10.6.09

Só Cachorro Grande

Nos tempos de Feira de Santana, as noites de segunda eram do poker. Não éramos exatamente um grupo de amigos. Simplesmente não tínhamos motivos para voltar pra casa. Queríamos apenas beber algum vinho e jogar um pouco de cartas.

A mesa estava pesada naquela noite. Um era dono de uma concessionária. Outro tinha uma fábrica de uniformes. Outro era dono de uma metalúrgica. E outro era um velho fazendeiro rico. Só cachorro grande. E eu. Um redator em início de carreira que ganhava 350 reais por mês. Você pode perguntar, que diabos você fazia ali, seu gordo fudido? Era Feira de Santana. Eu já havia contraído a mania de grandeza.

Mas a verdade é que não jogo tão bem assim, e as cartas não ajudavam. Ainda era cedo, e mais da metade das minhas fichas já tinham ido embora. A maioria para a mão daquele fazendeiro. O velho pagava todas e apostava alto. Sempre soltando a fumaça de seu charuto em minha cara. E se eu falasse alguma coisa, ele dizia, “apenas jogue, garoto!”. Eu começava a lembrar de Dona Zeni, a minha senhoria. Eu já devia dois meses de aluguel. Foi quando recebi aquelas quatro cartas. 10, J, Q e A de ouro. Faltava apenas o Rei para completar um Royal Straight Flush. Talvez fosse a minha vez de entrar para a história. O velho soltou mais uma baforada em minha cara. Bebi um gole de vinho e pedi uma carta. Lembrei do Mel Gibson naquele filme. E antes de virar a carta, mentalizei um maldito Rei de ouro. Quem sabe, dona Zeni? Quem Sabe? Então olhei a carta.

Essa não foi a primeira vez que joguei entre os grandes. Passei por uma pressão semelhante nos tempos da Lapinha. Já era tarde. O Largo estava vazio e todas as casas fechadas. Jogávamos palitinho na frente da igreja. Quando os “caras grandes”, meninos que tinham entre 16 e 18 anos, apareceram e disseram que também queriam jogar. Inventaram palitinho a bolo de Rider. Ou seja, quem perdesse levaria 15 chineladas de Rider em uma só mão. Era o tipo de desafio que dava vontade de chorar antes mesmo de jogar. Mas aquilo era a Lapinha. Não fazia bem fraquejar. O problema é que eu não jogava tão bem assim, nunca fui bom nas contas, e aquela pressão só piorava tudo. Um a um, foram todos escapando do jogo, enquanto eu permanecia. Alguém sempre soltava, “vai levar porrada, Paulinho!” Até que restaram apenas um grandalhão e eu. O grandalhão era meio burro, e eu tinha alguma esperança. Então ele pediu 3, eu pedi 2, e abrimos as mãos.

Lembrei. Maverick, o nome do filme com Mel Gibson. Pois é. Naquela noite, meu Rei de Ouro veio. E fiz meu Puta-Mega-Fucking-Royal-Straight-Flush. Quase tive um troço do coração. Olhei várias vezes. Olhei de novo. E olhei de novo. E era o Royal. Uma seqüência, de 10 a Ás, do mesmo naipe. E de ouro. O maior cachorro de todos. O picudão do poker. Com aquela mão, eu podia tomar a fazenda daquele velho escroto. Não só a fazenda, como também seu jatinho, seu barco, seus carros e o cu de sua filha. Tomei mais uma golada de vinho e apostei. Esperei o velho pagar para ver, mas ele subiu a aposta. Viva, Dona Zeni! Viva! Então apostei tudo e o velho pagou para ver. Detonei meu vinho, me levantei e joguei minhas cartas sobre a mesa. “Receba, filhos da puta! Porque eu fiz um Royal, e agora quero um quadro com minha foto nessa parede de merda!”, eu disse, jogando meu copo na parede. Ficaram todos petrificados com minhas cartas. O velho apagou o charuto, coçou o bigode e tomou um gole de vinho. O jogo acabou, eu ganhei, e Dona Zeni também.

Dizem que não acontece nada em Feira de Santana. Bobagem. Algo sempre acontece naquela cidade. E não estou falando dos desmanches de carros roubados. Em Feira, a cada segundo, tem sempre alguém ganhando e alguém se fudendo bonito. Naquela noite, chutei os cachorros. Tempos depois perdi tudo. Perdi todas as minhas fichas e voltei para Salvador. Feira de Santana é um blefe. A Lapinha era diferente. Éramos exatamente um grupo de amigos. Tudo era motivo de riso. Sabe no Tom e Jerry, quando cai uma bigorna na pata do Tom? Foi daquele jeito que minha mão ficou depois das 15 chineladas que levei e ecoaram pelo Largo da Lapinha naquela noite.

39 comentários:

Lari disse...

Fez minha alegria da noite!

=)

Lari disse...

Desculpa, nem comentei nada sobre o texto... realmente, Feira de Santana tem lá sua mágica. Eu, particularmente, amo Feira de Santana e me divirto muito quando você fala sobre ela. Também já tive o dia em que ganhei e o dia que me fodi bonito (me fodi mais do que ganhei, diga-se de passagem). he-he.

Você já ouviu falar num barzinho que tem por lá chamado "Jeca Total"? Lá é muito bom! Ainda não encontrei lugar assim aqui em Salvador. Bom, desculpa por ter me prolongado muito.

Um abraço.

Careca disse...

Bono, é preciso dar a mão à palmatória.:)

Ana Paula disse...

Hello meu Velho Buk!

Eu não me espanto, só leio, me divirto e falo a mim mesma, esse é o meu gordinho.

Love,

Sra. Bono.

Francisco disse...

Meu amigo Bono.
Sem babação de ovo, nem rasgação de seda, os teus textos são de ler mais de uma vez, de tão bons que são. A gente se transporta para dentro da história, e sofre, e ri, e se apavora com a Dona Zeni (ah, as donas Zenis da vida!), e sente a chinelada na mão.
Só me conta uma coisa. Você levou a fazenda, o barco, o carro e o cu da gata, ou não?
Um abração!

Ric disse...

Quanto você ganhou com essa cartada em Feira?
Cara, eu sou azarado pra porra em jogo. Já desisti disso faz tempo.

Abraço.

Paulo Bono disse...

Lari,
Não conhece esse bar. No meus tempos de Feira, eu ia muito ao Ponto do Zequinha. Era lá que os publicitários metidos iam tomar uma.

Francisco,
O poker era com limite. se não fosse, o velho tava fudido mesmo.

Ric,
Claro que não foi uma fortuna. o jogo tinha limite. mas lembro que rolou um bambá legal, pq além do pot da mesa, um Royal dava direito a um prêmio extra de cada um.
E o poker, quanto mais você pratica, menos da sorte você depende. a sorte ajuda muito, mas não é tudo.

abraço a todos.
valeu pela leitura

Fernanda Pereira disse...

E quem ganhou mesmo foi Dona Zeni, hein?

A Bahia é só uma imagem distante na minha cabeça ou nas páginas de Jorge Amado, mas pelas suas linhas...pobre Feira de Santana...rs

Lusca disse...

Muito bom. Empatia total contigo.

Lari disse...

Ponto do Zequinha... nesse eu nunca ouvi falar não. Vou procurar saber se ainda existe. Adorei o "era lá que os publicitários metidos iam tomar uma"... rs. Realmente, tem umas figuras em Feira que me fazem sentir pena!

Aquele abraço!

Saulo Ribeiro disse...

Bono, seu vagabundo iluminado e blefador. estou de volta.

abração

saulo

Daniel Pfaender disse...

Abençoados o Royal Straight Flush, o Full House e o Four tão insólitos, tão incomuns, tão raros, que quebram o insosso par de setes do dia a dia, não é mesmo?

ótimo texto! abraço!

Fabrício Romano disse...

Preciso aprender a jogar isso, cara. Como você foi lembrar de Maverick? Tinha umas boas frases e a delícia da Jodie Foster naquele filme...
Virei leitor daqui. Abrçs..

Renne Boz disse...

Eu ainda estou esperando meu Puta-Mega-Fucking-Royal-Straight-Flush. rsrsrs...um minuto de glória faz bem, não? O problema é que ele demora muito a chegar. Belo texto, como sempre, Bono. É sempre bom se achegar neste teu canto de cá.
Um abraço =)

jorginho da hora disse...

cARA,JOGO DE PALITINHO ENTENDO mais do que cartas. fEIRA DE SANTANA EU MANJO e PALMATÓRIA CONHECI TAMBÉM, ha,ha,ha!
Um abraço!

Mwho disse...

Bono,
Lembro-me bem dos "caras grandes".
E da mão inchada idem...
Nostalgia e emoção puras!

Careca disse...

Bono, literatura é outra coisa mesmo. Isso aí é blog. Também prefiro o fundo escuro.

Sunflower disse...

eu deveria entrar no Guiness por ser cmpeã mundial de Bingo de Coisas Exdrúxulas.

beijas, muitas

Christian Camilo disse...

Paulo, vc manda muito bem nas crônicas cara!
Muito bem mesmo...
se tiver um tempo escute o som da minha banda tb, acho que pode gostar
deixo um clipe
http://www.youtube.com/watch?v=b3FcGzmDncQ&feature=player_embedded

Da Silva disse...

Sorte no amor é o caralho! Uma mão dessas te dá automaticamente o direito de enrabar todos os participantes da mesa e seus familiares.

Agora, é só seguir a frase do Emir Sader, que ele usou para os dados, mas tb serve para as cartas: Tirou um duplo seis (ou um royal straight flush), comemore. Mas não tente de novo.

forte abraço!

ceraunavolta disse...

Momento Miranda Priesley:
"Feira de Santana não dá!"

Mi Poulain disse...

Cara, tu me diverte.

De Dentro de Helena disse...

Ops...uma de Feira vos fala. Gosto daqui. Todo mundo se fode mas é bem feliz porque tem muito bar e muita farmácia. Um fode com o cara, outro cura..hehehe..Volte e sentemos apenas para contar historias, beber, afinal, isso se faz em qualquer lugar do mundo..:)

Paulo Bono disse...

De Dentro de Helena,

É verdade. Tem os bares e as farmácias. Lembro daquela que o cara bota a mãe para fazer a propaganda. Beber e contar histórias? Aceito. Mas a cidade eu dispenso.

abraço

Larissa Bohnenberger disse...

Indiquei teu blog para o Prêmio Blog dourado!
Bjs!

Paulo Bono disse...

Dourado, Larissa?

abraço

Mateus Henrique Zanelatti disse...

Ye, poker é foda, uma dia vc ganha muito, outro dia vc perde muito mais.
Ai minha mão...

Muito bom texto!!

Marcos Satoru Kawanami disse...

eu ainda devo cruzar a fronteira da Bahia, todo mundo diz que é terra boa, só Dorival Caymmi é que difamava, com aquela mania feia, a preguiça porra!

por que vc escreve bem? é dom, ou é falta de dons?


=D
marcos

Paulo Bono disse...

kawanami,

Gosto muito dessa preguiça da porra.
Sem frescura, não acho isso aqui essas coca-colas todas. e uma coisa que não tenho é dom.

valeu a visita.
abraço

De Tudo de Helena disse...

O meu blog na verdade é este (Tudo Por Helena), foi linkado prum que ia criar mas desisti). Apareça. É, o cara da farmácia é João Borges, agora ele aparece quase pelado na TV, apelação total, alem da exploraçao de idosos que faz com a mãe..hehehe. Enfim, bizarro. Não tenha tanta raivinha de Feira, no fundo, no fundo, é uma boa cidade..

Stephanie disse...

é Bono, sinal de que entre os cachorros grandes, a gente pode se foder num dia, mas foder alguém no outro

ótima a forma como você entrelaçou o flashback e encerrou o texto. Grande jogada!

abraço,

Larissa Santiago disse...

nunca entendi poker, mas vc fez bonito!!!!
beijo brother.

Tryck GT disse...

hehehehehe
Que maravilha de texto!
Ganhei a aula! hehehehe
Abraço!

Renne Boz disse...

Oi Bono...fechei meu blog, por enquanto, mas eu volto. Enquanto isso venho aqui me deliciar com suas peripécias...rs.
Um grande beijo.

Denis Barbosa Cacique disse...

Bono, taí uma coisa que ñ cnsigo fazer nem fodendo: aprender a jogar cartas (a segunda é fazer esse teclado dos infernos funcionar direto)!
Mas se eu soubesse eu algumdia me desse realmente bem, etão nunca mais voltaria a jogar, pra evitar entrar no prejú. Mas cho q isso num deve ser possível! Eu tenho meus vícios, e vívio é vício. É foda!
Abraço e parabéns por mais um belo texto!

Marcelo Mendonça disse...

Eu apanhava mesmo era no garrafão, palitinho até que eu batia. grande abraço meu velho.

Samantha Abreu disse...

cara, como tu é phoda com essa narrativa!
Babo lendo você.

BeijO

Maris Morgenstern disse...

uma vez fiz uma quadra de Às,
e
achava que royal street flush só eistia nas regras.
e vem vc me provar que não.
que existe mesmo.
fez renovar minha fé no poker,

Luciana disse...

Paulo,

Leio sempre seus textos mas nunca deixo comentário porque acho redundante falar que são ótimos. Mas como uma boa amante do poker não resisti. Royal Straight Flush? Será? Taí uma coisa que ainda quero presenciar nessa vida!

Beijo!