11.6.08

Dona Marivânia

A solidão mora num quarto de hotel. Algo parecido só o caminho de volta ao hotel. Quando você se pergunta, aonde vim parar? É quando dizem, fulano está sumido. E o fulano é você. E você está ali. Ali onde? Ali, caminhando a passos curtos, num fim de noite, de volta a um quarto de hotel e sua companheira de quarto, a porra da solidão.

Solidão como a de Dona Marivânia. A recepcionista. Quando a vi atrás do balcão, sozinha, sem TV, sem um radinho, apenas escutando a noite passar, pensei estar olhando para a pessoa mais solitária desse planeta. Dona Marivânia era novinha. Devia ter o quê? 20, no máximo. Sei que ainda fazia o segundo grau. Ela me lembrava muito aquele tipo de menina que a gente conhece na escola, magrinha, feinha, que só senta no canto da sala e ninguém dá nada por ela. Mas aí o tempo passa, e um dia você a vê na rua, e descobre que a moleca ficou jeitosinha. Então você diz, porra, aquela é fulana? Quem diria? Dona Marivânia era assim. Podia não ser um mulherão, mas era uma menina formosa, com seus peitinhos durinhos e gostosos. Por norma do hotel, mantinha sempre o cabelo preso. Usava um batom cor-de-rosa claro e uns óculos cafonas. Tinha também um lencinho no pescoço e a saia azul que desenhava seu rabinho. Parecia ser uma menina tímida. Pelo menos, nunca a vi dando bola a ninguém.

- Boa noite, seu Bono – ela disse – chegou tarde hoje.

Dona Marivânia podia não fazer o tipo sedutora, mas fazia meu pau levantar toda vez que me chamava de “Seu Bono”.

- Boa noite, Dona Marivânia. É verdade, o dia foi longo. E você, como está?
- Tô bem, graças a Deus.
- Deve ser um porre ficar sem fazer nada a noite inteira.
- É bem chato sim. Eu aproveito pra estudar.
- Estudar é importante. É prova?
- Concurso.
- Vale a pena tentar.
- Desculpa perguntar, Seu Bono, mas o que o senhor faz?
- Nada demais, Dona Marivânia. Nada demais. Eu devia estar estudando pra concurso também.
- Eu gosto daqui, mas quero tentar algo melhor.
- Claro. Mas Dona Marivânia, eu preciso de um favor.
- Pois não, Seu Bono?
- Você podia me arranjar um prato limpo e uma faca bacana?
- Arranjo sim, Seu Bono. O senhor pode ir pro seu quarto que eu já levo pro senhor.
- Vou deixar a porta aberta.

O quarto estava lá. Do jeito que deixei. Pequeno e triste. A solidão estava na cama lendo Dostoiévski. Eu precisava de um banho. A ducha era fraca, mas a água era quente. Mais quente que a de lá de casa. Sempre é. Pensei em bater uma punheta, mas resolvi apenas curtir a água quente no pescoço. Quando saí do banheiro levei um baita susto. E fiquei por um tempo contemplando aquele susto. Era Dona Marivânia. Ela estava junto à cômoda, cheirando profundamente uma das minhas cuecas.

- Cheira aquela azul marinho que você vai gostar – eu disse.
- Seu Bono! – Disse Dona Marivânia num puta susto – Desculpa, Seu Bono. Me desculpa! Meu Deus, que vergonha! Desculpa, seu Bono! Aqui seu prato, desculpa!
- Tá desculpada. Mas você não prefere...chega aqui.

Tirei a toalha e me aproximei dela. Dona Marivânia gaguejou, tentou pedir mais algumas desculpas, mas depois deu um sorriso. Um sorriso tímido e maroto. Quem diria? Ela deu dois passos e pegou de leve no meu pau. Depois sentou na cama, deu beijinhos e cheirou de verdade. Deu também umas chupadas de leve como se estivesse manuseando uma taça de cristal. Que bom que não bati aquela punheta, eu pensei. Mas Dona Marivânia não parecia ser uma especialista no assunto. Puxei-a para cima e desabotoei sua blusa branca. Arrastei o sutiã e deixei à mostra um dos peitinhos durinhos. Segui o jogo dela e chupei de leve. Então a levei para a mesa, levantei sua saia e arrastei a calcinha. Dona Marivânia tentou soltar o cabelo. Não deixei. “Deixe assim. Eu quero comer você: Dona Marivânia”. Então comi de leve. Comi olhando o tempo todo para seu peitinho. Seus gemidos também eram tímidos. Volta e meia ela balbuciava um “Ai, Seu Bono”. Aquilo endurecia cada vez mais meu pau. Levei Dona Marivânia para a cama e a deixei de quatro. Comi devagar. Comi bem devagar. Eu poderia passar o resto das minhas diárias naquele hotel ali, enfiado em Dona Marivânia. Até que ela soltou um último “Ai, Seu Bono”, e eu gozei.

Ficamos por um tempo deitados, olhando para o teto.

- Foi bom, não foi, Seu Bono?
- Você é um pudim, Dona Marivânia. Um pudim de leite. Um pudim delicioso.
- Seu Bono.
- Diga.
- O senhor gosta de Leila Pinheiro?
- Sei lá, ela é bonita.
- Vai ter show dela aqui amanhã. Meu namorado não quer ir. O senhor quer ir comigo?
- Porra, Dona Marivânia, você tem namorado?
- Tenho. Mas não sei se gosto dele. Também não sei se ele gosta de mim.

Então o telefone da recepção tocou. Àquela hora noite, as chamadas pareciam gritar.

- Telefone - eu disse.
- Que hora é essa, Seu Bono?
- Deve ser umas duas.
- É a esposa do Seu Rocha do 502. Ela sempre liga essa hora. Eu preciso atender.
- Ok.
- O senhor vai?
- Pra onde?
- Pra Leila Pinheiro, amanhã?
- Não vou poder, Dona Marivânia. Desculpa.
- Tudo Bem. Boa noite, Seu Bono.
- Boa noite, Dona Marivânia.

Então Dona Marivânia ajeitou sua roupa, bateu a porta, e fique sozinho. Sozinho não, com a solidão, que agora jogava cartas sobre a mesa. Se bem que não tenho problemas em ficar sozinho. Se tiver um joguinho na TV ajuda. Mas em geral gosto da minha companhia. É o que me salva. Porque quartos de hotel só servem para mostrar o quanto você é você só. Quartos de hotel enlouquecem. Deve ser por isso que quartos de hotel pedem um copo de whisky. Mas eu não bebo whisky. Então me levantei e fui tomar outro banho quente.

40 comentários:

Tatiara Costa ; ) disse...

nOSSA Sempre tão profundo que G..h´hahahaah. Promewto que falarei mais de sexo. Como faz bem. Você é a prova disso.
Lindinho, voltei. Estava em crise existencial...entende né?
Mas nada com nada para resolve...
Beijos.

Luciana disse...

Ai. A solidão que me espera nem fala português.

Primeira vez que fico triste lendo seus textos. Gostei.

Beijos!

Duas disse...

ai, doeu...quase um roteiro de encontros e desencontros.

belo texto. beijos.

elisa

Paulo Bono disse...

Tatiara,
Confesso que não entendi porra nenhuma do seu comentário.

Luciana,
Pô. você é otimista. já fiquei triste em vários.

Elisa,
não tinha reparado, mas acho que você tem razão.

abraço

Breno Barretto disse...

Porra meu querido!
Sua narrativa da trepada foi entusiasmante, deu vontade de curtir esses peitinhos de D. MArivânia.
Quartos de hotel são realmente tristes e solitarios, a diferença, no meu caso, é que eu gosto de uisque, que junto com um bom livro são otimas companhias.
Abraço

SAMANTHA ABREU disse...

há!
imagina se todas as noites e todos os quartos solitários fossem assim?!
puxa...

Bono, sabe de uma coisa?
se minha descontroladas fosse pra tv, elas teriam que ter um personagem masculino. Teria que ser você, Bono. Certeza,"Seu BonO".

ahahaha
Um beijoOOO

Rodrigo Carreiro disse...

Mais uma belíssima história, Bono. Essa transitoriedade da vida me encanta.
abraço

Paulo Bono disse...

Breno,
Você é o maior cachaceiro da Federação.

Samantha,
Seria uma honra participar de uma história com as descontroladas. Se bem que eu não teria essa paciência.

Carreiro,
Valeu, baiano. Me encanta é suas histórias baianas.

abraço

Sunflower disse...

Vcs estavam juntos, mas sozinhos.

E deixa a mulher se descabelar, vá!


Bejos, rei.

alvarêz dewïzqe disse...

muito... muuito bom! Bono. Porra, porra... muito bom mesmo. Gosto do que você escreve, já li muita coisa boa aqui, mas tenha certeza, esse foi o melhor.

danny disse...

Cara, você não existe. Tanta solidão, pessimismo...mas que são tão fascinantes. Às vezes dá vazio, às vezes só fascina.

Danilo Lemos disse...

Citando o primeiro comentário: proMETO que não falarei mais de sexo.

Danilo Lemos disse...

Ah, quartos de hotéis são piores em filmes de baixo orçamento. Pois ao invés da solidão, tem o Ari, que é o motorista da Van, roncando pra caralho. Tá aí... eu nunca comi atendente de hotel... recepcionista no banheiro da empresa, vale?

gigi disse...

Quartos de hotéis são piores em viagens executivas porque a sua colega de trabalho que foi escalada pra dividir o quarto contigo invariavelmente tem chulé dentro daquele scarpin cafona.

Paulo Bono disse...

Sunflower,
Aí não seria Dona Marivânia.

Dewitghk,
Porra, porra! digo eu! Se você, que escreve pracaralho, gostou é que eu tô bem na fita mesmo.

Danny,
Não sinto vazio nenhum. pelo contrário. tô gordo pracaralho.

Lemos,
Como o próprio nome diz, recepcionistas servem para receber.

Gigi,
Geralmente eu sou o colega com chulé.

abraço a todos

Ynot Nosirrah disse...

Adorei seu blog. Gostaria que conhecesse o meu também.

conscienciaacademica.blogspot.com

Careca disse...

Hotéis sempre me lembram de " O Repouso do Guerreiro", de Christiane Rochefort e "Um Hotel muito Louco", do John Irving. O livro da francesa, que dizem ter virado filme com a Brigitte Bardot ainda mocinha, começa com um acontecimento num hotel. E o Irving é obcecado com hotéis e pensões. No meio de "O mundo segundo Garp" ele coloca o conto "A Pensão Grillpazer", que é sensacional. Vale a pena ler os dois, Bono. Um abraço,

Rackel disse...

'- Vai ter show dela aqui amanhã. Meu namorado não quer ir. O senhor quer ir comigo?'...

Broxante falar de namorado trepando com outro, heim!

=|

Paulo Bono disse...

Nosirrah,
valeu a visita.

Careca,
Valeu pelas dicas. preciso de muitas.

Rackel,
Pobre Dona Marivânia

abraço

Poliana Paiva disse...

D. Marivânia é do rock, hein!
Cheirar cueca, além de promissor, não é pra qualquer uma!

Amei!

FOXX disse...

pois é
como sempre um show de palavras...

Larissa Bohnenberger disse...

Putz, ninguém merece... só outro banho, mesmo!
Hehehehe!
Adorei!
Bjs!

Paulo Bono disse...

Poliana,
Verdade. A moleca era punk.

Foxx,
Valeu a força.

Larissa,
O banho é transformador.

abraço

Anônimo disse...

Delíciaaaaa !!!
Adorei "Seu Bono "

Fábio Souza disse...

É verdade bono, sempre me identifico com suas estórias, nunca me hospedei em um hotel com uma dona Marivânia mas este é o sonho erótico de todo hospede solitário. Venha cá me tire uma dúvida será que Mariana+Edvânia=Marivânia, se for eu vou contar para minha vó.


Abração Primo

Paulo Bono disse...

anônimo,
espero que você seja anônima.

Fabão,
hahaha, minha tia e minha prima, com certeza, dão de mil a zero na pobre Dona Marivânia.

abração

Van disse...

Pulei o muro da SUNFLOWER só pra te perguntar....
Como é que você NÃO conhece Dave Mathews Band?
Nossa senhora, vixe Maria, afffff, Jisuisi.....
Vamos tratar de corrigir isso já!
Deixa eu te apresentar umas músicas dele?
Ahhh deixa?

By the way.... Muito prazer. Sou a Van (Cantora, compositora - tb blogueira e fotógrafa amadora).
Eu acho que sei algumas coisas, mas no fundo não sei de nada.

Agora vou conhecer teu espaço. Com licença.....
;)

Beijucas

Adriano Caroso disse...

Que putinha maravilhosa essa Dona Marivânia cara! Esse tipo de mulher nos pregam umas surpresas boas, hein? E vc como sempre arrasando. Valeu!

Paulo Bono disse...

Van,
sou preguiçoso e conservador pra caramba pra ouvir coisas novas.
Mas "Dave Mathews Band", não é isso? Valeu a dica. vou pesquisar. juro.Vou inclusive ouvir suas músicas também.

Caroso,
Volto a dizer, Dona Marivânia era uma boa garota.
Valeu, fera.

abração

La Javanaise disse...

A solidão deve ter ficado com uma vontade ...

P.R. disse...

Grandew Dona Marivânia. E viva o banho quente! O chuveiro lá em casa queimou.

Larissa Santiago disse...

ehhh.. Dona Marivânia se deu bemm!!
slow is the best!
;)

Paulo Bono disse...

la javanaise,
duvido. a solidão é impotente.

p.r.
conserta, conserta logo!

larissa,
por que? será que ela foi pro show da Leila Pinheiro? esqueci de perguntar.

abração

Tônio disse...

Você tem uma facilidade de escrever textos onde as personagens parecem reais. Marivânia existiu? Sou pobre, não tenho experiências de solidão em motéis. Sempre é bom te ler. Abraço. Tônio

Denis Barbosa Cacique disse...

Cê tá ligado que quartos de hotel são um dos locais preferidos dos suicidas? Pode crer que são.
Bom mesmo é encontrar uma Marivânia!

4rthur disse...

Eu até curto a solidãozinha do quarto de hotel. Mas curto porque é exceção pra mim. Se fosse a regra, a história seria outra.

Marivânia... mais um nome que parece ter saído dos contos do mestre Nelson Rodrigues.

Abraço, Bono.

Paulo Bono disse...

Tônio,
claro que Dona Marivânia existiu. claro. pobre Dona Marivânia.

Cacique,
suicídio? não sou esse macho todo.

Arthur,
concordo com você. o problema é quando vira regra, e a solidão vira hospéde mensalista.

abraço

Sunflower disse...

Fiz um site de cinema, vou ficar insuportável, há.

Pára tudo, já sou insuportável. Há há.

Stephanie disse...

Bono,

esse texto com clima solitário de quarto de hotel me lembra aqueles textos do Velho Safado e do Fante

mas D. Marivânia hein, surpreendente, um talento pra sacanagem com um namorado provavelmente mais ou menos, escondida atrás de um uniforme escroto. Que merda, hein...

josue mendonca disse...

cara, vc é muito bom
o texto flui, parece que vc escreve com a mesma naturalidade com que respira..
poxa vida, tiro meu chapéu
com certeza, vc nasceu pra escrever
vê se participa de algum concurso aí, quero um dia ver um livro seu.