1.11.09

Mais do Mesmo

O de sempre. Me arranjaram mais uma entrevista de emprego. Saí uma hora antes. Estava sentado no ponto quando a putinha veio e sentou ao meu lado.

- Oi – ela disse.

Pronto, pensei, vou ser assaltado. Mulheres bonitas não falam comigo assim, do nada.

- Oi – respondi.
- Não tá lembrado de mim? – ela disse

Porra, pensei, nunca me lembro de ninguém.

- Da Academia do Corpo – ela disse – malhamos juntos um tempo. Depois você sumiu.
- Ah, claro, da academia. Me lembro de você.
- Era engraçado, você reclamava de tudo, os aparelhos, até da música, lembra?

Claro, pensei, agora lembro bem de você, gostosa, lembro que bati umas duas em sua homenagem.

- É – eu disse – esse negócio de academia me irrita um pouco.
- Ah, lá vem meu ônibus – ela disse – tchau.
- Tchau.

Quando vi a putinha de costas, subindo no ônibus, lembrei que não bati apenas duas, mas sim umas sete bronhas em sua homenagem.

Logo depois passou o velho Pituba. Não estava cheio. Mas não havia muitas opções. Sentei ao lado de uma mulher sem graça. Mais uma entrevista de emprego. Não custava nada tentar. A não ser o dinheiro do busu. 2,20 para ir. 2,20 para voltar. Se ao menos o cobrador fosse o Vitorinha. Um velho amigo cobrador de ônibus. Ele tinha um esquema com um cartão de estudante. Passava o cartão na máquina e dizia, pode passar, Flamenguinho. Eu só precisava pagar um pouco mais da metade da passagem. Se fosse hoje, por exemplo, eu daria 1,50 e ficaria tudo certo. O esquema era só para os camaradas. O motorista também estava no jogo. Nunca fui muito adepto desses esquemas. Mas é aquela coisa, donos de empresas de ônibus têm mais que se fuder. A mulher ao meu lado, a sem graça, se levantou e tentou abrir a janela. Não conseguiu. Fingi que não vi. Vai que tento abrir a porra da janela e não consigo. Ficaria todo mundo do busu pensando, olha só, que gordo lerdo. Mais adiante entrou um carinha vendendo paçocas e jujubas. Esses caras, os baleiros, quando não há crianças por perto, sempre vêm pro meu lado. Fingi que não o vi. Logo depois chegou meu ponto.

Era um prédio moderno. Bacana. Duas torres e tal. Havia um mal encarado no balcão da recepção. Terno e gravata. “Agência de Comunicação é décimo primeiro, não é campeão?” – perguntei. Ele confirmou com a cabeça. Havia dois carinhas no hall do elevador. Um era office-boy, branco e baixinho. O outro era alto, negro, gordinho e tinha cara de abestalhado. Entramos os três no elevador.

- Você conhece o negão da recepção? – me perguntou o gordinho.
- Não.
- Ele te deixou passar na boa. Pra mim ele pediu meu RG.

O boyzinho com cara de jóquei olhou para trás, sorriu e deixou o elevador no terceiro andar.

- Anotou meu RG e gravou meu rosto numa câmera – disse o gordinho.

Quase mando o gordinho deixar de viadagem e acordar para a vida. Quase digo a ele que o mundo é uma lata lixo repleta de ratos. E que apesar de serem todos ratos, alguns são mais nojentos que os outros, é o caso dos negros, dos gordos, dos viados e dos caolhos. E era isso que as pessoas achavam dele, o viam como um grande e nojento tolete preto de bosta. Quase digo que esse papo de Obama é uma puta balela. Não há nada de novo. A sacanagem continua. Os olhares atravessados continuam. As piadas continuam quando ele sai da sala. Quase que digo que tem pessoas que não fodem com negros por nojo ou princípio. Quase digo que ele era um bandido em potencial não apenas para o porteiro, mas para a copeira, o encanador, a faxineira, o advogado, a publicitária, o engenheiro, o dono do prédio, o dono da rua, o prefeito, o governador e o turista. Se vacilar, até a mãe dele o condenava por ter cabelo ruim. Eu queria dizer para o gordinho que ele não ligasse, mandasse o mundo todo se fuder. Mas como é que não liga, se essa porra dói feito pedra no rim? Quer dizer, nem tanto, mas dói pra caralho.

- É a segunda vez que venho aqui – menti pro gordinho.
- Segunda vez?
- Ontem ele me pediu a carteira e filmou minha cara.
- Ah...
- Entrevista de emprego...
- Ah, tá...
- Essas dinâmica de grupo, a semana toda, sei que não vou passar...
- Pô, boa sorte...

Deixei o elevador no décimo primeiro. Sala 1103. Apertei a campainha. A porta se abriu. Eu disse, boa tarde, a putinha da recepção respondeu. Outra entrevista, pensei, essas coisas cansam.

28 comentários:

Marcos Satoru Kawanami disse...

pedir RG e filmar o rosto é procedimento geral, mas uma coisa você acertou com clarividência: até a mãe do creoulo queria que ele fosse branco.

eu daria o cu pra ter aparência européia.

essa lata de japa não é simpática.

Marcelo Mayer disse...

hahahaha
putinhas de nossa vida. estamos cheio dessas

Silvia Caroline disse...

hha é sempre sarcastico ein?

infelizmente ainda é verdade o preconceito.

Rodrigo Carreiro disse...

O cotidiano e suas trivialidades são demais! E dinâmica de grupo de cú é rola ehhehe

Ric Dexter disse...

Você acabou fazendo algo bem filantrópico pro gordinho.

Abraço.

JuANiTo disse...

Deu um grau na auto-estima do cara.
Um mundo é mesmo um grande esgoto fedorento, né não!?
Abraço

Careca disse...

Bono, o gordinho pegou a vaga?

Anônimo disse...

Te amo gordo!

Beijo da sua putinha...

Fabrício Romano disse...

Tamo na mesma, bicho. Entrevista de trampo esfola qualquer um.

Nick. disse...

No dia seguinte o gordinho entrou direto sem passar pela recepção, afinal ele ja tinha sido filmado e dado o RG no dia anterior.

O recepcionista "mal encarado" apertou o botão vermelho embaixo do balcão e instantaneamente apareceram dois seguranças "mal encarnados" e alimentaram o gordinho com uma bela dose de "bolo com fanta"...

Giovanna disse...

Mas e o emprego, conseguiu?

::Soda Cáustica:: disse...

vc é foda, Bono. Foda, foda, foda.
adorei o texto.

Ticiano disse...

tou ligado em vc, seu paulobono...
e digo mais sobre as putinhas das recepções, no ritmo de seu time: uma vez putinha, sempre putinha!

Drunken Alina disse...

Acho que essa foi a melhor descrição sobre preconceito que já vi!

Lari disse...

Salvador Trade Center? Torres Gêmeas? Sul ou Norte?

guives disse...

Essa de abri a janela é foda, acontece sempre comigo.

Alguma putinha tenta abrir e não consegue, dai me pede.

Puta que pariu, fico com um medo da porra de não conseguir também.

E se a putinha for gostosinha a tensão é pior ainda, mas se for uma derrubada, nem ligo

"haaaaa ta dura pra porra, tô conseguindo não. TSC"

Essas coisas são foda.

Mwho disse...

Ainda bem que não sou só eu que reclamo de tudo na academia...
A viva a PLCB (psicoterapia da lista de comentários do Bono)!!!

Lusca disse...

Que é isso, não existe racismo não Bono, olha só as novelas e o Gilberto Freire... =P

Elga Arantes disse...

Tomara que vc esteja certo e a vida continue ruim pra vc. Pelo menos até domingo; pelo menos até o Galo ganhar desse seu time feio, lá dentro do Mineirão. kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

Galoooooooooo!!!!!!!!!

Marcos Satoru Kawanami disse...

Sinceridade:

Quê rapaz não quer ter a cara do Brad Pit?

Quê rapariga não quer ter a cara da Sandra Bullock?


Dá a chance pro cidadão ou pra cidadoa, e vamo vê onde eles enfiam o orgulho da raça.

Esta minha cara de mongol só me valeu pau no cu, desde quando eu era criança pequena lá em Barbacena. Vou ter "orgulho" de quê?

Quanto mais se fala em racismo, mais se estimula o racismo.

O negócio é a gente ir se misturando calado, humildemente, numa boa.


pax et bonum
Marcos

Mateus Henrique Zanelatti disse...

PORRA! Você devia ter tentado abrir a janela, devia mesmo cacete! Se foda a opinião dos outros.
A entrevista fica para outro post? Você vai ver se passou primeiro?

Falou!

Paulo Bono disse...

Kawanami,
Tirando a parte de dar o cu, concordo em tudo com você, caro poeta.

Careca,
O gordinho tava mais desanimado do que eu.

Nick,
Boa história.

Giovana,
Consegui não. Mas já faz tempo.

Lari,
Se fosse no Trade, seria pior. E ninguem no Trade me oferece emprego.

Guives,
Você não abre a janela, mas fica roçando nas menininhas, seu descarado.

Mwho,
A PLCB é melhor que o Espalitando.

Elga,
A parada vai ser dura. Mas quero estuprar o galo!

Zanelatti,
Porra de janela, porra de emprego.

abraço a todos.

Mel disse...

Sou só eu que acho fofo quando tu usa o termo "putinha"?

Beijos!!!

Marcos Satoru Kawanami disse...

Bono, bono, pau-lo Bono:

dar o cu é impensável, a não ser como figura de retórica.

se bem que, pra agüentar o que a perobagem agüenta..., ó: tem que ser muito macho!


=D
Marcos

Anônimo disse...

Elga, você é uma tesuda.

J.

Sunflower disse...

Esse lance de ajudar o proximo, bom samaritano, e tal. uma vez minha prima, contra o melhor julgamento dela, me deixou tomando conta do filho de 1 ano, ele fez coco na calca. ouvi meu coracao e mandei ele aguentar as pontas que a mae dele voltava ja.

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ela demorou 40 minutos.

essa foi a minha maneira de ilustrar o qto eu me importaria com a janela.

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Qto as dinamicas de grupo, nao sou uma pessoa de grupos. Trabalho melhor exercendo os direitos plenos da minha sociopatia.

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Larissa Bohnenberger disse...

"...apesar de serem todos ratos, alguns são mais nojentos que os outros, é o caso dos negros, dos gordos, dos viados e dos caolhos."

Ahahahahahahahahahahahahahahahahahah
ahahahahahahahahahahahahahahah!

Muito bom!

Boa sorte com a entrevista!

Bjs!

Anônimo disse...

Passei aqui só para dar um aviso: Dia 04/12/2009, às 19:00h, na Mídia Louca, Rua Fonte do Boi, Rio Vermelho será o lançamento do livro Viagem ao Crepúsculo do Samarone Lima.

Yvette Teixeira