24.8.08

Deco

Quando vi Deco pela primeira vez, senti um alívio. Eu não seria o mais gordo da turma. Você sabe, segundo grau, o foco das piadas, essas coisas. Deco era imenso. Eu me perguntava, meu Deus, será que vou ficar assim? E não adiantava vestir preto, não dava para disfarçar. Deco era gordo e tinha jeito de gordo. Ele e suas calças largas. Por falar nisso, agora lembro que foi Deco quem me indicou a Loja do Gordinho, lá no Comércio.

Bem, eu poderia contar aqui várias histórias engraçadas sobre Deco. Claro, todo mundo sabe que as histórias com gordos se fudendo são sempre as mais engraçadas. Mas eu não queria falar sobre isso. Embora Deco fosse gordo, não era um bobão. Era uma figura de tirar o chapéu e um puta amigo.

Lembro uma vez que estávamos jogando vôlei. Quer dizer, eu estava jogando com a turma. Deco apenas assistia. Aí, não lembro bem por que, discuti com um dos marombeiros que estava de fora. O cara ameaçou entrar na quadra e partir pra cima de mim. Foi quando Deco puxou seu velho canivete. "É melhor ficar na sua, filho da puta!". O marombeiro ficou na dele, e confesso que até eu fiquei com medo de Deco naquela noite. E teve outra bem parecida. Essa com mais ação. Foi no meio do baba. Mais uma vez discuti com um sacana. E já que não era um dos marombeiros, mandei tomar no cu e dei o primeiro soco. O segundo foi ele que deu na minha cara. A porrada foi generalizada, e Deco foi o primeiro a me ajudar. Veio correndo lá do gol e sentou o braço no primeiro sacana que viu pela frente.

Eu poderia parar por aí. Falar apenas que Deco era um gordo valente. Mas eu estaria escondendo sua melhor versão. Deco era um gordo romantico. E se falar em romantismo na adolescência já é uma piada, imagine um Deco apaixonado. Estou querendo dizer um adolescente gordo apaixonado. É o cúmulo da perda de tempo. Deco mandava flores, caixas de bombons, recadinhos. Um dia ele se apaixonou por uma branquelinha lá da sala, e vivia me mostrando os bilhetes que escrevia para ela, perguntando o que é que eu achava, se estava bom ou não, se deveria enviar. Foda é que, não sei por que milagre, essa branquelinha começou se engraçar pra o meu lado. Era bonitinha e tudo. Mas Deco estava apaixonado, e eu, com meus princípios de jedi, jamais lhe daria uma facada nas costas. Nem peguei a garota, nem ela pegou ninguém, e Deco seguiu apaixonado até o fim daquela porra de segundo grau.

Depois disso, Eu e Deco nos encontramos muitas vezes junto com a turma. Cada um numa faculdade, mas a gente sempre marcava um baba, um cineminha ou umas biritas. E a vida seguiu assim. Até chegar aquele maldito ano. E numa certa noite, Mulata, um amigo nosso, ligou e contou o que tinha acontecido. Deco sofrera um acidente. Um acidente de carro. Foi num pega, e Deco estava no carona. A porra bateu, pegou fogo, e Deco ficou preso no cinto, uma coisa assim. Foi feio, o grande Deco não resistiu e caiu fora do jogo.

É o seguinte, não vou ficar aqui falando como uma telefonema daquele é capaz de pirar a cabeça de alguém. Ao invés disso, vou lembrar uma história engraçada com Deco. Uma vez ele se acabou na vodka, ficou na merda, e tivemos que levá-lo pro chuveiro. Deco ficou desesperado, berrando, pelo amor de Deus, que ninguém comesse o cu dele. Ri muito naquele dia. É o que eu disse, as histórias de gordos se fudendo são sempre as mais engraçadas. E o motivo da cachaça é que, pra variar, Deco estava apaixonado.

6.8.08

A Última Pizza

- Eu ainda quero ter um pug – eu disse.
- Um quê? – Regina perguntou.
- Um pug. Aquele cachorro bonitinho com cara de chefão.
- CACHORRO?!
- Hum.
- Eu não cuido.
- Eu cuido da minha porra.
- Não, Paulo. Não invente cachorro.
- Pensei que você não gostava de criança.
- Nem de um nem de outro.
- Gostou do filme, pelo menos?
- Uma monte de besteira. Não sei o homem falava a verdade, não sei se era mentira.
- Tim Burton é massa.
- O que virava peixe?
- Falar nisso, a mariscada de Augustão foi sensacional.
- Foi, mas não me deixe sozinha nessas festas. Você fica lá, tocando aquela porcaria de Legião Urbana, e não sei o quê mais, com seus primos, e eu fico sozinha. É foda.
- Mas puta que pariu, a farofinha de dendê tava sacanagem.
- Tô com fome. Vamos pedir?
- Vamos. Garçom!
- Tá aí. Eu gostei de M.I.B, Homens de Preto.
- Chefe, você me traz uma família. Meia peperoni, meia...
- Marguerita – completou Regina.
- Meia peperoni, meia marguerita. E traz mais uma Coca-Cola. Só gelo. Sem limão, só gelo.

Marguerita. Aí já era demais. Daqui a pouco ela ia começar a falar de concurso público, que eu devia largar propaganda, que eu ganhava pouco e ainda pagava a assinatura da ESPN, ou pior, ia falar que odiava Zico. Eu precisava acabar com aquela punheta ou estaria fudido o resto da minha vida de merda.

- O concurso do MP tá em cima, e ainda não peguei no livro – Regina disse.
- Regina. Vamos acabar.
- Acabar o quê?
- Acabar, porra. Acabar.
- Acabar o quê?
- Tô pirando. Não tá dando certo, sei lá.

Caiu a primeira lágrima. Ela limpou rapidamente. Era difícil Regina chorar. A mulher era tinhosa. Só chorava quando estava com raiva, com ódio e vontade de matar.

- É outra mulher? – Ela perguntou.
- Que porra nenhuma.
- Alguma puta da agência?
- Não tem puta. Só não dá mais. Tá muito foda.
- É porque eu falei o negócio do cachorro?
- Regi, você quer uma onda, eu quero outra.
- Que onda, cacete? Que onda? Você quer ter cachorro, tenha a porra do seu cachorro.
- Vamos terminar na manha.
- Tudo pra você é na manha, Paulo. Dois anos, e do nada “Vamos terminar na manha”! Vá se fuder.

Então veio aquele silêncio. Aproveitei, soltei um peido e detonei minha Coca-Cola. Havia uma remela no olho direito de Regina. Das grandes. Aquilo me lembrou a primeira vez que saímos. A mesma pizzaria. De repente percebi que o olho direito de Regina estava sujo. Eu avisei. Ela limpou constrangida. Para quebrar o gelo, eu disse que volta e meia acontecia o mesmo comigo. Depois contei uma história antiga e engraçada sobre remela, e rimos. Mas nessa noite eu não queria quebrar porra de gelo nenhum. E as lágrimas faziam a remelona escorrer. Já flutuava no meio da bochecha.

- Eu nunca te traí – ela disse.
- Porra, valeu.
- Já deram em cima de mim. Homens ricos. Mas nunca te traí.
- Foi o sacana do Humberto?
- Não importa.
- Foi o sacana do Humberto.
- Já teve gente que me disse, Regina, como é que você tá com um homem desse?
- Foi sua irmã?
- Não importa.
- Foi sua irmã.
- Por favor, Paulo...
- Ôpa! A pizza!

E enquanto o garçom servia a pizza, eu já me sentia mais leve. Cheguei a lembrar que ia passar um filme na TV. Eu ia assistir em paz, comendo um pacote de Bono, sem ninguém para atrapalhar. Regina acrescentou azeite, e eu caprichei na pimenta calabresa e no queijo ralado. Regina mastigava lentamente sua pizza de mato. A remelona ainda estava por lá. É foda, o sacana colocou o limão na Coca-Cola. Tirei e tomei um gole.

- Ah, pug é aquele cachorrinho do M.I.B – eu disse.
- Vou te pedir um favor.
- Hum.
- Não conta a ninguém que foi você que terminou.
- Claro.
- Pra ninguém de sua família, nem da minha.
- A gente diz que terminamos juntos. Que a gente conversou e terminou na manha.
- Nem pra seus primos.
- Melhor ainda. Pode dizer que foi você que terminou. É mais fácil de acreditar.
- Perdi a fome.
- Vai comer só uma fatia?
- Já vou. A gente se fala. Depois devolvo seus cd´s.
- O do Zeca tá com você?
- Tá com Andréa. Eu te devolvo.
- Não quer levar a pizza?
- Tchau.

Foi a última vez que vi Regina. Ela até ligou na noite seguinte. Insistiu alguma coisa. Só isso. Depois mandou um boy deixar meus cd´s na agência. A porra ainda emprestou meu cd à puta da irmã. Quem te viu, quem te vê, Paulo Bono. Terminando com uma mulher. Gordo metido. Gordo, feio, careca e esnobando uma advogada de terninho e carro zero. Eu já estava até vendo. Com certeza, iam dizer, tá maluco, porra? Como é que você vai arranjar outra, assim? Assim como? Assim como você é. Já se olhou no espelho? E cá pra nós, você é chato pra caralho. Era verdade. Talvez levasse anos para achar outra mulher. Talvez décadas. E como sou gordo, e posso morrer a qualquer instante, talvez esse dia não chegasse. Enquanto isso, eu podia ficar apenas olhando aquela loirinha ali no canto, sujando sua boca cor-de-rosa de queijo catupiry. Ou podia comer aquela garçonete orelhuda. Que moleca orelhuda, mas era bonitinha. Ou podia apenas matar minha peperoni. Só não ia comer a Marguerita. Mais por orgulho. Marguerita. Vai tomar no cu, Regina. É, foi melhor assim.