21.11.08

Adeus, Bono Vídeo!

Meu sonho era ter uma vídeo-locadora. Com filmes bacanas, posters e uma máquina de sorvete. Seria mais um sonho a longo prazo. Porque naquela tarde, sem porra nenhuma pra fazer, meu sonho era apenas pegar um bom filme para assistir no meu quartinho.

O problema é que não se encontra bons filmes por aqui. Naturalmente as locadoras do IAPI atende às preferências do povo do IAPI. Só se encontra os últimos lançamentos do Vin Diesel e do Steven Seagal. Ou títulos como A Vingança Maldita dos Vermes e Rajada Mortal 3. Uma vez procurei por Despedida em Las Vegas, e a putinha da locadora disse que eu estava enganado, que não tinha Nicolas Cage nesse filme, e que o nome do filme era Despedida de Solteiro em Las Vegas. Só não mandei ela tomar no cu porque Nina estava comigo, e ia encher meu saco me chamando de estúpido. É uma merda não ter uma boa locadora por perto. Já pensei em me mudar por causa disso. A salvação sempre foi a Locadora do Ernesto. Lá ainda se encontrava algumas coisas do Woody, do Charlie e do Kevin. O Ernesto fica no largo. Dá pra ir a pé. Mas como sou um gordo preguiçoso peguei meu busu e cheguei lá rapidinho.

Por Deus, era melhor não ter ido no Ernesto. Fazia tempo que eu não aparecia por lá. A locadora estava mais vazia que a minha tarde. Não havia mais os posters no portão de entrada. Nem o painel anunciando promoções. Nem as putinhas procurando comédias sem graça. Não havia fila. Não havia um pé de gente. Só Ernesto e sua esposa baixinha atrás do balcão. Ernesto assistia Luciano Huck na TV. Pensei em chorar nessa hora. “E aí, Bono” – ele disse. Eu disse “Ernesto, meu rapaz”. Ernesto era a depressão em pessoa. Achei melhor não falar muita coisa. Fui direto nas prateleiras.

Aquilo parecia a grade de programação da Sessão da Tarde. Rocky Balboa ainda estava entre os lançamentos. Prateleiras vazias, ocas, sem sentido. Olhei para trás, e Ernesto ainda assistia Luciano Huck. “Não encontrou nada, Bono?” – Ernesto perguntou. Eu não podia dizer, porra, Ernesto, acho que vou esperar o Supercine. Talvez Ernesto estivesse esperando só acabar o Luciano Huck para se matar. Eu precisava pegar alguma coisa e escolhi o primeiro que vi pela frente, Blade Runner.

- Não já assistiu esse, Bono? – Ernesto perguntou.
- Pra ver se entendo o final dessa porra.
- Não vai levar mais nada?
- Ernesto, meu rapaz, o tempo tá curto.
- Ó, tô vendendo a casa.
- Sério, Ernesto?
- Desisti.
- O bicho tá pegando?
- Essa coisa da pirataria.
- É foda.
- Sabe quantos funcionários eu tinha aqui? Você lembra. Sete! Sete funcionários. Com carteira assinada! Mas aí, meu amigo, com esse povo vendendo quatro filmes por dez reais não dá pra mim.
- EU TENHO VONTADE DE MATAR ESSES FILHOS DA PUTA! – berrou a esposa de Ernesto.
- Eu, eu, não compro filme pirata. Eu odeio filme pirata – eu gaguejei.
- E QUERO QUE TODO MUNDO QUE COMPRA FILME PIRATA SE FODA!
- Aquelas capas xerocadas, fudidas. É um povo imbecil.
- Bono, esses aí dessa prateleira eu tô vendendo. Quatro reais – disse Ernesto.
- Tem os Goonies?
- Os Goonies não.
- E quanto é que eu devo, Ernesto?
- 2,50. Mas você pode levar por dois reais.
- Ernesto, meu rapaz, que é isso. Toma aqui.
- Obrigado, Bono.
- Entrega na segunda?
- Pode ser na terça.

Pois é. Foi percebendo que os piratas venceram, e até o velho capitão Ernesto resolveu abandonar o navio que desisti da minha locadora. Minha locadora ia ter até um blog. Mas apesar da minha raça flamenguista, não vou querer remar contra a maré. Deixa lá. É só mais um sonho não realizado. Eu também sonhava em ser baixista de uma banda de rock, e nunca aprendi tocar contra-baixo. Aliás, ia dá na mesma merda. Porque ainda tem o lance do eMule.

Só sei que quando cheguei em casa ainda liguei para a GPW. Acho que é a melhor locadora da cidade. Tinha muito filme bacana. Inclusive aquele, A Família Savage, que eu queria muito assistir. Mas a putinha disse que infelizmente eles não entregavam no IAPI. Graças a Deus, Luciano Huck já tinha acabado. Mas também não assisti ao Blade Runner. Apenas dormi. E não não sonhei mais nada.

33 comentários:

Marcus Gusmão disse...

Que tal Bono Net Lan House?

maria guimarães sampaio disse...

Pô, Bono... seu texto me deu uma punhalada! Valeu.

Ana Paula disse...

Hello Boninho,

Ernesto assistindo ao Luciano Huck... também fiquei com vontade de chorar.

Impecável como de costume.

Bonete.

Daniel Francoy disse...

Essa postagem me lembrou de uma história pré-internet, pré-downloads, pré-modinha indie. Eu tinha uns 16 anos e, nas manhãs de sábado, saía para comprar discos de rock. Só que os discos que eu queria não vendiam em lojas tipo americanas. Então ia numas lojinhas especializadas; uns cubículos que se resumiam a um balcãozinho, um sujeito triste atrás do balcãozinho, meia dúzia de cds importados, e alguns discos de vinil usados deixados em algum canto. Acabava comigo frequentar aqueles lugares que eu sabia que ia falir. Era como uma contagem regressiva para qualquer coisa que já chegou.

Luciana disse...

Infelizmente isso nao tem mais controle, estamos caminhando para uma era livre de direitos autorais. Se ainda (por favor tenha)tiver coragem de escrever um livro, corra Bono, corra.

Beijos!

Sunflower disse...

Em um mundo perfeito locadoras bacanas não fechariam, outras ainda mais bacanas seria abertas.

Pensei também em ter minha própria vídeo locadora, é claro.

O dinheiro que eu conseguiria para abrí-la, aconteceria depois que eu tivesse uma falha genética e ao invés de pêlos nas axilas, nasceriam notas de 100 euros. Todas as manhãs, nos intervalos de 1 semana, eu estaria rica.

E eu abriria com mais dois amigos, o Silent Bob e Jay. Nós seríamos insuportáveis que nem os funcionários da Championship Vynil.

A locadora pareceria uma sorveteria/ loja de doces americana dos anos 50, teriam ao invés de posters de filmes nas paredes, nossas fotos parodiando filmes clássicos. Porque eu de princesa Léa, Beatrix Kiddo, e etcéra é igual a um luxo.

O sistema de organização de filmes estaria dividido entre atores, diretores, prêmios e títulos. Assim alguém poderia fazer o final de semana aos indicados ao Sundance em 2003, ou do Wes Anderson, ou do Bruce Willys.

Na parte de cima teria um café, e gibis (eu nem gosto de gibis, só não queria intelectualóides no meu recinto) e toda quarta-feira viria um quarteto de cordas e tocaria temas de filmes.

Anualmente faríamos um festival temático de curtas de amadores, que as pessoas fariam com suas cameras digitais.

Bom, como vc vê, eu não pensei um tantão assim em ter uma locadora, nem odeio um tiquinho assado a pirataria.

beijas

FOXX disse...

acabei de assistir A Outra (que deveria se chamar A Outra Bolena, mas ninguém ia entender né?) e eu baixei da net!

Anônimo disse...

mas onde porra é IAPI?

Mwho disse...

DVD pirata não tem muita opção. Quem sabe não há mercado para coisas mais interessantes. Lei da oferta e da procura: quem tiver uma videolocadora de filmes incomuns vai virar milionário!

Jorge Martins disse...

Porra, Bono, texto fodástico, as always.
Eu não compro filme pirata. Porque não gosto da qualidade, acho uma merda a chance de comprar o "match point"do woody allen pra ver a gostosa da scalett johansson e me deparar com o Seteven Segal em "Matando adoidados em Kansas City".
Mas entendo quem compra.
Só não entendo quem vira pra mim e fala "você paga pra ir no cinema? você aluga filme? você é pau no cu"
Acho foda esse esquema do "mais esperto"que rola por aqui. Quem não é espertão vira automaticamente pau no cu.
Eu sempre achei que uma videolocadora era o emprego perfeito também.
Fiquei com pena do Ernesto.

Larissa Santiago disse...

é a vida meu rapaz.. o acesso a tecnologia e outras cositas más!

Rodrigo Carreiro disse...

Ernesto meu rapaz! hahahah Boa boa
E eu tenho sonho de ter uma banca de revista quando me aposentar. Vou sentar no meu banquinho sujo, ler todas as revistas e jornais e falar mal do pessoal do bairro.

Marcio Sarge disse...

Meu sonho sempre foi ter uma livraria, bem nesse campo eu nem tenho concorrentes piratas, não, mas nessa merda de pais ninguém lê muita coisa mesmo a não ser essas merdas de revistas de fofoca.
Meu fim seria esse como do Ernesto.

Nilson disse...

Do cacete essa história. Grande Ernesto. Pior de tudo é ficar vendo Luciano Huck.

Duas disse...

tá muito em forma você, viu? adorei os últimos dois textos. beijo

elisa

se der, passa lá no redatoras. fico superfeliz com suas visitas. uma honra, na verdade :)

Thais Zimerer disse...

Os Goonies?? Nossa, essa foi desencavada das entranhas!
Lembro do baixinho de aparelho, que beijou a moça no escuro...
E dele achando as pedras no bolso, ficando com o "monstro" no final...
Grande Sessão da Tarde!!!!!
Uma opção além do Supercine é o Cine Belas Artes, no canal do Sílvio...
Abç, amei seu blog. Tô acompanhando...

Ric@rdo disse...

A locadora perto da minha casa também não sobreviveu. E entrei lá no dia em estava fechando as portas. Foi deprimente...

Careca disse...

Bono, foi um sonho bacana. Minha coleção de sonhos não realizados dava para encher uma videolocadora. Só com a Vera Fischer, aliás, eu encheria uma prateleira de Triple X...

Poliana Paiva disse...

The goonies are good enough...
Good times.
bj,

Garota no hall disse...

Nunca comprei um filme pirata, e se já baixei foi porque não encontrei na locadora obras como Metrópolis e Nosferatu. Seu texto reflete as minhas angústias: quase ninguém vê um filme pelo que ele representa, mas pelo quê ele proporciona, por isso essa tonelada de filmes de ação e de efeitos visuais enchendo prateleiras de locadoras de bairro e barraquinhas piratas. É triste isso que acontece com Seu Ernesto. Bons tempos aqueles em que eu me perdia na videolocadora e conversava com os balconistas...

Pedro disse...

Pois é, Luciana lá em cima tem razão. Corra com o livro. Com esse negócio de pirataria, daqui a pouco isso aqui vira um PDF, cai no eMule e adeus bambá. Ah, e separa um exemplar pra mim.

Abraço!

Juliana Rocha disse...

Nossa... então é um caso de calamidade! A locadora daqui do bairro é fodástica! Mas a locação entrou em promoção! Era 5,00 reais... agora é 4,00... todo mundo tentando se manter né??
Massa o texto!

Daniele disse...

Caralho Bono, escreve um livro! Lí seu blog todo em 2 dias (a falta de tempo não ajudou muito, senão teria feito em um mesmo), amei cada post, ri muito. Cada história fantástica, as críticas, as lembranças. Muito bom, aguardando com ansiedade mais leituras divertidas. Parabéns pelo blog, de verdade. E se decidir o livro, avisa no blog, com certeza estarei acompanhando de perto! Sucesso.

Marcos Jr. disse...

Conheci o seu blog através de outros que fui visitando. É um blog muito legal e que estarei sempre que puder visitando. Em relação a história... me senti na pele na hora de "gordo preguiçoso".. uahuahhau. Este problema da piratia afeta a todos, mas sabe, moro no interior do Paraná (mais precisamente em Jacarezinho)... e aqui não acho que esteja sendo tão afetado assim, pois tenho um amigo que trabalha em uma locadora e ganha 20% das locações nos domingos, ele me disse que tira em média R$ 40 nesses dias. Sucesso para você.

Cruela Cruel Veneno da Silva disse...

pois é. que economia resiste com 4 filmes por 10 reais.... e sem ter que devolver.

pelo menos eu moro do lado de uma boa locadora, cara (6,50) mas boa.

até mais

Tuca Hernandes disse...

Lembrei de quando o videocassete começou a ficar popular por aqui, lá nos anos 80. Eu ia em uma locadora que era composta 90% por cópias de filmes. Muitos, toscamente gravados. Uma maravilha. Toda a série Porkys, por exemplo, eu conheci através desse lugar. Bons tempos aqueles, de um tempo em que havia uma sinergia entre a pirataria e as locadoras. Hoje em dia, temos essa desunião, que tornam os Ernestos mais deprimidos ainda. Triste isso.

Boa tacada, Bono!

Fábio Souza disse...

É velhão!!!!!!!!!

Porém eu acho que pior do que "OS PIRAAAAAATA" é o e-mule e se pensarmos bem dieritinho até os pirata são vitimas do e-mule. Eu mesmo não compro CD nem DVD pirata no entanto baixo todas musicas e filmes "pirata" na internet.

Abração Primo

Stephanie disse...

meus pais tiveram uma locadora no fim dos anos 80, mas depois que o pai morreu a mãe se desfez da parte dela, e os sócios não seguraram a onda por muito tempo

reza a lenda que meu pai via todos os filmes e escrevia sinopses pra quem não se conformava só com o que vinha escrito na contracapa do dvd. até hoje eu me pergunto como teria sido minha infância minha mãe não tivesse vendido a parte dela. Eu seria daquelas que trabalharia mesmo expediente, gostaria dos clientes que pegassem westerns e tarantinos e woodys e chatlies e desprezaria os péla-sacos que vissem só comédias românticas e serpentes a bordo.

beijo

Rackel disse...

Melhor que seu post, só o comentário da Sunflower! rs

Vcs são d+!

Adriano Caroso disse...

É foda essa pirataria. Além de tirar o sustento de um bocado de gente, fode com o time do criador que sempre foi um desvalorizado. Agora então! Uma merda. Belo texto!

Dedinhos Nervosos disse...

Eu tb queria ter uma locadora, mas era pra ver tudo quanto é filme e revê-los sempre hehehe

Mas agradeço a Deus por não ter colocado essa idéia em prática. Todas as locadoras do bairro fecharam. Era difícil achar filmes muito bacanas. E na época em que raramente tinha DVD, eu ainda tinha que ver alguns filmes dublados pq 1 monte de analfa não consegue ver e ler ao mesmo tempo uffffff

Bjos!

4rthur disse...

Aqui no Rio tem uma locadora boa, chamada Macedônia, mas que um dia uma pessoa moradora do subúrbio foi entrar de sócio e, ao ver que a pessoa era do subúrbio, o funcionário disse: "só aceitamos sócios da zona sul". Mandou falar com o gerente e ele repetiu a mesma coisa. Nego é muito filho da puta. E com a proliferação de blockbusters por todas as esquinas, com aqueles filmes americanos de ação, só me resta baixar tudo que quero na internet. Dia desses, experimenta dar uma olhada no acervo do makingoff.org

abração.

Samantha Abreu disse...

Ai, Bono, esse filme eu já vi: "Derrotados pela Pirataria". Meu pai poderia ser exatamente o Ernesto e eu a esposa baixinha do Ernesto, caso tivéssemos esperado até o fim. Mas meu pai, orgulhoso como é, se jogou no mar antes do barco afundar.
Eu, é claro, que não sou boba nem nada, fiz uma limpa nas prateleiras com os meus 'preferidos'. Tenho todos numa outra prateleira, lá em casa. Tiro o pó toda semana, lustro, leio, releio, faço carinho... (e não empresto por nada nesse mundo! que vão comprar os piratas!)
E, agora, só preencho a prateleira com as ofertas das Lojas Americanas. Ontem "achei" na banca de 12,90 o Touro Indomável, o Cassino e um Pulp Fiction novo, pois o meu tava riscado.
Tenho uma locadorinha "só minha" em casa, começada da que sobrou da do meu pai 'quase Ernesto'.

Um beiJOOOO