18.3.09

O Último Jingle

A barraca de Seu João era muito simples. Seu João era um desses evangélicos. Não vendia bebida alcoólica. Mas era um lugar agradável. Ficava ao lado da agênca. Tinha suas mesinhas de frente para a rua, caldo de cana, refrigerante e uns salgadinhos de terceira. De primeira só o pastel. De carne, crocante. 50 centavos. Chamávamos de “O Pastel do Tio da Unha Preta”. Servia como café da manhã, algumas vezes como almoço e também como jantar. Acompanhado de um caldo de cana, o pastel do tio da unha preta era o meu jantar naquela noite. Estávamos Joe e eu.

- Porra! – eu disse.
- Que foi?
- Caiu um cisco no meu olho. Caralho!
- Pede a filha de Seu João pra soprar.
- Uma mulher dessa nunca me dá mole, Joe.
- A porra também é crente. Acho que só dá pra crente.
- Joe.
- Hum.
- Corta esse cabelo. Você já é feio, com essa mata, então.
- Dinheiro. Enquanto não sair o bambá, não posso cortar.

Foi mais ou menos nessa hora que nos despedimos. O velho Joe Mocorongo pegou sua velha moto e se mandou. Pendurei a conta, peguei a viola, me despedi de Seu João e de sua filha e fui a pé pra casa.

Eu morava a uns quatro quarteirões. Peguei um atalho, meio boca-quente. Mas não era tão tarde. Eu dobrava uma esquina, e mais outra, e mais outra. Passava por um esgoto a céu aberto. E depois por uns tipos mal encarados. Se quisessem levar a viola, paciência, eu não poderia fazer nada. Mas correu tudo bem. E logo cheguei na minha rua.

O lugar era simples. De gente humilde. Mas um ambiente familiar. A casa não era lá essas coisas. Mas era o que dava para pagar. Às vezes nem isso. Naquelas últimas semanas eu tinha que sair cedo e chegar tarde para não chamar a atenção da minha senhoria, a Dona Zeni. Coisa que eu fazia com muito desgosto porque a Dona Zeni tinha seus filhos e ainda pegara outros guris para criar. E naquela noite toda aquela renca de meninos estava brincando na porta de casa. Não sei do que brincavam. Uma zuada da porra. E quando me aproximei vieram todos na minha direção.

- Ih! – disse um deles – ele toca violão.
- Toca aí! – disse outro.
- É, toca aí! – disse mais outro.
- Toca! – disse mais outro.
- Deixa eu tocar! – disse uma guria.
- Shhhhh! – eu disse – Ó a zuada, porra!
- Toca Chiclete com Banana – disse um guri.
- Sua mãe tá aí? – perguntei a um deles.
- Foi comprar leite!
- Bonde do Tigrão!
- Olha – eu disse – eu não sei tocar direito. Nem sei essas músicas que vocês querem.
- Chiclete com Banana!

Aquele ano era 2001. E eu não tinha a menor idéia do que tocar e agradar as crianças. Também não sabia nada do Chiclete com Banana. Eu disse, vocês conhecem essa?

“Mina, seus cabelo é da hora...”

- Mamonas? Lembram? – perguntei.
- Humm...eu não! – disse uma.
- Eu não lembro! – disse outra.
- Eu gosto de Chiclete com Banana!
- Já sei! – eu disse – mas antes sopra aqui meu olho.

A guria soprou meu olho. O cisco saiu. Então eu disse, lá vai.

“Tá pintando o dia
Tá pintando cor
Tá pintando vida
Tá pintando flor...”

- Ah!! Eu sei essa! – gritou uma.
- Eu vi na televisão! – disse outra.
- Eu sei! – disse a guria.

E de repente todos os guris estavam cantando um jingle que eu tinha escrito para uma loja de material de construção. Um dos guris chegou até a dançar. O jingle era curtinho e, quando acabou, quando pensei que viriam as palmas um dos guris perguntou:

- Por que você é gordo?

Então me despedi da turma, subi e fui tomar meu banho.

Feira de Santana tinha dessas coisas. Era uma cidade de ladrão e gente metida à besta. Mas tinha seus bons momentos. Tinha o baba na segunda, o poker na terça, o Bar do Zequinha na quinta. E tinha o pastel do tio da unha preta. Inclusive foi lá que o grande Tito Boza uma vez me disse, “Bono, tem um concurso aí, o salário é oito conto. Vamo fazer?”. E eu disse assim, “Porra, Boza, um dia desses os guris de Dona Zeni cantaram meu jingle. Oito conto não pága isso.” Mas ora, porra. O que é que eu podia dizer? Eu tinha 20 e pouco anos. Não era tão gordo. Não era careca. Só devia à Dona Zeni e a Seu João. Ainda levaria outros grandes tombos por aí. Feira de Santana era só o começo. Quer saber? Todas as pessoas deviam começar em Feira de Santana. É um puta estágio. Você vê um pouco de tudo o que o virá pela frente.

28 comentários:

Marcus Gusmão disse...

Em Feiras de Santana só existem 9 mandamentos. O sétimo desmontaram e venderam a granel e baratinho na na Rua da Aurora, na Kamy”s, na Feira do Rato e no Feiraguai.

Marina disse...

Isso é porque você não conhece Itajuípe - BA....

bjo. Fã nº1.

Ric disse...

Pelos menos esses tavam salvos dos 'mamonas assassinas'. rs rs.

Abraço.

Fernanda Pereira disse...

Não sei se é melhor não saber mamonas ou saber demais chiclete com banana...triste realidade musical a dessa juventude..ahahahahaha

beijos

Francisco Silveira disse...

Acho que todo o mundo passa um pouco por "Feira de Santana" na vida...
Um abração!

Mi Poulain disse...

Criança sempre tem umas perguntas boas nas horas erradas! hahaha... mto bom!

Larissa Bohnenberger disse...

Eheheheheh!
Eu sou nascida e morada em Capital metropolitana... n~´ao tive estes estágios na minha vida...
Bjs!

Sunflower disse...

E nos desenhos dos pequenos, que eu sou alta, magra feito um palito, e estão todos sorrindo indo pra escola?

Há.

Rodrigo Carreiro disse...

Feira é um verdadeiro inferninho, cheio de ladrões e putas feias. Mas tem lá seu charme, eu concordo.

Careca disse...

Bono,
estágio é sempre Feira de Santana. Abraço,

Tati disse...

Caramba Bono fazia tempo q não lia seu blog. Meu ri demais, vc é foda.
No conto "Reis", qdo vc fala do porre q levou tomando capeta, meuuuu, só lembrei de qdo eu e o renato fomos pra Pipa, depois da campanha e lá sem mto dinheiro para gastar compramos esse tal de capeta. O negócio me deixou louca, ainda lembro q antes de chegar no quarto cai na psiscina, acho q esse dia dei trabalho pro psico, q vergonha, no outro dia estava acabada. Agora nem quro ouvir falar nesse tal de capeta =S

angela disse...

Ri muito!

Cruela Cruel Veneno da Silva disse...

eu comecei em Feira de Santana, afinal de contas minha avó hoje mora aí...

agora, depois de anos, devo a renner, a c&a, ao itau, ao serguro do carro, a tim, a antiga telemig, a antiga mesbla...

sim sim, começar em feira é tudo.

kkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

Joe99 disse...

Nem sabia da historia de Mamonas pra gurizada em Bono. Engraçado que acabei de chegar dum pasteu aqui da padaria. tava justamente lembrando do pastel do tio e ao chegar me deparo com esta estoria.

Ah, ainda tô em Feira, peguem leve.

Abraço Bono. Bons tempos!

Larissa Santiago disse...

é por isso que eu digo: Feira de Santana vai dominar o mundo!!!

Bono, meu velho, vc manda bem nas gírias - bambá é muito bom
kkkkkkkkkkkkkkkkkk

beijo!

alvarêz drewïzqe disse...

é isso aí, mandar na viola já é coisa e tanto!

Renne Boz disse...

todos os seus textos eu termino com um sorrisão no rosto! rs...
Por estes lados de cá também temos o Sr. João e eu vivo devendo pra ele. Vc tem razão, há momentos que nem mastercard supera. Parabéns,Bono! Muito bom!!

Joana Rizério disse...

Preciso de seus textos. Preciso de seus textos. preciso de seus textos.

PS: Preciso, rápido!

Ass. Sua fã
:)

Ando escrevendo no la vie numero 1 de novo, até quando durar o estoque.
Beijo!

Preciso de um texto seu.

Joana Rizério disse...

ô minino, eu preciso é que você escreva mais pra eu ler mais. mas não fale duas vezes não que eu pego mesmo, publico, e fico rica. um beijo!

gigi disse...

AMEI. O que é boca-quente?

Adriano Caroso disse...

Como sempre suas histórias ou estórias, nunca sei direito, são uma delícia de se ler. Valeu Bono!

JANA E RENATO disse...

Fomos indicados pelo Olavo, do http://tracosdeumhomem.blogspot.com/ para ganhar um selo de melhor blog de casais e isso nos deixou extremamente felizes.

Independente da votação , o blog do Olavo é sensacional e vale a pena ser visitado,tanto que está linkado aqui no nosso.

Óbvio que vamos pedir: dá uma passadinha lá e votem em nós!rs

Beijos pra todos e um lindo fim de semana!

Mwho disse...

Todo mundo devia passar uns tempos numa Feira de Santana, ou pelo menos olhar o mundo pelo ângulo reverso...
Post cheio de poesia e recordações...
Boníssimo!

Mimi Kiddo disse...

Aqui não tem Feira de Santana para eu aprender as coisas da vida. Sou tão limitada...

Massa pra caralho o texto!

Garota no hall disse...

Adorei! Imaginei a cenas das ciranças acompanhando o jingle com você e o moleque perguntando por quê você é gorado, hahahaha!

Samantha Abreu disse...

ah, e eu tô tão longe de feira de santana...

Dedinhos Nervosos disse...

Mas jingle é uma coisa que pega, né? Eu adoro, confesso! Imagino a sua cara com a garotada cantando junto!

Fernando disse...

Pô, bonde do tigrão na viola desse ficar muito comédia! Tipo um acústico kkkkkk