25.6.08

Numa Sala de Reboco

Foi numa cidadezinha do interior da Bahia. Fazia frio. Muito frio. Mas fazia frio lá fora. Porque naquela garagem onde improvisaram um salão o forró pegava fogo. E de repente a sanfona puxou Numa Sala de Reboco. Minha favorita. Sou gordo e tímido, não costumo chamar ninguém para dançar. Mas o Rei do Baião e algumas doses de licor de jenipapo fazem milagres. Ataquei a moreninha de vestido florido que assistia ao forró quietinha.

- Vamos?
- Eu não sei dançar.
- Dois pra lá, dois pra cá.
- Desculpa. Eu não sei.

A minha auto-estima que é menor que um amendoim impediu que eu insistisse. Então fiquei apenas batendo o pé e assistindo ao povo dançar, exatamente como alguns tabaréus feiosos que havia por ali e que não comiam ninguém.

Ainda assim a festa era agradável. Era um São João de verdade. Bem diferente de alguns que tem por aí nessas cidades maiores. Certa vez eu estava numa dessas. Havia um palco grande no meio da praça. E havia uma dessas bandas famosas, Calcinha daquilo ou Jabá com-não-sei-o-quê. A banda ficava lá tocando qualquer porcaria e umas putinhas com as calcinhas enfiadas nos rabos dançavam parecendo mais Chacretes na abertura do Fantástico. E o povo todo parado. Ninguém dançava. Só assistia. Um porre.

Mas naquela garagem não. Estava gostoso. E tocava Numa Sala de Reboco. Ao invés de “gente bonita”, como dizem que há nas grandes festas, havia gente de verdade, caipiras de verdade. Todo mundo arrastando o pé. Um roça-roça da porra. Havia um casal que não parava um minuto. Os dois baixinhos. Dançavam acelerados, muito à frente do ritmo da música. Dançavam encaixados. E de rostos colados. Acho que podiam soltar uma bomba de mil ali dentro, que eles não iriam se desgrudar. Com certeza, depois daquele forró, quando voltassem para a roça, iriam fazer outro filho. Aquilo explicava porque o São João é uma puta festa romântica.

Os tocadores eram uns tipos engraçados. O sanfoneiro mandava bem e mancava de uma perna. O velho da zabumba não tinha os dentes da frente. E o rapazinho do triângulo, bem, não sei nem o que falar do rapazinho do triângulo. O que tem para falar de alguém que toca triângulo? Eu estava observando. Dinheiro fácil do caralho. Acho que a maior injustiça desse universo é um tocador de triângulo ganhar o mesmo que o resto do grupo. Aquele sacana bebia mais licor do que tocava. Mas o que tinha para tocar? Era tinguinlinguinlim e licor para dentro, tinguinlinguinlim e licor para dentro. Enquanto o sanfoneiro e o zambumbeiro se fudiam com seus instrumentos infinitamente mais pesados. E volta e meia aquele filho da puta ainda olhava o repertório colado no chão, como se fizesse alguma diferença a música que viria a seguir. Aposto que ele tirava onda para cima das menininhas, “Sou músico, toco numa banda”. Mas duvido que dissesse que tocava triangulo. Cara-de-pau.

A verdade é que São João me traz boas lembranças. Sempre gostei da festa. Já fui bom nisso. Muito bom. Nos tempos de escola, eu sempre participava das quadrilhas juninas. E não é por nada não, mas eu era o melhor naquela parte que tinha que imitar um bêbado cabaleando enquanto a mocinha adulava. Lembro também que imitei o Sandro Becker na quarta série. Minha calça era cheia de retalhos, inclusive com um coração costurado no meio da bunda. E até hoje tenho uma foto de quando fui eleito o Rei da Laranja no jardim de infância. Se bem que nessa foto estou chorando porque não queria ficar grudado à Rainha do Milho. Mas aí o tempo passou, veio a barriga, veio a careca, e nunca mais ouvi Sandro Becker. Inclusive a menina que foi a Rainha do Milho ainda mora no bairro, tem pernas maravilhosas, mas nem sabe que existo. Hoje nem a moreninha de vestido florido quer dançar comigo. Hoje fico apenas batendo o pé.

E foi logo quando Numa Sala de Reboco chegou ao fim, que meu amigo Joe se aproximou. Joe era tão feio quanto eu e também não pegava ninguém. E ainda tinha um agravante. Joe tinha cara de tabaréu, e quando dizia seu nome verdadeiro, Joílson, aí é que as meninas achavam que ele era da região e não queriam nada com ele.

- E aí, Joe, pegou alguém?
- Tentei uma sararazinha ali, mas a peste não queria nada.
- Na boa, você imagina alguém pedindo um triângulo de presente de natal?
- O quê?
- Esquece. E se a gente fosse no brega?
- Esquece. Hoje dei carona à Paty na moto. Quando cheguei em casa bati uma.
- Porra. Bateu uma punheta e não come mais ninguém hoje?
- Esquece. Vamo pegar licor.
- Tô enjoado de jenipapo. Pega maracujá agora.

E quando nos afastamos para comprar mais uma garrafinha de licor, o sanfoneiro puxou outra. E para minha surpresa, quando olhei, a moreninha de vestido florido dançava com um bonitão. E dançava muito. Chegava a saia girar. Putinha faceira. Mas ela estava perdoada. Porque estava tocando aquela, Olha pro Céu, outra bacana do Rei do Baião.

11.6.08

Dona Marivânia

A solidão mora num quarto de hotel. Algo parecido só o caminho de volta ao hotel. Quando você se pergunta, aonde vim parar? É quando dizem, fulano está sumido. E o fulano é você. E você está ali. Ali onde? Ali, caminhando a passos curtos, num fim de noite, de volta a um quarto de hotel e sua companheira de quarto, a porra da solidão.

Solidão como a de Dona Marivânia. A recepcionista. Quando a vi atrás do balcão, sozinha, sem TV, sem um radinho, apenas escutando a noite passar, pensei estar olhando para a pessoa mais solitária desse planeta. Dona Marivânia era novinha. Devia ter o quê? 20, no máximo. Sei que ainda fazia o segundo grau. Ela me lembrava muito aquele tipo de menina que a gente conhece na escola, magrinha, feinha, que só senta no canto da sala e ninguém dá nada por ela. Mas aí o tempo passa, e um dia você a vê na rua, e descobre que a moleca ficou jeitosinha. Então você diz, porra, aquela é fulana? Quem diria? Dona Marivânia era assim. Podia não ser um mulherão, mas era uma menina formosa, com seus peitinhos durinhos e gostosos. Por norma do hotel, mantinha sempre o cabelo preso. Usava um batom cor-de-rosa claro e uns óculos cafonas. Tinha também um lencinho no pescoço e a saia azul que desenhava seu rabinho. Parecia ser uma menina tímida. Pelo menos, nunca a vi dando bola a ninguém.

- Boa noite, seu Bono – ela disse – chegou tarde hoje.

Dona Marivânia podia não fazer o tipo sedutora, mas fazia meu pau levantar toda vez que me chamava de “Seu Bono”.

- Boa noite, Dona Marivânia. É verdade, o dia foi longo. E você, como está?
- Tô bem, graças a Deus.
- Deve ser um porre ficar sem fazer nada a noite inteira.
- É bem chato sim. Eu aproveito pra estudar.
- Estudar é importante. É prova?
- Concurso.
- Vale a pena tentar.
- Desculpa perguntar, Seu Bono, mas o que o senhor faz?
- Nada demais, Dona Marivânia. Nada demais. Eu devia estar estudando pra concurso também.
- Eu gosto daqui, mas quero tentar algo melhor.
- Claro. Mas Dona Marivânia, eu preciso de um favor.
- Pois não, Seu Bono?
- Você podia me arranjar um prato limpo e uma faca bacana?
- Arranjo sim, Seu Bono. O senhor pode ir pro seu quarto que eu já levo pro senhor.
- Vou deixar a porta aberta.

O quarto estava lá. Do jeito que deixei. Pequeno e triste. A solidão estava na cama lendo Dostoiévski. Eu precisava de um banho. A ducha era fraca, mas a água era quente. Mais quente que a de lá de casa. Sempre é. Pensei em bater uma punheta, mas resolvi apenas curtir a água quente no pescoço. Quando saí do banheiro levei um baita susto. E fiquei por um tempo contemplando aquele susto. Era Dona Marivânia. Ela estava junto à cômoda, cheirando profundamente uma das minhas cuecas.

- Cheira aquela azul marinho que você vai gostar – eu disse.
- Seu Bono! – Disse Dona Marivânia num puta susto – Desculpa, Seu Bono. Me desculpa! Meu Deus, que vergonha! Desculpa, seu Bono! Aqui seu prato, desculpa!
- Tá desculpada. Mas você não prefere...chega aqui.

Tirei a toalha e me aproximei dela. Dona Marivânia gaguejou, tentou pedir mais algumas desculpas, mas depois deu um sorriso. Um sorriso tímido e maroto. Quem diria? Ela deu dois passos e pegou de leve no meu pau. Depois sentou na cama, deu beijinhos e cheirou de verdade. Deu também umas chupadas de leve como se estivesse manuseando uma taça de cristal. Que bom que não bati aquela punheta, eu pensei. Mas Dona Marivânia não parecia ser uma especialista no assunto. Puxei-a para cima e desabotoei sua blusa branca. Arrastei o sutiã e deixei à mostra um dos peitinhos durinhos. Segui o jogo dela e chupei de leve. Então a levei para a mesa, levantei sua saia e arrastei a calcinha. Dona Marivânia tentou soltar o cabelo. Não deixei. “Deixe assim. Eu quero comer você: Dona Marivânia”. Então comi de leve. Comi olhando o tempo todo para seu peitinho. Seus gemidos também eram tímidos. Volta e meia ela balbuciava um “Ai, Seu Bono”. Aquilo endurecia cada vez mais meu pau. Levei Dona Marivânia para a cama e a deixei de quatro. Comi devagar. Comi bem devagar. Eu poderia passar o resto das minhas diárias naquele hotel ali, enfiado em Dona Marivânia. Até que ela soltou um último “Ai, Seu Bono”, e eu gozei.

Ficamos por um tempo deitados, olhando para o teto.

- Foi bom, não foi, Seu Bono?
- Você é um pudim, Dona Marivânia. Um pudim de leite. Um pudim delicioso.
- Seu Bono.
- Diga.
- O senhor gosta de Leila Pinheiro?
- Sei lá, ela é bonita.
- Vai ter show dela aqui amanhã. Meu namorado não quer ir. O senhor quer ir comigo?
- Porra, Dona Marivânia, você tem namorado?
- Tenho. Mas não sei se gosto dele. Também não sei se ele gosta de mim.

Então o telefone da recepção tocou. Àquela hora noite, as chamadas pareciam gritar.

- Telefone - eu disse.
- Que hora é essa, Seu Bono?
- Deve ser umas duas.
- É a esposa do Seu Rocha do 502. Ela sempre liga essa hora. Eu preciso atender.
- Ok.
- O senhor vai?
- Pra onde?
- Pra Leila Pinheiro, amanhã?
- Não vou poder, Dona Marivânia. Desculpa.
- Tudo Bem. Boa noite, Seu Bono.
- Boa noite, Dona Marivânia.

Então Dona Marivânia ajeitou sua roupa, bateu a porta, e fique sozinho. Sozinho não, com a solidão, que agora jogava cartas sobre a mesa. Se bem que não tenho problemas em ficar sozinho. Se tiver um joguinho na TV ajuda. Mas em geral gosto da minha companhia. É o que me salva. Porque quartos de hotel só servem para mostrar o quanto você é você só. Quartos de hotel enlouquecem. Deve ser por isso que quartos de hotel pedem um copo de whisky. Mas eu não bebo whisky. Então me levantei e fui tomar outro banho quente.