14.5.09

Ubirajara

O barzinho estava animado. Aquelas figuras de sempre. Todos dali da vizinhança. Alguns na sinuca. Outros na TV. Passava o jogo do Vitória. Em algum momento do segundo tempo o zagueiro fez uma gracinha na área, perdeu a bola, e o Vitória sofreu o gol.

- SÓ UM SOCO NA CARA DESSE FILADAPUTA! – berrou Seu Bira.

O que posso dizer de Seu Bira? Militar aposentado. Devia ter seus sessenta e pouco. Casado, duas filhas, uma neta e uma boa aposentadoria. Bigode grisalho. Era baixinho e também mancava de uma perna. Mas vou dizer uma coisa. O velho era durão. Desses tirados a macho. Era sergipano, cearense, ou pernambucano, paraíba, uma porra dessa. Esse povo sempre se acha mais macho que os outros. E aquela coisa, criado à moda antiga. Tinha lá suas intolerâncias. Seu Bira não gostava de homem de brinco, drogados, tatuagem, viadagem ou qualquer tipo de frescura. Uma vez estava o cara lá, todo pintado, dando entrevista durante uma parada gay. E Seu Bira, “Só um soco na cara desse viado!”. Tudo era um soco na cara. Todo mundo merecia um soco na cara. Uma vez foi Lula, Seu Bira odiava Lula. Lula falava alguma coisa na TV, e Seu Bira bateu na mesa, “Só um soco na cara desse analfabeto!”. Não sei o que houve com sua perna, deve ter sido no tempo do exército. Sei que juntou essa macheza toda nordestina ridícula com a carreira militar e deu que o velho era bruto. Muito bruto. Desses que impõem respeito e carteirada na fila do caixa do supermercado.

Mas eu falava sobre o jogo do Vitória. O filho da puta do zagueiro perdeu a bola na entrada da área, e o time levou um gol. "SÓ UM SOCO NA CARA DESSE FILAPUTA!". Seu Bira não quis ver o resto do jogo. Pagou a conta, cumprimentou os colegas e pegou o caminho de casa, que era pertinho dali. Era sábado. Seu Bira fez o de sempre. Passou na banca e comprou o jornal, passou na padaria e comprou pão e mortadela. Subiu devagar as escadas até o terceiro andar e abriu a porta. O som estava ligado. A esposa estava na igreja. Seu Bira chamou pela filha, “Ana Maria?”. Ninguém respondeu. Chamou mais uma vez, “Ana Maria?” e nada. Então foi até o quarto da garota. “Ana Maria?” E foi assim que Seu Bira me pegou enfiado no meio das pernas de sua filha caçula.

Já estou há algum tempo aqui procurando a palavra certa para expressar o que senti naquela hora. O mais próximo que consigo chegar é Morte. Senti a morte. “Ana Maria?”. É como se eu estivesse ouvindo agora. “Ana Maria?”. Estávamos deitados no chão. Minha bermuda estava um pouco arriada. Ana Maria de pernas abertas. Pau meio dentro, meio fora, e a voz de Seu Bira, “Ana Maria?” Meu pau encolheu em tempo recorde. Eu saltei e me larguei de bruços no chão. Só esperando a porra da facada. A porra da morte. Mas a morte não veio. Seu Bira desapareceu do quarto.

- Meu Deus! – disse Ana Maria.
- Ele foi pegar o revolver.
- Vá falar com ele.
- O caralho que vai.
- Meu Deus!
- Dá pra pular da janela?
- Vá falar com ele, Paulo!
- Puta que pariu! Puta que pariu!

Encontrei Seu Bira na cozinha. Bebendo água. Talvez o velho morresse do coração. Antes ele do que eu. Tentei lembrar de qual perna o velho mancava. Talvez ele exigisse esse negócio de casamento. Qual era a perna? Eu podia dar um chute e correr dali. Talvez ele me matasse. Morte. Eu estava fudido. E tremendo.

- Seu Ubirajara – eu disse. Ele queria que eu o chamasse assim.
...
- Seu Ubirajara.
...
- Olha só. Não tava acontecendo nada de mais. Eu tava em cima dela, mas não tava...
- Vá embora – Disse em voz baixa.
- É porque a gente tava...
- Vá embora.

Então fiz o que Seu Bira mandou. Fui pra casa. Fiquei sozinho no ponto, peguei meu ônibus, não sei como, mas fui pra casa. Pra minha cama. E fiquei deitado. Lembrando de tudo. A morte. O Cd. A massagem. A voz de Seu Bira. “Ana Maria?”. “Ana Maria?”. Aquela voz rouca. Os peitos de Ana Maria. O revólver. A morte. Seu Bira. A mão de Ana Maria em meu pau. O jogo que só acabava às seis. A faca. A perna de Seu Bira. A buceta de Ana Maria. Seu Ubirajara. A morte. E a morte. Lembrei de tudo. E senti febre o resto do fim de semana.

28 comentários:

Francisco disse...

Cara!!
Tu escapou! E a coitada da Ana Maria?
Te cuida com o velho Bira! Vai que ele não esqueceu!
Um abração!

JuANiTo disse...

hahahahahhahaha
"Só um soco na cara de um Fêla da Puta desse, que come a filha dos outros na casa dos pais!"
P/ um militar conservador, deve ter resarvado o pior pra vc. Te cuida!

Marcos Carneiro disse...

hehheehe Boa, Bono! A culpa só podia ser do vicetoria. Se fosse meu Baêa vc iria comer Ana Maria de tudo qnt é jeito...

Abs

lilaemarcelo disse...

Rapaz, concordo com Marcos. Se fosse bahia, cua tarde estava tranquila! Agora como ficou a Ana MAria?

Rodrigo disse...

A Ana Maria... Valeu a pena com certeza!

Júlio disse...

Grande Vitória. Cento e caralhadas anos fodendo a vida dos seus torcedores e a foda alheia.

Não tem Campeonato Brasileiro que valha esse título, hahahahahaha.

Mwho disse...

Sorte que o ângulo de visão do velho Bira não contemplou a sua cara - e ele não tinha um plano B!

o Fusca do Amor disse...

e você ta casado com ela agora? filhinho e tudo mais? conta aí no que deu...

Mi Poulain disse...

O pior de tudo é ter q interromper a foda pela metade. E Ana Maria? Aposto que Seu Bira deu uma surra na coitada. Ou pior, nunca mais ele prestou pra nada. Ver a filha caçula na lida é dose.

Paulo Bono disse...

Francisco, LilaeMarcelo, Dewzique e Mi Poulain.

Ana Maria é passado. graças a Deus.
E Seu Bira que se foda.

grande abraço

Ric disse...

Nessa situação, um soco na cara pra você seria o menor do males.
Porra, só fiquei imaginando tua cara, véi! kkkkkkkk!

Abraço.

Sunflower disse...

Fiquei tão aflita com a história que me deu uma zonzeira e não sei nem o que comentar.

Todos os homens da minha família são seu Bira.

beijas

Renne Boz disse...

Ter um Seu Bira na vida deve ser foda..rs.

Shirley de Queiroz disse...

"Eu tava em cima dela, mas não tava..." foi ótimo...

Ricardo Cidade disse...

Vitorinha é assim mesmo: berra , berra, mas na hora H vai de fininho pra cozinha beber um copo d'agua!

Drunken Alina disse...

Putaqueopariuuu, até eu gelei!!!!

Bem diz o ditado: "cão que ladra não morde"

Mas e a menina, saiu como dessa história, ficou sabendo?

Stephanie disse...

porra, Bono, se tomar um flagrante é uma merda, uma de um sujeito desses então, putaquepariu.

o mais curioso é que prum sujeito que tudo é um soco na cara de alguém, na hora (pra sua sorte) a reação do velho foi pro espaço.

muito bom esse parágrafo final. me fez sentir falta de quando eu tinha fôlego pra contos (tá me faltando ultimamente)

abraço!
Stephanie

Anônimo disse...

Caraca... mano, vc deve ate hj ouvir aquela voz no seu sonho..ANA MARIA???

Pâmela disse...

É... eu até tinha botado fé no seu Bira, e acreditado que seu Bira ia virar a porrada...
Mas antes uma febrinha que um olho roxo nao é mesmo?
Tomara que a porrada não tenha sido na Anna Maria ^^

Beijo IMENSO =**

Joana Rizério disse...

ACHEI O TEXTO DEFINITIVO :)
voce vai entender quando ler la no blog. (sera que da pra entender? depois me explique) BEIJAO



AH bono, quinta feira, cheio de nove horas o aclamadissimo sarau poetico musical vai acontecer, la no bar "Ali do Lado", que fica ao lado da borracharia, red river. Vai, meu querido, xô te conhecer

Paulo Bono disse...

Joana,
Experimente o velho safado.
Tudo ali é definitivo.

grande abraço

Fernanda Pereira disse...

E depois disso, ninguém nunca mais teve notícias de Ana Maria...kkkkkkkkkkkkkkk

Mas algumas porradas até concordo com o Seu Bira...ô se concordo

ahahahaha

Lusca disse...

Primeira vista ao blog... mto legal teu texto! hahahauhuahauh! Voltarei mais vezes!

Mateus Henrique Zanelatti disse...

Porra! Vc tem que mirar na perna boa, aí o velho fica com as duas ruins e pé na tábua!

Abração!

joana disse...

o texto definitivo é esse seu, seu besta. bjo

Ócio, viagens e gastronomia disse...

Só você mesmo pra me tirar umas risadas nessa sexta.
Obrigada...

Marcelo Mendonça disse...

Bira gostou rapaz!
grande abraço Bono!

Marcos Satoru Kawanami disse...

lembra do Soldado Ubirajara? do TV Pirata?

o seu Bira não te matou porque deve ter lembrado do que ele mesmo fazia na juventude, ou então ficou com cagaço de ir pro xadrez.