20.7.08

Paçoca X Pé-de-Moleque

Deixei a velha agência por volta das sete. Cansado. Engana-se quem pensa que passar o dia escrevendo títulos idiotas não cansa. O ponto estava cheio. Os rostos de sempre. Pessoas que eu conhecia e que me conheciam, de vista, há pelo menos dois anos. Estavam ali o engravatado de cavanhaque, a putinha do Bompreço, a coroa de farda cinza, o carinha do cachorro-quente, o grupinho de secretárias, a baixinha gorda com um sinal enorme na cara, o alemão e o jovem casal surdo-mudo. Às vezes tenho a impressão que um casal surdo-mudo é mais apaixonado e carinhoso que qualquer outro casal. Mas os mudinhos não estavam bem naquela noite. Discutiam através de gestos agressivos. A menina parecia querer gritar e mandar o namorado se fuder. Aquilo me fez perceber que um surdo-mudo impaciente e com raiva é mais angustiante que qualquer outra pessoa impaciente e com raiva. Outro rosto conhecido era o de Paçoca, um vendedor ambulante. Estava lá com seu balde cheio de paçocas. Parecia pensativo.

- Pensando no Vitorinha, Paçoca? – perguntei.
- Mengão.
- Que é que manda?
- Tô aqui fazendo umas conta.
- Passou algum Santa Mônica?
- Passou um nesse instante.
- Merda.
- O movimento tá fraco, Mengão. Tá foda. Não tô vendendo nada. Os cara tão pegando pé-de-moleque. Disse que tá vendendo pra caralho.
- Pé-de-moleque?
- Não gosto daquela porra. Não desce. Minha porra é paçoca. O pessoal me conhece como Paçoca.
- Você É o Paçoca!
- Como é que eu vou vender pé-de-moleque?
- Se bem que é tudo amendoim, né...
- Porra, sim, mas...
- Não sei se pego um cachorro-quente...
- Pega, porra. Um real com guaraná.
- Eu sei, mas se o busu chegar, é foda, uma melança da porra. Deixa lá.
- Se eu fosse pra outro país, Mengão. Os gringo não ia agüentar quando provasse paçoca.
- Me dá uma paçoquinha aí.

Dei 50 centavos. Ele me veio com duas paçocas, e as guardei no bolso.

- Eu ia ganhar dinheiro, não ia não?
- Como?
- Na Europa, Estados Unido, com paçoca?
- Porra, Paçoca. Tem vezes que a gente lê assim, siga seu sonho, corra atrás da porra do seu sonho, tipo, se você acreditar, você consegue. Aí vem uns caras e dizem, velho, tem que fazer o que o mercado manda, o que mercado quer, o que dá dinheiro. Uns falam uma coisa, outros falam outra.
- Eu ia ganhar dinheiro.
- Lá vem meu busu.
- Vá lá, Mengão.

Dei um tapinha nas costas de Paçoca e o deixei com suas dúvidas. O ônibus não estava cheio. Um milagre. Havia ainda uma cadeira vazia. Ao lado de uma coroa sapatão. Nenhuma putinha para puxar conversa. Mas ir sentado já era uma vantagem. Quem sabe o ônibus lotasse, e uma bucetuda viesse roçando no meu ombro. E antes de chegar no Iguatemi, entrou um ambulante. Fiz um sinal. Ele tinha pé-de-moleque, paçoca, nego bom e jujuba. Pedi dois pés-de-moleque. 50 centavos. Comi ali mesmo, e fiquei imaginando que a viagem seria longa. Os carros mal se moviam. Salvador estava ficando metida. Era uma cidade moderna. Até metrô ia ter um dia desses. Devia ser por isso que Feira de Santana morria de inveja da capital. Porque Salvador era uma puta metrópole. Com ricos, pobres e miseráveis. Com Burger King, pirataria e uma população cada vez mais obesa. Com ambulantes, hora do rush, luzes, luzes pra caralho, com um viaduto inútil, e com um longo tapete vermelho de faróis acesos pela frente.

41 comentários:

Genérica Paraguaia disse...

Ver fotos antigas da cidade, ou fotos de minha infância dá uma saudade danada.. Salvador era suja e esburacada... mas tinha o axé que talvez nunca voltará a ter como antes, ou isso não passa de uma impressão porque as pessoas envelhecem e acham que tudo no passado era mais interessante.. sei lá.

Marcos Carneiro disse...

Bono, vc já escreveu sobre algo parecido ou é impressao minha?

Abs

Rodrigo Carreiro disse...

Você é um escroto que não comeu a paçoca do cara e sim o pé-de-moleque!!
ehhaaheeh

Mwho disse...

Bono,
Dá até para ver e ouvir as cenas...
Acho que você fez a boa ação do dia: comprou a paçoca com vontade de comer o pé-de-moleque! Isso é que é prestigiar a tradição sem abrir mão do progresso!
Abraço,
Mwho.

Paulo Bono disse...

Genérica,
Deve ser impressão. Minha antiga cidade tb era a melhor de todas.

Carneiro,
Não é impressão. Meus dias realmente são repetitivos.

Carreiro,
Não sou chegado a paçoca. a porra engancha na garganta. pé-de-moleque é do caralho.

Mwho,
Tem que ser brother, porra!

abraço

FOXX disse...

ah
c é soteropolitano?
naum sabia ainda.

Duas disse...

fui a salvador quando tinha 13 anos.

amei.

não tive chance de voltar ainda. tão precisando de redatora aí não?

gostei do texto paçoca.

beijo

Poliana Paiva disse...

"Quem sabe o ônibus lotasse, e uma bucetuda viesse roçando no meu ombro".
Também adoro esse termo: bucetuda!
:)

Wellington Diniz disse...

Grande Bono, baú cheio é bom prá caralho pra tirrar um sarro. Você até me lembrou quando eu trabalhava em Taguatinga e no Gama. Quem sabe não vire uma crônica lá no poupadordeporra. Minha vida era um ônibus com peitos e bundas em ação. Valeu mano e abraços.

Paulo Bono disse...

Duas,
Aqui em Salvador? Vaga deve ter sim, mas a grana, filha, é deprimente. Fica por aí.

Foxx,
Sim, meu rei. Sou da terra de Gil.

Poliana,
Se você gosta, imagine eu.

Wellington,
ônibus de peitos e bundas. muito bom, man.

abração

Karlinha disse...

Eu prefiro paçoca!

alvarêz dewïzqe disse...

Bono, pegar um fato corriqueiro, do dia-a-dia, qualquer situação aparentemente irrelevante e transforma num CONTO massa como esse não é pra qualquer um não meu chapa, você manda ver mesmo... esse sim o Velho assinaria.

Rackel disse...

"Mas ir sentado já era uma vantagem. Quem sabe o ônibus lotasse, [b]e uma bucetuda viesse roçando no meu ombro. "

Puuuuuutz... rsrsr

...agora quando ao Paçoca ir vender lá na europa... bem, meus alunos europeus já me disseram q nossos doces têm mto açucar. Não gostaram mto do brigadeiro na festinha de despedida da turma (v se pode, não gostaram de brigadeiro q sempre é o rei da festa!)... não sei se é uma boa idéia vender paçoca na europa não... Nos eua talvez seja pq eles comem mto doce, mas na europa acho dificil ele conseguir vender bem...

=|

Theo Limeira disse...

Concordo com o Alvarez, ótimos textos por aqui.

Paulo Bono disse...

Karla,
prefiro o pé-de-moleque. se bem que ambos são afrodisíacos.

Caro Alvarez,
Tenho certeza que o Velho daria uma bela cagada em cima.

Rackel,
è pq nunca mais vi o paçoca. mas valeu a aula.

Limera
Valeu, man.

abraço

Garota no hall disse...

Ah, Salvador está virando uma São Paulo então... Pego ônibus todos os dias para ir voltar do trabalho. E é uma merda ônibus lotado, principalmente quando vc é mulher.

Marcio Sarge disse...

Cara nunca estive em Salvador, mas com o seu texto me senti como se estivesse fazendo turismo em um busão dai.

A impressão que deu que cidade grande é tudo igual, aqui me Sampa eu nunca encontrei um vendedor de paçoca frustado, busão lotada e mulher pra te roçar não falta rs.

Valeu pelo coméntario no Blog.

Até.

gigi disse...

bono, o que é nego bom? pititinga é manjubinha, e nego bom?

beijo

Careca disse...

Bono, mais uma vez, muito bom! Com um final de tirar o fôlego. Abç,

Paulo Bono disse...

Garota,
Busu lotado é salve-se quem puder.

Serge,
Converse com um vendedor de paçoca. tem muitos frustados.

Gigi,
Sabia que você ia perguntar. Nêgo bom é doce de banana pequeno, bem pretinho, melado no açúcar, enrolado num plástico vagabundo. Em algumas cidades, também o chamam de Atum, mas o lance é porque realmente é um nêgo bom.

Carecone,
Se você tá falando, eu acredito.
Valeu.

abraço

Rackel disse...

Acho q 'nêgo bom' aqui no Rio se chama 'bananada'... pela sua descrição, bono, parece se tratar de bananada... (ou é outro doce e eu to trocando as bolas? rsrs)

Lembro q sempre vinha em saquinhos de doce no dia de são cosme e são damião... na época eu não era mto fã, mas hj em dia adoro! Tem umas q vêm cobertas de açúcar tb... ai, ai...

Se vc descobrir q é algum outro doce em vez desse q eu to pensando, me avisa, tá?! (pq existem vários doces assim por aí, mas saber qual se chama o q em cada lugar é bem difícil!)

bjs

Paulo Bono disse...

Rackel,
Deve ser a mesma coisa. Já que é doce de banana. Aqui são pedaços bem pequeninhos enrolados num plastico e melado no açucar. Nêgo Bom. Mas deve ser a mesma bananada.

abração

Sunflower disse...

Bananada, por aqui, é vitamina de banana com leite.

E inventar títulos estúpidos para clientes que nunca estão sastifeitos com pouca estupidez é demasiadamente cansativo.

Fábio Souza disse...

Bono, é verdade que quando vc pega um ônibus com uma bucetuda se roçando no sue ombro vc perde o ponto mas não sai com a barraca armada?

Abração Primo.

Naty :) disse...

Feira de santana tem inveja da capital.
agshiahiusahsiahioshuia
mas vc acha que valeria a pena o cara sair daqui pra ir vender paçoca no exterior?

SAMANTHA ABREU disse...

Ah, caralho, como eu gosto das suas crônicas, Bono!
eu já disse isso uma vez, mas sinto uma melancolia que vem capotando enrolada num sarcasmo ótimo. Acaba dando num humor refinado de cair o queixo, querido.
Tua cotidianidade acaba por ser refinadíssima (olha que contradição!) E é Perfeito!
um beiJo!

ps: Rubem Braga ia adorar isso.

Acantha disse...

Tudo se parece atualmente. Tentei rever um passado algo distante e encontrei uma cópia mal feita da minha cidade. Um guri embasbacado frente ao Jornal Nacional, com um trem bala que estão inventando em Sampa, me parece, e que jamais chegará a Laguna e sua sequência dúbia de camarões..
Só faltou congestionamento.
Bah.
Adoro paçoca e pé de moleque!

Paulo Bono disse...

Sunflower,
Que é isso, a culpa não é dos clientes.

Fabão,
Verdade absoluta!

Naty,
A paçoca vai conquistar o mundo!

Samantha,
É tudo isso mesmo? Rubem Braga e o escambau????Pô.

Acantha,
É tudo igual. tudo igual nesse porra

Bruno disse...

Cara, conversa de mudo é a coisa mais angustiante que tem! Inclusive faz tempo que ensaio pra dar uma de engraçadinho e sltar um "desembucha, fala logo, porra!".

Sou muito mais paçoca que pé-de-moleque. Sem contar que, no frio que faz aqui, aquele acúcar queimado quase congela, acaba com os dentes.

Marcelo Mendonça disse...

soterópolis só em normas e regras, progresso tá longe mermão.

Adriano Caroso disse...

Eu adoro a forma como você fala sobre o cotidiano da nossa cidade. Samantha, que dispensa comentários, foi longe no que falou. Eu, que morro de inveja dos seus textos, fico aqui só aprendendo. Você bota pra fuder. Parabéns cara!

fabioricardo disse...

bom conto. a simplicidade de vender paçoca (ou pé-de-moleque) deve render filosofias tão boas ao vendedor como qualquer duvida existencialista aos literatos.

Paulo Bono disse...

Bruno,
Se você falar isso, aí sim vai ver o que é um mudinho angustiado.

Mendonça,
Que nada. Salvador é muderna.

Caroso,
Deixa de onda que tu é poeta.

Fabioricardo,
Os ambulantes são sabios. Por isso são ambulantes.

abraço

F. Reoli disse...

Manda muito bem na prosa e na natureza humana, meu velho!
Abração

josué mendonça disse...

parabéns pelo blog, vc realmente escreve muito bem
linkei no meu
sucesso

Bianca Feijó disse...

Putz Bono, eu já repeti isso acho que muitas vezes, mas cada vez que venho aqui já imagino que sairei com muitas risadas...

Se nada der certo eu vou vender paçoca e te convido para ser meu sócio,bôra...rsrs.

B.E.I.J.O.S

Paulo Bono disse...

Reoli,
Agora fiquei todo prosa.

Mendonça,
Valeu. que bom que gostou.

Feijó,
Só se tiver um departamento de pés-de-moleque.

abraço

Denis Barbosa Cacique disse...

Sabe o que eu acho, Bono? Que é um saco ficar conversando com o povo que agente encontra durante o dia. é cada um falando só de si mesmo. São monólogos a dois, saca? A coisa não flui. Sei lá.
O fato é que eu vou de pé-de-muleque e de paçoquinha. Tanto faz.
Abraços
Denis

jorginho da hora disse...

Achei engraçado essa onda do cara querer vender paçoca nos "steites". Quando conheço pessoas assim, geralmente as incentivo. Acho que experança pouca é bobagem. As vezes, idéias que parecem absurdas, acabam funcionando.
Paulo, desculpe a demora em te visitar, é que ando muito atarefado ultimamente. Mas sempre
volto ao local do crime.

Fábio Souza disse...

É boninho ler seu blog também é cultura...... sabe que depois que eu li este conto passei a observar mais os surdos e mudos é verdade... e até discuti sobre o assunto com minha esposa. Este dias estava na "BURGER KING" do iguatemi e percebi que na mesa ao lado tinha um casal de surdos e mudos discutindo ou conversando, vai saber né... e mais recentemente esta semana descobri que tem uma escola especializada ou direcionada cheinha de surdos e mudos próximo a minha casa. Valeu !

Abração Primo

Anônimo disse...

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