30.5.08

Parceria de Cu é Rola

Um dia esse tal Saviola ligou e disse que precisava de três histórias. Quadrinhos. Eu nunca havia escrito uma página de quadrinhos. Nem sabia por onde começar. Mas o dia 12 estava próximo. É quando as contas começam a chegar. Eu precisava da grana. Pedi 600 conto. Ele disse que era apenas um piloto. Que o projeto tinha grande chance de crescer. Quem sabe até circulação nacional. Aí daria um bom dinheiro. Mas que por enquanto só poderia pagar 300. Aquilo era ridículo. Por um instante pensei estar em Feira de Santana. Mais um escroto pela frente. Parece uma sina. Eu só me meto com esses caras. Os que falam demais. Os que prometem muito. Falei em 400. Ele gaguejou e disse “Tá legal, parceiro. Vou ter que tirar do meu, mas tá fechado”. Bom sacana.

Era uma revistinha para crianças. Para uma empresa do ramo de saúde. Eles já tinham os personagens. Precisavam dos roteiros. Enfim, histórias infantis com alguns merchandisings infames. Tirando a tarefa de inserir uma espécie de sabonete para bucetas adultas numa história em que as personagens tinham, no máximo, 10 anos de idade, o processo foi tranqüilo. Muller, um puta ilustrador, que saca tudo de quadrinhos e deveria estar na Europa ganhando dinheiro e comendo um monte de gringas liberais, fez a arte.

Dois dias depois do trabalho pronto, o tal Saviola ligou novamente.

- E aí, parceiro?
- Que é que você manda?
- Cara, ficou muito bom. Parabéns. Ri muito na parte dos marcianos.
- Valeu.
- Parceiro, é o seguinte...

“Parceiro, é o seguinte”. Depois duma frase como essa só vem merda. O tal Saviola disse que precisava criar três anúncios para serem veiculados na revista. “Beleza, mais uma grana”, pensei. Mas ele disse que tinha que ser no pacotão dos 400. O problema deve ser essa minha cara de otário. Perguntei se ele estava de sacanagem. Ele veio com aquele papo. Disse que não ganharia nada, que haveria outros projetos, pediu na moral e disse “Bono, meu lance é parceria”. E eu respondi “Então vá tomar no cu, parceiro, porque não vai rolar não”.

Depois daquela resposta, deduzi que até os 400 conto iam demorar de sair. Já era dia sete. Mas eu bebi meu Nescau tranqüilo naquela noite. Gelado. Talvez eu ligasse para o Tilápia, que me devia uma grana, mas pelo menos não falava demais. Poderia tentar os meninos da Pituba que até hoje me devem um cartão de Natal, mas estão sempre em contato. Quanto ao tal Saviola, se fosse preciso, eu falaria com uns parceiros de Camaçari, e POW! PLAFT! BIFF! BUM! CRASH! KABONG!, sei lá, nunca fui bom em onomatopéias.

16.5.08

Pititinga

Lembro da primeira vez que eu e mais quatro amigos da Lapinha saímos de carro para beber. Foi na Estação da Cerveja. Era o “point” da época. Éramos apenas garotos. Não tínhamos a manha. Também não tínhamos grana. Pedimos cerveja e bolinho de queijo. Vieram seis bolinhos. Cada um pegou o seu, o último foi no zerinho ou um, e alguém ainda disse “Vocês parecem que nunca viram comida!”.

Hoje eu fujo do bolinho de queijo. É caro e não dá para quem quer. Agora só peço pititinga. O peixinho é, sem dúvida, o melhor tira-gosto do universo. Com um bom molho tártaro, então, é uma beleza. Uma bela porção de pititinga é gostosa, barata e pode durar um tempo de jogo.

Um dia desses, por exemplo, eu estava num bar com um amigo, o Cidade. Não passava jogo algum, mas a pititinga veio caprichada. Já acompanhava a segunda caipiroska. Cidade é um designer que conheci na velha agência. Na verdade, trabalhamos juntos durante pouco tempo. Não sei por que viramos amigos. Talvez porque ele tenha me apresentado ao velho Buk e a algumas bandas. Bem, eu nunca lhe apresentei nada de bom. Quer dizer, apresentei a Lucinha, mas não deu certo. E também nunca fui a nenhum show de sua banda. Prometo sempre, mas aquilo é uma bosta que ninguém ouve.

- Gordo – disse Cidade –, aquela menina tá olhando pra você.
- Qual?
- A de azul.
- A de azul claro?
- Porra, só tem uma mulher de azul.
- Bonita pra caralho.
- Sim, e aí?
- E aí, o quê?
- Porra, ela tá dando mole.
- Tá, não. É assim mesmo. Deve tá me achando parecido com o Ed Mota.
- Porra nenhuma.
- Você vai ver. Daqui a pouco ela chama a amiga, aponta pra mim, e ficam as duas rindo. Você vai ver.
- Ela não tá nem prestando mais atenção na conversa das amigas.
- Esquece. Diz aí, como é que tá Batatinha? Reparou que o Medeiros parece Batatinha do Manda Chuva?
- Bono, ela tá te dando um mole da porra.
- Isso não existe.
- O quê?
- Gata, com aquele cabelinho curto da Fernanda Takai e aquele peito gostoso? Não existe uma mulher daquela dar mole pra mim.
- Você é um gordo viado, isso sim.
- Rapaz, mulher nenhuma nesse mundo sai do trabalho à noite, prum barzinho no Rio Vermelho, pra dar mole prum gordo.
- Mas ela não tira o olho de você. Vai lá, porra.
- Eu não tenho essa auto-estima toda não.
- Você é doente.
- É porque você não passou pelo que passei no segundo grau.
- Vá tomar no cu, Bono. Todo mundo passou pelo segundo grau. Acha que eu peguei alguém no segundo grau? Como é que você acha que eles tratavam quem tinha cabelo crespo como eu?
- Diga logo, cabelo duro.
- Cabelo duro, cabelo ruim. Toda hora os caras passavam a mão assim no meu cabelo e dizia “Porra, isso espeta!”.
- Colé, Cidade. Isso não é nada. Uma vez subi até a quadra com um papel colado em minhas costas dizendo “Sou um viadinho feliz!”. Eu só escutava as gargalhadas.
- Porra, mas eu tinha espinha, cara. Meu rosto era fudido. No segundo ano, até as meninas me chamavam de Chokito.
- Chokito?
- Chokito. Ele não é assim cheio de carocinhos, tem aqueles...
- Porra de Chokito, Cidade! Eu já era gordo, porra! Gordo! Sabe o que é ser gordo no segundo grau?
- É, você ganhou.
- Tô dizendo.
- Mas meu rosto era todo pocado. Era foda. Todo dia minha mãe vinha com um creme diferente.
- Rapidinho, aquele garçom não parece o Vanderlei Luxemburgo?
- Porra, a cara!
- É todo.
- Falar nisso, você viu aquele vídeo do Selton Melo e Seu Jorge?
- Sobre Tarantino? De fuder.
- De fuder, né? Viu aquele negócio dos sósias...
- É, só achei meio forçado dizer que Tarantino parece com aquele cara.
- Federer. Lembra pra caralho, Bono.
- Lembra. Mas diga se o Morrissey não é a cara do Oscar?
- Oscar?
- Que joga basquete...
- Porra! É mesmo.
- Principalmente quando ele ganhou, acho que o Pan-americano. Ele era novo. A cara do Morrissey.
- Velho, na boa, a menina não tira o olho de você.
- Porra, me deixa em paz.
- É sério.
- Deixe ela lá e eu cá. Tá bom assim. Já tô acostumado. Vou pra casa, bato uma punheta e pronto. Ó lá, ó lá, olá...já tá rindo com a amiga. Eu não disse? Tá aí o que você queria. Devem tá rindo de mim, da minha careca. Agora fudeu de vez. Acabou com minha noite. Você é foda, Chokito!
- Você que é um viado gordo.
- Chokito de merda...
- Viadinho feliz...
- Porra, tava pensando numa coisa...
- Outra pititinga?
- Não. Já pensou, o Oscar jogando com uma rosa enfiada no cu?
- Hahaha...
- Tá bom, vamo outra pititinga. Chama aí o Luxemburgo.

5.5.08

Taco dentro, Bola fora

Pouca gente conhece um corcunda. Digo um corcunda de verdade. Eu conheço um. O Miguel. Um corcunda clássico. Ele tem aquela bolota nas costas e anda todo curvado. Não entendo dessas coisas, mas talvez ele seja mais que corcunda. Porque seus braços e suas pernas também têm problemas. Miguel não anda direito. São passinhos curtos. O movimento dos braços também é limitado. Não sei o que Miguel tem. Para a turma, ele é apenas corcunda. Como acho que deve ser raro ter um amigo corcunda, ter Miguel como amigo é um privilégio. Portanto foi bom reencontrá-lo. Não via Miguel há dois anos. Desde que saí da velha agência. Encontrei na Mouraria. Corcunda e ousado como sempre. “Porra, Mengão, você tá mais gordo!”, “E sua mãe, Miguelito, como é que tá?”. Conversamos alguns minutos. Estava bem, o sacana. Largou o emprego no escritório de advocacia e montou um barzinho, um copo sujo por ali mesmo. E o melhor, com duas mesas de sinuca. Esse é o velho Miguelito Corcunda. Conheci Miguel justamente numa mesa de sinuca.

Foi na sinuca do Chiqueirinho. Um copo sujo que ficava perto da velha agência. Pequeno, chão de cimento, algumas mesas de plástico e duas mesas velhas de sinuca. O proprietário morava nos fundos. Hoje o Chiqueirinho não existe mais. Em seu lugar, estão construindo um flat, uma coisa assim. Mas durante um tempo o Chiqueirinho foi palco de históricas partidas de sinuca. Geralmente, redatores contra diretores de arte. Modéstia à parte, eu e o velho Marcelo Jack éramos os maiorais. Páreo duro, só quando Tilápia, o diretor de criação e especialista em conhaques, fazia dupla com Miguel, o corcundinha do escritório de advocacia do sétimo andar.

Miguel era um corcunda filho da puta. Não sei como, mas ele conseguia jogar. Tinha a manha. Demorava séculos para dar a volta na mesa com os passinhos miúdos, inclinava ainda mais o corpo, mirava, esticava o bracinho e PUUM! Bola seis na caçapa do meio. Assistir a Miguel Corcunda jogar era presenciar um verdadeiro milagre. O pessoal ainda passava a mão em sua corcova para dar sorte. Ele não ligava. “Passa a mão aqui na minha bola que dá sorte!”. Muitas vezes funcionava. Até o Paranhos, um diretor de arte que não jogava porra nenhuma, acertava algumas caçapas depois de passar a mão no corcunda. Eu passei uma vez, deu um azar do caralho, e nunca mais. “Passa a mão na minha bola, Mengão!”. “Vai tomar no cu, Miguelito!”.

Mas havia um bom motivo para eu me tornar amigo de Miguel. Ele era o maior flamenguista corcunda que eu conhecia. Flamengo doente. Quando estávamos fora da mesa, o assunto era nosso time. “Adílio era foda, Mengão. Ô neguinho bom de bola!” – ele dizia. Nesse ponto, Miguel realizava outro de seus milagres. Ele tinha um dom. Era capaz de acertar todos os resultados do Flamengo. Não os placares. Mas sabia se o Mengo ia ganhar, empatar ou perder um partida. Flamengo X Santos pelo Brasileiro. O Flamengo caindo pelas tabelas, e Miguelito: “Não se preocupe, vai dar Mengão!”. Batata. Ou então ele dizia “Se anima não, vamo perder essa!”. A última que ele acertou, antes de perdemos o contato, foi que o Flamengo ganharia a Copa do Brasil contra o Vasco. Eu disse “Porra, Miguelito, essa é mole, até eu sei!”.

Na última noite que estive com Miguel, lembro que as mesas de sinuca do Chiqueirinho estavam em manutenção. Não podíamos jogar, mas ficamos ali. Miguel, Paranhos e eu. Beliscando uma moela e esperando aliviar o trânsito da Avenida ACM. Miguel falava sobre as escrotidões dos advogados, quando Paranhos mudou de assunto.

- Eu queria mesmo era dar uma encaçapada hoje.
- Eu topo – disse Miguel – Tem outra sinuca boa aqui perto.
- Porra de sinuca – bradou Paranhos.
- Acorda, Miguelito – eu disse – Ele tá dizendo “fuder”, justamente o oposto de sinuca. Taco dentro e bola fora.

Foi o suficiente para falarmos sobre mulher e sacanagem. Paranhos contou que comeu a dona de um brega durante um fim de semana inteiro, eu falei da minha foda maluca com uma nega maluca, num barquinho maluco na Ribeira, e Miguel não contou nada. Conversa vai, conversa vem, descobrimos o segredo do corcunda. “Miguel, você é virgem?”, “Fala baixo porra!”, “Quantos anos você tem, Miguelito?”.

- Bicho, olhe pra mim – disse Miguel – Que mulher vai querer trepar comigo? Mulher só olha pra mim com medo ou curiosidade, com aquela cara “Gente, ele é corcunda!”. Ou então com pena, o que é pior. “Aí, pobrezinho, ele é corcunda!”. Que mulher vai querer fuder com uma aberração? Essa porra nas minhas costas pode dar sorte, mas não dá tesão a ninguém. Foda-se. Eu posso viver sem isso.

Bem, Miguel era realmente muito feio. Além de corcunda, tinha uma cara de inseto da porra. Um cabelinho ralo, um bigodinho mais ralo ainda. Um cara como eu até gosta de ter um Miguel por perto porque sabe que não é mais feio do pedaço. Mas é aquela coisa. Miguel era gente fina e, principalmente, flamenguista. Além disso, todo mundo tem o direito de fuder nessa vida.

- Miguelito – eu disse –, olhe pra mim. Eu sou feio pra caralho também. Você só ganha de mim por causa dessa bolota nas costas. Em compensação, sou gordo. E até eu dou minhas fodinhas de vez em quando. Você também pode.

Foi mais ou menos nessa direção que a conversa tomou rumo. Até que Paranhos afirmou que não descansaria na vida enquanto não ajudasse a Miguel a comer uma mulher. E seria naquela noite. Estava decidido. Paranhos estava de carro, iríamos até o Centro e arranjaríamos uma puta para Miguel. “Eu não preciso disso, vou pra casa!”, “Você precisa, fuder é bom demais”. No final, arrastamos o corcunda.

Fomos até o centro da cidade. Paranhos dirigindo, eu no carona e Miguel no banco de trás. O Centro é a área de Paranhos. Ele conhecia todos os cantos e becos. Logo achou uma puta. A menina era bonita. Seu nome era Priscila. Parecia uma paquita. Além de diretor de arte, Paranhos era também um consultor em putaria. Já conhecia Priscila e sabia lidar com a situação. Disse que quem estava no banco traseiro era nosso chefe, e ele queria atenção naquela noite. A puta olhou para Miguel e nem tchum, nem cara de medo, nem de curiosidade, nem de pena. É o que eu digo, profissionalismo é um dom. Então deixamos Miguel e a puta no motel mais próximo. Paranhos pegaria o casal quatro horas depois. Acontecia então outro milagre. Era a primeira noite de Miguelito Corcunda. Foi a última vez que vi Miguel, pois viajei no dia seguinte.

Por isso foi uma satisfação reencontrá-lo. O corcunda estava mesmo muito bem, tocando seu barzinho. Sobre aquela noite, não contou detalhes, mas disse que eu tinha razão, que fuder era bom demais. Então veio a novidade. Disse que uma semana depois marcou com a mesma puta. Na semana seguinte, mais uma vez. Depois, duas vezes na mesma semana. E assim foram fudendo. Até ele convencer a menina a largar aquela vida. É verdade. Os dois juntaram os panos de bunda e foram morar juntos. Hoje, Priscila atende pelo nome de Carla Cristina, a senhora esposa de Miguel, e o ajuda no copo sujo. Quase não acreditei, mas gostei de saber daquilo tudo, que Miguel encaçapou a bola oito e matou o jogo. E o melhor, meu amigo Miguelito Corcunda contou por último: “Mengão, amanhã vamo ser campeão!”.

*Encontrei Miguel no último sábado, 03/05. E como puderam ver, o cara não erra uma. O Mengão levou a taça.