6.9.09

1996

Como uma formiguinha que resiste à morte. Você dá uma chinelada, ela finge a própria morte, e quando você pensa que não, lá está ela, a formiguinha, andando outra vez. Você dá outra chinelada, e mais outra, ela sente o golpe, mas continua mexendo as perninhas. Então você dá mais outra chinelada, e mais outra, e mais outra, você espanca a formiga e pensa que venceu. Porque se você olhar de perto, bem de perto, ela está lá, mexendo nem que seja uma anteninha, arrastando seus últimos segundos de vida. Isso para mim é poesia. Sempre admirei os derrotados, os feridos que não se entregam e resistem ao capricho da morte. Aqueles que, por questão de honra, princípio, raça ou pirraça, não dão o braço a torcer e estão cagando para os vencedores. O vencedor pode ter a medalha, mas ele não tem a menor graça. Sou mais o pugilista que foi à lona, que já não enxerga porra nenhuma e cospe sangue na cara do campeão mundial. Sou mais o samurai que não se entrega nem fudendo, o bêbado que resiste ao tombo, contrariando a vontade de todos, o cachorro sem perna que ainda luta por um pedaço de bife, o desempregado que pendura a conta, o time rebaixado que tenta um gol de honra nos acréscimos. Eu torço para a formiguinha. Só não tenho um décimo da força que ela tem.

Digo isso porque aquele ano não foi dos mais fáceis. Era abril quando minha madrinha saiu do jogo. Uma parada no cérebro, uma coisa assim. Uma mulher elegante, extremamente inteligente, que me incentivava nos estudos. Lembrando agora, percebo que sua morte foi uma coincidência. Porque eu não estava nada bem. Era o segundo ano na faculdade. Havia matérias como administração, economia, teoria de não-sei-o-quê. Aulas intermináveis, assuntos impróprios. E eu não tinha nenhuma vontade. Certa vez uma dessas professoras me pegou dormindo durante aula. Falou em desrespeito, irresponsabilidade, imaturidade. Eu era imaturo, é verdade, por isso não a mandei tomar no cu.

O ano passava devagar, mas logo depois, recebi um telefonema. Meu grande amigo Deco, dos tempos de escola, havia sofrido um acidente. Um acidente fatal. O momento não podia ser pior. Porque 0s amigos começavam a se tornar raros. Era uma questão de sintonia, preferências. Era o tempo das academias, marombas, bombas, e camisetas apertadas. E eu, simplesmente, era gordo. Eu não conseguia entender. Havia uma roda de amigos, e de repente, um virava pro outro e dizia, se ligue, pulando no chão e fazendo flexões. Eu dizia, que merda é essa? Vocês estão malucos, porra? E ainda tinha um agravante, o pior de todos. O meu cabelo. Eu sabia que um dia ficaria careca, era minha última chance, então deixei o cabelo crescer. O problema é que meu cabelo era uma palha desgraçada, tinha que deixá-lo preso, se o soltasse, Phuff!, eu me transformava automaticamente no Capitão Caverna. E você sabe. Tudo que um adolescente quer por perto, por mais ridículo que ele seja, é encontrar outro adolescente mais ridículo do que ele. Então eu era o centro das piadas. Ganhei o apelido de Paulo Medonho. Era Paulo Medonho isso, Paulo Medonho aquilo, Paulo, corta essa juba, você tá medonho. Havia uma verdadeira campanha para eu cortar meu cabelo. Era incrivelmente feio, de verdade. Mas eu me recusava. E pagava por isso. É que os amigos da Lapinha estavam descobrindo novos amigos e já não faziam mais questão da minha presença. Certa vez ia ter uma viagem, uma viagem que fazíamos há séculos. Mas naquele ano, justamente naquele ano, o dono do carro me disse que não havia mais vaga para mim, me substituindo por um novo amigo, alguém com um cabelo humano e corpo sarado, que lhe fosse mais útil, é claro, o ajudando a se aproximar das putinhas. E aos 18 anos eu aprendia o quanto a amizade pode ser prática.

Mas a chinelada mais forte veio no mês seguinte. Minha avó saiu do jogo. A minha avó. A minha avó. A minha avó. A minha avó que me fazia pão assado na caçarola na hora da sessão aventura, que eu desconfiava ser umas das poucas pessoas que gostavam de mim gratuitamente, e que também me pedia para eu cortar o cabelo. Sabe a formiguinha? Foi a primeira vez que pensei em drogas. Mas eu não tinha coragem, nem dinheiro, nem competência. Aliás, não tinha perfil para nada. Foi nessa época que fui reprovado no psicoteste da Telebahia Celular.

Dias depois da minha avó, eu escuto no rádio sobre o Renato Russo. Era o que faltava. O mundo era outro. Já não tínhamos o Cazuza, nem o Curt Kobain. Era de se pensar no suicídio. Vivíamos no fantástico mundo da Boquinha da Garrafa, Dança da Tartaruga, Backstreet Boys, Britney Spears, Alexandre Pires, Ratinho, Malhação, banheira do Gugu, Cumpadi Washington e Carla Peres. E por falar em bunda, é evidente que não comi nenhuma naquele ano. O mais próximo que cheguei foi numa morena de Barra do Pote. Toquei violão, disse umas coisinhas engraçadas em seu ouvido, ela olhou pra mim, sorriu, mas olhou pro meu cabelo e preferiu outro cara. Nunca bati tanta punheta na vida como naquele ano.

96 levou não apenas algumas pessoas que eu gostava. Foi uma surra de cinto. Cada golpe levando um pedaço da minha carne, de meu sangue, de minhas células, de minha infância, de minhas proteínas. Acho que nem o bom Jack La Motta resistiria a tanto em um único round. Tem gente que diz que as feridas trazem maturidade. Eu digo que maturidade de cu é rola. Porque no dia 30 de dezembro, veio outro telefonema. Era do interior. Minha bisavó também havia saído do jogo. Confesso, já estava cansado. Pensei, ok, anos 90, vocês venceram. E antes do reveillon, fui até a barbearia perto da feirinha e disse, corta essa porra.

42 comentários:

Ana Paula disse...

Hi, Buk

Um ano descrito em poesia. Irretocável. Foi pro top ten.

Love,

Sra. Bono.

Insanos no Paraíso disse...

Anos 90 sacana esse seu. Gostei da parte da formiguinha, vou tentar ser uma mais vezes a partir de hoje.

Al Kantara disse...

Devia ter caprichado no violão...

Eli disse...

...E a formiguinha deixou de ser cabeluda...

Rodrigo Carreiro disse...

Bono, esse primeiro parágrafo foi foda. Soco e sopro ao mesmo tempo. Foda!

Marcos Satoru Kawanami disse...

...corta essa porra.

e nunca mais toquei punheta.


eu também sofri muito na década de 90, fui estudante em Ouro Preto.

freqüentemente vc lembra dos amigos de escola, eu também gostei da escola, mas só até a 7ªsérie. depois, mudei de cidade, e nunca mais tive fortes amizades.

é boa dessa sua narrativa à moda Ed Mort.

=D
marcos

::Soda Cáustica:: disse...

Bono, era pra ser tristes, mas até isso vc torna engraçado. Chorei de rir.

bjos e como andam os freelas?

Careca disse...

Aê, Bono. Mandou bem.

Fernanda disse...

ADORO seus posts.

Cineasta 81 disse...

Rabuge

Mwho disse...

Bono,
Melhor queimar as formigas...
Reduz a poesia e os movimentos!

Drunken Alina disse...

Meus anos 90 também foram totalmente filha da puta,mas não com perdas de pessoas amadas (que imagino ser a pior de todas as dores) mas foi quando eu e minha família chafurdamos na miséria material.
Tipo assim,com dias que a gente mal tinha o que comer.

Ainda bem que toda essa merda já passou!

E imagino a decepção de ver os amigos serem tragados pelo modismo...

Fábio disse...

Me lembrei de um cara da escola, que tinha um problema capilar parecido com o seu, ele era alto, compridão chamavamos o cara de Chewbacca. Era só ele entrar na sala que alguem começa a uivar igual ao peludo do filme. Muito divertido, menos para ele claro. Nunca entendi porque ele não cortava aquela merda de cabelo. Vai ver era essa teimosia da formiga.

Abraços.

lilaemarcelo disse...

Em 96 eu já estava em um momento gatinha da vida, mas passei pela fase gordinha, cdf, de cabelo de bozo. E aí vc só tem a chance de se enturmar sendo o mais engraçado da galera! Belíssimno posto, pena que você só escreve 01 vez por mês!Abraços.

Ric Dexter disse...

96 foi um ano de mudanças radicais pra mim também, mas sem mortes.
Com relação ao cabelo medonho, pelo menos você teve personalidade pra manter. Eu não teria.

Abraço.

Paulo Bono disse...

Soda,
Os freelas aparecem. o dinheiro não.

Druken,
Sua situação foi pior. ainda bem que passou.

Lila,
É sacanagem sua! São dois por mês. e já é um sacrifício.

abraço a todos

Sunflower disse...

Os anos 90 foram uma merda, um vácuo, mas o vazio de uma decada passa, o espaço que as pessoas amadas deixam, não.

Os anos mais noventistas da minha vida foram 2002 e 2006.

Gosto nem de pensar quando a minha vozinha se for, quem é que vai dizer pra mim "corta os tornozelos e cola na barra do vestido" quando ele for muito curto?

Isa Lorena disse...

É meu caro.. vai escrever bem assim na casa do caralho viu.
Como é que tu tá desempregado meu chapa?

oxente...

Jeh! disse...

Vc realmente escreve mooito bem. Adoro!
Ah, só pra constar: Hoje meu cabelo é lindo, mas na escola me chamavam de "cabelinho de R$ 1,99". ÉPÁCABÁ!

De Tudo de Helena disse...

..96 realmente não é um numero legal. É tipo dormir 'de valete', virando dá um 'meianove' (69), fica bem melhor. Sendo numero de ano, o meu tambem foi pessimo. Sorte da formiguinha que morreu. Ainda bem que descobri seus textos, voce escreve 'paracaráleo', minino!

Helena, de Feira.

Lara disse...

Bono,
A medida que eu ia lendo seu post uma musica invadia meu pensamento:

“Quando tudo está perdido
Sempre existe um caminho
Quando tudo está perdido
Sempre existe uma luz...
(...)
Queria ser como os outros
E rir das desgraças da vida
Ou fingir estar sempre bem
Ver a leveza
Das coisas com humor...”

Formiguinha... isso que devemos ser.
Bjos na alma.

Paulo Bono disse...

Isa,
Consegui um lugar, por enquanto.
Valeu a força.

Jeh
Hoje eu queria ter cabelo, qualquer cabelo.

Lara,
Eu também ouvia essa música.

abraço a todos.

naire valadares disse...

Criatura,
Você me emociona.
Beijo

Lusca disse...

Muito massa, como sempre.

Sou teu fã Bono.

Fabiana Farias disse...

Também lembro de 96... Fase complicada de adolescência, dentes tortos, timidez entranhando gostoso na personalidade e perder o Renato foi demais. Depois qd entrei na faculdade soube que nesse ano também morreu um dos meus escritores favoritos o Caio F.
Mas perder quem se ama e tem nosso sangue...
Amizade é um troço complicado, vc tá sempre pronto pra levar uma rasteira qd vc só precisa de um pouco de companhia sincera.
Poxa, Bono. Este teu texto é bom demais... A solução para todos os nossos problemas era uma editora te contratar, vc teria grana e nós tua escrita... Dava 50 fácil num livro seu , mesmo que tivesse que ficar sem o lanche de todos os dias kkkkkkkkkkk

J. disse...

poesia? É o fresco...

J.

Breno disse...

Bonera,
o melhor de seu blog é que é garantia de boa leitura. Você consegue atingir o leitor de uma forma inexplicável (lá ele!!).
Sensacional texto, como sempre, caro amigo!!
Forte abraço!!

Bruno disse...

Velho, eu cortei o cabelo em condições parecidas. 2006 (será que é zica com 6?)foi o ano foda pra mim: minha mãe passou meses no hospital, meu pai ficou desempregado, faltou comida em casa, minha noiva me largou, assaltante tentou me matar... Deixa pra lá.

Melhor fala do Stallone (talvez a única inteligente) no cinema: "Não se trata de quem bate mais forte, mas o quão forte é a porrada que você suporta... quanto você aguenta e continua indo em frente."

Issaê, Paulão!
Abraço

Paulo Bono disse...

Bruno,
Eu achava que o problema era os anos pares. Mas ja desisti dessa idéia. E seu ano foi osso. Mas você suportou a porrada. Vamos em frente.

"Sem dor, Rocky!"

Felipe Guasti disse...

Paulo Bono,

Obrigado pela visita. Gostei muito do seu blog. Da sua estilística. Eu estou passando por um momento de reestruturação. Então, só estou deixando sempre as duas últimas obras no blog. Deixo 4 dias e troco por uma mais nova.

Obs.: Essa sua formiga aí estão parecendo os meus mosquitos daqui. Você golpeia, pensa que foi certeiro, mas quando abre a mão ele não está lá.

Tenho duas teses.
*ou eu estou batendo tão forte que eles desintegram não restando nada.

* ou os filhos da puta aprenderam a mágica do desaparecimento ou tele transporte.

Enfim, boas obras.
Acompanharei mais de perto suas obras.

Um abraço
Felipe Guasti

Genérica Paraguaia disse...

"Maturidade de cu é rola" - CONCORDO!!
Mas, acredito que seu cabelo dava azar! hahahaha
Amei o texto!

Pedro disse...

Porra Bono, você não vai acreditar, meu velho... em 96 eu também tinha cabelão. Meu apelido era Maria Bethânia, pegavam em meu pé dia e noite, noite e dia. Agora a maior coincidência: também me vi livre da mutuca no último dia do ano. Ano novo, vida não tão nova assim.
Parabéns mais uma vez, tô sempre por aqui.

Abraço.

jorginho da hora disse...

Hê, hê, Paulão, sempre soltando o verbo. Eu sempre gostei mais de torcer pro redenção do que pro bahia e vitória. Cara, já esperimentou assistir menina de ouro. Não tem como não se envolver e torcer por ela como se estivesse torcendo por nós mesmos. Muito legal essas coisas que vc escreveu.

Paulo Bono disse...

Jorginho,

Bom filme, mano.

abraço.

Pimenta disse...

É...Os 90 foram fudidos mesmo...
Mas eu tive sorte, não peguei aids...

Larissa Bohnenberger disse...

E a formiguinha sobreviveu!
SEnsacional!!!
Bjs!

fabio souza disse...

zorra bicho

Esse eu não resistir e estou comentando o texto pq realmente foi de fuder. Não sabia que este ano poderia trazer tantas más lembranças.

Valeu voce realmente demonstrou que é a Formiga Z.

abração primo

Rafael Sant'Ana disse...

Recebi uma mensagem agora dizendo: "olhe esse texto, o cara é bom". É, concordo. Fiquei surpreso. Parabéns, Paulo. Devo passar mais vezes por aqui, se não se importa. Valeu!

Alice disse...

cara, ri super da maneira como se escreve pqp.
Ah, mas década de 90 é um estorvo até hoje. A chegada dela com boquinha da garrafa foi demais para uma época boa como os 80, pena não estar lá. Só me resta relembrar Curt Kobain agora etc :l
muito bom o texto :c vidrei, juro.
beijoks :*

Ivens B. Iskiewicz disse...

Rendo-me a teu pragmatismo, Realmente fantástico!

Compartilho contigo o gosto por Legião e Nirvana!

Abraço Paulo Bono, tu é bom demais!

ARCANO disse...

Voce escreve intensamente bem (:

Aninha disse...

me emocionei lembrando do pão assado na caçarola
bom!!!!!!
bjos