31.3.09

Meninos de Rua

Era imenso o Largo da Lapinha. Passávamos a tarde toda ali, jogando bola em frente à Igreja. Vez em quando corríamos para beber água da torneira na Floricultura ou no posto de gasolina. Jogávamos até os pés ficarem pretos e ensebados. Lembro de minha vó dizendo, “Vai tomar banho, moleque! E esfrega os pé pra tirar esse lodo!”.

Foi enquanto batíamos um desses babas, que, uma vez, um caminhão baú da padaria entrou com tudo no largo, e a porta traseira se abriu, deixando cair vários pacotes de biscoito. Alguns caíram inteiros e outros se espatifaram no chão de paralelepípedo. Atacamos na mesma hora. Pegamos os pacotes fechados e comemos os do chão também. Foi uma festa.

Isso foi na época do Atari. Pacman, River Raid, essas coisas. Mas preferíamos outros jogos. Como pegar ovo, sacudir bastante e jogar no ponto de ônibus. Aí era sebo nas canelas. Eu já era gordinho nesse tempo e não corria porra nenhuma. Por isso ficava meio apreensivo. Mas no final dava tudo certo.

Tinha também o golpe da Coca-Cola. Todo dia, por volta da uma da tarde, os caras da Coca-Cola paravam para comer no PF e descansar. Ficavam ali palitando os dentes, enquanto o caminhão ficava lá, estacionado, cheinho de Coca-Cola dando sopa. Nosso plano era simples. Ficava um sentado no palanque vigiando os caras no PF, enquanto os outros pegavam, escondidos, litros e litros de Coca-Cola.

Com o tempo passamos para golpes mais planejados. Como roubar figurinhas na Banca de Seu Antônio. Eu distraía Seu Antônio com perguntas como, "Seu Antônio, quanto é o Chokito?”, “Tem ploc de hortelã?”, “Seu Antônio, deixa eu ver a Playboy?”, enquanto do outro lado da banca, os outros pegavam o bolo de figurinhas do Campeonato Brasileiro. Algo parecido acontecia nas feiras da paróquia. Escolhíamos a barraca que tivesse algum velhinho bem coroco tomando conta. Dois jogavam um papo, enquanto os outros pegavam aviõezinhos e soldadinhos de chumbo. Era o maior barato aqueles soldadinhos.

Mas acho que o golpe mais ridículo veio um tempo depois. Abordávamos as pessoas no ponto de ônibus. Dizíamos estar fazendo uma minicampanha para arrecadar dinheiro para o Criança Esperança. Falávamos coisas do tipo, “O que você acha do Criança Esperança?”, “É que nós estamos arrecadando pequenas contribuições...” E aquele povo caía direitinho. Se bem que era tudo bem produzido. Tínhamos até uma caixinha de madeira com o logotipo da campanha.

Lembro de toda a turma. Lingueta, Vaca, Maradona, Capenga, Queixão, Rubalo, Batata, Lorinho, Bigu e outros mais. Estão todos por aí. Um trabalha numa loja de auto-peças, um é segurança noturno, um é gerente de banco, um é pedreiro, um é maluco, um é produtor de axé, e por aí vai. O certo é que nenhum virou bandido ou advogado. Eu virei isso aqui, um publicitário desempregado na fila da casa lotérica. E lembrei disso tudo quando um bando de guris passou por mim correndo e olhando para trás. Havia um gordinho no meio deles. Ri e pensei, “Corre, gordinho!”. E então fui tentar a sorte. 2 reais na Lotofácil e 1 na Loteria Esportiva.

30 comentários:

Careca disse...

Bono, o destino prega umas peças na gente. Estou na torcida por você, meu chapa. Não dê moleza e boa sorte!

Ric disse...

Só não vai voltar a cometer esses delitos da infância. rs.

Boa sorte.
Abraço.

Humberto dos Santos disse...

Bono vc é muito competente no q escreve. Logo vai passar essa nuvem negra e sua vida vai mudar.
Seus escritos são ótimos,

Rodrigo disse...

As ruas de salvador e suas histórias fantásticas.
Dizem que sou menino amarelo da pituba, mas foda-se. Tive muito do que você teve aí. Locais diferentes, infâncias felizes.

Francisco disse...

Esses pequenos "golpes" na infância, ao contrário do que muita gente diz, serve pra criar calo e sabedoria.
Quem tem caráter, na vida adulta lembra disso com saudade...a não ser que vire "bandido ou advogado"!
Um abraço!

Júlio disse...

Quem furta quando criança não rouba depois de velho.

Por isso deveríamos ser políticos, não fodidos, hahahahahahah.

Drunken Alina disse...

Hahahaha,esse golpe do criança esperança foi hilário!!!

Tb bate saudades da minha infância =)
Anos 80!

Beijos!

Mi Poulain disse...

Eu não virei advogada, mas trabalho pra eles. Bando de ordinários!

O golpe do criança esperança foi bizarro... como é fácil pegar as pessoas. Eu não era de aprontar desse tipo, mas meu irmão, quando criança dizia para o tio do picolé que se estivesse escrito Kibon no palito dava direito a mais um picolé. O tiozinho sempre caia, coitado!

Garota no hall disse...

Maldade com os velhinhos...

Mateus Henrique Zanelatti disse...

Muito foda esses golpes! A mente das crianças é que pensam de verdade.

Tainah* disse...

vc é ótimo.

Poliana Paiva disse...

Seu Antônio te deixava ver a playboy?
;)

Mimi Kiddo disse...

"Tínhamos até uma caixinha de madeira com o logotipo da campanha".

Pooorra, pegou pesado, hein?! Valia tudo.

Mas não se fazem mais infâncias como antigamente. Sorte que ainda peguei a época legal.

Renne Boz disse...

hahahaha, que barato Bono! Gostei das suas perguntas estratégicas ao tio da banca: "Tem ploc de hortelã?" hahahahahaha.
Cara, que delícia te ler.
Abraços!

Cruela Cruel Veneno da Silva disse...

então... qual criança... criada nas pequenas cidades do interior, ou solta pelas periferias nunca aprontou?

eu por exemplo, nem sempre fui essa flor de "formusura"... quando pequena, subia nas casas das vizinhas para colocar bolas feitas com pano nas chaminés das biscoiteiras...

molhava a bola e colocava lá, entupindo tudo... e ainda tinha a cara de pau de ir ver a fumaça voltar.

Sunflower disse...

Corre, gordinho, corre.

Eu também sempre ficava pra trás nas corridas, porque sou menina.

Aí, usei minha esperteza para safar o meu derriè quando cutucava os cachorros, arrumava alguém que corria menos. Pra se salvar você não tem que que correr mais rápido que todo mundo, só que uma pessoa. Virei publicitária, depois professora.

Valéria Martins disse...

Oi!... É ótimo o seu texto. Hoje em dia, tudo é tão politicamente correto que não há mais espaço para esses pequenos delitos que a nossa - me parece - geração cometia. Eu por exemplo, ia nas Lojas Americanas, enfiava um monte de anéis da seção de bijuterias nos dedos e ia embora feliz da vida. Roubar balas e chicletes no super-mercado também era comum. A gente levava o dinheiro, para o caso de dar algum galho, mas nunca deu. Roubávamos um pacotinho e iámos para casa comendo, saboreando o gosto da emoção. Saudades...

Obrigada por resgatar essas lembranças sem culpa.

Beijos e boa sorte para encontrar uma nova colocação.

Mwho disse...

Bono,
Criança é tudo mala mesmo, só muda o endereço... Fazem tudo Errado...
O problema é quando crescem e estudam para fazer Direito...

Carlos Vin disse...

Texto sensacional, cara...
Tu escreve de um modo que tem um ritmo do caralho pra ler...
Gostei muito!


O comentário desse cara aí de cima é certeiro : "O problema é quando crescem e estudam para fazer Direito..."

Um abraço!

Ricardo Cidade disse...

Paulinho, minha bolinha de gude!

Wiskow disse...

Opa! Parceiro, se puder dá uma lido no ebook que saiu pela Mojo. Grande abraço e vamos em frente...
http://mojobooks.virgula.uol.com.br/catalogo.php

Y. disse...

Genial, como sempre. Se eu for dona de uma editora, um dia, lembrarei de você.
haha!

:)

Samantha Abreu disse...

ah, memóriuas infantis...
eu não corria, essa era a verdade. Já desistia e me entregava antes.
E, além disso, sempre era a última a ser escolhida pros times de volei ou bola queimada na escola. Ninguém me queria no time. Mas colavam de mim na prova de história ou português.
Depois de anos, percebi que podia levar vantagem e só passava cola se fosse capitã do time!
Rá!
beijo, Mr Bono!

Marcos Aquino disse...

isto aqui é um oásis na blogosfera. vou adicionar entre os meus favoritos, de acordo? um abraço

Fernanda Pereira disse...

Durante todo o post senti muita saudade da minha infância e dos meus amiguinhos da rua, que eram muito mais legais do que os da escola.

Mas no final o "corre gordinho", me matou de rir...

ahahahah

Beijos

PS: Sorte!!!

Lela disse...

eu roubei 50 reais de um bêbado. mentira, só fui cúmplice e me beneficiei. mas tava lá né? queria andar de camburão com sirene ligada mas nunca rolou...
-
sobre o post '10 anos', é aquilo mesmo, daquele jeito! quando fiz 24 me dei conta de que tinha lembranças de 20 anos atrás. não bastava o duplo sentido da frase, veio um monte de amargura junto. mas há 20 anos eu ainda era criança, problema vai ser quando eu pensar 'há 20 anos eu já era adulta'...

Rafa Cruz disse...

Opa Bono, beleza? Apesar de comentar raramente aqui eu acho que já li todos os textos seus, são sempre muito bons. Sei lá, só passei pra dizer o que você já sabe: Tu escreve muito bem, e como disse um colega pra o qual eu indiquei esse blog: Seus textos parecem uma conversa, algo bem informal e interessante.
Abraço e sucesso!

Ane Brasil disse...

Caraio, véi, nenhum virou ladrão nem advogado hehehehehe pegou pesado, hein...
Rapá, tô até com vergonha da minha infância... você fez com que eu parecesse a madre teresa de calcutá... que merda, véi, não precisava humilhar assim não!
Sorte e saúde pra todos!

felipe disse...

Aquilo que era infância de verdade. Apesar de ser mais novo tenho saudades daqueles tempo de guri.... hj em dia agente pede uma bola de futebol e nenhum sacana tem.... agora se vc perguntar sobre seriado de tv acabo o pedi para jogar playstation...... pior do que fazer traquinagem quando criança como vc fazia é ficar nesses jogo de mata mata, pois na traquinagem vc aprende muita coisa para sua vida, e o que vc ganha nesses jogos? ....

Anônimo disse...

Bono,

Demorei mas achei. Eu sou a prova viva da nossa infância. Nos seus textos meu PELIDO era RUBALo (da famosa Lapinha). É bom olhar para trás e não se arrepender do que não se fez; fizemos tudo ou quase tudo. Crescemos em um bairro de pessoas , na sua maioria, humildes mas soubemos aproveitar a educação que nossos pais nos deram. Agarramos a chance que a vida reservou para nós. Hoje sou casado e pai de 2 filhos maravilhosos. Meus filhos gozam de uma vida muito mais confortável que a nossa. Você falou muito de sua vó dizendo: " Paulo, não se misture". Ela queria o seu bem, mas não sabia que aquela MISTURA ERA FANTÁSTICA!!!!! O homem é fruto do meio, mas todo "meio" tem um início e um fim. Não podemos ( e nem quero) mudar o começo, mas podemos mudar o fim. Somos senhores do nosso destino. Queria falar muito mais mas o espaço não permite. A nossa amizade me fascina. Podemos ficar anos sem nos vermos mas nos momentos em que nos encontramos é como se o tempo não tivesse passado para nós. Sei que você é um amigo que posso confiar sempre.

meu e-mail: marcospaulo79@bol.com.br