28.11.08

Marianinha

Odeio entrevistas com bandas de rock. Ou pelo menos a maioria delas. Geralmente são os vocalistas que se acham os visionários. Saem com frases de efeito, tiradas polêmicas, respostas vazias. Para dizer que são excêntricos e espontâneos. Acham que conseguem explicar a humanidade. Mas só falam merda.

Marianinha, uma prima do interior, passou um tempo lá em casa. Depois de escutar bandas nacionais, o que ela mais gostava de fazer era dormir. E teve um domingo que foi mais ou menos assim.

- Porra, Mari – eu disse – te acordei?
- Não – ela disse – pode continuar tocando. Eu tava ouvindo.
- Mas também você dorme pra caralho.
- Fui domir tardão. Estudando.
- Simulado?
- Ham ham.
- Odeio essas porras.
- Não sei o que faço. Não sei nada de Biologia.
- Bobagem. Eu sempre me fudia em redação.
- Paulo.
- Oi.
- Eu queria te pedir uma coisa.
- Lá vem merda.
- Eu queria que você tocasse em meu aniversário.
- Não existe.
- Por favor!
- A gente pede pro Fabão tocar. Ele sabe de verdade. E bota Kinho pra cantar. Ele é mais bonito.
- Idiota.
- Eu posso servir as bebidas.
- É sério.
- Tô falando sério.
- Isso se...
- O quê?
- Você sabe.
- O quê?
- Se eu chegar lá.
- Deixe de besteira, Mari. Mais fácil EU não chegar. Olhe pra mim. Posso ter um infarto tentando alcançar aqueles Cd´s.
- Besta. Ah, seus cd´s. Esqueci lá em casa. Eu trago semana que vem.
- Você é minha prima mais bonita. Não tem pressa.
- Êta! Já vai dar uma hora.
- Tem isso. Se quiser ser médica, vai ter que acordar mais cedo.

Tempo depois, eu estava longe de casa. Comendo besteira, engordando mais ainda, escrevendo bobagens, ao lado de pessoas que nada tinham a ver comigo, enfim, sozinho. Quando minha mãe ligou, justamente numa tarde de domingo, para dizer que Marianinha havia saído do jogo. É estranho receber esse tipo de notícia quando se está sozinho. E eu andava praticando a canção do Kid Abelha que ela tanto gostava para cantarmos juntos em outubro. Ainda tive que escutar minha mãe chorando e dizendo que uma semana antes, Marianinha havia mandado meus Cd´s de volta. Marianinha era um doce. Preguiçosa pra caralho, mas era um doce.

Mas como eu estava dizendo, é incrível como vocalistas de bandas de rock parecem nunca crescer. São eternos adolescentes. Daqueles adolescentes idiotas que só falam merda. Mais ou menos naquela época tive que escutar o vocalista do Capital Inicial dizer na TV que preferia ter um câncer no pulmão do que ser gordo. E disse isso sorrindo. Brilhante. Esses caras se acham o máximo.

21.11.08

Adeus, Bono Vídeo!

Meu sonho era ter uma vídeo-locadora. Com filmes bacanas, posters e uma máquina de sorvete. Seria mais um sonho a longo prazo. Porque naquela tarde, sem porra nenhuma pra fazer, meu sonho era apenas pegar um bom filme para assistir no meu quartinho.

O problema é que não se encontra bons filmes por aqui. Naturalmente as locadoras do IAPI atende às preferências do povo do IAPI. Só se encontra os últimos lançamentos do Vin Diesel e do Steven Seagal. Ou títulos como A Vingança Maldita dos Vermes e Rajada Mortal 3. Uma vez procurei por Despedida em Las Vegas, e a putinha da locadora disse que eu estava enganado, que não tinha Nicolas Cage nesse filme, e que o nome do filme era Despedida de Solteiro em Las Vegas. Só não mandei ela tomar no cu porque Nina estava comigo, e ia encher meu saco me chamando de estúpido. É uma merda não ter uma boa locadora por perto. Já pensei em me mudar por causa disso. A salvação sempre foi a Locadora do Ernesto. Lá ainda se encontrava algumas coisas do Woody, do Charlie e do Kevin. O Ernesto fica no largo. Dá pra ir a pé. Mas como sou um gordo preguiçoso peguei meu busu e cheguei lá rapidinho.

Por Deus, era melhor não ter ido no Ernesto. Fazia tempo que eu não aparecia por lá. A locadora estava mais vazia que a minha tarde. Não havia mais os posters no portão de entrada. Nem o painel anunciando promoções. Nem as putinhas procurando comédias sem graça. Não havia fila. Não havia um pé de gente. Só Ernesto e sua esposa baixinha atrás do balcão. Ernesto assistia Luciano Huck na TV. Pensei em chorar nessa hora. “E aí, Bono” – ele disse. Eu disse “Ernesto, meu rapaz”. Ernesto era a depressão em pessoa. Achei melhor não falar muita coisa. Fui direto nas prateleiras.

Aquilo parecia a grade de programação da Sessão da Tarde. Rocky Balboa ainda estava entre os lançamentos. Prateleiras vazias, ocas, sem sentido. Olhei para trás, e Ernesto ainda assistia Luciano Huck. “Não encontrou nada, Bono?” – Ernesto perguntou. Eu não podia dizer, porra, Ernesto, acho que vou esperar o Supercine. Talvez Ernesto estivesse esperando só acabar o Luciano Huck para se matar. Eu precisava pegar alguma coisa e escolhi o primeiro que vi pela frente, Blade Runner.

- Não já assistiu esse, Bono? – Ernesto perguntou.
- Pra ver se entendo o final dessa porra.
- Não vai levar mais nada?
- Ernesto, meu rapaz, o tempo tá curto.
- Ó, tô vendendo a casa.
- Sério, Ernesto?
- Desisti.
- O bicho tá pegando?
- Essa coisa da pirataria.
- É foda.
- Sabe quantos funcionários eu tinha aqui? Você lembra. Sete! Sete funcionários. Com carteira assinada! Mas aí, meu amigo, com esse povo vendendo quatro filmes por dez reais não dá pra mim.
- EU TENHO VONTADE DE MATAR ESSES FILHOS DA PUTA! – berrou a esposa de Ernesto.
- Eu, eu, não compro filme pirata. Eu odeio filme pirata – eu gaguejei.
- E QUERO QUE TODO MUNDO QUE COMPRA FILME PIRATA SE FODA!
- Aquelas capas xerocadas, fudidas. É um povo imbecil.
- Bono, esses aí dessa prateleira eu tô vendendo. Quatro reais – disse Ernesto.
- Tem os Goonies?
- Os Goonies não.
- E quanto é que eu devo, Ernesto?
- 2,50. Mas você pode levar por dois reais.
- Ernesto, meu rapaz, que é isso. Toma aqui.
- Obrigado, Bono.
- Entrega na segunda?
- Pode ser na terça.

Pois é. Foi percebendo que os piratas venceram, e até o velho capitão Ernesto resolveu abandonar o navio que desisti da minha locadora. Minha locadora ia ter até um blog. Mas apesar da minha raça flamenguista, não vou querer remar contra a maré. Deixa lá. É só mais um sonho não realizado. Eu também sonhava em ser baixista de uma banda de rock, e nunca aprendi tocar contra-baixo. Aliás, ia dá na mesma merda. Porque ainda tem o lance do eMule.

Só sei que quando cheguei em casa ainda liguei para a GPW. Acho que é a melhor locadora da cidade. Tinha muito filme bacana. Inclusive aquele, A Família Savage, que eu queria muito assistir. Mas a putinha disse que infelizmente eles não entregavam no IAPI. Graças a Deus, Luciano Huck já tinha acabado. Mas também não assisti ao Blade Runner. Apenas dormi. E não não sonhei mais nada.

8.11.08

O Cavaleiro Jedi e a Pequena Hannibal

A manhã estava calma. A rua estava calma. E eu também estava calmo. Apenas sentado na porta de casa, esperando Hulk dá suas mijadinhas nos pneus e nos postes. Foi quando vi o garoto se aproximar. Era o filho dos novos vizinhos. Devia ter uns seis anos e trazia uma espada de plástico. Vinha em minha direção. Pensei, lá vem merda. É que tenho medo de crianças. Do que elas pensam a meu respeito e fazem questão de expressar. Não estou preparado para tamanha espontaneidade. Uma vez um guri de colo ao me ver abriu o maior berreiro. O contrário também. Bebê que estava chorando e quando me viu entrou em estado de choque. Não sei lidar com situações como essas. E lá vinha o garoto. Na certa ia perguntar por que sou tão gordo. É o que sempre perguntam.

- Você tem uma espada? – perguntou o guri.
- Não. – respondi.
- Minha mãe que me deu. Tem o escudo também.
- Mas eu já tive uma.
- A sua veio com escudo?
- Escudo não. Mas era uma espada massa.
- Esse cachorro é seu?
- É de minha irmã.
- Sua irmã?
- É. Mas ela me empresta de vez em quando.
- Eu não tenho medo dele.
- Ele não morde.
- Mas meu pai disse que ele faz zuada.
- Seu pai disse?
- Foi. Eu tenho o boneco do Kung Fu Panda.
- Hum. Patas da fúria. Legal.
- Meu pai comprou na MacDonald.
- Yeah, gostoso, né?
- Mas eu não como o pão. Só como a batata frita.
- Batata frita é bom. Depois você pede pra seu pai comprar Pringles.
- Quê?
- Prin-gles.
- Quê?
- É uma batata.
- Uma vez eu comi mil batata frita.
- Mil?
- Hum hum.
- Cara, você bateu meu recorde.
- Foi na casa de minha tia Cléo.
- Rapaz, mas vou te dar uma dica. Como é seu nome?
- Lucas.
- Lucas. Meu nome é Bono. Lucas, não coma muita batata frita.
- Por que?
- Porque faz mal.
- Por que?
- Porque senão você vai ficar assim que nem eu.
- Assim como?
- Assim, gordão.
- Mas não importa seu tamanho.
- Por que não importa?
- Não importa seu tamanho. Eu vi no Horton e o Mundo dos Quem.
- Horton e o Mundo dos Quem?
- É.
- Esse eu não vi.
- Eu vi no cinema. Eu já vou. Vou fazer xixi.
- Tá certo.
- Tchau.
- Hei, Lucas.
- Hum?
- Que a Força esteja com você.
- Quê?

Com certeza aquele guri estava com a Força. E acho que, de certa forma, ele a transmitiu para mim. Porque comecei a me sentir bem. Claro que não importava o meu tamanho. Claro, porra. Sou um cara legal do caralho. Sou redator, sou engraçado, tenho um blog maneiro, tenho uns amigos bacanas, jogo o meu dominozinho, torço pro melhor time do mundo, boto pra fuder, e naquela noite eu tinha uma festa para ir.

Era o aniversário do meu ex-chefe e velho amigo Alevino. Embora meu tamanho não importasse nenhum pouco, fui todo de preto. Para emagrecer um pouquinho. Todo mundo da velha agência estava lá. E como era na casa de Alevino, tinha um bom vinho, é claro. A noite estava curtida, e eu estava com a Força toda. Tinha também a sobrinha de Alevino que morava no Rio. Loirinha, bonitinha, peitudinha. Eu contava os casos engraçados da velha agência. Contei a piada do bêbado e do manco. A loirinha adorou. Acho que ela estava na minha. O bom que ela voltaria para o Rio na segunda. Então era só fuder. Nada mais. Só alegria.

Foi quando Júlio chegou. Júlio era um parceiro Diretor de Arte. Chegou com a mulher e a filhinha. Aí fudeu. Porque começou a bater um certo pânico. Já tínhamos ouvido muitas histórias sobre a pequenininha. Reza a lenda que uma vez Júlio foi dar uma bronca nela, algo a ver com os lápis de cera, uma coisa assim, ele deu a bronca, e ela retrucou, “Papai, você tem a sua razão, eu tenho a minha”. E ela falou mais alguma coisa, e no final completou, “Eu te perdôo, papai”, e Júlio saiu chorando. A guria meio que manipula a mente do pai. Isso com quatro anos de idade. Sem contar o lance de monopolizar o controle remoto, ameaçar Júlio de contar para a mãe toda vez que ele olha pra bunda de outra mulher. Pois é, eu tinha razão para estar aflito. Era a primeira vez que eu ia me deparar com aquela guria. E ela não se parecia nada com uma Jedi. E quando a família se aproximou, cumprimentei meu amigo Júlio, a esposa e tentei não encarar a menina, mas não teve jeito. Ela olhou pra mim e disse, “Ó, mãe, o Shrek!”.

Guria filha da puta!

Todo mundo riu, inclusive a putinha loirinha. Foi aquele qui-qui-qui-cá-cá-cá, e alguém ainda disse, “Ah, como ela é sabida!”, e outro sacana completou, “Porra, Bono, Shrek, parece mesmo!”. Pronto. Eu estava desmoralizado. A loirinha não ia querer mais nada comigo. Virei a piada da festa, e eu não sabia o que responder àquela pequena mente diabólica que acabara com minha noite.

Fui parar no espelho do banheiro. E comecei a admitir que realmente eu era apenas um ogro de merda. Um ogro gordo e careca. Que só trabalha com propaganda porque não sabe fazer mais nada nessa vida. Que só sabe escrever sacanagens. Que só conta as mesmas piadas de sempre. Que tem uns amigos escrotos com filhas mais escrotas ainda. Que não aguenta mais nem cinco minutos jogando futebol. Ora, porra. Até o Flamengo tinha levado três a zero no Maracanã naquela noite de merda. É, eu precisava conversar novamente com aquele guri, o Lucas. Ou pelo menos alugar o tal Horton e o Mundo dos Quem.