13.2.08

Feijoada com Pimenta

Pedimos caipirinhas. O barrigudinho do balcão garantiu que seriam preparadas com a melhor cachaça. O Velho Pimenta mandou descer ainda um caldinho de feijão. Só para começar. O velho tinha a manha. Só mesmo o Velho Pimenta para descobrir aquele boteco. Talvez o menor da cidade. Mas além das três mesinhas, cabia ainda, ali no canto, o que parecia ser uma roda de samba. Um cavaco, um pandeiro e quatro bundas astronômicas e saltitantes. Não sei como o botequinho suportava aqueles rabos gigantescos. O mais incrível é que, apesar do pouco espaço, era tudo muito confortável. Como se o boteco fosse mágico. Por sinal, a caipirinha estava uma delícia.

- Comendo muita gente lá em Fortaleza? – eu perguntei ao Velho Pimenta.
- Até que não, Bono – ele respondeu.
- Sua modéstia me ofende, Pimenta.
- Sério. Fortaleza tem mulheres maravilhosas. Muito fogosas, por sinal. Mas tenho preferido a companhia dos livros.
- Você pensa que me engana, velho.

O Velho Pimenta é arteiro. Conhece bem o caminho para as bocetas. “Você tem que cercar a fêmea”, ele costuma dizer. É do tipo que leva bombom todos os dias para a menina da lotérica até abocanhar o grande prêmio. Já deve ter comido fêmeas de todas as partes desse mundo. Sempre foi um dos meus ídolos. Diz ele que tem dez filhos. Mas reza a lenda que o Velho Pimenta tem um filho em cada estado brasileiro.

- Sabe a ONG que trabalhei no interior do Pará? – perguntou o Velho Pimenta, dando início a uma de suas histórias. Confesso que não prestei o mínimo de atenção. Nessa hora, eu estava concentrado num dos rabos gigantescos que sambava ali no canto. Era uma morena. Suava que era uma beleza. Suas carnes chacoalhavam dentro de uma lycra amarela enfiada no rabo. Tinha cara que não fazia idéia do que era uma porra de uma ONG, mas devia saber fuder como ninguém.

- Muito bom o caldinho do feijão – disse o Velho Pimenta.
- Tá do caralho. Mas me conta, como é a vida no Ceará?
- Agradável. Muito agradável. Você ia gostar muito. Fortaleza tem uma sutileza que Salvador não tem. Como é que eu posso dizer? É uma cidade aconchegante. Tem uma padaria lá perto, você ia gostar, faz o melhor pão que já comi. É de um casal de portugueses. Passo lá todo fim de tarde.
- Porra, adoro pão português.
- As pessoas são bem humoradas, trabalhadoras, atenciosas...
- É isso que me irrita aqui, em Salvador. As pessoas não são atenciosas. As pessoas daqui não sabem atender. Preguiça, sei lá. Ontem mesmo, fui comprar umas pilhas, e a putinha do caixa me atendeu enquanto pintava a porra da unha.
- Aí é gente mal-educada. Tem em todo lugar. O fortalezense é atencioso. Mas tem muita gente grossa também. Uma vez, fui pagar a conta de energia na lotérica...
- Fala a verdade, você comeu essa menina da lotérica.
- Comi não. É muito nova.
- Porra nenhuma. Você comeu.
- Deixa eu falar, porra. Eu fui pagar a energia. Eu não sabia se podia pagar ou não na lotérica. Perguntei pro rapaz “Eu posso pagar a conta de luz aqui?” O filho da puta mal olhou pra minha cara. Ele apontou pra uma placa que dizia “Não recebemos conta da luz”. E depois resmungou “Já tem essa placa aí tem dois meses, e o povo ainda pergunta!”. Eu disse “Desculpa, meu amigo. Eu só queria saber se existia algum cearense educado que pudesse me ajudar, mas pelo jeito aqui não tem”.
- Caralho, Pimenta. É isso que invejo em você.
- O quê?
- Essa sua classe. Não consigo dar respostas inteligentes e educadas, assim de pronto. Eu começo a gaguejar. Eu teria respondido “Vai tomar no seu cu, seu filho da puta da cabeça chata!”. Rapidinho, vamos pedir a feijoada? Tô com uma larica do caralho.

O Velho Pimenta só parou de contar suas aventuras quando chegou a feijoada. Ele tacou pimenta, jogou farinha e mandou brasa. A feijoada estava mesmo uma coisa. Uma puta feijoada dessas que só se encontra nos cantinhos mágicos de Salvador. Uma boa feijoada como, segundo o Velho Pimenta, não se encontra em Fortaleza. “Eles não sabem fazer feijoada”, disse ele.

Enquanto palitávamos os dentes, o Velho Pimenta contou mais algumas. Contou que foi perseguido por um matador de aluguel no interior da Bahia, contou das suas dificuldades com o idioma em Nova Iorque, dos bastidores da Copa do Mundo de 90 na Itália, falou da comida em Trinidad e Tobago, das mulheres africanas, e contou também que comeu uma famosa cantora paulista. Enquanto eu disse apenas que não estava conseguindo comer ninguém em Salvador. Quando perguntei se ele havia encontrado sua cidade definitiva, ele disse “Não sei Bono. Sabe, eu já passei dos sessenta. Tenho pouco tempo pela frente. Quero conhecer mais algumas coisas.” Aquele era o Velho Pimenta. Apesar de viver agora numa cidade sutil e aconchegante, de viver à beira-mar, deitado em sua rede, lá para as bandas do Mucuripe, ouvindo seu radinho AM e comendo camarão a R$ 7,00 o quilo, ele não estava satisfeito. O Velho Pimenta de sempre, que me faz perceber o quanto minha vida é como uma feijoada fortalezense.

Como de costume, o Velho Pimenta fez questão de pagar a conta sozinho. “Quer mais alguma coisa, filho?”, ele perguntou. “Só se for aquele rabo”, eu disse apontando para a rabuda de lycra amarela ali no canto. Então, o Velho Pimenta, generoso que só ele, se levantou e foi falar com a morena suada. Cochichou alguma coisa no ouvido da nêga e apontou na minha direção. A rabuda sorriu, balançou a cabeça negativamente e voltou para o samba. Pelo jeito, o Velho Pimenta sabia das coisas, mas não fazia milagres. Então eu peguei mais um palito, agradeci ao barrigudinho do balcão, e deixamos o boteco mágico.