14.12.09

Moisés

Os carequinhas estão sempre por ali. Correndo. Brincando. Ou apenas sentados, esperando. O prédio está cheio deles. O prédio me parece mais triste e sem vida do que os próprios carequinhas. E agora colocaram essa árvore em frente aos elevadores. Uma árvore de natal. No lugar das bolas coloridas são esses cartõezinhos. E em cada cartão há o nome de um carequinha. Não que eu seja insensível. Apenas sou como a grande maioria dos seres-humanos. Sou preguiçoso, não tenho dinheiro, não tenho tempo nem cabeça para esse papo de solidariedade. Mas dessa vez entrei no jogo e peguei um cartão. Escolhi um que estava no lado de trás da árvore. Aposto que eles colocam os carequinhas mais bonitinhos e amáveis na frente. Não, não venha me dizer que a discriminação tira férias no natal.

Moisés Lima Sena. 7 anos. É o que dizia no cartão. Pensei no que o tal Moisés gostaria de ganhar. Brinquedo. Ele tinha razão. Brincar é umas das coisas boas da vida. Pensei em algo que Moisés pudesse brincar sozinho, na sua, para matar o tempo e agüentar o tranco. Então comprei um desses mini-games. De futebol. 40 conto. Achei caro. Mas era um mini-game bacana, da Nintendo. E também era meu primeiro ato de solidariedade do ano. Tinha que fazer bonito.

A festa de Natal dos carequinhas era na própria clínica, que funciona no lobby do prédio. Uma festinha animada, cheia de carequinhas, todos muito parecidos. Faziam uma ciranda. Tinha um palhaço no meio. Música da Xuxa. Havia até uma carequinha vestida de bailarina. A putinha do balcão me apontou quem era o Moisés. O moleque devia mesmo ser parada dura, o tipo anti-social. Não brincava com os outros carequinhas. Estava sentado ao lado da mãe.

- E aí, cara – perguntei – você que é o Moisés?

Moisés não respondeu porra nenhuma. Olhou para mim e para a mãe. A mãe era gostosinha. Mas parecia cansada.

- Acho que você não é o Moisés – eu disse – Você tem cara de professor Xavier. Acertei?
- Diga seu nome, Moisés – disse a mãe – diz a ele que você é o Moisés, diga.

Moisés olhou para mim, riu e cochichou alguma coisa no ouvido da mãe. O pequeno skinhead já estava me sacaneando, e eu já estava de saco cheio. Então lhe entreguei o presente, a mãe agradeceu, eu peguei um pãozinho e um guaraná e saí dali. No mesmo dia, o Camaça, que trabalha no estúdio da nova agência, disse que também deu para um carequinha um mini-game, de futebol, da Nintendo. E que só pagou 9,90 nas Americanas.

Mas eu não podia reclamar. Foi um bom ano. O Flamengo sagrou-se o primeiro Hexacampeão brasileiro de futebol masculino. E eu continuo por aqui, fingindo ser redator. Mas entrei na nova agência. Uma boa agência. Boa até demais. Com esse tipo gente alegre demais e cheia de energia, que fica inventando joguinhos. Agora inventaram esse amigo secreto e inimigo secreto. Tirei um cara que confessou curtir esse lance da putinha mijar na cara dele. Devo ganhar um disco de pagode, um panetone ou uma camisa do Vasco. Sei que vou me fuder nessa história. Gordo só se fode, mesmo no natal.

Por em falar em natal, hoje, quando deixei a agência, avistei Moisés e sua mãe na lanchonete. Quer dizer, Moisés estava lanchando. A mãe estava em pé, de frente para a rua, de braços cruzados. Olhava as luzes de natal. Talvez estivesse se perguntando o que eu sempre me pergunto todo natal. Será que estarei vivo no próximo natal? Enquanto isso Moisés brincava com o copo de Coca-Cola. Nenhum sinal do mini-game. Sacaninha careca.

O Espalitando vai dar um tempo.
No mais, feliz natal a todos. E que em 2010 dê tudo certo.

29.11.09

Eu Precisava Peidar

Acordei com as facadas. O corpo entrevado e as facadas nas costas. Eram os gases. Já não bastavam as crises no rim, volta e meia me vinham esses gases. Presos ao meu corpo. Esmagando as minhas costas. Levantei. Fui para a internet. Havia um e-mail. Uma putinha dizia que queria me entrevistar para um trabalho de faculdade. Foda-se. Com certeza, ela não sentia as malditas facadas. Era sábado. Eu podia ficar na cama. Eu e minha dor. Mas precisava discutir um jingle na casa do Panela. Passei na farmácia e comprei Luftal. Encontrei Seu Edilson no ponto. Vendia seus pasteis gordurosos.

- Paulão, Paulão, Paulão. E o Mengão, Paulão? Parece que agora vai.
- Tomara, Seu Edilson. Tomara.
- Tá com as costas fudida, Paulão?
- Umas dores aí.
- Ah, já tive assim. Quando caí da balaustrada lá na Barra. As puta que me ajudaram.
- Vou lá, Seu Edilson.
- Sério. Se não fosse as puta, eu tava aleijado.

Conheço Panela de longa data. Amigos de infância. Estudamos juntos. Diz ele que hoje é músico. Ele acredita nisso. Isso que é importante. Então quando aparecem esses jingles baratos, Panela me chama para ajudar nas letras. Assim que cheguei, fui direto à cozinha, pegar um copo d'água para tomar o remédio.

- Essa mulher tá enchendo o saco, Bono – disse Panela –, ela disse que quer um jingle mais picante.
- Manda ela sentar em minha pica.

Conversamos um pouco sobre a letra e sobre o ritmo. E enquanto Panela arranhava o jingle no teclado, fiquei vasculhando seus arquivos de sacanagem. A maioria fotos caseiras. Aquilo de sempre. Putinhas arreganhadas e chupando rolas em quartos de motéis baratos. Putinhas amadoras. Caixa do Bradesco, Aluna de Direito da FIB, balconista da C&A. Depois cliquei em outra pasta. Mais uma caralhada de fotos. Mas as meninas pareciam ser mais novas. Menininhas sem peito. Calcinha de algodão. Em poses estáticas. Aquilo eram crianças. Uma delas não parecia ter mais de nove anos. Gelei com aquela porra toda. E senti mais uma pontada de dor em minhas costas.

- Que merda é essa, Panela?
- O quê?
- Essas gurias? Você é algum tipo de pedófilo, caralho?
- Ah, isso foi um cara que me passou.
- Que cara, porra?
- É de Feira. Você não conhece. Mandou no meio de outras aí.
- E o que é que você tá fazendo com essa porra?
- Eu vou deletar, porra. É porque esqueci.

Panela estava branco. E suava. O Luftal demorava de fazer efeito. Olhei mais uma vez para a foto. A menina não tinha nem pentelhos.

- Panela.
- Hum?
- Eu preciso peidar.

Panela riu e voltou para o teclado. Não demoramos muito. Em resumo, tiramos do jingle a parte que falava de paz e repetimos o refrão mais vezes. Ninguém quer saber de paz.

Deixei a casa de Panela antes do meio-dia. Peguei o busu com a esperança de aparecer algum baleiro vendendo Trident. Um chicletinho também ajuda a soltar uns arrotos. Era disso que eu precisava. Peidar ou arrotar. Nada demais. Nada mais humano. Mas vá sair por aí dizendo que está com gases e precisa peidar. “Hi, ele falou peido”, “Bono, você é podre”. Deixa eu dizer uma coisa. Somos todos podres. Até os bonitos. Pelo menos por dentro. Sabe aquela loirinha rica de olhos verdes e pele de bebê? Pois é. Também peida. Pior. Peida e faz cocô. E digo mais. O cheiro não lembra nada Dolce Gabbana. Pensei em Panela. Nos conhecemos na quarta série. Lembro do primeiro dia de aula. Eu disse, você parece o Topo Gigio. Ele disse, e você é gordo. Lembrei do email da putinha que queria me entrevistar. Ela podia ser gostosa, quem sabe. O ônibus chacoalhava sobre as ruas de Salvador. Eu podia sentir as facadas flutuando pelas minhas costas. Lá fora, vi quando um carinha tropeçou e partiu a sandália. Ele olhou para trás, largou as duas sandálias e seguiu em frente, descalço. Eu sempre quis saber como surgiam as sandálias perdidas pela rua.

15.11.09

A Mulher Mais Rabuda da Cidade

Lojas de conveniências, essas dos postos de gasolina, são uma facada. Mas era minha única opção. Já passava de uma da tarde. Sentia fome. É impressão minha ou nessas lojas tudo parece mais gostoso? O mesmo pacote de Bono que tem em qualquer mercado, ali, naquela prateleira, ao lado do Cookies da Nabisco, parece mais gostoso, parece brilhar mais. A diferença é que é o triplo do preço. Eu procurava um sanduíche. Havia um monte deles naquela geladeira. Parecia uma geladeira mágica. Havia os de ricota, mas não sou viado. Peguei um de filé mignon. Fui até a outra geladeira mágica e peguei uma Coca-Cola. Foi quando vi aquela bunda. E meu pau subiu. A mulher tinha uma bunda, que vou lhe dizer. A loira parecia uma daquelas dançarinas do Faustão. Era um chicote grande e matematicamente perfeito. A cavala vestia um jeans apertado, que era possível perceber a calcinha enterrada no fofinho. Fingi olhar o preço do pão de mel só para ver aquele rabo mais de perto. A jumenta pegou um Doritos. Era uma safada. Se ela me desse uma chance, não ia ter muita conversa. Eu falaria logo, de quatro, de quatro, fica logo de quatro, pelo amor de Deus. Mas acho que eu teria bater uma bronha antes. Senão era botar e gozar. Se bem que nem sei se eu conseguiria comer aquela jega. Tanta bunda, tanta carne, esse meu pauzinho de merda talvez nem alcançasse a terra prometida. Pensei até em dar minha Coca-Cola a ela. Quando ela perguntasse, o que é isso? Eu diria, parabéns, você é a mulher mais rabuda da cidade. Foi quando escutei:

- Encosta aí, gordo.

Era um assalto na loja. Um assalto de verdade. Dois caras. Um deles vestia uma camisa do Flamengo, uma camisa antiga, acho que de 95. Estavam armados. Enquanto o outro pegava a grana do caixa, o flamenguista mantinha os clientes e outros funcionários encostados no balcão do cachorro-quente. Sou frouxo como a porra nessas horas. Lembrei de outros assaltos. Pensei que fosse morrer. Até comecei a rezar. Pai nosso que estais no céu, santificado seja o vosso, aquele rabo, seja o vosso nome, bundão da porra, meu Deus, Pai nosso que estais, seja feita a vossa, te lasco toda, vagabunda, seja feita a vossa vontade, santificado seja aquele rabo que estava bem na minha frente. Nunca comi e sei que nunca comerei uma mulher daquelas. E se eu pedisse com humildade? Por favor, deixa eu te comer, por favor, por favor, só uma vezinha, na moral, eu meto, tiro e pronto, fica só entre a gente, ninguém vai saber que você deu sua bunda linda e maravilhosa para um gordo feio e asqueroso. Se eu comesse aquele rabo, poderia levar dois tiros nessa minha barriga mole e nojenta, que já teria cumprido meu papel nesse mundo.

- O celular, gordo, passa o celular – disse o flamenguista.

Entreguei meu celular.

- Puta que pariu, pode ficar com essa porra.
- Foi mal, cara. Só tenho esse.

Então os caras terminaram o trabalho. Saíram correndo em direção à Pituba. Eu estava vivo ainda. Aos poucos os ânimos se acalmaram. Só a putinha do caixa ainda estava chorando. A mulher mais rabuda da cidade perdeu o celular, mas pagou seu Doritos e deu o fora. Fui até o caixa. Aproveitei e peguei um Trident. Do verdinho, sabor planta. Um sanduíche, uma Coca-Cola e um Trident. Dava R$ 8,30. Passei o cartão. A chorona disse, desculpa, senhor, mas o cartão não foi autorizado. Era fim de mês. Então dei 1,30 à putinha e levei o chiclete.

1.11.09

Mais do Mesmo

O de sempre. Me arranjaram mais uma entrevista de emprego. Saí uma hora antes. Estava sentado no ponto quando a putinha veio e sentou ao meu lado.

- Oi – ela disse.

Pronto, pensei, vou ser assaltado. Mulheres bonitas não falam comigo assim, do nada.

- Oi – respondi.
- Não tá lembrado de mim? – ela disse

Porra, pensei, nunca me lembro de ninguém.

- Da Academia do Corpo – ela disse – malhamos juntos um tempo. Depois você sumiu.
- Ah, claro, da academia. Me lembro de você.
- Era engraçado, você reclamava de tudo, os aparelhos, até da música, lembra?

Claro, pensei, agora lembro bem de você, gostosa, lembro que bati umas duas em sua homenagem.

- É – eu disse – esse negócio de academia me irrita um pouco.
- Ah, lá vem meu ônibus – ela disse – tchau.
- Tchau.

Quando vi a putinha de costas, subindo no ônibus, lembrei que não bati apenas duas, mas sim umas sete bronhas em sua homenagem.

Logo depois passou o velho Pituba. Não estava cheio. Mas não havia muitas opções. Sentei ao lado de uma mulher sem graça. Mais uma entrevista de emprego. Não custava nada tentar. A não ser o dinheiro do busu. 2,20 para ir. 2,20 para voltar. Se ao menos o cobrador fosse o Vitorinha. Um velho amigo cobrador de ônibus. Ele tinha um esquema com um cartão de estudante. Passava o cartão na máquina e dizia, pode passar, Flamenguinho. Eu só precisava pagar um pouco mais da metade da passagem. Se fosse hoje, por exemplo, eu daria 1,50 e ficaria tudo certo. O esquema era só para os camaradas. O motorista também estava no jogo. Nunca fui muito adepto desses esquemas. Mas é aquela coisa, donos de empresas de ônibus têm mais que se fuder. A mulher ao meu lado, a sem graça, se levantou e tentou abrir a janela. Não conseguiu. Fingi que não vi. Vai que tento abrir a porra da janela e não consigo. Ficaria todo mundo do busu pensando, olha só, que gordo lerdo. Mais adiante entrou um carinha vendendo paçocas e jujubas. Esses caras, os baleiros, quando não há crianças por perto, sempre vêm pro meu lado. Fingi que não o vi. Logo depois chegou meu ponto.

Era um prédio moderno. Bacana. Duas torres e tal. Havia um mal encarado no balcão da recepção. Terno e gravata. “Agência de Comunicação é décimo primeiro, não é campeão?” – perguntei. Ele confirmou com a cabeça. Havia dois carinhas no hall do elevador. Um era office-boy, branco e baixinho. O outro era alto, negro, gordinho e tinha cara de abestalhado. Entramos os três no elevador.

- Você conhece o negão da recepção? – me perguntou o gordinho.
- Não.
- Ele te deixou passar na boa. Pra mim ele pediu meu RG.

O boyzinho com cara de jóquei olhou para trás, sorriu e deixou o elevador no terceiro andar.

- Anotou meu RG e gravou meu rosto numa câmera – disse o gordinho.

Quase mando o gordinho deixar de viadagem e acordar para a vida. Quase digo a ele que o mundo é uma lata lixo repleta de ratos. E que apesar de serem todos ratos, alguns são mais nojentos que os outros, é o caso dos negros, dos gordos, dos viados e dos caolhos. E era isso que as pessoas achavam dele, o viam como um grande e nojento tolete preto de bosta. Quase digo que esse papo de Obama é uma puta balela. Não há nada de novo. A sacanagem continua. Os olhares atravessados continuam. As piadas continuam quando ele sai da sala. Quase que digo que tem pessoas que não fodem com negros por nojo ou princípio. Quase digo que ele era um bandido em potencial não apenas para o porteiro, mas para a copeira, o encanador, a faxineira, o advogado, a publicitária, o engenheiro, o dono do prédio, o dono da rua, o prefeito, o governador e o turista. Se vacilar, até a mãe dele o condenava por ter cabelo ruim. Eu queria dizer para o gordinho que ele não ligasse, mandasse o mundo todo se fuder. Mas como é que não liga, se essa porra dói feito pedra no rim? Quer dizer, nem tanto, mas dói pra caralho.

- É a segunda vez que venho aqui – menti pro gordinho.
- Segunda vez?
- Ontem ele me pediu a carteira e filmou minha cara.
- Ah...
- Entrevista de emprego...
- Ah, tá...
- Essas dinâmica de grupo, a semana toda, sei que não vou passar...
- Pô, boa sorte...

Deixei o elevador no décimo primeiro. Sala 1103. Apertei a campainha. A porta se abriu. Eu disse, boa tarde, a putinha da recepção respondeu. Outra entrevista, pensei, essas coisas cansam.

18.10.09

Uma Porra de Soja

O ar-condicionado da agência, quebrado. Eu trabalhava os mesmos títulos. Os mesmos clientes. Era sexta-feira em Salvador. Eu não vestia branco. Nem dançaria pagode quando a noite chegasse. Mas esperava dar meio dia. Para bater um gigantesco prato de caruru, vatapá, entupido de farofa de dendê. Quando o telefone tocou. Era o Man.

- E aí, Man – eu atendi.
- E esse almoço, man?
- Tava pensando no de sempre. Lá em Dona Irene. Aquele vatapá fudendo.
- Paty Guaraná achou um lugar novo.
- Detesto esse lance de lugar novo.
- Vamos lá, man. A gente bota o papo em dia.
- Como é o nome dessa porra?
- Acho que é Açafrão, man.
- Açafrão?
- Gergelim. Acho que é Gergelim. Relaxe, man. A gente te pega aí.
- Merda.

Espinafre. Era o nome do lugar. Bem no meio do Rio Vermelho. Onde toda loucura pode acontecer. Para chegar ao local, você tinha que subir uma escadaria de pedras. No meio de uma mata. Mata mesmo. Araras, bicho preguiça, lobo guará, plantas alucinógenas, essas coisas. Lá dentro, tudo em tons pastéis, tudo zen, como eles dizem. No buffet, só havia folhas, raízes, grãos, essas palhaçadas. Botei no prato uma porra de soja, a única coisa que me parecia comestível. O cara que pesava os pratos, ele usava uma bata e tinha uma tatuagem na testa, olhou para mim com aquela cara, "seja bem-vindo, homem obeso, nós temos a salvação para você". Filho da puta.

Sentamos à mesa.

- Porra, Paty – eu disse –, comida vegetariana é foda.
- Pense que isso vai lhe fazer bem, Bono.
- O que é isso aí, man?
- Sei lá. Uma porra lá de soja.
- Olha só, tem até musiquinha – disse Paty.
- Enya – disse Man.
- Quando a gente tava subindo, vocês viram a cara da galera que tava descendo? Pareciam dopados. Em transe. Como se fossem zumbis.
- Vocês tão sentido esse cheirinho? – disse Paty – Acho que é sândalo.
- Sândalo o caralho – eu disse – aposto que eles colocam alguma porra na comida.
- Não começa não, Bono – disse Paty.
- Eu lembro que eu só estudava ouvindo Enya, man. Segundo grau. Bons tempos, man.
- É sério – eu disse –, olhe ao redor, Paty. Aqui só tem porra-louca. Olha aquele carinha, a barba cheia de trança.
- Mas tem umas gatas aqui, man.
- Esquece. Tudo com cabelo no suvaco.
- Gente, vamos pedir alguma coisa pra beber – disse Paty.

Então veio o garçom. Um velho de cabelo grande e branco. Tinha uns sete colares pendurados no pescoço. E acho que também tinha os olhos vermelhos.

- Eu quero um suco de abacaxi com hortelã – disse Paty.
- Suco de laranja, man.
- Uma Coca-Cola, só gelo.
- Não temos refrigerantes, senhor.
- Porra, só tem suco?
- Perfeito, sucos e chás.
- Porra, me vê um suco de limão.
- Perfeito.
- Não precisa colocar nada dentro. Só quero o suquinho mesmo, na manha.
- Perfeito.

Assim que o pajé saiu, continuamos a conversa.

- E esse feriadão, man?
- Eu tô branca demais, preciso de uma praia – disse Paty.
- Vou ficar em casa – eu disse.
- Porra de ficar em casa, man. Vamos pra Chapada.
- É uma boa – disse Paty.
- Porra de Chapada.
- Man, tem cada trilha de fuder.
- Porra de trilha. Eu sou algum sacana?
- Não adianta, Man – disse Paty – Bono não gosta de nada.
- Mas vale à pena, man. A gente encontra cada cachoeira do caralho.

Foi nessa hora que o Gandalf chegou com as nossas garapas.

- Sim, e depois? – perguntei a Man.
- Depois o quê, man?
- Depois da cachoeira, cacete, faz o quê?
- Depois volta pra pousada, Bono! – disse Paty!
- Esse é o problema. Você anda, anda, anda, escala, desce, pula, se fode todo pra encontrar uma porra de uma cachoeira. Grandes merdas. Mas vamos dizer que é uma cachoeira fudendo, linda, essa porra toda. Aí você toma banho na sua cachoeira, beleza, aí depois tem que andar tudo de novo, voltar a porra toda, se fuder tudo de novo. O saldo é negativo. Se por acaso, depois da cachoeira, viesse uma porra de um helicóptero, me pegasse e me levasse de volta pra pousada, tudo bem. Mas não, tem que andar tudo de novo. Pra ficar a noite toda passando Hipoglós no rabo, com a perna pra cima e você...porra, um duende!
- Hum?
- Um duende, porra. Eu vi um duende. Correndo ali fora!
- Ok, nada de Chapada – disse Paty.
- Eu não tô entendendo nada, man. Você quer dizer que tem duende na Chapada?
- Porra, eu quero dizer que aquele velho sacizeiro desgraçado não botou açúcar na porra do meu suco, mas botou alguma porra, algum pozinho maldito, porque eu vi uma merda de um gnomo, um hobbit, sei lá, passar ali fora, correndo, caralho.
- Pra variar, é Bono botando defeito no restaurante.
- Mas você falou a verdade, man. Eu sempre levo Hipoglós quando vou pra Chapada, senão me fodo, uma perna roça na outra aí...

Paty Guaraná e Man continuaram falando sobre as opções do feriadão na Bahia. Falaram mais da Chapada, da praia de Jauá, de uma Choppada em Sauípe. Nada me interessava. Exceto a preferência pelo acarajé e vatapá, acho que não tenho nada da Bahia. Não tenho essa alegria toda. E meu feriadão seria apenas mais um sábado, um domingo e uma segunda. Talvez eu pegasse um filme. Se desse sorte, poderia comer alguém. Era isso que eu queria fazer no feriadão. Porra de Chapada. Eu queria escalar uma bucetuda. Uma mulher com a buceta bem grande para eu subir e descer.

Assim que terminamos de comer, fomos pagar a conta. Era numa espécie de cabana. Cheia de souvenirs, incensos, mandalas, não-sei-o-que-lá dos ventos e panfletos. Vários panfletos de massagens, óleos e bruxarias. A porra de soja deu 16 conto. Essa turma é louca, mas é esperta. Viva a natureza e dinheiro no bolso. Com 16 conto, eu batia dois pratos de caruru em Dona Irene.

- Confesse, Bono – disse Paty – tá se sentindo mais leve?
- Acho que ainda peso meus 120 quilos.
- EU VI, EU VI, EU VI, MAN!
- Viu o quê, menino? – disse Paty
- O duende. Eu vi o duende, man!
- Até você, Man? – disse Paty.
- Tem umas orelhinhas assim, né man? – perguntei.
- Umas orelhinhas de ponta, man. Ele é pequenininho. Correu ali pro canto.
- Tinha um shortinho vermelho?
- Acho que era roxo, um shortinho roxo, man.

5.10.09

Meu Pau é Flamengo

1987. Um ano importante. Foi quando bati minha primeira punheta. Eu era apenas um gordinho de dez anos descobrindo os grandes prazeres da vida. Como correr pelo Largo da Lapinha. Jogar bola com os amigos. Passar a mão nas menininhas. Torcer pelo Flamengo. Foi a primeira vez que vi, conscientemente, o Flamengo ganhar um campeonato. Aquele time era demais. Zé Carlos, Jorginho, Leandro, Edinho, Leonardo, Andrade, Ailton, Zinho, Renato Gaucho, Bebeto e, o melhor de todos os tempos, o velho Zico. Lembro até que ganhei no bafo a figurinha de Jorginho, a última que faltava para completar o meu álbum de figurinhas. Se hoje ainda me resta algum resquício de autoestima, devo isso aquele ano, 87, quando o Flamengo sagrou-se o primeiro tetracampeão brasileiro.

Por isso não pensei duas vezes quando conheci essa putinha, a Janine. Ela trabalhava no arquivo de uma produtora de vídeo, onde passei um tempo dando uma de roteirista. Janine era feia, é verdade, mas tinha duas super bolotas de peitos que deixavam qualquer cacete duro. Conversamos vez ou outra, mas foi na festinha de fim de ano, que tomamos umas taças de vinho e nos conhecemos melhor.

- O vídeo de natal ficou lindo, Bono.
- Obrigado, Janine. Mas eu só escrevi os diálogos.
- Só não entendi aquela parte que você critica o panetone.
- Engraçado, como você fala a letra T.
- Sou pernambucana, ainda não perdi o sotaque.
- Pernambucana? Eu conheço uns caras de Recife.
- Acho que já tô tonta, Bono.
- Bons amigos, torcedores do Santa Cruz.
- Eu torço pro Sport.
- Porra, Janine, pro Sport?
- É sério. Pra mim, chega de vinho.
- Mas você sabe que o Flamengo é o verdadeiro campeão de 87?!
- Não, não sei. Não entendo nada de futebol. Digo que sou Sport por causa de meu pai.
- Janine.
- Hum.
- Vamos pra casa de minha avó? Ela tá viajando.
- Bono, eu acabei de sair de um relacionamento, você é...
- Lá tem um corredor bem grande. Você vai gostar.
- Corredor?

Tomamos mais um gole de vinho e deixamos a festinha. Entramos num táxi e fomos para a casa de minha avó, onde fui direto ao assunto.

- Tira a roupa.
- Poxa, é grande mesmo o corredor.
- Tira a roupa.
- Vá com calma, Bono, eu também tô a fim, mas tô tonta e...
- Tira a roupa, porra.

Janine tirou a roupa. Eu já planejava fazer uma espanhola supersônica, mas fiquei ali durante um tempo olhando para aqueles peitões mágicos.

- Agora corra – eu disse.
- O quê?
- Corra.
- Como assim, Bono?
- AGORA CORRA, PUTA, CORRA!

Foi quando bateu o desespero na cara de Janine e ela correu em direção à cozinha. Eu sempre quis ver uma peituda correndo alucinada por um corredor gigante. Então tirei a roupa e fui atrás dela. Encontrei Janine agachada, soluçando atrás da mesa. E com a cabeça do meu pau, dei três cutucadas em sua cabeça, e disse baixinho:

- Quer dizer que você é Sport?

Como eu disse, 87 foi um ano importante. Desses que a gente leva como referência para o resto da vida. Já foi até final de minha senha bancária. Eu sei, 87 ficou bem para trás. Já não vivo na Lapinha. Já não consigo jogar bola. Já não tenho amigos para jogar bola. E as menininhas já não querem saber de mim. Por isso me revolto e não aceito quando uns filhos da puta desinformados insistem em dizer por aí que o campeão brasileiro de 87 foi o Sport Recife, arrancando a única coisa boa que ainda me resta daquele ano e que está costurado no meu peito. Por isso naquela noite fiz questão de meter no rabo de Janine. Por isso meti com força. Por isso puxei seu cabelo e disse, 87 É NOSSO, SUA PUTA, 87 É DO MENGÃO. E só não enfiei meus ovos naquele rabo porque tive humildade em gol. Depois ela veio com aquele papo, você é louco, Bono. E eu disse, e se você falar mal do Zico, eu juro que como seu ouvido.

20.9.09

O Garoto

Era uma cidade pequena. Pequena e estranha. Não havia muito que fazer. Kurtz e eu apenas rodávamos em seu velho Mustang à procura de um bar. Era preciso beber para disfarçar o tédio daquela cidade.

- Eu era pilhado, Bono. Achava que iam invadir o país justo no dia que eu tava de sentinela.
- Só tem lan house nessa cidade.
- Sofri pra caralho no exército, Bono.
- Só lan house.
- Mas foi no exército que aprendi a acordar cedo.
- Outra lan house.
- Aprendi a acordar cedo e a ser leal.
- Tô fudido.
- Sou leal aos meus comandantes.
- Caralho de tanta lan house.
- Leal aos meus comandados.
- Até agora não vi uma McDonald´s.
- Leal à minha família.
- Lan House tem um monte.
- Leal aos Ramones.
- Ôpa, um bar!

Estacionamos. Antes de descer, Kurtz pediu para esperar. Então meteu a mão no bolso e tirou um saquinho. Era pó. Fez três filinhas sobre o painel do carro e meteu o nariz.

- Pensei que tinha parado com essa porra.
- Eu parei, Bono. Mas o garoto é foda.
- Que garoto?
- Você sabe, o garoto.
- Que porra de garoto?
- O diabo, porra. Ele fica ali. O tempo todo. E não adianta lutar, o garoto sempre vence.
- Ok. Mas vamos logo, que eu tô com fome.

Entramos no bar. Era uma espécie de pub. Um lugar agradável. Tocava rock. Pouca luz. Pouca gente. Uma mesa de sinuca. Sentamos e pedimos as bebidas.

- Gostei daqui, Bono.
- É, mas você reparou que tem duas lan houses ali na frente?
- Essa cidade é estranha. Já percebi isso.
- Tá vendo aquele cara?
- Qual?
- O coroa com cara de nazista.
- Que é que tem porra?
- Pedófilo.
- Puta que pariu, meu irmão. Para de julgar as pessoas.
- Pedófilo escroto.
- Se você fosse rico, magro, bonito e tivesse cabelo, ninguém ia te agüentar, porra.
- Uma amiga minha, dessas miúdas, sem peito, parecendo uma menina. Tinha um namorado que era a cara desse filho da puta aí. Eu já desconfiava que ele fosse pedófilo. Quando eles terminaram, ela me disse que na hora de fuder, ele gostava que ela ficasse imóvel, paradinha e calada, enquanto ele bulinava ela.
- Porra, Bono. Vamos pedir um tira-gosto.

Pedi pititinga. Kurtz foi de iscas de frango.

- Aquele de gravata, Bono.
- Que é que tem?
- No mínimo, no primeiro degrau das drogas, cheira pó.
- Ele é muito estranho mesmo.
- Eu sou um sobrevivente, Bono. Conheço.

O serviço era bom. A comida veio rápida. Junto com mais duas doses.

- Porra, Bono. Olha aquela ali.
- A baixinha?
- A de verde.
- A pititinga tá fudendo.
- Eu sou leal à minha mulher, Bono. Mas o garoto é foda. Mulher branquinha assim...
- É foda, você dá um tapa assim na bunda, fica aquela marca...

POW! POW! POW! – O FRANGO TÁ DURO, POOORRAAAAAA! – berrou Kurtz, dando três tiros para cima.

Lembro que um dos garçons foi o primeiro a correr. As mulheres gritavam. Os homens corriam. Alguns pulavam no chão. Depois se arrastavam o mais depressa que podiam. E em questão de segundos, Kurtz e eu éramos os únicos sentados naquele pub.

- Tá maluco, porra?
- O frango tá duro, Bono.
- Porra de frango. Que arma é essa, caralho?
- Esse frango me lembrou meus tempos de caserna, Bono. Prove aqui essa porra.
- Porra, acho que me caguei, caralho!
- ALGUÉM TROCA ESSA PORRA DESSE FRANGO!
- Caralho, me caguei!

Eu vou dizer uma coisa. Toda guerra é escrota. E o que mais tem por aí é filho da puta que só aparece na hora de receber a medalha, e desaparece logo que a bomba cai. Por isso é raro encontrar um cara como o Kurtz. Um comandante leal. Um amigo leal. Há os que o chamam de louco. Há os que o chamam de estúpido. Acho que é tudo isso também. Nos conhecemos numa guerra suja e perdida nas fronteiras de Sergipe. Mas ele vive pelas bandas do Recife. De tempos em tempos nos falamos. Um dia desses, às sete horas, de uma manhã de domingo, o telefone tocou. Era o Kurtz.

- Bono, PORRA!
- Comandante.
- Como é que tão as coisas?
- Você sabe, sobrevivendo.
- O garoto, Bono.
- Que é que tem o garoto?
- Acho que me livrei do garoto, Bono. Já faz um ano.
- De fuder.
- Tô só na erva.
- Na manha.
- E o blog?
- Na mesma.
- Escreve uma história nossa, porra.
- Vou escrever.
- Mas sem putinhas, porra. Você só sabe escrever negócio de putinhas.
- Ok, sem putinhas.
- Você é um soldado leal, Bono.

6.9.09

1996

Como uma formiguinha que resiste à morte. Você dá uma chinelada, ela finge a própria morte, e quando você pensa que não, lá está ela, a formiguinha, andando outra vez. Você dá outra chinelada, e mais outra, ela sente o golpe, mas continua mexendo as perninhas. Então você dá mais outra chinelada, e mais outra, e mais outra, você espanca a formiga e pensa que venceu. Porque se você olhar de perto, bem de perto, ela está lá, mexendo nem que seja uma anteninha, arrastando seus últimos segundos de vida. Isso para mim é poesia. Sempre admirei os derrotados, os feridos que não se entregam e resistem ao capricho da morte. Aqueles que, por questão de honra, princípio, raça ou pirraça, não dão o braço a torcer e estão cagando para os vencedores. O vencedor pode ter a medalha, mas ele não tem a menor graça. Sou mais o pugilista que foi à lona, que já não enxerga porra nenhuma e cospe sangue na cara do campeão mundial. Sou mais o samurai que não se entrega nem fudendo, o bêbado que resiste ao tombo, contrariando a vontade de todos, o cachorro sem perna que ainda luta por um pedaço de bife, o desempregado que pendura a conta, o time rebaixado que tenta um gol de honra nos acréscimos. Eu torço para a formiguinha. Só não tenho um décimo da força que ela tem.

Digo isso porque aquele ano não foi dos mais fáceis. Era abril quando minha madrinha saiu do jogo. Uma parada no cérebro, uma coisa assim. Uma mulher elegante, extremamente inteligente, que me incentivava nos estudos. Lembrando agora, percebo que sua morte foi uma coincidência. Porque eu não estava nada bem. Era o segundo ano na faculdade. Havia matérias como administração, economia, teoria de não-sei-o-quê. Aulas intermináveis, assuntos impróprios. E eu não tinha nenhuma vontade. Certa vez uma dessas professoras me pegou dormindo durante aula. Falou em desrespeito, irresponsabilidade, imaturidade. Eu era imaturo, é verdade, por isso não a mandei tomar no cu.

O ano passava devagar, mas logo depois, recebi um telefonema. Meu grande amigo Deco, dos tempos de escola, havia sofrido um acidente. Um acidente fatal. O momento não podia ser pior. Porque 0s amigos começavam a se tornar raros. Era uma questão de sintonia, preferências. Era o tempo das academias, marombas, bombas, e camisetas apertadas. E eu, simplesmente, era gordo. Eu não conseguia entender. Havia uma roda de amigos, e de repente, um virava pro outro e dizia, se ligue, pulando no chão e fazendo flexões. Eu dizia, que merda é essa? Vocês estão malucos, porra? E ainda tinha um agravante, o pior de todos. O meu cabelo. Eu sabia que um dia ficaria careca, era minha última chance, então deixei o cabelo crescer. O problema é que meu cabelo era uma palha desgraçada, tinha que deixá-lo preso, se o soltasse, Phuff!, eu me transformava automaticamente no Capitão Caverna. E você sabe. Tudo que um adolescente quer por perto, por mais ridículo que ele seja, é encontrar outro adolescente mais ridículo do que ele. Então eu era o centro das piadas. Ganhei o apelido de Paulo Medonho. Era Paulo Medonho isso, Paulo Medonho aquilo, Paulo, corta essa juba, você tá medonho. Havia uma verdadeira campanha para eu cortar meu cabelo. Era incrivelmente feio, de verdade. Mas eu me recusava. E pagava por isso. É que os amigos da Lapinha estavam descobrindo novos amigos e já não faziam mais questão da minha presença. Certa vez ia ter uma viagem, uma viagem que fazíamos há séculos. Mas naquele ano, justamente naquele ano, o dono do carro me disse que não havia mais vaga para mim, me substituindo por um novo amigo, alguém com um cabelo humano e corpo sarado, que lhe fosse mais útil, é claro, o ajudando a se aproximar das putinhas. E aos 18 anos eu aprendia o quanto a amizade pode ser prática.

Mas a chinelada mais forte veio no mês seguinte. Minha avó saiu do jogo. A minha avó. A minha avó. A minha avó. A minha avó que me fazia pão assado na caçarola na hora da sessão aventura, que eu desconfiava ser umas das poucas pessoas que gostavam de mim gratuitamente, e que também me pedia para eu cortar o cabelo. Sabe a formiguinha? Foi a primeira vez que pensei em drogas. Mas eu não tinha coragem, nem dinheiro, nem competência. Aliás, não tinha perfil para nada. Foi nessa época que fui reprovado no psicoteste da Telebahia Celular.

Dias depois da minha avó, eu escuto no rádio sobre o Renato Russo. Era o que faltava. O mundo era outro. Já não tínhamos o Cazuza, nem o Curt Kobain. Era de se pensar no suicídio. Vivíamos no fantástico mundo da Boquinha da Garrafa, Dança da Tartaruga, Backstreet Boys, Britney Spears, Alexandre Pires, Ratinho, Malhação, banheira do Gugu, Cumpadi Washington e Carla Peres. E por falar em bunda, é evidente que não comi nenhuma naquele ano. O mais próximo que cheguei foi numa morena de Barra do Pote. Toquei violão, disse umas coisinhas engraçadas em seu ouvido, ela olhou pra mim, sorriu, mas olhou pro meu cabelo e preferiu outro cara. Nunca bati tanta punheta na vida como naquele ano.

96 levou não apenas algumas pessoas que eu gostava. Foi uma surra de cinto. Cada golpe levando um pedaço da minha carne, de meu sangue, de minhas células, de minha infância, de minhas proteínas. Acho que nem o bom Jack La Motta resistiria a tanto em um único round. Tem gente que diz que as feridas trazem maturidade. Eu digo que maturidade de cu é rola. Porque no dia 30 de dezembro, veio outro telefonema. Era do interior. Minha bisavó também havia saído do jogo. Confesso, já estava cansado. Pensei, ok, anos 90, vocês venceram. E antes do reveillon, fui até a barbearia perto da feirinha e disse, corta essa porra.

22.8.09

Rabuge

O desemprego é uma lástima. Já engordei quatro quilos. A gente levanta, come alguma coisa e volta. Levanta, come alguma coisa e volta. E assiste a qualquer porcaria na TV. Passava aquele quadro no telejornal. Pretos e pobres numa praça pública erguendo certificados rotos de cursos técnicos e implorando por uma vaga. Quem assiste aquilo? Só os desempregados. Uma mulher de meia idade pedia uma chance de assistente administrativa ou cozinheira ou serviços gerais. Bem vinda ao clube, dona. Ao clube dos sem qualificação, sem portfólio, sem perfil. Acredito que eles se divertem com aquilo, os diretores e assistentes, os que inventam o perfil. Nunca sei o que eles querem. Já fui reprovado até em psicoteste. Na antiga Telebahia Celular. Havia aqueles traços, desenhei uma banda de rock, devem ter achado que eu era algum tipo de louco, fanático ou coisa assim. Acho que sou a única pessoa no mundo reprovada num psicoteste. Fiquei imaginando, será que aquele povo, o da TV, na praça pública, será que aquele povo também passava por psicotestes? Será que eles também engordavam?

Uma coisa é certa. O ar é sempre quente nos piores dias. Desliguei a TV e fui buscar algum vento na janela. Nada. Vi apenas o Rabuge. Um velho amigo de infância. Estava sentado na sombra de uma árvore. Coincidência. Rabuge também não tem o que eles chamam de perfil. Parado há oito meses. Teve que vender o carro, sua alma. Soube que o primo da mulher que ele come ficou de lhe arranjar alguma coisa numa cervejaria. Eu queria ser como Rabuge. Apenas sentar embaixo de uma árvore e acender um cigarro. Não sei por que, mas acender um cigarro é como dizer “tá tudo bem” ou “tô cagando pra isso”.

Eu começava a sentir fome outra vez. Era melhor sair de casa. Quando eu já estava na porta, o telefone tocou. Pensei até em não atender.

- Alô – eu disse.
- Bom dia, eu queria falar com o senhor Paulo Bono.
- É ele.
- Senhor Paulo, aqui quem fala é Tatiana da Credicard...
- Vai me oferecer algum produto, Tatiana?
- Eu queria estar apresentando...
- Tô desempregado, e meu time perdeu em casa. Não é uma boa hora, benzinho.
- A Credicard agradece, tenha uma boa tarde.

Desliguei o telefone. Saí de casa e fui até a árvore da esquina. Onde estava Rabuge. Sentei.

- E aí – eu disse.
- E aí.
- Calor da porra.
- Tá foda.
- Maresia da porra.
- Tá foda.
- E a cervejaria?
- Botaram um negócio de um teste.
- E aí?
- Me fudi.
- Psicoteste?
- Que porra é essa? Não sou tão burro assim.
- Sei lá, porra. Que teste foi?
- Umas contas.

Falando em contas, lembrei que tinha de tomar cuidado com meus óculos. Sempre quebram quando estou desempregado.

- Mas tô botando currículo – disse Rabuge –, daqui a pouco me chamam.
- Me arranja um cigarro.
- Você fuma, Paulão?
- Vou fumar essa porra.
- E você? Achou alguma coisa? É propaganda, marketing, que você faz, né?
- Cogffh! Cogffh! É uma putaria dessa. Cogffh! Agh! Caralho!
- Que foi, porra?
- Cogffh! Cogffh! Toma a porra do seu cigarro.

11.8.09

A Cinta Liga

Regina comprou uma cinta liga, mas fazia cara de nojo na hora de chupar. Mesmo assim demos aquela velha trepada. Depois fiquei na TV. Ela foi para a cozinha, fazer sanduíches. Demorou um pouco, o pau subiu de novo, e fui atrás dela. Regina estava lá, raspando a maionese. Peguei em sua bunda e perguntei, posso meter, e ela disse, pode. Então ficamos ali. Naquelas metidinhas. Mas estava sem graça. Para ela também. Desisti e sentei na cadeira. Ela voltou para a maionese. Mas sabe como é, aquela bunda fazendo sanduíches, eu disse, porra, quero gozar. Então peguei Regina, joguei sobre a mesa, meti, meti, meti, mas Regina tinha pernas grandes, e aquelas pernas balançando no ar me desconcentravam, eu disse, vira, Regina virou, eu meti, ela disse, aí não, aí meti certo, meti, meti, meti, mas a mesa ficou num barulho dos infernos, e Regina disse, assim não dá, eu disse, porra, então senta aqui, e puxei a cadeira, e Regina sentou, cavalgou, cavalgou, cavalgou, aí fode meu joelho, ela disse, minha barriga e meu pau pequeno também não colaboravam, então levei Regina de volta pra cama, meti, meti, meti, mas já não estava tão bom porque o pau já estava pororoca, e pau pororoca, como diz o meu amigo Queixão é o pau meio mole, meio duro, fica dobrando na porta, é uma força da natureza, não dá pra segurar, pau pororoca não fode, aí o celular tocou, e Regina disse, é meu pai, tenho que atender, e eu disse, puta que pariu. E enquanto Regina conversava com o pai, fui bater uma punheta no chuveiro, rapidinha, pensando em qualquer mulher.

Regina e eu éramos mesmo dois palhaços. Mas dois palhaços sem graça. Porque não ríamos nada daquilo. Estava claro que entre a gente uma cinta liga era apenas uma cinta liga, não passava de um velho clichê.

Uma vez pedi para ela ficar, a gente fritava uma calabresa, fazia uma farofa, mas Regina preferiu almoçar com os pais, num restaurante da orla, de óculos escuros, moqueca de siri mole e caipiroska de kiwi. Além disso, ela queria viajar, eu preferia o cinema, era mais barato. Mas aí ela dormiu no Show de Truman. E pior, riu do Mestre Yoda. Fiquei puto com aquilo.

Mas Regina não tinha culpa. Somos o que somos, e Regina era o que era. Na verdade Regina era uma mulher comum. Quero dizer comum. Dessas que sonham com seu príncipe encantado, um príncipe belo e de virtudes, montado num cavalo do ano e importado, um galã que lhe dê flores, orgulho e provoque inveja em suas amigas. Regina era uma mulher normal, como essas que copiam tudo que o professor diz, se formam, são promovidas, fortes, independentes e são, por direito, frágeis e sensíveis para esperarem que seu cavaleiro de roupa fina e gel no cabelo lhe abram a porta do carro e paguem a conta do jantar. Ah, mulheres. Suas putinhas gostosas. Sou apenas um ferro velho com nada de útil a oferecer. Se ao menos eu tivesse uns 30 cm. Mas como dizem, quem gosta de pica é viado, mulher gosta de dinheiro. Pode até ser. Meu amigo Triguinho discorda, “Oxe, eu também só dou pra rico, meu filho!”.

29.7.09

Dipirona

Na primeira vez fui parar no chão do banheiro. Eu já estava dormindo. Quando meu corpo começou a coçar. Primeiro as mãos, depois os pés, depois o corpo todo. Pensei que fossem as malditas muriçocas. Usei uma coberta, mas não adiantou. Ela, a coceira, só aumentava. Levantei, vesti uma calça, uma camisa de manga e enrolei outra camisa na cabeça, como um ninja, só os olhinhos de fora. Ainda assim meu corpo não parava de pinicar. Soltei um porra bem grande, acendi a luz e sai pela sala. Foi quando Hulk não me reconheceu de ninja e começou a latir e a atacar minhas pernas. Eram duas da manhã, aquilo foi um inferno. Pensei que fosse enlouquecer. Meu corpo estava em chamas. Então arranquei a roupa e corri para o chuveiro. A água gelada abrandou a minha loucura. Foi assim que fui parar no chão do banheiro. Eu ainda tinha sono e dormi ali mesmo. Hulk dormiu ao lado do vaso.

No dia seguinte fui ao médico. A consulta era às dez horas. Às onze chamaram o meu nome. Era uma médica. Alta, magra, elegante, óculos, cara de metida. Eu comeria.

- Pois não, seu Paulo?
- Quase morri essa noite. Uma coceira. Pensei que fossem as muriçocas...
- Hum, uma urticária...
- É, uma coceira dos infernos.
- Tem algum tipo de alergia, seu Paulo?
- É isso que quero descobrir.
- Vamos fazer alguns exames. Coisa simples.

Simples, o caralho. Primeiro deram umas beliscadas em meu braço. “Tá vendo só, não doeu nada”, disse a putinha. “Então você gosta de beliscões?”, respondi. Depois tiraram minha camisa e rasparam minhas costas. Percebi a cara de nojo da putinha. Problema dela. A vida é uma grande merda para todos. Alguns carregam tijolos sob o sol quente, outros escrevem cartões de natal, e outras raspam as costas suadas de um gordo. Então a putinha colou uns adesivos nas minhas costas e disse para eu voltar no dia seguinte. Alertou também para que eu não lavasse as costas nem transpirasse de forma alguma. Mole para um gordo que vive no calor da Bahia. Uma semana depois eu estava com os resultados. Marquei a revisão. A consulta era às nove horas. Cheguei às oito e quarenta. Já eram dez horas, e nada. Chamaram uma velha que chegou depois. Então fui até a putinha da recepção, que falava num daqueles telefones pendurados na cara.

- Com licença - eu disse.
- Um instante, senhor.
...
...
...
- Pois não, senhor?
- Me diz uma coisa. Os velhos por aqui têm atendimento prioritário?
- Não, senhor.
- É que você acabou de chamar aquela velha. Ela chegou depois de mim.
- A doutora mandou chamá-la, senhor.
- Mas minha consulta era às nove. Já são mais de dez.
- Um instante, senhor.
...
...
...
- Pois não, senhor?
- Pois não, o caralho. Por que a médica chamou a velha antes de mim?
- Desculpa, senhor, eu não sei informar.
- Você não sabe.
- Desculpa, senhor.
- Você não sabe, ninguém sabe, a ordem é essa, não tem ordem, abaixo a organização, anarquia total, todo mundo louco, todo mundo maconhado aqui nessa porra.
- Desculpa, senhor.
- Tudo bem. Então manda alguém limpar essa porra – eu disse rasgando o envelope dos exames e jogando sobre o balcão.

Não foi daquela vez que descobri a causa da minha alergia. Mas tempos depois, aconteceu novamente. Eu estava na agência. Quando veio a coceira. Uma coceira dos infernos. Fui parar em outra clínica. A consulta era às 14 horas. Às 15 chamaram meu nome. Era outra médica. Uma velha, toda maquiada e antipática. Não comeria nem a pau.

- Pois não, seu Paulo?
- Quase morro essa manhã. Uma coceira. Já é a segunda vez.
- Uma urticária.
- É, minhas costas tinham uns calombos deste tamanho.
- O senhor tomou algum medicamento, seu Paulo?
- Não, eu vim direto pra cá.
- Eu digo antes, antes da coceira, o senhor havia tomado algum remédio?
- Um analgésico. Pra dor de cabeça. Nada forte. Só uma dorzinha aqui do lado.
- Qual o foi o analgésico?
- Dorflex.
- Dipirona.
- Dorflex.
- Dipirona.
- Bem, tava escrito Dorflex.
- Dipirona. É o nome da substância ativa.
- Ok, você venceu.
- O senhor é alérgico a dipirona, seu Paulo. Sugiro não ingerir mais nada que tenha essa substância. Ou o senhor pode ter um choque anafilático e morrer.
- Um choque o quê?
- Anafilático. E morrer.
- Porra.
- Mais alguma coisa, seu Paulo?
- Então, nada de dipirona?
- Nada de dipirona.
- Ok.
- Mais alguma dúvida, seu Paulo?
- Eu vi uma reportagem sobre um tratamento bacana de calvície. Ouviu algo a respeito?
- É um comprimido, seu Paulo. Um tratamento muito bom e avançado. Nós realizamos aqui na clínica. Em 2% dos casos pode gerar impotência, mas nossos pacientes estão tendo muito sucesso, quer ver umas fotos?
- Impotência?
- Apenas 2% dos casos.
- Ok, obrigado.
- Mais alguma coisa, seu Paulo?

Eu não queria mais nada. Só viver em paz. Mas a gripe vem tomando conta da cidade. E semana passada tomei um Benegripe. Era mais barato. E quando vi que estava escrito, Dipirona Sódica, foi tarde demais.

18.7.09

O Jardim da Saudade

- Michael foi o maior de todos – disse Carreiro.
- Calma aí – eu disse – Michael botou pra fuder, mas ele não foi o maior.
- Como não, Bono? Michael foi brilhante. Em tudo que fez.
- Só no início.
- O cara se destacou na família, teve uma trajetória dramática impressionante, era determinado, eficiente, consciente...
- Aí é que tá. Consciente nem tanto. Michael tinha uma cabeça conturbada. Ele não sabia se o que fazia era certo ou errado. Na verdade, Michael queria ser o pai. Esse sim foi o maior de todos. O velho era o poderoso chefe. Acima do certo e do errado. Michael era temido, Vitor Corleone era respeitado. Até pelos inimigos. Ele era o padrinho, cara, o padrinho. Sabe o que isso significava pra aquele povo? Uma coisa meio sagrada, essa porra, tipo Zico e Flamengo. Sou fã do Michael, Carreiro, mas o Vitor foi o maior gangster da história do...
- Lá vem o caixão.
- Porra, caixão grande do caralho.
- O cara tinha 140 quilos.
- Aquela é a viúva?
- É.
- Gostosa.

Eu não conhecia o defunto. Era um conhecido de Carreiro. Saiu do jogo por problemas numa cirurgia de estômago. O funeral estava cheio. Aquilo de sempre. As mesmas conversinhas. As mesmas convenções. Alguém começou um discurso. Falando do gordo, falando só bem, é claro. Odeio esses discursos. Ele se foi, mais que um amigo, quando o conheci, tão cheio de vida, adeus, fulano. Quem discursa sempre sai como o sensível, o defunto como herói, e todo mundo chora. Falar nisso, a viúva chorava muito. E o cara tinha 140 quilos. Aquilo me deu um pouco de esperança. Então era possível alguém chorar por mim. Talvez não passasse em branco no belo e melancólico jardim da saudade. Quantas pessoas iriam ao meu enterro? Quantas iriam de verdade, porque queriam e não pela mera tradição de ir a enterros? Haveria discurso? Só falariam bem, é claro. Hipócritas. Será que sentiriam minha falta como sentiam daquele gordo? Como seria a vida sem mim? Ou melhor, como seria a vida dos outros sem mim? Pensando bem, seria normal. A vida de todo mundo seria normal. Todos morrem e a vida segue. Minha mãe ia chorar um pouco, ela chora por tudo, mas depois de duas ou três semanas, os dias correriam normalmente. E quem sabe a rua tivesse até um pouco de paz em dias de jogos do Flamengo. Meu Deus, a viúva chorando e eu ali imaginando a era pós-Bono. Meu ego é desprezível. Ao contrário da viúva, que era muito gostosa. As viúvas são sempre gostosas. Eu queria comer aquela viúva. De quatro. Eu metendo, e ela, de vestido preto, chorando baixinho. A viúva só perdia pra uma freira que se aproximou do caixão. Que freira linda. Eu queria comer aquela freira. Depois disso, o funeral não teve mais nada de interessante. Fizeram uma força da porra pra carregar o gordo, enterraram, e todo mundo saiu devagar. O sol de Salvador estava se pondo.

- Você viu aquela freira? – eu disse.
- Porra, linda, branquinha – disse Carreiro.
- Porra, que hora é essa?
- Tá cedo ainda.
- Então vou te fazer uma oferta irrecusável.
- Manda.
- Um acarajezinho.
- Só se for agora, Bono. Conheço um aqui perto.

8.7.09

Gatinhas e Gatões

Eu tenho um primo. Ele tem uma dessas bandas de axé. Vivia me convidando para os shows. Não é bem a minha praia. Mas eu não fazia nada naquela noite, e queria prestigiar o garoto. Então eu fui.

Era uma dessas festas jovens de Salvador. Cheia de gente bonita. Com aspas, quero dizer. Na verdade, cheia de brancos, brancas e olhos verdes. Negros, só cheios da grana. Engraçado, aquilo me fez lembrar que antigamente os shows em Salvador eram no Clube Espanhol, no Baiano de Tênis, lugares assim, dentro da cidade. Mas aí veio a negrada do pagode, junto com o povo da periferia de cabelo cheio de creme, e invadiu o Espanhol. Hoje a festa dos brancos é fora da cidade, lá na casa da porra, Sauípe, Jauá, sei lá. Isso como um diferencial. Para dizer que só vai gente bonita. Com aspas, quero dizer. Mas voltando ao assunto, o lugar estava cheio. Muita mulher gostosa. Nenhuma para mim, é verdade. Sei o meu lugar. Então peguei uma dessas vodkas que já vem com gosto de limão e fiquei só assistindo ao show.

Meu primo estava lá. Kinho, o nome dele. Já tem nome de artista baiano. Era o vocalista. Além de cantar bem, é bonito, o sacana. Nem parece meu primo. Moreno, alto, tal, aquele cavanhaquezinho ralo, carismático, cheio de piadas nos intervalos das músicas. As putinhas se descabelavam por ele. Kinho usava brinco nas duas orelhas. Elas achavam o máximo. É foda. Se eu usasse brinco, me chamariam de viado gordo; se eu tivesse tatuagem, me chamariam de gordo baixo-astral; e se eu tivesse cabelo grande, me chamariam de gordo medonho. Enfim, meu primo mandava bem, arrasava com as mulheres e usava brinco nas duas orelhas.

Quando o show terminou fui até o camarim para falar com ele. Uma mulher peituda e mais macho do que eu tomava conta da porta segurando um walk talk.

- Eu queria falar com Kinho – eu disse – diga que é Paulo, o primo dele.
- VOCÊ, primo de Kinho? – ela perguntou com a voz rouca.
- Olha só, Cássia Eller. Eu sei que não parece. Mas eu sou primo de Kinho. Se não quiser acreditar, tudo bem. Mas, por favor, ao menos faça seu trabalho e usa seu radinho aí pra chamar ele.

A peituda-cola-velcro falou qualquer coisa lá no walk talk, e depois disse:

- Pode entrar.
- Valeu, Rô Rô.
- Vá se fuder.

Logo encontrei Kinho. O sacana estava cercado de mulheres. Veio me dar um abraço.

- Fala, Paulão. Finalmente, gordo sacana.
- Kinho, as putinhas te adoram.
- Nem me fale. Tô comendo duas por dia.
- Nesse caso, tô de regime forçado.

Nessa hora apareceram mais três putinhas loiras. Queriam autógrafo. A primeira pediu para Kinho autografar na capa do cd. A segunda pediu um autografo na blusa. E a terceira sentou na porra de um puf, arreganhou as pernas, e pediu um autografo na calcinha. Kinho foi lá e escreveu bem devagar na buçanha dela, “Com amor e carinho, Kinho”. Que bucetão, pensei.

- Você não vai comer essa putinha? – perguntei a Kinho.
- Essas e outras, Paulão.
- Que inveja dos infernos.
- Vem com a gente. Tem outra festa agora. “Forró Gatinhas e Gatões”, em Stella Maris.
- Não sou público-álvo.
- E o blog como é que tá?
- Tá lá, aquela merda.
- Tenho que ir agora, Paulão.
- Vá lá, Kinho, Lasca todas.
- Fui.

Então Kinho saiu pelos fundos da casa com sua banda e um monte de putinhas. Também deixei o camarim. A peituda com cabelo no suvaco ainda estava na porta.

- Vou lá, Bethânia.
- Arranja uma pica pra se roçar, seu gordo.

Então peguei mais uma daquelas vodkas e dei o fora.

26.6.09

Dignidade

- Vamos esse?
- Com aquele homem idiota?
- Mas tem o Dustin Hoffman. Dizem que é muito louco.
- Ok.

Dizem que Salvador é uma cidade alegre. Com muitos lugares aonde ir, e muitas coisas para fazer. Eu digo que depende. Depende do que você procura. Eu não procuro nada. Ou quase nada. Um bom filme em cartaz já é o bastante. Naquela noite estávamos Nina e eu. Compramos os ingressos e fomos para a fila.

- Tootsie ou Kramer vs Kramer? – Nina perguntou.
- Kramer. É um porre o Dustin bancando a mulherzinha forte e talentosa.
- Nenhum bate a Primeira Noite.
- Verdade.
- Adoro.
- Tá aí. A Primeira Noite de um Homem é um verdadeiro clássico. Você pode colocar um desses jovenzinhos pra assistir hoje, que ele vai gostar. O mesmo filme, com os mesmos atores. Como a boa e velha família Corleone. A porra tem que ultrapassar o tempo. Isso que é o clássico. Porque ficam os idiotas falando da época de ouro do cinema, dos anos 20, 30. Como se para ser clássico o filme precisasse ser em preto e branco. Ontem tentei assisti o King Kong das antigas, o primeirão lá, não sei quando foi feito aquela porra. Desisti. Não por causa dos efeitos. Mas por causa das atuações. Já viu nesses filmes antigos? O cara tá lá correndo de um macaco gigante, e falando como se estivesse numa propaganda de antisséptico bucal. Vai se fuder, meu irmão. Você vê essas listas de melhores filmes de todos os tempos, e os vinte primeiros são dos anos 20, 30, 40. Ninguém mais pode filmar nenhum King Kong, nenhum, nem se o próprio Kong aparecesse e dissesse, “Dessa vez eu vou estrelar minha porra”. E mesmo assim ia ser uma merda, ia ser crucificado, um pecado com os “admiradores” da primeira versão. É, porque eles não apenas assistem aos filmes. São “admiradores”. “Entendem” da porra. Porque se você não “admira” Encouraçado Potenkim, você é um ignorante. Cidadão Kane é bom? É. Tem um bom roteiro, é uma história muito bem contada. Mas não veio mais nada depois daquele trenó de merda? Pelo amor de Deus. Quer ver? Brilho Eterno. Pronto. Brilho Eterno. Já tá até chato ver o monte de gente dizendo que ama Brilho Eterno. Mas eu prefiro o roteiro de Brilho Eterno que o de Cidadão Kane. Que se foda quem me achar ignorante. Mas é aquela coisa, não é de Orson Welles, nem do Billy Wilder, não tem nenhuma Hepburn. Ah, porra. E não é só no cinema não. É tudo. Falam da “Era de ouro do rádio”, dá “Era de ouro do teatro”, até da “Era de ouro do Futebol”. O cara hoje pode driblar o time todo, o goleiro, o juiz, a puta da mãe do juiz, que mesmo assim vão dizer, “Ah, rapaz, é porque você não viu Garrincha jogar”. Pelé. Pelé. Pelé. Porra de Pelé. Sou mais o Zico.

- Acabou?
- Quero que Pelé se foda.
- Acabou?
- Acabei.
- Meu Deus, como você é chato.
- Qual o caso? Eu sou obrigado a gostar do King Kong em preto e branco?
- Acabou?
- Que porra.
- Por que você tá olhando pra aquela mulher?
- Porque ela tá tomando uma Coca. E eu tô com sede.
- Sei, eu te conheço, Paulo Bono.
- Sério. Vou comprar uma Coca.
- Mas a sala já vai abrir.
- Você escolhe uns lugares. Depois eu entro. Você faz sinal com celular.
- Você vai reclamar dos lugares.
- Reclamo não, pequena.
- Então compra jujuba pra mim?
- Jujuba?
- Jujuba.

Fui até uma daquelas lanchonetes de cinema. Tinha fila. Eu ainda estava puto com aquela conversa toda. Cidadão Kane o caralho. Sou mais o roteiro de Cidade de Deus. Então chegou a minha vez. Havia uma putinha no caixa. Uma putinha magrinha.

- Quanto é uma Coca-Cola e uma jujuba dessas?
- A Coca é 3,50, senhor. E a jujuba é...
- Não, eu quero uma Coca pequena.
- A pequena, senhor, 3,50.
- Eu digo aquela de 300 ml.
- É a de 300 ml, senhor, 3,50.
- 3,50?
- Hum hum.
- Caralho.
- Vai querer a Coca, senhor?
- Claro que não.
- E a jujuba?
- Enfia no seu cu.

Sai dali. Sinceramente nunca senti esse estado de felicidade capaz de fazer alguém comprar alguma coisa numa dessas lanchonetes de cinema. Não que eu seja do tipo casquinha. A palavra não era dinheiro. A questão é que bastava descer a escada rolante que era possível encontrar um copo de 500 ml cheinho de Coca-Cola por apenas 2 ou 3 conto. O problema era que o filme já ia começar. E eu me atrasaria se pegasse aquelas filas da praça de alimentação. Ia ter que entrar na sala com as luzes apagadas. Situação que evito a todo custo. Porque a plateia adora a comédia de um gordo entrando numa sala escura de cinema.

Então fui ao banheiro. Havia um careca lavando as mãos. Eu me aproximei da pia. Me olhei no espelho, alisei a barba. O careca saiu. Então liguei a torneira, enchi a mãos e tomei um gole d´água. Adeus, sede. 3,50 por uma Coca de 300 ml? Eu era o Paulo Bono. Ainda tinha um resto de dignidade. É isso. Dignidade era a palavra.

Então entrei na sala. As luzes ainda estavam acesas. Nina acenou com a luz do celular. Havia escolhido uns lugares mais ou menos. Mas eu não ia reclamar. Sentei.

- Cadê a Coca?
- Bebi água da torneira.
- Mentira.
- Ôpa, vai começar.
- E a jujuba?
- Assista o filme, pequena.

O nome era Mais Estranho que a Ficção. Com Will Ferrell, Dustin Hoffman e a Emma Thompson. Não era em preto e branco. Mas valeu a pena.

10.6.09

Só Cachorro Grande

Nos tempos de Feira de Santana, as noites de segunda eram do poker. Não éramos exatamente um grupo de amigos. Simplesmente não tínhamos motivos para voltar pra casa. Queríamos apenas beber algum vinho e jogar um pouco de cartas.

A mesa estava pesada naquela noite. Um era dono de uma concessionária. Outro tinha uma fábrica de uniformes. Outro era dono de uma metalúrgica. E outro era um velho fazendeiro rico. Só cachorro grande. E eu. Um redator em início de carreira que ganhava 350 reais por mês. Você pode perguntar, que diabos você fazia ali, seu gordo fudido? Era Feira de Santana. Eu já havia contraído a mania de grandeza.

Mas a verdade é que não jogo tão bem assim, e as cartas não ajudavam. Ainda era cedo, e mais da metade das minhas fichas já tinham ido embora. A maioria para a mão daquele fazendeiro. O velho pagava todas e apostava alto. Sempre soltando a fumaça de seu charuto em minha cara. E se eu falasse alguma coisa, ele dizia, “apenas jogue, garoto!”. Eu começava a lembrar de Dona Zeni, a minha senhoria. Eu já devia dois meses de aluguel. Foi quando recebi aquelas quatro cartas. 10, J, Q e A de ouro. Faltava apenas o Rei para completar um Royal Straight Flush. Talvez fosse a minha vez de entrar para a história. O velho soltou mais uma baforada em minha cara. Bebi um gole de vinho e pedi uma carta. Lembrei do Mel Gibson naquele filme. E antes de virar a carta, mentalizei um maldito Rei de ouro. Quem sabe, dona Zeni? Quem Sabe? Então olhei a carta.

Essa não foi a primeira vez que joguei entre os grandes. Passei por uma pressão semelhante nos tempos da Lapinha. Já era tarde. O Largo estava vazio e todas as casas fechadas. Jogávamos palitinho na frente da igreja. Quando os “caras grandes”, meninos que tinham entre 16 e 18 anos, apareceram e disseram que também queriam jogar. Inventaram palitinho a bolo de Rider. Ou seja, quem perdesse levaria 15 chineladas de Rider em uma só mão. Era o tipo de desafio que dava vontade de chorar antes mesmo de jogar. Mas aquilo era a Lapinha. Não fazia bem fraquejar. O problema é que eu não jogava tão bem assim, nunca fui bom nas contas, e aquela pressão só piorava tudo. Um a um, foram todos escapando do jogo, enquanto eu permanecia. Alguém sempre soltava, “vai levar porrada, Paulinho!” Até que restaram apenas um grandalhão e eu. O grandalhão era meio burro, e eu tinha alguma esperança. Então ele pediu 3, eu pedi 2, e abrimos as mãos.

Lembrei. Maverick, o nome do filme com Mel Gibson. Pois é. Naquela noite, meu Rei de Ouro veio. E fiz meu Puta-Mega-Fucking-Royal-Straight-Flush. Quase tive um troço do coração. Olhei várias vezes. Olhei de novo. E olhei de novo. E era o Royal. Uma seqüência, de 10 a Ás, do mesmo naipe. E de ouro. O maior cachorro de todos. O picudão do poker. Com aquela mão, eu podia tomar a fazenda daquele velho escroto. Não só a fazenda, como também seu jatinho, seu barco, seus carros e o cu de sua filha. Tomei mais uma golada de vinho e apostei. Esperei o velho pagar para ver, mas ele subiu a aposta. Viva, Dona Zeni! Viva! Então apostei tudo e o velho pagou para ver. Detonei meu vinho, me levantei e joguei minhas cartas sobre a mesa. “Receba, filhos da puta! Porque eu fiz um Royal, e agora quero um quadro com minha foto nessa parede de merda!”, eu disse, jogando meu copo na parede. Ficaram todos petrificados com minhas cartas. O velho apagou o charuto, coçou o bigode e tomou um gole de vinho. O jogo acabou, eu ganhei, e Dona Zeni também.

Dizem que não acontece nada em Feira de Santana. Bobagem. Algo sempre acontece naquela cidade. E não estou falando dos desmanches de carros roubados. Em Feira, a cada segundo, tem sempre alguém ganhando e alguém se fudendo bonito. Naquela noite, chutei os cachorros. Tempos depois perdi tudo. Perdi todas as minhas fichas e voltei para Salvador. Feira de Santana é um blefe. A Lapinha era diferente. Éramos exatamente um grupo de amigos. Tudo era motivo de riso. Sabe no Tom e Jerry, quando cai uma bigorna na pata do Tom? Foi daquele jeito que minha mão ficou depois das 15 chineladas que levei e ecoaram pelo Largo da Lapinha naquela noite.

29.5.09

Reprovados

Até onde a mediocridade pode nos levar? a) ao fracasso; b) ao fundo do poço; c) à loucura d) aos concursos públicos; e) todas as alternativas anteriores. Essa foi fácil. Mas nem sempre é assim. A maioria das questões são pesadas. E nem todos são craques. Nem todos sabem a resposta. É o meu caso. Por isso eu estava ali. Naquela sala cinza e sem graça. Era um daqueles cursos que preparam os despreparados para concursos públicos. Era aula de contabilidade. Repito: contabilidade. Como fui parar ali? Também não sei ao certo essa resposta. Lembro que por toda a vida meus pais sempre me sugeriram os concursos públicos. Naturalmente, como um cara legal e criativo, que não se imaginava trabalhar de gravata numa repartição pública, eu descartava a possibilidade. Mas a mediocridade dá suas voltas. Tive o exemplo do Vilela. Arquiteto frustrado que ganhava a vida, como diretor de arte, numa pequena agência de propaganda. Aos 40 e pai de família ainda ganhava uns 1400 conto. E carteira assinada o caralho. Aí um dia ele fez uma prova da Petrobrás e passou. Hoje dirige uma empilhadeira. Mas pôde colocar a filha numa escola particular. E olha que o Vilela era dos bons. Quanto a mim, mesmo quando terminei uma especialização, minha mãe disse, mas meu filho, por que você não faz um concurso? Vai ter o da Caixa. Coitada, ela sempre temeu que as coisas não dessem certo para mim. Engraçado, a velha me conhece melhor que ninguém. Lutei bastante. Mas sabe como é. O tempo passa e a porra do salário não ultrapassa aquela fronteira. Então eu lembrava do Vilela. Não é fácil admitirmos que não somos bons. Chega a ser poético entregar os pontos. E talvez gravatas não fossem assim tão piores que escrever títulos idiotas. Acho que por isso eu estava ali. Naquela sala cinza e sem graça. Lotada de gente sem graça. Estávamos todos nós. Os que não sabem fazer. Os que não conseguiram. Os que nunca conseguirão. Os CDFs de outras épocas. Os inúteis. Os reprovados. Os mais ou menos. Os perdedores especializados. Uma cassetada de Vilelas. Alguns chutando a última alternativa; outros, o caminho mais fácil. Mas como eu disse, nem sempre é fácil. Pelo menos para mim. Porque aquele professor falava e falava, eu não entendia porra nenhuma e me sentia ainda mais estúpido. Crédito, débito, balanço, ativo, passivo, raiz quadrada, hipotenusa, conta de dividir de três números, não sei quanto por cento, fx, x + y, vai tomar no cu. E num dos momentos mais serenos dessa vida, admiti minha total incapacidade, me levantei e deixei aquela sala cinza para trás. Não adiantaria tentar. Nunca fui bom em provas. Nunca fui bom em acertos. Até onde a mediocridade pode nos levar? Essa questão foi anulada. Porque ainda não descobri.

14.5.09

Ubirajara

O barzinho estava animado. Aquelas figuras de sempre. Todos dali da vizinhança. Alguns na sinuca. Outros na TV. Passava o jogo do Vitória. Em algum momento do segundo tempo o zagueiro fez uma gracinha na área, perdeu a bola, e o Vitória sofreu o gol.

- SÓ UM SOCO NA CARA DESSE FILADAPUTA! – berrou Seu Bira.

O que posso dizer de Seu Bira? Militar aposentado. Devia ter seus sessenta e pouco. Casado, duas filhas, uma neta e uma boa aposentadoria. Bigode grisalho. Era baixinho e também mancava de uma perna. Mas vou dizer uma coisa. O velho era durão. Desses tirados a macho. Era sergipano, cearense, ou pernambucano, paraíba, uma porra dessa. Esse povo sempre se acha mais macho que os outros. E aquela coisa, criado à moda antiga. Tinha lá suas intolerâncias. Seu Bira não gostava de homem de brinco, drogados, tatuagem, viadagem ou qualquer tipo de frescura. Uma vez estava o cara lá, todo pintado, dando entrevista durante uma parada gay. E Seu Bira, “Só um soco na cara desse viado!”. Tudo era um soco na cara. Todo mundo merecia um soco na cara. Uma vez foi Lula, Seu Bira odiava Lula. Lula falava alguma coisa na TV, e Seu Bira bateu na mesa, “Só um soco na cara desse analfabeto!”. Não sei o que houve com sua perna, deve ter sido no tempo do exército. Sei que juntou essa macheza toda nordestina ridícula com a carreira militar e deu que o velho era bruto. Muito bruto. Desses que impõem respeito e carteirada na fila do caixa do supermercado.

Mas eu falava sobre o jogo do Vitória. O filho da puta do zagueiro perdeu a bola na entrada da área, e o time levou um gol. "SÓ UM SOCO NA CARA DESSE FILAPUTA!". Seu Bira não quis ver o resto do jogo. Pagou a conta, cumprimentou os colegas e pegou o caminho de casa, que era pertinho dali. Era sábado. Seu Bira fez o de sempre. Passou na banca e comprou o jornal, passou na padaria e comprou pão e mortadela. Subiu devagar as escadas até o terceiro andar e abriu a porta. O som estava ligado. A esposa estava na igreja. Seu Bira chamou pela filha, “Ana Maria?”. Ninguém respondeu. Chamou mais uma vez, “Ana Maria?” e nada. Então foi até o quarto da garota. “Ana Maria?” E foi assim que Seu Bira me pegou enfiado no meio das pernas de sua filha caçula.

Já estou há algum tempo aqui procurando a palavra certa para expressar o que senti naquela hora. O mais próximo que consigo chegar é Morte. Senti a morte. “Ana Maria?”. É como se eu estivesse ouvindo agora. “Ana Maria?”. Estávamos deitados no chão. Minha bermuda estava um pouco arriada. Ana Maria de pernas abertas. Pau meio dentro, meio fora, e a voz de Seu Bira, “Ana Maria?” Meu pau encolheu em tempo recorde. Eu saltei e me larguei de bruços no chão. Só esperando a porra da facada. A porra da morte. Mas a morte não veio. Seu Bira desapareceu do quarto.

- Meu Deus! – disse Ana Maria.
- Ele foi pegar o revolver.
- Vá falar com ele.
- O caralho que vai.
- Meu Deus!
- Dá pra pular da janela?
- Vá falar com ele, Paulo!
- Puta que pariu! Puta que pariu!

Encontrei Seu Bira na cozinha. Bebendo água. Talvez o velho morresse do coração. Antes ele do que eu. Tentei lembrar de qual perna o velho mancava. Talvez ele exigisse esse negócio de casamento. Qual era a perna? Eu podia dar um chute e correr dali. Talvez ele me matasse. Morte. Eu estava fudido. E tremendo.

- Seu Ubirajara – eu disse. Ele queria que eu o chamasse assim.
...
- Seu Ubirajara.
...
- Olha só. Não tava acontecendo nada de mais. Eu tava em cima dela, mas não tava...
- Vá embora – Disse em voz baixa.
- É porque a gente tava...
- Vá embora.

Então fiz o que Seu Bira mandou. Fui pra casa. Fiquei sozinho no ponto, peguei meu ônibus, não sei como, mas fui pra casa. Pra minha cama. E fiquei deitado. Lembrando de tudo. A morte. O Cd. A massagem. A voz de Seu Bira. “Ana Maria?”. “Ana Maria?”. Aquela voz rouca. Os peitos de Ana Maria. O revólver. A morte. Seu Bira. A mão de Ana Maria em meu pau. O jogo que só acabava às seis. A faca. A perna de Seu Bira. A buceta de Ana Maria. Seu Ubirajara. A morte. E a morte. Lembrei de tudo. E senti febre o resto do fim de semana.

30.4.09

Duas Bombadas de Jeito

Naquele dia acordei tarde. Comi uma lata de sardinha com farofa. Dormi de novo. Acordei. Fiquei na janela. Comprei o pão. E agora estava ali, deitado no sofá. Eu e meu sofá. Havia cancelado a TV por assinatura. Poderia estar assistindo ao Bate-Bola da ESPN. Ao invés disso, estava puto, vendo o BA TV, com seus apresentadores idiotas e bregas dando notícias inúteis como o trânsito na frente do Iguatemi. Eu estava doido pra fuder. Uma nêga peituda na fila da padaria me deixou com o ovo coçando. Se Nina demorasse muito, eu teria que lascar uma bronha em homenagem àquela desgraçada peituda. Foi quando a apresentadora cafona do BA TV disse “boa noite” que Nina chegou.

- E aí, gordinho – disse Nina.
- E aí, pequena.
- O dia foi uma merda.
- Por que demorou?
- Engarrafamento no Iguatemi.
- Essa cidade vai parar. Um dia eu não saio mais de casa.
- Fez o quê hoje?
- Porra nenhuma.
- Não mandou nenhum currículo?
- Nada.
- Porra, Paulo!
- Que foi?
- Os pratos!
- Porra, esqueci.
- Prato de ontem de noite!
- Eu lavo, pode deixar.
- Preguiça dos infernos.
- Comprei o pão.
- Comprou de milho?
- Comprei.
- Lave os pratos pra gente tomar café.
- Eu lavo. Mas vamos dar uma antes?
- Mais tarde.
- Só uma.
- Eu preciso de um banho.
- Depois toma.
- Prefiro que você lave os pratos.
- Só uma pelo amor de Deus.

Nina topava todas. Fizemos ali mesmo, no sofá. Com tudo que tínhamos direito. O que os educadinhos chamam de preliminares a gente chamava de fazer uma putaria. E fizemos uma bela putaria. Uma roçadinha aqui, um beijinho ali, uma chupadinha aqui, um dedinho lá. E depois dei umas duas bombadas. Foi bom. Muito bom. Nina sabia ser uma cachorra como ninguém.

Então fui tomar banho. E eu estava lá, lavando meus ovos, agora mais tranquilos, quando Nina entrou no banheiro. Pra lavar a calcinha na pia. Aproveitou e também lavou minha cueca. Havia porra escorrendo por sua perna. Nina era maravilhosa. Não tinha essas frescuras que essas feministas por aí têm, não lavo cueca de homem, não esquento comida pra homem, não faço isso, não faço aquilo, comigo é diferente, homem tem que se fuder, homem não presta, prefiro meu vibrador. Balela. Pura balela. No fim das contas, toda feminista só quer o sagrado direito de levar umas duas bombadas de jeito. Isso sim. Mas como disse, Nina era maravilhosa. Passamos um tempo assim. Ela que botava dinheiro em casa. Nunca tive problema com isso. Acho que Nina também não. Ela só queria que eu lavasse os pratos, levasse o lixo, essas coisas.

- Pequena – eu disse.
- Oi – disse Nina.
- Quando eu arranjar emprego vou renovar a Sky e comprar uma máquina de lavar pra você.
- Tá certo.
- Me passa a tolha.

17.4.09

Eu Queria Batata Frita

O bom é que tinha um restaurante no prédio da velha agência. Seu Manuel abria pro almoço exatamente ao meio dia. Eu estava lá. E como qualquer restaurante a quilo, vem primeiro a parte das saladas. Peguei uns ovinhos de codorna. Na manha. Havia umas putinhas de regime e uns idiotas de gravata que colocavam folha ou pedacinhos de manga em seus pratos. Não sei por que, mas eu não acreditava em todos eles. Corretos, orgulhosos, confiantes. Olhavam para mim como se dissessem “Gordo!”. Eu apenas trincava o talher no prato, como se dissesse “Brócolis o caralho!”.

Eu queria batata frita. O problema é que as batatinhas acabavam logo. Não que Seu Manuel tivesse a melhor batatinha da cidade. Simplesmente por ser batata frita. E todo mundo come batata frita, inclusive as putinhas de regime. Para piorar, tinha um cretino que trabalhava num escritório de contabilidade que estava enchendo o prato de batatinha. E tive a impressão que quando o desgraçado pegou a última batata, olhou pra mim e sorriu. Assim que ele deu as costas, taquei um ovo de codorna em sua cabeça. A arma do crime quicou no chão e se escondeu debaixo da prateleira. O idiota olhou para trás, ajeitou seu topete e não viu nada. Eu já estava colocando minha omelete.

O restaurante estava cheio, mas achei uma mesa vazia. Logo depois, Rose, a garçonete, veio me perguntar se eu queria algo pra beber. Rose era gente boa. Sempre me servia as maiores fatias de torta africana. Ela tinha a cara do Catatau, do Zé Colméia. Mas era uma graça. Segundo Ramos, um Diretor de Arte experiente e fudião, Rose tinha o cu alto. Pedi a Rose uma Coca-cola. Pra rimar com a omelete. A omelete de carne me fazia lembrar de Lúcia, uma empregada que trabalhou lá em casa. Saudade de Lúcia e de suas omeletes. O restaurante enchia cada vez mais. Mas ninguém sentava ao meu lado. Claro. Havia outras mesas com pessoas agradáveis e havia a minha, com um gordo, de barba mal feita e esse cabelo fudido. É que o cara que está ficando careca é pior que o careca. Porque em cima fica aquele bagaço de cabelo, parecendo um louco. Eu também não almoçaria ao lado de um gordo. Foda-se. Era só eu e minha omelete de carne. Por fim, passei no caixa, assinei o caderninho, pendurei a conta e sinalizei pra seu Manuel. Antes, peguei um palito, é claro.

Mas quando cheguei ao elevador, tive de esconder o palito. Havia uma princesa esperando o elevador. Uma princesa morena. Magrinha e tal. Não fazia o meu tipo. Mas era uma princesa de peitinhos durinhos. Íamos subir só eu e ela. Entramos no elevador. Não costumo cantar mulheres assim, do nada. Nunca tive essa capacidade. Mas não custava tentar. A velha agência ficava no quarto andar. Tinha ainda quatro andares de garagem. Eu tinha oito andares para falar algo bacana para a princesa morena. “Você trabalha aqui?” – perguntei. Ela não respondeu. Ficou lá, olhando pra frente. Desgraçada. Quem ela pensava que era? Putinha magricela ordinária, nem bunda tinha. Então chegou o quarto andar, deixei o elevador, virei e disse “Putinha de merda!”. Foi quando a princesa morena, tirou uns fones do ouvido e perguntou “Desculpa, voce falou comigo?”. Mas aí o elevador fechou. Paciência. Peguei de novo o palito e joguei na boca. Era hora do meu cochilo de 20 minutos. Como sempre, dormi com a cabeça sobre a mesa e o palito na boca. Mas aviso, não tente fazer o mesmo.

31.3.09

Meninos de Rua

Era imenso o Largo da Lapinha. Passávamos a tarde toda ali, jogando bola em frente à Igreja. Vez em quando corríamos para beber água da torneira na Floricultura ou no posto de gasolina. Jogávamos até os pés ficarem pretos e ensebados. Lembro de minha vó dizendo, “Vai tomar banho, moleque! E esfrega os pé pra tirar esse lodo!”.

Foi enquanto batíamos um desses babas, que, uma vez, um caminhão baú da padaria entrou com tudo no largo, e a porta traseira se abriu, deixando cair vários pacotes de biscoito. Alguns caíram inteiros e outros se espatifaram no chão de paralelepípedo. Atacamos na mesma hora. Pegamos os pacotes fechados e comemos os do chão também. Foi uma festa.

Isso foi na época do Atari. Pacman, River Raid, essas coisas. Mas preferíamos outros jogos. Como pegar ovo, sacudir bastante e jogar no ponto de ônibus. Aí era sebo nas canelas. Eu já era gordinho nesse tempo e não corria porra nenhuma. Por isso ficava meio apreensivo. Mas no final dava tudo certo.

Tinha também o golpe da Coca-Cola. Todo dia, por volta da uma da tarde, os caras da Coca-Cola paravam para comer no PF e descansar. Ficavam ali palitando os dentes, enquanto o caminhão ficava lá, estacionado, cheinho de Coca-Cola dando sopa. Nosso plano era simples. Ficava um sentado no palanque vigiando os caras no PF, enquanto os outros pegavam, escondidos, litros e litros de Coca-Cola.

Com o tempo passamos para golpes mais planejados. Como roubar figurinhas na Banca de Seu Antônio. Eu distraía Seu Antônio com perguntas como, "Seu Antônio, quanto é o Chokito?”, “Tem ploc de hortelã?”, “Seu Antônio, deixa eu ver a Playboy?”, enquanto do outro lado da banca, os outros pegavam o bolo de figurinhas do Campeonato Brasileiro. Algo parecido acontecia nas feiras da paróquia. Escolhíamos a barraca que tivesse algum velhinho bem coroco tomando conta. Dois jogavam um papo, enquanto os outros pegavam aviõezinhos e soldadinhos de chumbo. Era o maior barato aqueles soldadinhos.

Mas acho que o golpe mais ridículo veio um tempo depois. Abordávamos as pessoas no ponto de ônibus. Dizíamos estar fazendo uma minicampanha para arrecadar dinheiro para o Criança Esperança. Falávamos coisas do tipo, “O que você acha do Criança Esperança?”, “É que nós estamos arrecadando pequenas contribuições...” E aquele povo caía direitinho. Se bem que era tudo bem produzido. Tínhamos até uma caixinha de madeira com o logotipo da campanha.

Lembro de toda a turma. Lingueta, Vaca, Maradona, Capenga, Queixão, Rubalo, Batata, Lorinho, Bigu e outros mais. Estão todos por aí. Um trabalha numa loja de auto-peças, um é segurança noturno, um é gerente de banco, um é pedreiro, um é maluco, um é produtor de axé, e por aí vai. O certo é que nenhum virou bandido ou advogado. Eu virei isso aqui, um publicitário desempregado na fila da casa lotérica. E lembrei disso tudo quando um bando de guris passou por mim correndo e olhando para trás. Havia um gordinho no meio deles. Ri e pensei, “Corre, gordinho!”. E então fui tentar a sorte. 2 reais na Lotofácil e 1 na Loteria Esportiva.

18.3.09

O Último Jingle

A barraca de Seu João era muito simples. Seu João era um desses evangélicos. Não vendia bebida alcoólica. Mas era um lugar agradável. Ficava ao lado da agênca. Tinha suas mesinhas de frente para a rua, caldo de cana, refrigerante e uns salgadinhos de terceira. De primeira só o pastel. De carne, crocante. 50 centavos. Chamávamos de “O Pastel do Tio da Unha Preta”. Servia como café da manhã, algumas vezes como almoço e também como jantar. Acompanhado de um caldo de cana, o pastel do tio da unha preta era o meu jantar naquela noite. Estávamos Joe e eu.

- Porra! – eu disse.
- Que foi?
- Caiu um cisco no meu olho. Caralho!
- Pede a filha de Seu João pra soprar.
- Uma mulher dessa nunca me dá mole, Joe.
- A porra também é crente. Acho que só dá pra crente.
- Joe.
- Hum.
- Corta esse cabelo. Você já é feio, com essa mata, então.
- Dinheiro. Enquanto não sair o bambá, não posso cortar.

Foi mais ou menos nessa hora que nos despedimos. O velho Joe Mocorongo pegou sua velha moto e se mandou. Pendurei a conta, peguei a viola, me despedi de Seu João e de sua filha e fui a pé pra casa.

Eu morava a uns quatro quarteirões. Peguei um atalho, meio boca-quente. Mas não era tão tarde. Eu dobrava uma esquina, e mais outra, e mais outra. Passava por um esgoto a céu aberto. E depois por uns tipos mal encarados. Se quisessem levar a viola, paciência, eu não poderia fazer nada. Mas correu tudo bem. E logo cheguei na minha rua.

O lugar era simples. De gente humilde. Mas um ambiente familiar. A casa não era lá essas coisas. Mas era o que dava para pagar. Às vezes nem isso. Naquelas últimas semanas eu tinha que sair cedo e chegar tarde para não chamar a atenção da minha senhoria, a Dona Zeni. Coisa que eu fazia com muito desgosto porque a Dona Zeni tinha seus filhos e ainda pegara outros guris para criar. E naquela noite toda aquela renca de meninos estava brincando na porta de casa. Não sei do que brincavam. Uma zuada da porra. E quando me aproximei vieram todos na minha direção.

- Ih! – disse um deles – ele toca violão.
- Toca aí! – disse outro.
- É, toca aí! – disse mais outro.
- Toca! – disse mais outro.
- Deixa eu tocar! – disse uma guria.
- Shhhhh! – eu disse – Ó a zuada, porra!
- Toca Chiclete com Banana – disse um guri.
- Sua mãe tá aí? – perguntei a um deles.
- Foi comprar leite!
- Bonde do Tigrão!
- Olha – eu disse – eu não sei tocar direito. Nem sei essas músicas que vocês querem.
- Chiclete com Banana!

Aquele ano era 2001. E eu não tinha a menor idéia do que tocar e agradar as crianças. Também não sabia nada do Chiclete com Banana. Eu disse, vocês conhecem essa?

“Mina, seus cabelo é da hora...”

- Mamonas? Lembram? – perguntei.
- Humm...eu não! – disse uma.
- Eu não lembro! – disse outra.
- Eu gosto de Chiclete com Banana!
- Já sei! – eu disse – mas antes sopra aqui meu olho.

A guria soprou meu olho. O cisco saiu. Então eu disse, lá vai.

“Tá pintando o dia
Tá pintando cor
Tá pintando vida
Tá pintando flor...”

- Ah!! Eu sei essa! – gritou uma.
- Eu vi na televisão! – disse outra.
- Eu sei! – disse a guria.

E de repente todos os guris estavam cantando um jingle que eu tinha escrito para uma loja de material de construção. Um dos guris chegou até a dançar. O jingle era curtinho e, quando acabou, quando pensei que viriam as palmas um dos guris perguntou:

- Por que você é gordo?

Então me despedi da turma, subi e fui tomar meu banho.

Feira de Santana tinha dessas coisas. Era uma cidade de ladrão e gente metida à besta. Mas tinha seus bons momentos. Tinha o baba na segunda, o poker na terça, o Bar do Zequinha na quinta. E tinha o pastel do tio da unha preta. Inclusive foi lá que o grande Tito Boza uma vez me disse, “Bono, tem um concurso aí, o salário é oito conto. Vamo fazer?”. E eu disse assim, “Porra, Boza, um dia desses os guris de Dona Zeni cantaram meu jingle. Oito conto não pága isso.” Mas ora, porra. O que é que eu podia dizer? Eu tinha 20 e pouco anos. Não era tão gordo. Não era careca. Só devia à Dona Zeni e a Seu João. Ainda levaria outros grandes tombos por aí. Feira de Santana era só o começo. Quer saber? Todas as pessoas deviam começar em Feira de Santana. É um puta estágio. Você vê um pouco de tudo o que o virá pela frente.

9.3.09

Escrotos

Lembro a primeira vez que fui ao dentista. Ele veio com um algodão e disse que ia apenas passar uma pomada. Quando vi, o escroto sacou o alicate e me arrancou dois dentes. Eu tinha cinco anos. A segunda vez foi semana passada.

Levei um certo susto logo ao deixar o elevador. Havia pouquíssima luz naquele corredor. E confesso que depos do Jack Nicholson, por Deus, me cago de medo de corredores. Mas o 701 estava lá. Bati na porta e olhei as horas. Logo uma velha, bem velha, uma velha branca e sinistra, de touca e vestido florido apareceu. A velha olhou para mim. Eu olhei para a porta. 701.

- É do consultório de doutora Alexsandra? – perguntei.
- Você é o Paulo?
- Sim, sou eu.
- Ah, meu filho, pode entrar – ela disse – você aguarda um instantinho?

A sala de espera era um cubículo também mal iluminado. Havia algumas revistas Caras espalhadas pelos dois sofazinhos. Só isso. Nenhuma putinha recepcionista para jogar um papo. Sentei por ali enquanto a velha desapareceu pela outra porta. Peguei uma das revistas. A com a Vera Fisher na capa. Era de agosto de 2007. Pelo jeito, aquilo não funcionava há séculos e eu acabava de despertar uma múmia.

Então ouvi o som de uma descarga.

A vida é injusta. Lembro que uma vez levei minha irmã à dentista. Acho que foi amor o que senti. A mulher era uma princesa. Eu pensava que poderíamos nos casar, e eu faria questão de escovar sua boca todas as noites. Mas essa era a dentista da minha irmã. A minha era a porra de uma velha nojenta e cagona. E fica um conselho. Nunca se engane pelos nomes. Quando vi na lista “Dra. Alexsandra”, eu disse, é essa que vai pegar em minha boquinha. Cacete. E a dentista de minha irmã se chamava Luzia.

Veio outra descarga. Quase gritei para a velha lavar as mãos.

Eu sabia que aquilo não ia dar certo. Tenho todos os motivos para nunca mais acreditar num dentista. São um bando de escrotos. Antigamente era só você escovar os dentes três vezes ao dia e tudo bem. Depois vieram com aquela coisa, o cordãozinho de merda. Já ouvi dizer que se não passar o fio dental, são menos alguns anos em sua vida. E agora não se vê outra propaganda na TV que não seja de antisséptico bucal. Isso porque fomos tratados como otários a vida toda. Porque só agora eles dizem, “Você sabia que 80% das bactérias não estão nos dentes?”. Vai tomar no cu. E o pior. A Colgate é a número 1 em recomendação dos dentistas, só que, se não me engano, a Oral B é a marca mais utilizada pelos dentistas. Que porra é essa? Usam uma e recomendam outra? São uns escrotos.

Mais uma descarga.

E mais outra.

Foi nessa hora que bateu o pânico. As pessoas lá fora iam e voltavam para seus trabalhos, o sol brilhava, a vida acontecia numa boa, e eu ali, naquele corredor escuro, naquele cubículo, sozinho com uma velha morrendo pelo cu e uma privada entupida. Pensei em perguntar se estava tudo bem. Mas na verdade queria dar o fora dali. Então me levantei e me aproximei da porta entreaberta. Mas não pude ver nada. Balbuciei “Dr. Alexsandra”. Não houve resposta. Empurrei um pouco a porta. Pude ver outra porta entreaberta. “Dr. Alexsandra?”. E, de repente, outra descarga.

Não pensei duas vezes. Sai correndo e bati a porta. A velha que se fudesse. Chamei o elevador. Estava parado no segundo andar. Tinha aquele corredor. Comecei a lembrar do Jack Nicholson. Era melhor pela escada. Mas quando abri a porta, vi que as escadas estavam ainda mais escuras. Tive que voltar e esperar pelo elevador. Comecei a imaginar aquele vestido florido todo sujo de merda. O elevador chegou. Entrei e fiquei mais tranquilo. Foi quando lembrei que um dia desses minha mãe perguntou por que eu não colocava um aparelho nos dentes. É foda mesmo. Quando eu mordia de brincadeira o braço de Nina, não parecia nada a marca de uma dentada humana. Mas ora, porra! Deixa lá.

18.2.09

Nosso Carnaval

Eu até tentei. Uma vez peguei o dinheiro do estágio e paguei um bloco de carnaval. Por quê? Não sei. Talvez estivesse alegre naquele tempo. O suficiente para aguentar aquela coisa que eles chamam de avenida. Gente demais. Barulho demais. Axé demais. Ladrão demais. Sem falar no filho da puta que gritava lá de cima, “Vamos dar a volta no trio”. E quando isso acontecia, não importava se você não estava a fim de dar a volta na porra do trio. A alegria da Bahia carregava você. E foi numa dessas que tropecei numa gorda e caí feio. Lembro dos pés saltando sobre minha cabeça, e eu pensava, porra, bem que minha mãe avisou, “Cuidado pra não ser pisoteado”. Mas não deu tempo de sentir dor. A massa veio e me forçou a dar a volta no caralho do trio. Enfim, meus planos naquele carnaval era encontrar uma gringa. Daqueles ricas. Que me levasse pro seu quarto de hotel chique. Foderíamos durante todo o carnaval, e depois ela me levaria para a Europa. Mas foi diferente. O mito que todo mundo se dá bem no carnaval da Bahia consumia minha cabeça. Foi quando um amigo disse, “Bono, o segredo é a loló. Bota a nêga pra cheirar essa porra e agarra!”. Ok. Era a minha chance. Peguei a porra do lança, taquei na cara da putinha, e quando fui beijá-la, ela gritou, “Oxe, gordo, sai!”. Claro que não esperei para ver o encontro de trios. E no caminho de volta, com a perna toda assada, ainda levei um soco de uma mulher-macho de um metro e meio bem no meu rim defeituoso. O mais interessante é que no dia seguinte, minha vizinha, uma velha que não tem o que fazer, disse que me viu na Band. “Ô, Paulo, você tava mancando?”.

Foi o que eu disse. Tentei. Mas sabe como é. Não faço parte do que eles chamam de gente bonita, alegre e cheia de suingue. Talvez eu nem seja tão baiano assim. A verdade é que tô de saco cheio de Ivete Sangalo. E nunca mais dei a volta no trio.

Por outro lado, lembro que o ano passado foi assim. Eu estava em casa. Olhava pela janela os caras passarem vestidos de mulher e lotando o ônibus da Barra. Quando Nina chegou. Trouxe pão, vinho, biscoito, salame, e mais uns cinco filmes. Nina era foda. Depois ela disse, “Voltei a tomar o anticoncepcional. Pra gente fazer o nosso carnaval”. E eu disse, “Porra, parece verso de marchinha. Pega o vinho e vem pro sofá”.

6.2.09

Noveleiros

- Não se faz mais novelas como antigamente – ela disse.
- De jeito nenhum – eu disse.
- Guerra dos Sexos...
- Que Rei Sou Eu...
- Top Model…
- Porra, Gaspar e Saldanha...
- Eu adorava.
- Roque Santeiro...
- Boa!
- O cara rouba a parada e é dado como santo.
- Eu tinha o álbum de figurinhas.
- Eu tinha tesão na viúva Porcina.
- Hoje é tudo uma merda.
- Hoje a Regina Duarte é uma merda.
- E aquela filha dela?
- Quer outra?
- Quero sim.
- Chefe, mais duas, por favor.
- Eu digo isso, mas confesso que só saio de casa depois da novela.
- Sabe o que é uma merda?
- Ham?
- Esse negócio de “confessar” que assiste novela.
- Parece pecado, né.
- Besteira.
- Eu tenho um tio, ele mora lá em casa, não perde uma novela. Mas vá dizer que ele gosta de novela.
- Certa vez, fiz um curso. E tinha um idiota que andava pra cima e pra baixo segurando umas porras de uns filmes cults, Glauber Rocha, sei lá, pra dizer que era inteligente. Aí tava discutindo na sala sobre novela, e eu disse que gostava de algumas e tal, e que não era fácil escrever uma novela. Esse cara riu e fez uma piadinha. Mandei tomar no cu. E ficou aquele clima chato na sala.
- Um brinde às novelas.
- Às boas novelas.
- Mas, e aí? Você não quer ir pra outro lugar?
- Quanto é mesmo?
- 200.
- Com o cuzinho?
- Aí é 250.
- Acho que não vou querer, pequena.
- Faço uma promoção.
- Como é seu nome mesmo?
- Meg.
- Por causa da Meg Ryan?
- Por causa da Magali. Eu comia muito, e minhas amigas me chamavam de Mag. Aí, Mag, Mag, coloquei Meg. Mas sexy.
- Claro, claro. Mas sabe o que é Meg? É que você só fuderia comigo pelo dinheiro. Eu sei que você é uma profissional e...
- É do tipo romântico?
- Do tipo fudido. É que eu não gosto tanto de mim assim pra comer uma mulher sem se importar se ela tá gostando ou não. Tipo, receba, sua puta, engula essa porra e vá embora. Uma vez comi uma puta. Em Feira de Santana. Tava lá, metendo, metendo, metendo, me achando o maior garanhão, quando vi, a puta tava lendo uma revista da Avon! Passei a semana mal por causa disso. Você é uma gata. Até mais bonita que a Meg Rayan. Mas esse lance...
- Entendi.
- Eu adoraria comer seu cuzinho, mas é que...
- Sério, entendi. Pra falar a verdade, eu só iria com você por causa do dinheiro mesmo. Nada pessoal. Mas é que não gosto de fazer com gordos. Desculpa, mas é que...
- Não, não, tudo bem, eu tô acostumado.
- Mas é aquela suadeira, o pau pequeno, é uma mão de obra.
- Sabe de uma? Você devia cobrar mais caro pra gordos.
- E tem a barriga...
- 250, Standard. 300 com o toba.
- Pois é.
- Meg, acho que já vou.
- Então já vou pra casa. Não vou mais trabalhar hoje.
- Chefe, você me vê a conta, por favor!
- Sabe o que é outra merda?
- Ham?
- Novela de Glória Peres.
- Puta que pariu!
- Uns teminhas polêmicos, chororô de mulher, Jade, Sol. Agora é na Índia.
- Uma merda, uma merda! E odeio a Juliana Paes. Feia pra caralho.

29.1.09

Reis

Orgulhosamente postado no Caralhaquatro em 02/10/2007.

Foi por acaso que passei pela Lapinha 10 anos depois justamente na noite de reis. Tinha acabado de sair de uma reunião ali perto. Então as luzes e a multidão que vinham do largo me lembraram que aquela era a Festa de Reis da Lapinha. Mais uma dessas festas de rua de Salvador de origem religiosa e destino pagodeiro. Resolvi observar de perto. Eram as mesmas luzes. Os adereços. O colorido sujo. As famílias pobres desta boa terra de merda, felizes com tantas luzes e apenas um saco de pipoca doce na mão. A festa estava ali. Parecia a mesma. Mas existiam as diferenças.

Meu estranhamento começou com o próprio largo. Arrancaram o bom e velho palanque de pedra do centro e puseram em seu lugar uma porra de uma pracinha igual a tantas outras que se vê por aí. Percebi também o número reduzido de barracas. Naquele tempo era uma barraca de cachaça emendada na outra. Com suas mesas e banquinhos de madeira coloridos. Serviam basicamente petiscos baratos em pratos de plástico e cerveja em copos lavados com água de bunda. Agora era uma barraquinha aqui, outra ali. Provavelmente tudo limpinho. Senti falta também do aglomerado de barracas de capeta. Meu primeiro porre de capeta foi numa festa de reis. Foi o capeta que me fez ser atropelado por um desses carrinhos de café coloridos. O carrinho tinha até uma buzina de kombi de verdade.

Perambulando pela porra da pracinha sem graça avistei uma mulata conhecida. Não lembrava o nome. Mas sabia que era a filha do meio de Seu Clemente, o verdureiro. Carregava um garoto nos braços que tentava puxar-lhe a blusa para dar uma mamada. Vai fundo, garoto. Provei desses peitos em outros tempos, atrás do murinho do sanatório. Tirando a mulata, não reconhecia mais ninguém. Foi quando uma mão bateu em minhas costas. Era Capenga. Sentamos numa barraca. Pedimos pititinga e caipirinhas.

- E essa careca, Paulinho?
- Não esquento mais. Me conta aí quais as novas.
- Tô com uma filhinha aí.
- De fuder.
- Daiana. A mãe que botou o nome.
- Tá com aquela mesma menina?
- A mesma, Daniela. Sempre fui preguiçoso pra procurar mulher.
- Mas ela é uma boa garota, Capenga.
- É verdade. Sabe quem é pai também?
- Quem?
- Rubalo. Tá com um menino. Bonitinho o sacaninha.
- É, tô sabendo.
- Davi também.
- Davi também é pai?
- É.
- Porra. Talvez então eu tenha chance também.
- Você sabe que Lorinho já tem dois, né?
- Tinha só aquela guria com a cara do Taffarel. Teve outro?
- Teve um menino agora.
- Vaca também tá com um neguinho aí.
- A camisinha não chegou aqui na Lapinha não, caralho?
- Os caras tão dizendo que só falta João ter o dele. Mas dizem que o ovo dele é goro.

Capenga e eu conversamos sobre outras amenidades. Até ouvirmos o rebuliço da multidão. Alguma coisa acontecia na frente da igreja. Pagamos a conta e fomos ver. Era o Padre Pinto. Trajava roupas estranhas e dançava o que parecia um ritual de candomblé. Mais aviadado do que nunca. Tinha o rosto maquiado. Algumas pessoas o aplaudiam. Outras, principalmente as beatas, faziam o sinal da cruz. Talvez minha vó também reprovasse aquele ritual. Mas não me incomodava. Sempre respeitei aquele padre. Certa vez ele encarou uma velha que nos xingava por jogarmos bola perto de sua janela. "Nenhum desses meninos da Lapinha são moleques. Batizei todos eles, e são todos meninos de família!" – dizia Padre Pinto. Agora ele estava ali. Rodando e rodando e rodando. Balançando os braços pra lá e pra cá. “Padre Pinto tá possuído!” – alguém gritou. Talvez a igreja da Lapinha não fosse mais a mesma. Não sei. Não entendo de igrejas. Mas diante daquela porra de pracinha sem graça, tanto faz. Deixei o Padre Pinto em paz com sua dança. Por sinal, foi logo depois que começou a tocar o pagode pela praça, que me despedi de Capenga e também daquela festa que eu não reconhecia totalmente. Antes, parei para dar uma mijada. Então descobri que, atrás da igreja, o fedor horrendo de mijo nos dias da Festa de Reis continua o mesmo.

17.1.09

Lasquinê

Lasquinê. Está aí uma grande jogada do dominó. É quando você bate o jogo nas duas pontas. Por exemplo, numa ponta é Ás e na outra é Terno. É a sua vez, e sua última pedra é Terno de Ás. Fim de papo. Você venceu. E venceu bonito. O lasquinê pode ser meticolusamente planejado ou simplesmente cair de paraquedas em suas mãos. Não importa. Bater de lasquinê é vencer de um lado e do outro. É como ser o senhor do destino, aquele que aproxima e conecta todas as pedras, o que traz o equilíbrio à Força, o escolhido, aquele que, de modo inevitável, é obrigado a abandonar a armadura da humildade e gritar para todo mundo ouvir, “Eu boto pra fuder!”.

Não jogo dominó tão bem assim. Mas era nisso que eu pensava. Porque pela primeira vez na vida eu havia chegado à final de um torneio de dominó. Estava ansioso. Faltava pouco mais de meia hora. Por isso não podia aceitar ao convite de Tânia.

- Fica – ela disse – tem sorvete. E você sabe o que eu gosto de fazer com sorvete.

Tânia era uma gordinha safada. Só pensava em comer e fazer sexo. Era uma boa pedida. Eu poderia passar a tarde toda ali. Mas foi o que eu disse, tinha o dominó do pátio.

- É a final – eu disse – amanhã passo aqui. Prometo tomar esse sorvete todo com você.

Eu já amarrava os cadarços do velho Stradero quando Tânia deu o último golpe.

- Fica só mais um poquinho.

Tânia não era tão bonita assim. Mas sabia ser sexy. A danada estava debruçada sobre a janela. Vestia apena um toco de camiseta, deixando aquela bunda de fora. E rebolava lentamente enquanto apreciava a paisagem. O cacete subiu na hora. Mas a princípio eu só apreciava a bunda, o cu, a buzanfa, a poupança, o parreco, o forevis, o furico, o grande rabo de Tânia. E logo eu estava com a cara enfiada naquelas carnes.

- Me come só mais um poquinho – disse Tânia.
- Eu vou meter, sua puta – eu disse – mas preste atenção. Se você ver passar um IAPI aí, me avisa, que eu corro e pego do outro lado.
- Certo.
- Mas me avisa.
- Mete logo.

Então meti. Fizemos ali na janela. Uma boa sensação. Porque não havia nenhuma janela à nossa frente e ainda tinha cortina a nosso favor. Ninguém podia nos ver. Assim, Tânia contemplava o horizonte e ficava de olho no meu ônibus, enquanto eu, por trás dos bastidores, tomava conta do seu rabo. E não podia ser melhor. Porque assim que terminamos, Tânia gritou, “IAPI!”. Deu tempo de tudo. De dar um tapa de despedida naquele rabo gigante, de levantar a bermuda, correr as escadas, deixar o prédio e atravessar a rua. Olhei, e Tânia ainda estava na janela. Soltou um beijo. Safada. Só então o ônibus chegou.

E deu tempo de tudo mesmo. Quando cheguei, Rabuge ainda cortava a carne, e Minhas Cores tinha acabado de preparar a batida de gengibre. Assim que me viu, Caju falou “Porra, gordo, pensei que a gente ia perder de W.O.” Caju era meu parceiro. Éramos conhecidos na roda como Ruim e Péssimo. Era verdade. Não éramos dos melhores. Jogávamos fazendo piadas e rindo de tudo. E de algum jeito estávamos na final. Nossos adversários eram Minhas Cores e Farias. Dois coroas que passavam o tempo todo discutindo. Bebidas a postos, pedras na mesa, peru de fora, e começava a grande final do VIII Torneio de Dominó do Pátio. Alguém de fora disse, “E esse gordo joga dominó?”. Eu cocei meu ovo e respondi, “Eu boto pra fuder!”.

No dominó tem uma situação chamada “Chico Romero”. É quando você só leva passes o jogo todo e não consegue jogar uma peça sequer. E vou dizer uma coisa. Talvez os dias sejam assim. Difíceis. Pelo menos a maioria dos dias. Parece que nunca chega a sua vez, e você vive num eterno “Chico Romero”. Mas às vezes. Às vezes acontece. Um Ás puxa uma Quadra, que puxa um Duque, que puxa uma Sena, que puxa um Ás, e você bate o jogo. Nas duas pontas. Tudo claro, fácil e exato. Como dar uma cagada no intervalo de um filme e não perder nenhuma parte. Ou como uma gozada no tempo certo, sendo que você acabou de receber uma proposta de emprego quando não tinha mais nenhum centavo na carteira. Pedra puxando pedra. Numa lógica muito louca e maravilhosa. Às vezes acontece. E aquele dia foi assim. Um perfeito lasquinê. E olha que nem vencemos a partida.