20.12.08

Presente de Natal

Árvores de natal me fazem pensar. E eu estava apenas ali. Matando uma garrafa de vinho e concentrado em minha árvore de natal. Uma árvore velha e torta, é verdade. Mas com pisca-pisca novo. Eu lembrava do meu primeiro grande presente de natal. Um Papa Tudo Trapalhões. Deus do céu, como gostei de ganhar aquele brinquedo. Tinha umas bolinhas coloridas e as caricaturas do Didi e do Mussum. Era bem divertido. Bem diferente desse ano. Eu queria o Flamengo na Libertadores. Não ganhei. Queria um emprego novo. Não ganhei. Para não dizer que passei em branco, um velho amigo padeiro me presenteou com um pão de natal. Com passas, ameixas, frutas cristalizadas e azeitonas. Para ser o autêntico pão que o diabo amassou, só faltava vir com uma bandeirinha do Vasco.

Bem, eu podia passar horas ali. Só olhando a minha árvore. Lembrando de muitas coisas. Pensando muitas coisas. E chegava à conclusão que o mais novo, chato e previsível clichê é criticar o Natal e chamar o Papai Noel de velhinho pedófilo, quando bateram na porta.

- Paulo Bono? – ela disse.
- Sim – eu disse.

A menina entrou, fechou a porta e saltou sobre meu pescoço, chupando minha língua e minha alma. Depois correu a mão sobre meus ovos e me empurrou contra o sofá. “Eu vou te dar meu cuzinho” – disse enquanto chupava minha orelha e rebolava em meu colo. E como rebolava. Parecia estar possuída. Foi tudo muito rápido. Logo ela já se arrastava em direção ao meu pau. A danada era gostosa. Pele branca, cabelo preto, olhos azuis, peituda. Um corpo lindo. Dessas que nunca, nunca, nunca me dariam bola. E eu nem a conhecia. Mas pensei, deve ser o milagre do Natal. Definitivamente, fuder aquela morena ia ultrapassar o Atari que ganhei em 84 e assumir o primeiro lugar no ranking dos meus presentes de natal. Mas quando tirou minha cueca, a sacana começou a rir e disse:

- Feliz Natal!

A morena se levantou e saiu. Claro que não entendi nada. Claro que eu ainda estava de pau duro. E ia voltar para minha árvore quando tocou o telefone.

- Feliz Natal! – Era o Caju. Dando a maior gargalhada.
- E aí, Sacana? – eu disse.
- Gostou do presente?
- A putinha escrota foi coisa sua?
- Gordo safado!
- Porra, Caju!
- Meu pau em seu cu!
- E aí?
- Tá fazendo o quê?
- Agora tava pensando em bater uma punheta.
- A gente tá aqui na casa de Chatão. Venha pra cá. Traga alguma coisa e venha.

Dizem que podem causar incêndio. Por isso desliguei o pisca-pisca. Depois peguei o pão de natal e fui beber com os amigos.

É um velho clichê, mas é de verdade:
Feliz Natal e Feliz Ano Novo.

10.12.08

Rascunho

O dia foi a mesma merda de sempre. Teve um velho amigo que me prometeu um emprego. Mas o resto foi a mesma merda. De qualquer forma lavei o rosto e sentei para escrever. Achei um título – O Dia dos Loucos – mas a primeira linha não valia um centavo. Apaguei e recomecei. Ainda estava uma droga. Apaguei e recomecei novamente. Dois parágrafos. Duas bostas. Apaguei. Lavei o rosto e recomecei. Mas travou outra vez na primeira linha. Talvez o problema estivesse no título. Talvez eu não soubesse escrever. Maldito o dia que achei que eu soubesse escrever. A verdade é que eu queria escrever como se estivesse vomitando. Mas nunca levei um soco do meu pai. Nem passei fome, nem frio, nem dormi com os ratos. Fui uma criança feliz. Daquelas aptas a escrever sobre piratas, caça ao tesouro e beijo no final. Mas eu queria escrever sobre a noite. E sobre brigas de bêbados. Inclusive queria escrever sobre os maiores derrames de cachaça que a noite dessa cidade já viu. Mas fico besta logo na segunda dose. E odeio a noite de Salvador. Eu queria escrever sobre mulheres. Mas comi tão poucas bucetas nessa vida. Nunca comi, por exemplo, uma mulher capenga. Eu queria escrever sobre os loucos. Por isso aquele título. E já tinha até achado o fio da meada quando bateram na porta.

Era o Tijolo.

- E aí, Bono – disse Tijolo.
- Tijolo – cumprimentei.
- Vim pegar o texto da cartilha. Eu trouxe o pen-drive.
- Tá maluco, Tijolo? Já mandei pro seu email.

Tijolo disse, “Ah, tá”, entrou e sentou no sofá.

- Tem visto o Paranhos? – perguntei.
- Vou fazer o concurso da Petrobrás.
- Bacana. Vai fazer pra quê?
- Já sei como vai ser o traço da cartilha. Vai ser aquele da Turma da Mônica. Posso fazer o contorno mais grosso, das Meninas Super Poderosas, eu sei fazer...
- Vai fazer o concurso pra quê, Tijolo?
- ...fica bem colorido. E naquela parte que você botou o garrafão de água caindo eu posso fazer um splash e...
- O concurso, porra! Vai fazer pra quê?
...e posso dividir a página em três colunas...

Sempre foi difícil manter um diálogo com Tijolo. Ele é um ilustrador que conheci na velha agência. Para ser exato, no meu primeiro dia na velha agência. Teve um momento que fiquei sozinho com ele. Eu estava lá escrevendo alguns títulos idiotas quando o escutei rindo e falando sozinho enquanto desenhava qualquer merda no Corel Draw. Eu não conseguia entender o que ele dizia, parecia outro idioma. Mas devia ser engraçado porque Tijolo ria pra caralho. Pensei, porra, é verdade, publicitário é tudo maconheiro. E a verdade é que dizem que a maconha e outras drogas fuderam a cabeça de Tijolo.

- Tijolo, manda essa arte até sexta. Preciso dessa grana, tá ouvindo? Hein, Tijolo?
- Vou me inscrever pra Segurança, nível médio.

Tijolo disse apenas isso, se levantou e foi embora. Maluco de merda. Então voltei a lavar o rosto e sentei no computador. Cheguei a mais um parágrafo. Mais uma bosta. O filho da puta do Tijolo havia cortado meu pensamento. Então mudei o título e escrevi esse texto. Não tem nada demais. Como nunca tem. Aliás, nunca quis escrever nada demais. Um cara até disse certa vez, “Ei, Bono, acho suas histórias repetitivas!”. E eu disse, “Cara, meus dias são repetitivos!”. E um dia desse, um amigo, até o mesmo que me prometeu o emprego, veio me sacanear, “Bono, porra, você chama isso de escrever? Assim até eu! É só dizer, ah, hoje conheci uma putinha, aí depois comi a putinha, aquela sacana! Isso eu também escrevo, seu porra!”. E eu disse, “Então escreva, porra!” É mais ou menos isso. Só escrevo. Escrevo porque preciso. Como preciso cagar e vomitar. Ultimamente escrevo porque não consigo dormir. Se um dia essa merda toda vai ser publicada? Não sei. Se alguém gosta? Não sei. Foda-se.
Mentira, sou vaidoso pra caralho.

Pronto. Acho que terminei mais um.