta. Em Feira de Santana. Tava lá, metendo, metendo, metendo, me achando o maior garanhão, quando vi, a puta tava lendo uma revista da Avon! Passei a semana mal por causa disso. Você é uma gata. Até mais bonita que a Meg Rayan. Mas esse lance...
- Entendi.
- Eu adoraria comer seu cuzinho, mas é que...
- Sério, entendi. Pra falar a verdade, eu só iria com você por causa do dinheiro mesmo. Nada pessoal. Mas é que não gosto de fazer com gordos. Desculpa, mas é que...
- Não, não, tudo bem, eu tô acostumado.
- Mas é aquela suadeira, o pau pequeno, é uma mão de obra.
- Sabe de uma? Você devia cobrar mais caro pra gordos.
- E tem a barriga...
- 250, Standard. 300 com o toba.
- Pois é.
- Meg, acho que já vou.
- Então já vou pra casa. Não vou mais trabalhar hoje.
- Chefe, você me vê a conta, por favor!
- Sabe o que é outra merda?
- Ham?
- Novela de Glória Peres.
- Puta que pariu!
- Uns teminhas polêmicos, chororô de mulher, Jade, Sol. Agora é na Índia.
- Uma merda, uma merda! E odeio a Juliana Paes. Feia pra caralho.