17.4.09

Eu Queria Batata Frita

O bom é que tinha um restaurante no prédio da velha agência. Seu Manuel abria pro almoço exatamente ao meio dia. Eu estava lá. E como qualquer restaurante a quilo, vem primeiro a parte das saladas. Peguei uns ovinhos de codorna. Na manha. Havia umas putinhas de regime e uns idiotas de gravata que colocavam folha ou pedacinhos de manga em seus pratos. Não sei por que, mas eu não acreditava em todos eles. Corretos, orgulhosos, confiantes. Olhavam para mim como se dissessem “Gordo!”. Eu apenas trincava o talher no prato, como se dissesse “Brócolis o caralho!”.

Eu queria batata frita. O problema é que as batatinhas acabavam logo. Não que Seu Manuel tivesse a melhor batatinha da cidade. Simplesmente por ser batata frita. E todo mundo come batata frita, inclusive as putinhas de regime. Para piorar, tinha um cretino que trabalhava num escritório de contabilidade que estava enchendo o prato de batatinha. E tive a impressão que quando o desgraçado pegou a última batata, olhou pra mim e sorriu. Assim que ele deu as costas, taquei um ovo de codorna em sua cabeça. A arma do crime quicou no chão e se escondeu debaixo da prateleira. O idiota olhou para trás, ajeitou seu topete e não viu nada. Eu já estava colocando minha omelete.

O restaurante estava cheio, mas achei uma mesa vazia. Logo depois, Rose, a garçonete, veio me perguntar se eu queria algo pra beber. Rose era gente boa. Sempre me servia as maiores fatias de torta africana. Ela tinha a cara do Catatau, do Zé Colméia. Mas era uma graça. Segundo Ramos, um Diretor de Arte experiente e fudião, Rose tinha o cu alto. Pedi a Rose uma Coca-cola. Pra rimar com a omelete. A omelete de carne me fazia lembrar de Lúcia, uma empregada que trabalhou lá em casa. Saudade de Lúcia e de suas omeletes. O restaurante enchia cada vez mais. Mas ninguém sentava ao meu lado. Claro. Havia outras mesas com pessoas agradáveis e havia a minha, com um gordo, de barba mal feita e esse cabelo fudido. É que o cara que está ficando careca é pior que o careca. Porque em cima fica aquele bagaço de cabelo, parecendo um louco. Eu também não almoçaria ao lado de um gordo. Foda-se. Era só eu e minha omelete de carne. Por fim, passei no caixa, assinei o caderninho, pendurei a conta e sinalizei pra seu Manuel. Antes, peguei um palito, é claro.

Mas quando cheguei ao elevador, tive de esconder o palito. Havia uma princesa esperando o elevador. Uma princesa morena. Magrinha e tal. Não fazia o meu tipo. Mas era uma princesa de peitinhos durinhos. Íamos subir só eu e ela. Entramos no elevador. Não costumo cantar mulheres assim, do nada. Nunca tive essa capacidade. Mas não custava tentar. A velha agência ficava no quarto andar. Tinha ainda quatro andares de garagem. Eu tinha oito andares para falar algo bacana para a princesa morena. “Você trabalha aqui?” – perguntei. Ela não respondeu. Ficou lá, olhando pra frente. Desgraçada. Quem ela pensava que era? Putinha magricela ordinária, nem bunda tinha. Então chegou o quarto andar, deixei o elevador, virei e disse “Putinha de merda!”. Foi quando a princesa morena, tirou uns fones do ouvido e perguntou “Desculpa, voce falou comigo?”. Mas aí o elevador fechou. Paciência. Peguei de novo o palito e joguei na boca. Era hora do meu cochilo de 20 minutos. Como sempre, dormi com a cabeça sobre a mesa e o palito na boca. Mas aviso, não tente fazer o mesmo.

38 comentários:

Francisco disse...

Cara! Teus textos têm uma peculiaridade. A gente se transporta para o "local".
Nem todo mundo consegue essa proeza!
E a "putinha de merda", não encontrou mais?
Um abração.

Adriano Caroso disse...

Bono,

Seu texto é a realidade em forma de conto, ou conto em forma de realidade? Já te disse isso mas a dúvida continua na minha cabeça. A verdade é que peguei o mesmo elevador.
Pena que são só oito andares...

Adriano Caroso disse...

Esse post me fez lembrar de um poema que escrevi. Tem tudo a ver com ele. Veja:
http://adrianocaroso.blogspot.com/2007/05/vigsimo-andar.html

areca disse...

Bono, nem bunda tinha!Rá!Rá!Grande abraço,

Subliterato disse...

tem um PFão aqui perto por 5conto..
sem frescuras... lá está o verdadeiro socialismo... mesas de plástico acolhem tanto o povo metido que trabalha no shopping, quanto os manos da construção do lado ou do brasilgás.. já dividi mesa com todos eles, gente boa!

e olha que tem até brócolis lá.
abraço

Ricardo Cidade disse...

Ainda vou ilustrar alguns desses contos, pode crer!

Ric disse...

Porra, você não viu os fones no ouvido dela? Falaserio...! hehe.

Abraço.

Poliana Paiva disse...

Detesto essa galera que fica patrulhando o prato alheio (apesar de amar uma saladinha...).
;)

Mwho disse...

Bono,
Quando leio seus textos, tenho certeza de que tudo aconteceu exatamente como você narra. Você pode até inventar, mas eu vou acreditar!
Grande abraço.

alvarêz disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
alvarêz disse...

Trabalhei num lugar assim, com restaurante no térreo, putinhas no elevador e batatas fritas que acabavam antes de eu chegar, e eu sentava sozinho e como andava meio louco ninguém sentava ao meu lado... e o melhor de tudo é que foi a vários anos atrás e eu não tenho a menor saudade de lá.

Roberto Ney disse...

cara gostei... vc instiga o leitor a ir até o final.
adoro essas cronicas do cotidiano.
abraço

Mi Poulain disse...

kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk
cara, tu é o melhor.. como me divirto lendo essas tuas coisas!

quando minha avó servia almoços no restaurante dela a salada ficava por último... quem sabe seja pq somos gordos! hahaha

Rodrigo disse...

Cena típica da Tancredo Neves. Genial!

Daniel Pfaender disse...

Não dá pra confiar em folhas e pedaços de manga no prato de qq sujeito que se preze. Em qualquer bom restaurante a quilo o ideal é ir de coxinha, batata frita, arroz a pimenontese, strognoff, e pra fechar algum empadão ou torta farinhenta. Picolé de sobremesa! E que se fodam os de regime!

Sunflower disse...

Por que eu tenho uma sensação de Deja Vu aqui? Você já escreveu esse texto antes, ou estou sendo (o que não é nada raro) absurda?

beijas

bjomeliga disse...

Omelete de carne existe? O.o

Nina disse...

Sabe que seu texto me fez pensar em uma das grandes verdades do mundo: falam das mocinhas de peitinhos durinhos e das deusas de seios voluptuosos... e as mulheres comuns de seios médios, normais?

BTW, deliciosa sua prosa, de correr os olhos.

Larissa Santiago disse...

você broca mesmo com um palitinho no canto da boca!
eheeheheh

abraços Bono

tarsisvalentim disse...

fiquei fã.

quem me indicou foi a Larissa Santiago!

Cara de 30 disse...

Mais uma deliciosa crônica da vida... Comer manga junto com o almoço é tudo de ruim, cara. Esse pessoal que mistura a porra toda não merece nosso respeito!

Pô... Tu me fez lembrar do tempo que tirava um cochilo desses depois de almoçar. Bem assim igual ao seu com 15 minutos faltando pra voltar ao trabalho. Dava pra sonhar e tudo!

Abraço!

Danilo Lemos disse...

Fazia tempo que eu não te lia! Saudade de ti! E mesmo com gol contra, viva o mengão!
abraços, rapaz!

Renne Boz disse...

Td bem, pagação de pau total aqui. Cara, seus textos me fazem rir do começo ao fim. De novo, uma delícia!! Brócolis o caralho, foi demais!! hahahahaha

Wanderson disse...

tb tive sensação de DejaVu assim como a SunFlower... creio que a parte do elevador...

Paulo Bono disse...

Francisco,
Nunca mais vi a putinha. Tb deixei de trabalhar por lá.

Caroso,
Já disse. Essas coisas acontecem com a gente. Só não consigo fazer poemas como você.

Subliterato,
Tirando as carnes que só têm nervo, tb gosto de PFs.

City Boy,
Você diz isso há 4 anos.

Ric,
Pois é. Sou lerdo demais.

Mwho,
Dizem que minto muito.

Mi Poulin,
Viva os gordos!

grande abraço a todos

Paulo Bono disse...

Sunflower,
já disse uma vez aqui. Meus dias são repetitivos.

Bjomeliga,
Claro que existe, porra. E são as melhores.

Nina,
Todas as mulheres são perfeitas.

Tarsisvaletim,
Volte sempre.

Cara de 30,
Esse cochilo faz mágica.

Lemos,
Bora Mengão Minha porra!

Wanderson,
O meu dia é um dejavu constante.

abraço a todos

Lela disse...

de 'princesa de peitinhos durinhos' a 'Putinha magricela ordinária', basta um fone de ouvido.

maravilha de texto!

um beijo.

Wanderson disse...

ah.. que bom, ou não.. hehehe.. e quanto ao Mengão, feliz demais que vai vir jogar em Fortaleza... tava com saudade do Mengão ao vivo!!! FlaFortal em peso no Castelão.

gigi disse...

bono, você me emociona!
danilo e eu estamos cheios de idéias! bora marcar uma conferência via msn?

besitos

gigi disse...

ih, olha o pfaender aí!

Marcos Carneiro disse...

hehehehe Muito bom, Bono! Cara, vc leu um msg sobre trampo q deixei no seu orkut? Abs

Paulo Bono disse...

Gigi,
Não demoro muito no msn não, mas pode dar um psiu que respondo.

Wanderson,
Que inveja. poder ver o Mengão.

Carneiro,
Rapaz, só vi depois de muito tempo.


abraço

Cruela Cruel Veneno da Silva disse...

kkkkkkkkkkkkkkkk

eu ia com ela até o sexto andar

culatra disse...

33 leitores comentaram. Como tu consegue ?

Paulo Bono disse...

Culatra
Na verdade não sei como eles conseguem comentar.

abraço

Drunken Alina disse...

"putinha de merda"

RACHEI!!!

Bezerra disse...

Gostei tb. Mas detesto ficar nessa de comentar. Tomar uma seria melhor.

eu mesmo.... disse...

Tem um restaurante parecido e com um elevador tbm parecido aqui onde trabalho..... pra vc ter uma idéia agente apelida o restaurante de portelinha(novela da globo) e o elevador cheio de putinha. o foda é quando o cara fura a fila e ainda pega a ultima batatinha. vou treinar em casa para acertar a asa de galinha, q sempre sobra, na cabeça do fela da put...a