23.4.08

10 Anos

O dia está lento. E não é domingo. Nem um futebolzinho na TV. Nada que me faça parar de pensar. Tem até um livro ali no canto. Mas já desisti dele. Não passo da página 23. Já li a página 23 umas sete vezes. Não adianta. Hoje eu podia ficar parado. Olhando a parede. Olhando a parede o dia todo. Mas resolvo sentar no computador, tentar escrever um daqueles contos. Não sai nada. Só um parágrafo muito parecido com a página 23 daquele livro. Eu sou uma farsa. Vou ao banheiro e dou uma cagada. Passo um tempo ali sentado me olhando no espelho. Cara, como eu sou feio. Dias assim me deixam gordo e careca. Penso em tomar um banho. Já é alguma coisa. Ficar embaixo do chuveiro, cantar baixinho, bater uma punheta. Yeah. Mas o chuveiro está quebrado. Não tem água quente. Acho que nunca tive um chuveiro decente. Com água quente de verdade, que fica aquela fumacinha. Como nos hotéis bacanas. Lá fora, a vizinha toca um pagode qualquer. O dia fica completo. Dias assim envelheço uns 10 anos. Muito tempo. São duas Copas do Mundo. Prefiro até achar que é muito tempo mesmo. Quando penso que é pouco fico deprimido. Lembro onde eu estava há 10 anos atrás. Saía da faculdade, achava que ganharia o Profissionais do Ano, participava de rodinhas de violão. Como se fosse ontem. Mas foi há 10 anos. E se eu for um pouco mais longe? Voltar mais 10 anos. Eu via pela primeira vez o Flamengo ser campeão brasileiro e ganhava meu primeiro campeonato de botão na Lapinha. Dias como o de hoje são longos, mas 10 anos passam rápido. Se penso nesse tempinho de merda à frente, terei 40. E antigamente eu chamava quem tinha 40 de coroa. Ou seja, mais alguns míseros 10 anos, só mais duas Copas do Mundo, e eu serei um coroa. Mais gordo e mais careca. Dias assim me faz pensar cada bobagem. Eu queria ser igual a Aninha, minha irmã. Gostar de axé e ser alegre o tempo todo. E ainda falta mais de uma hora para começar a reprise do Seinfeld. O pior que são em dias como o de hoje que chegam as perguntas mais difíceis. Logo hoje minha mãe sentou do meu lado e fez a pergunta que há 10 anos eu temo, mas sabia que um dia ia chegar. “Paulo, meu filho, o que aconteceu com você?”. Eu não tinha resposta. “Tá com medo de ter que pagar meu Nescau a vida toda, né Maroca?”. Respondi assim e sorri. Só para ela sorrir também. E para o dia ter alguma graça. Foda é que daqui a 10 anos vou continuar sendo eu mesmo. O mesmo de 10, 20 anos atrás. Pior ainda, o mesmo de hoje. Dá um medo da porra. O problema é saber que a minha vida depende de mim. Aí então que estou fudido. Porque eu não sei consertar nem um chuveiro.

11.4.08

A Buceta Amiga

Tenho saudade da Flavinha. Costumávamos conversar durante horas. Estagiamos juntos. Três meses e pouco, mais ou menos. O suficiente para ela me passar a manha do estágio e tomarmos algumas biritas no Comércio.

Aconteceu numa daquelas noites. Eu falava das putinhas da faculdade. De como eram ricas e metidas, e eu não tinha a menor chance. E quando eu disse que a mulher mais próxima era a Dani, uma grande amiga, e, por isso, não rolava nada, nem eu queria, a Flavinha me veio com essa:

– Me diga uma coisa, Paulinho. Por acaso você trepa com inimiga?

Bem, ela estava certa. Acho que ninguém transa com inimigo. Aliás, sei lá. Nunca se sabe. Só sei que não falei mais nada. Continuamos bebendo e falando mal do estágio. Mas logo depois de pedirmos a conta, eu perguntei:

– Me diga uma coisa, Flavinha. Por acaso, nós somos amigos ou inimigos?

Rolou. Rolou no seu apartamento, em Brotas. Flavinha morava com uma amiga, que estava viajando. Fudemos ao som do Smashing Pumpkins. Foi bacana. Uma boa foda standard, que começou no meio da sala e terminou no meio da cama. Então Flavinha foi tomar uma ducha, e eu fiquei lá, tomando a Coca-Cola da vitória. Por um momento fiquei pensando, como é que uma menina como Flavinha resolve dar pra mim? Bonita, inteligente, vozinha rouca. O mundo precisava de mais amizades assim. Quando ela saiu do banheiro, foi até a cozinha e voltou com um pote de batata Pringles. Nunca conheci ninguém que gostasse mais de Pringles do que Flavinha. Ela se jogou na cama e pediu um gole da Coca-Cola. Flavinha ainda estava nua.

- Só dou se você abrir a perna – eu disse.
- Só porque eu tô com sede! – ela respondeu.

Flavinha abriu as pernas bem devagar. Safada. Revelando a bucetinha branquinha. Eu lhe passei a lata do refrigerante e deitei. Deitei com a cabeça entre suas pernas. Eu só queria ficar olhando. Só olhando. Cheirando também. Cheirando e beijando. Enquanto isso Flavinha mandava ver na Pringles.
- Raspadinha assim é melhor de chupar – eu disse.
- Dá um trabalho da porra, você nem sabe. Às vezes a pele fica irritada.
- E fica parecendo um brinquedinho. Eu bato a cara assim ó, faz toin, toin, toin, tipo uma almofadinha.
- Você prefere assim?
- Flavinha, minha filha. Buceta, pra mim, é que nem pizza sem azeitona. Eu como todas.
- Homem é tudo besta.
- Sabe qual era o meu sonho quando era criança?
- Ham?
- Transar.
- Besta.
- Sabe qual era meu medo?
- Qual, Paulinho?
- Morrer donzelo.
- Por que todo homem assim? Tá ligado, Jéferson, do financeiro? Puta que pariu, parece que nunca viu mulher. Ele é muito nojento. Sabe quem ele tava queixando?
- Ham?
- A Dulce.
- Dulce tem uma cara de sacana da porra. É gostosinha.
- Pelo amor de Deus, Paulinho.
- Flavinha, o objetivo de todo homem é fuder.
- Não exagera.
- Deixa eu explicar uma coisa. A gente nasce pra isso. Pra comer uma coisinha fofa como essa aqui. Olha só, que coisa linda. Buceta é a coisa mais linda do mundo, Flavinha. Sério. A primeira vez que vi uma mulher pelada, eu era pequeno, sei lá quantos anos eu tinha. Devia ser uma Playboy, não lembro. Parecia que tava no meu espírito, meu pauzinho ficou duro na mesma hora vendo aquele triangulo preto. Eu nem sabia que mulher tinha cabelo na xoxota. Aliás, eu lá sabia o que era xoxota. Mas meu pauzinho já sabia, sacou? Depois a gente vive querendo ver outras, em revista, filme. Era o amigo que pegava escondido a Playboy do pai, era tentando ver a empregada tomar banho, o que fosse. Era o maior esquema pra comprar uma Playboy na banca. Eu tinha umas seis, sete revistas. Ficava embaixo da cama. Rezando pra minha mãe não encontrar. Os caras tinham várias. Lembro que o Duda tinha uma cassetada, Playboy, quadrinhos, um monte de sacanagem. A gente cresce com isso. Pensando, meu Deus, eu quero ver uma buceta, me deixa comer uma buceta. Lembro uma vez, acho que na sexta ou sétima série, um amigo meu, Alex, disse “Minha vizinha deixou eu ver os peitos e a xoxota dela”. Que inveja da porra. E o pior, o tempo vai passando, e você sem comer ninguém. Sabe o que é ver seus amigos dizendo “Cara, transei. É bom pra caralho!”, “Velho, comi fulana!”, e você só na punheta? É foda. Lembra aquele filme, O Último Americano Virgem? Pois, é. É por ali. Aquele filme é quase um documentário. Quando transei pela primeira vez, não deu nem pra reparar, nem vi nada, sei lá, foi tão rápido, mas depois fiquei pensando “Yeah, transei, eu transei, valeu, Deus!”. Flavinha, se um dia eu me casar, vai ser pra eu ter uma buceta só pra mim. É a coisa mais linda do mundo, a coisa mais gostosa que tem. Pode raspar, deixar a trança que for, vai continuar gostosa. Buceta é um como um troféu.
- Então dê um beijo em seu troféu.
- Assim?
- Sim.
- Ou assim?
- Assim também é bom.
- Safada.
- Vou te contar um segredo. Eu já chupei uma buceta.
- Eu sabia que você colocava velcro.
- Colava o quê?
- Velcro.
- Como você é idiota. Meu Deus!
- E essa fofinha aqui? Será que ela não quer uma Pringles?

A buceta de Flavinha estava deliciosa. Fresquinha. De banho tomado. Com um delicioso cheirinho de buceta. Não chegamos transar novamente. Ficamos só conversando. Sobre sacanagem e sobre o pessoal do estágio. Até altas horas. Até bater o sono. Eu dormi ali mesmo. Com a cabeça encostada na minha almofadinha.