29.1.09

Reis

Orgulhosamente postado no Caralhaquatro em 02/10/2007.

Foi por acaso que passei pela Lapinha 10 anos depois justamente na noite de reis. Tinha acabado de sair de uma reunião ali perto. Então as luzes e a multidão que vinham do largo me lembraram que aquela era a Festa de Reis da Lapinha. Mais uma dessas festas de rua de Salvador de origem religiosa e destino pagodeiro. Resolvi observar de perto. Eram as mesmas luzes. Os adereços. O colorido sujo. As famílias pobres desta boa terra de merda, felizes com tantas luzes e apenas um saco de pipoca doce na mão. A festa estava ali. Parecia a mesma. Mas existiam as diferenças.

Meu estranhamento começou com o próprio largo. Arrancaram o bom e velho palanque de pedra do centro e puseram em seu lugar uma porra de uma pracinha igual a tantas outras que se vê por aí. Percebi também o número reduzido de barracas. Naquele tempo era uma barraca de cachaça emendada na outra. Com suas mesas e banquinhos de madeira coloridos. Serviam basicamente petiscos baratos em pratos de plástico e cerveja em copos lavados com água de bunda. Agora era uma barraquinha aqui, outra ali. Provavelmente tudo limpinho. Senti falta também do aglomerado de barracas de capeta. Meu primeiro porre de capeta foi numa festa de reis. Foi o capeta que me fez ser atropelado por um desses carrinhos de café coloridos. O carrinho tinha até uma buzina de kombi de verdade.

Perambulando pela porra da pracinha sem graça avistei uma mulata conhecida. Não lembrava o nome. Mas sabia que era a filha do meio de Seu Clemente, o verdureiro. Carregava um garoto nos braços que tentava puxar-lhe a blusa para dar uma mamada. Vai fundo, garoto. Provei desses peitos em outros tempos, atrás do murinho do sanatório. Tirando a mulata, não reconhecia mais ninguém. Foi quando uma mão bateu em minhas costas. Era Capenga. Sentamos numa barraca. Pedimos pititinga e caipirinhas.

- E essa careca, Paulinho?
- Não esquento mais. Me conta aí quais as novas.
- Tô com uma filhinha aí.
- De fuder.
- Daiana. A mãe que botou o nome.
- Tá com aquela mesma menina?
- A mesma, Daniela. Sempre fui preguiçoso pra procurar mulher.
- Mas ela é uma boa garota, Capenga.
- É verdade. Sabe quem é pai também?
- Quem?
- Rubalo. Tá com um menino. Bonitinho o sacaninha.
- É, tô sabendo.
- Davi também.
- Davi também é pai?
- É.
- Porra. Talvez então eu tenha chance também.
- Você sabe que Lorinho já tem dois, né?
- Tinha só aquela guria com a cara do Taffarel. Teve outro?
- Teve um menino agora.
- Vaca também tá com um neguinho aí.
- A camisinha não chegou aqui na Lapinha não, caralho?
- Os caras tão dizendo que só falta João ter o dele. Mas dizem que o ovo dele é goro.

Capenga e eu conversamos sobre outras amenidades. Até ouvirmos o rebuliço da multidão. Alguma coisa acontecia na frente da igreja. Pagamos a conta e fomos ver. Era o Padre Pinto. Trajava roupas estranhas e dançava o que parecia um ritual de candomblé. Mais aviadado do que nunca. Tinha o rosto maquiado. Algumas pessoas o aplaudiam. Outras, principalmente as beatas, faziam o sinal da cruz. Talvez minha vó também reprovasse aquele ritual. Mas não me incomodava. Sempre respeitei aquele padre. Certa vez ele encarou uma velha que nos xingava por jogarmos bola perto de sua janela. "Nenhum desses meninos da Lapinha são moleques. Batizei todos eles, e são todos meninos de família!" – dizia Padre Pinto. Agora ele estava ali. Rodando e rodando e rodando. Balançando os braços pra lá e pra cá. “Padre Pinto tá possuído!” – alguém gritou. Talvez a igreja da Lapinha não fosse mais a mesma. Não sei. Não entendo de igrejas. Mas diante daquela porra de pracinha sem graça, tanto faz. Deixei o Padre Pinto em paz com sua dança. Por sinal, foi logo depois que começou a tocar o pagode pela praça, que me despedi de Capenga e também daquela festa que eu não reconhecia totalmente. Antes, parei para dar uma mijada. Então descobri que, atrás da igreja, o fedor horrendo de mijo nos dias da Festa de Reis continua o mesmo.

17.1.09

Lasquinê

Lasquinê. Está aí uma grande jogada do dominó. É quando você bate o jogo nas duas pontas. Por exemplo, numa ponta é Ás e na outra é Terno. É a sua vez, e sua última pedra é Terno de Ás. Fim de papo. Você venceu. E venceu bonito. O lasquinê pode ser meticolusamente planejado ou simplesmente cair de paraquedas em suas mãos. Não importa. Bater de lasquinê é vencer de um lado e do outro. É como ser o senhor do destino, aquele que aproxima e conecta todas as pedras, o que traz o equilíbrio à Força, o escolhido, aquele que, de modo inevitável, é obrigado a abandonar a armadura da humildade e gritar para todo mundo ouvir, “Eu boto pra fuder!”.

Não jogo dominó tão bem assim. Mas era nisso que eu pensava. Porque pela primeira vez na vida eu havia chegado à final de um torneio de dominó. Estava ansioso. Faltava pouco mais de meia hora. Por isso não podia aceitar ao convite de Tânia.

- Fica – ela disse – tem sorvete. E você sabe o que eu gosto de fazer com sorvete.

Tânia era uma gordinha safada. Só pensava em comer e fazer sexo. Era uma boa pedida. Eu poderia passar a tarde toda ali. Mas foi o que eu disse, tinha o dominó do pátio.

- É a final – eu disse – amanhã passo aqui. Prometo tomar esse sorvete todo com você.

Eu já amarrava os cadarços do velho Stradero quando Tânia deu o último golpe.

- Fica só mais um poquinho.

Tânia não era tão bonita assim. Mas sabia ser sexy. A danada estava debruçada sobre a janela. Vestia apena um toco de camiseta, deixando aquela bunda de fora. E rebolava lentamente enquanto apreciava a paisagem. O cacete subiu na hora. Mas a princípio eu só apreciava a bunda, o cu, a buzanfa, a poupança, o parreco, o forevis, o furico, o grande rabo de Tânia. E logo eu estava com a cara enfiada naquelas carnes.

- Me come só mais um poquinho – disse Tânia.
- Eu vou meter, sua puta – eu disse – mas preste atenção. Se você ver passar um IAPI aí, me avisa, que eu corro e pego do outro lado.
- Certo.
- Mas me avisa.
- Mete logo.

Então meti. Fizemos ali na janela. Uma boa sensação. Porque não havia nenhuma janela à nossa frente e ainda tinha cortina a nosso favor. Ninguém podia nos ver. Assim, Tânia contemplava o horizonte e ficava de olho no meu ônibus, enquanto eu, por trás dos bastidores, tomava conta do seu rabo. E não podia ser melhor. Porque assim que terminamos, Tânia gritou, “IAPI!”. Deu tempo de tudo. De dar um tapa de despedida naquele rabo gigante, de levantar a bermuda, correr as escadas, deixar o prédio e atravessar a rua. Olhei, e Tânia ainda estava na janela. Soltou um beijo. Safada. Só então o ônibus chegou.

E deu tempo de tudo mesmo. Quando cheguei, Rabuge ainda cortava a carne, e Minhas Cores tinha acabado de preparar a batida de gengibre. Assim que me viu, Caju falou “Porra, gordo, pensei que a gente ia perder de W.O.” Caju era meu parceiro. Éramos conhecidos na roda como Ruim e Péssimo. Era verdade. Não éramos dos melhores. Jogávamos fazendo piadas e rindo de tudo. E de algum jeito estávamos na final. Nossos adversários eram Minhas Cores e Farias. Dois coroas que passavam o tempo todo discutindo. Bebidas a postos, pedras na mesa, peru de fora, e começava a grande final do VIII Torneio de Dominó do Pátio. Alguém de fora disse, “E esse gordo joga dominó?”. Eu cocei meu ovo e respondi, “Eu boto pra fuder!”.

No dominó tem uma situação chamada “Chico Romero”. É quando você só leva passes o jogo todo e não consegue jogar uma peça sequer. E vou dizer uma coisa. Talvez os dias sejam assim. Difíceis. Pelo menos a maioria dos dias. Parece que nunca chega a sua vez, e você vive num eterno “Chico Romero”. Mas às vezes. Às vezes acontece. Um Ás puxa uma Quadra, que puxa um Duque, que puxa uma Sena, que puxa um Ás, e você bate o jogo. Nas duas pontas. Tudo claro, fácil e exato. Como dar uma cagada no intervalo de um filme e não perder nenhuma parte. Ou como uma gozada no tempo certo, sendo que você acabou de receber uma proposta de emprego quando não tinha mais nenhum centavo na carteira. Pedra puxando pedra. Numa lógica muito louca e maravilhosa. Às vezes acontece. E aquele dia foi assim. Um perfeito lasquinê. E olha que nem vencemos a partida.

8.1.09

Delicatessen

A delicatessen ficava bem em frente ao ponto de ônibus. E depois das cinco eles costumavam fazer promoção de croissants. Pague 2 e leve 3. Se você encontrasse algum de salaminho poderia valer a pena.

O lugar era grande. Tinha de tudo. Não sei onde eles arranjavam tantos tipos de pães. Havia também os vinhos. Tão caros que, com certeza, eu nunca haveria de prová-los. Até porque minha ignorância afirma que não valeria a pena. E como toda delicatessen, havia ainda as dondocas. Coroas loiras, pintadas e bem nutridas escolhendo suas geléias importadas enquanto seus motoristas empurravam o carrinho. Tudo os olhos da cara. Aliás, basta qualquer padaria de esquina colocar no letreiro “Delicatessen” que se acha no direito de cobrar um absurdo por uma rosquinha ou qualquer coisa. Tem o nome Delicatessen, e uma porra de uma lata de Nescau, igualzinha a qualquer uma dos supermercados, custa o dobro do preço. Eu me perguntava, que tipo de idiota faz mercado num lugar daqueles? Foi quando encontrei Fabiano Bicudo, um velho amigo dos tempos do segundo grau.

- E aí, Paulo – disse Bicudo.
- Bicudo! Há quanto tempo – eu disse – tem o quê, 10 anos?
- 14 anos.
- 14 anos! Isso mesmo.
- Essa aqui é Fabíola, minha noiva.

Bicudo estava bem. Quem diria. Tinha esse apelido por se parecer com o lobisomem daquele desenho. Sempre foi o mais sacaneado. Tinha sempre uma caricatura dele no quadro negro, o pessoal escondia sua mochila, essas coisas. Lembro até que uma vez jogaram uma cadeira dentro do sanitário enquanto ele dava uma cagada. E agora Bicudo estava bem. Disse que gerenciava uma empresa de informática, e estava com essa Fabíola, que era realmente muito bonita e elegante.

- Que bom que você tá bem, Bicudo!
- Como eu disse, já faz 14 anos, Paulo. Chega de Bicudo. Meu nome é Fabiano.
- Claro, claro.
- Ou você achava que eu seria um otário pra sempre?
- Claro que não, Bicudo, desculpa, Fabiano, é que...
- É que você é como todos os outros que sempre me sacanearam.
- Também não é assim...
- É sim, e quer saber? Você era um dos piores.
- Eu?!
- É, você, sim! Porque você também era sacaneado, gordo e tal, e por isso gostava quando esqueciam de você e vinham pra cima de mim. É isso mesmo. Naquela dia que eu soltei um peido na Educação Física, você foi o primeiro a berrar, “Porra, Bicudo!” pra todo mundo ouvir e me sacanear. E pen.pensa que eu não.não sabia que era vo.vo.você que escrevia aquelas le.legendas quando o Guapo me de.desenhava de travesti no quadro?

Eu já tinha esquecido. Realmente Bicudo gaguejava quando ficava nervoso.

- Vo.vo.você podia ficar na.na sua, Paulo. Mas era um.um. bom filho da puta com.como todos eles. Foi você. Você que.que me.me deixou mo.morrer na primeira ro.rodada da.quela partida de R.P.G! Vo.cê me aceitou jo.jogar no.no.no My Eggs só.só pra você não ser o pior do.do time. E o pior de tu.tudo. To.todo mundo me saca.neava, mas vo.vo.você foi o único que.que me deu um so.soco na cara! UM. SO.SOCO NA CARA! Pensa que eu esqueci? Vo.você era go.gordo, porra! O que é que tinha de me sa.sacanear? Agora sou.sou gerente, cara. Sou.sou, eu tô.tô bem. Tô terminando meu MBA, e vou ter minha pro.própria empresa. E vo.você é o quê? Re.redator? Ainda escreve aquelas bo.bagens? Quanto vo.cê tira no mês? Aqui minha mulher. E vá ver meu.meu carro lá.lá fora. Bicudo morreu!

Acho que foi importante Bicudo desabafar. Eu também tinha vontade de dizer algumas coisas pra uns babacas daquele tempo. O problema é que eu não tenho MBA, nem muita coisa para me gabar. Quanto a meu amigo, bem, olhei seu carrinho de compras, e tinha uma caixa de leite, um pacote de cream-cracker, manteiga, essas coisas. Com certeza, tudo pelo dobro do preço. Então eu disse:

- O que é que eu posso dizer? Foda-se, Bicudo!

Foi aí que a gostosa da Fabíola puxou Bicudo pelo braço, e dois foram pro caixa. Quanto a mim, fui procurar meus croissants. Mas aquele papo com Bicudo me atrasou. Acabou o croissant de salaminho. Sobraram apenas os de ricota e os doces. E como não sou nenhum filho da puta nem menino amarelo pra comer aquele tipo de coisa, deixei o lugar de mãos vazias. Talvez no ponto tivesse um pastelzinho com suco por apenas um real.