19.9.08

Serra Limpa

Era uma caipirinha fuderosa. A melhor de todos os tempos. Preparada com essa tal de Serra Limpa. Eu já estava na quarta dose, quando Psico, um amigo que tinha cara de psicopata, chegou com um guardanapo e uma caneta Bic.

- Bono, me ajuda.
- Tô duro.
- Escreve alguma coisa aí. Praquela menina.
- Vá te fuder, Psico.
- Eu tô amando, cara.
- Bebe uma dessa que passa.
- Escrevi um negócio massa. Ela não gostou.
- Escreveu o quê?
- Olha só.
- "Oi, gata...". Tomar no cu, Psico. "Oi, gata" é foda.
- Então! Escreve uma coisa legal aí.
- Nunca peguei mulher nenhuma escrevendo, porra. Não sei escrever essas coisas.
- Seu gordo filho da puta! Escreve logo esse caralho!
- Calma, Psico!
- Escreve!
- Quem é a putinha?
- A de casaco branco.
- Porra, bicho. Ela dá na sua cintura.
- Te pago duas caipirinhas.
- Três.
- Tá bom, três.
- Com Serra Limpa.
- Com Serra Limpa.
- Mais uma coisa.
- O quê?
- Confesse. Você já matou alguém?
- Quase.
- Me dá a caneta.

Era verdade. Eu nunca havia comido ninguém escrevendo bilhetinhos. A última vez que mandei um bilhete foi na oitava série. A menina cuspiu um Bubbalo no papel e jogou fora. Mas Psico estava exaltado, e não me saía da cabeça que ele já tinha matado alguém e podia atacar de novo a qualquer momento. Sei lá. A pequena também serviu de inspiração. E tinha também as quatro caipirinhas na cabeça. Demorou um pouco. Foram apenas quatro linhas. Mas saiu alguma coisa. Mostrei a Psico.

- Tá maluco porra? – ele disse.
- Vá por mim. Ela vai gostar.
- Pensei que você ia fazer um poema.
- Porra de poema.
- Ela vai chamar a polícia...
- Manda essa porra, Psico. E pode pedir minha caipirinha.

Enfim, Psico chamou o garçom e mandou o tal do bilhete. Em dois minutos o garçom estava de volta. Com a minha caipirinha. Uma beleza. Logo depois, a pequena se levantou e veio em nossa direção. Psico era louco, mas não era besta. A pequena era realmente qualquer coisa. Tinha um jeitinho doce, de menina. Mas não me enganava. Era a Chapeuzinho Vermelho mais safada daquele bar e estava doida para ser lanchada por um lobo doido, varrido e psicopata.

- Oi – disse a pequena.

Com aquela voz, eu podia apostar que a danada tinha uma tatuagem embaixo daquele umbiguinho safado.

- Oi – nós dissemos.

Psico se levantou. Eu apenas levantei a caipirinha até minha boca.

- Então, gata – disse Psico –, foi meu amigo que escreveu aquela parada, mas sou eu que tô amando você.
- Foi a coisa mais linda, mais engraçada, mais criativa e, ao mesmo tempo, mais arrogante que alguém já me disse – A pequena disse olhando para mim.

Tomei mais gole da caipirinha.

- Sabia que ele já matou uma pessoa? – eu disse a ela.
- Sério?

Foi mais ou menos nessa parte que a Pequena sentou ao lado de Psico, e os dois começaram a conversar. Rapidinho já estavam se beijando. Como se eu não estivesse ali. Então detonei minha caipirinha e pedi outra. A pequena falou algum segredinho safado no ouvido de Psico. Foi nessa hora que vi a tatuagem. Errei por pouco. Era no ladinho da cintura.

Dedicado a Chaveirinho e Casagrande, que se casam mês que vem, me chamaram para ser padrinho e prometeram uma garrafa de Serra Limpa só pra mim.