28.1.08

A Foda Standard

Pegamos o táxi na porta do shopping. Eu comentava qualquer coisa sobre o filme, e Regina não dizia uma palavra. Estava constrangida. Àquela hora da noite, com destino à Av. Jorge Amado, o taxista certamente já sabia que estávamos a caminho de um motel. Ir ao motel de táxi talvez não seja mesmo a coisa mais confortável do mundo. Aliás, não há nada de confortável em ter de se deslocar para foder. Nunca gostei de motéis. Vou quando não tem jeito.

Portaria de motel é o ponto alto da minha incapacidade de tomar decisões rápidas. Aquela tabelinha cheia de quartos, preços, períodos, promoções. Eu nunca sei o que escolher. É como se eu já tivesse que acertar o diabo do ponto G ali mesmo. Pior quando é um motel cheio de nove horas feito aquele, com todo tipo de suíte, da Standard ao tipo Ilha da Fantansia, com cachoeira e o escambau. Então ficam a putinha da portaria e o taxista torcendo para que o lerdo tome logo uma decisão na vida. Como Regina era metida à besta, queria a Suíte Super Luxo. O período era de quatro horas. Eu disse, tudo bem. Suíte Super Luxo. Eu estava fodido. E enquanto o sacana do taxista procurava a suíte, eu já calculava na cabeça quantas fodas eu daria naquelas quatro horas.

O lugar era grande, é verdade. Permitia várias possibilidades de fodas. Sala de estar, sala de jantar, sauna, piscina, cama redonda. Regina devia adorar aquilo tudo. Eu não dava à mínima. Havia também uma tal poltrona do sexo. Com certeza, eu não saberia utilizar aquela porra. A única coisa que me chamou a atenção foi um sofá grande de couro. Imaginei logo que uma das fodas seria naquele sofá. No frigobar, todo tipo de bebida. No cardápio, banquetes pelos quais só os idiotas pagam achando que há algum refinamento nisso. Neste ponto, Regina descia do salto e era muito prática. Ela já havia passado nas Lojas Americanas e comprado uns petiscos e alguma bebida. Para mim, quatro Coca-Colas. Uma para cada gozada.

Mas não deu nem tempo de começar a festa. Eu já estava pelado no meu sofazão quando Regina disse que o ar-condicionado não ligava. É incrível. Aonde quer que eu vá tem sempre um eletrodoméstico que não funciona. Suíte Super Luxo de merda. Ligamos para a recepção e reclamamos. Tivemos de trocar de quarto. E como estávamos a pé, o caminho mais curto até a suíte mais próxima foi através do corredor de serviço. Acho que passamos por quase todos os funcionários daquele motel. Passamos pelas meninas da copa e suas bandejas e também por uns caras que assistiam ao finalzinho do Supercine. Eu cumprimentava a todos, soltava um “boa noite", e Regina seguia travada. Parecíamos mais os supervisores do motel vistoriando aqueles corredores. Alguns funcionários estranhavam, outros cochichavam. Ouvíamos alguns risos. Pensei até ter escutado um “o gordo se deu bem!”. Mas a verdade é que a noite não foi nada excitante. Depois daquilo tudo, Regina ficou um porre. E eu bebi apenas duas Coca-Colas, uma a pulso.

É por essas e outras que detesto motéis. Nunca gostei do sexo programado, endereçado, cronometrado. É aquela coisa, na sexta, a gente vai foder. Abre a porta da suíte e diz, é aqui que vamos foder. O filme foi ótimo, a paella estava uma delícia, mas agora abaixa essa calcinha. E chupa logo que o tempo está passando. Não adianta ir com calma, tentar criar clima, stripteaser, beijinho no pé, essas coisas, porque no fim das contas, é o seguinte, pronto, vamos foder, ok?

Prefiro mesmo a foda standard. A que não precisa necessariamente de espelho no teto. E quando digo foda standard, não me refiro a uma fodinha básica, ao papai-mamãe apenas. Pode ser uma verdadeira foda-Matrix, cheia de acrobacias e efeitos. Mas é aquela boa trepada que rola onde quer que seja e leva o tempo que for necessário. Não lembro de nenhuma foda standard com a Regina. Deve ser porque só transávamos em motéis. E uma boa foda standard acontece ali mesmo no sofá, que não precisa ser de couro, durante o intervalo do jogo. Ou apoiado na máquina de lavar. Ou enquanto a pipoca não fica pronta. A foda standard clássica começa muitas vezes com uma piada ou com um cheiro no cangote, e, de repente, quando você vê, já está fodendo. Motel não tem dessas coisas. A foda standard simplesmente acontece. Ou então não acontece, fica só no dedinho e na vontade.