29.3.08

O Troco

Os mercadinhos têm essa mania. Fui comprar um Bono. 95 centavos. Dei um real, e a menina do caixa me deu de troco uma bala. Assim, sem perguntar se eu aceitava uma bala. Uma porra de uma bala de melancia. Olhei bem para o crachá da putinha. Lisandra. Ok, Lisandra – eu pensei – só não mando você enfiar essa bala de melancia no seu cuzinho porque hoje eu tô bem. E estava mesmo. Estava empolgado. Tinha um pouco de esperança. Havia conseguido marcar com o diretor de criação de uma agência para mostrar meu portfólio. É difícil encontrar esses caras. Estão sempre em reunião. “Venha amanhã” – disse o criativo – “Venha cedo, porque depois vou ter uma reunião”. Enfim, era uma esperança. Era preciso comemorar. Por isso o biscoito Bono. Devorei enquanto assistia a um jogo da Champions League.

No dia seguinte, fui com meu velho portfólio. Há muito eu não colocava nenhuma peça nova. As últimas agências por onde passei também não renderam nada de interessante. Era o mesmo de não sei quantos anos atrás. Inclusive estava faltando um parafuso. Tudo bem. Já li uma vez um redator renomado dizer que é melhor um suporte proporcional ao valor das peças. Meu portfólio era tão velho que eu ainda o chamava de portfólio. Faz algum tempo que os criativos já o chamam de “Pasta”.

Logo de cara, na recepção, havia uma espécie de totem, pirâmide, sei lá. Uma porra colorida com símbolos da Bahia, penduricalhos e dizeres motivadores. Essa turma é criativa pra caramba. A recepcionista me olhou de cima a baixo. Pediu para eu esperar. Uma cara de burra da porra. Devia ser comida de alguém da agência.

Tirando a obra de arte da recepção, gostei do lugar. Já desisti das grandes agências. São grandes demais para os meus títulos. Mas aquela era uma agência pequena. A criação devia viver reclamando da falta de verba para a produção de filmes ou de boas fotografias. O tamanho certo para mim. Claro, o diretor de criação era igual a qualquer outro. Chegou vestido de criativo, todo de preto, despojado. O cara me olhou de cima a baixo. Tenho a impressão que essa turma de agência, quando me vê pela primeira vez, me acha com cara de motorista de kombi. “A sala de reunião tá ocupada” – disse o criativo – “Se importa da gente conversar na varanda?”. Por mim, tudo bem. Proporcional ao meu portfólio.

Sentamos num banco da varanda, e o sacana começou a folhear o portfólio. Olhava as peças muito rapidamente, com certo desprezo. Eu podia apostar que ele procurava um anúncio para o novo Honda Civic. Meu portfólio não tem peças para o novo Honda Civic. Tem, no máximo, um varejão de fim de semana para uma concessionária de Salvador. Sabe de uma – eu pensei – foda-se. Dei uma relaxada e cocei meus ovos enquanto observava um passarinho dar uma bebericada nas plantinhas. Vi também que tinha um restaurante a quilo ali perto. Devia ser caro. Mas era praticamente na porta. Se eu trabalhasse na agência, com certeza almoçaria ali.
- Esse conceito é seu? – perguntou o criativo se referindo a uma campanha do portfólio.
- É.
- Muito bom. Tão usando até hoje.
- Eu vi.
- Só a arte que é assim, assim.
- O cara teve que fazer nas coxa.
- Cara, no momento a gente não tá contratando ninguém, mas você tem uma boa pasta.
- Valeu.
- Agora vou dar uma dica.
- Botar peça fantasma?
- Isso. Tá faltando uma grande sacada.
- Já me falaram.
- O pulo do gato, entendeu?
- Não tenho saco pra fantasmas.
- O pessoal quer ver até onde você pode chegar.
- Eu chego no gol.
- Ham?
- Eu chuto pro gol. Pro cliente aprovar, vender o peixe dele, a agência faturar e correr todo mundo pro abraço, sacou? Foda-se o gato.
- Saquei. Mas é uma dica, pense nisso.
- Valeu. Mas e aí, é você que tá comendo a putinha da recepção?
- Quem dera! É o Mídia.
- Sempre o Mídia!

A entrevista morreu ali. O criativo foi para a reunião dele, e eu peguei meu ônibus de volta. Eu e meu velho portfólio. Voltei tranquilo. Na verdade, insisto na publicidade porque é a única coisa que sei fazer, e olhe lá. Se ao menos eu soubesse dirigir, talvez fosse motorista de kombi. Mas uma kombi do caralho, com pulo do gato e tudo.

Ainda desempregado, só me restava relaxar. E nada melhor que um Bono. Então passei novamente pelo mercadinho. Peguei o biscoito e procurei o caixa da Lisandra. Ela estava lá. Dei a ela 90 centavos e a bala de melancia. A putinha não entendeu. Peguei meu biscoito e fui embora. Devorei o pacote ouvindo Gilberto Gil. E segui a vida engordando.

30 comentários:

V.P disse...

A putinha da recepção perguntou, se o gordinho ia trabalhar lá. O cara disse que não. E ela comentou: "ainda bem... precisa ver o jeito que ele me olhou..." A Lisandra ficou puta da vida com o troco da bala, mas foi com ele ao baile funk e passaram trepando o resto da noite. Ela comentou que nunca um homem a havia tratado assim, tão grosseiramente...Estava apaixonada. Enquanto ele não arrumasse emprego podia passar lá no mercadinho todo dia e pegar um BONO. Era oferta da caixa...

Sra. Bono disse...

Meu amado Bukowski,

A cada texto tenho mais orgulho! Você tem conseguido colocar em cada palavra o ser "paulo bono", essa criatura que diz que "é foda", mas que vai procurar emprego se achando um fudido, que adora bono, que queria tá comendo a putinha da recepção e que não seria motorista de kombi, nem se soubesse dirigir, porque sabe (mesmo fingindo não saber) que sua vocação é outra!

Adorei o texto.

I love you so much.

Padre Alfredo disse...

E os baianólogos criativos desta agência piramidal ainda não vetaram o taje preto?
Põe essa galera na Kombi e leva prá longe motÔ, com direito a balas de melancia enfiadas em qualquer orifício.
Adorei o texto.

Anônimo disse...

hahahahahhahahahahahahah Conheci um cara que comprou 10 pães e pagou com balas... Boua! Ah meu, detesto caras com caras de inteligentes e que se acham "o cara" e no fundo é só um cara. Sacou? Beijos - tá sem trampo? Vem pra São Paulo. hehehehehe

Bj Adri
http://drikaninha.zip.net/

Larissa Bohnenberger disse...

Rsssss!
O que conta é a tentativa, não é mesmo! Tudo bem! Pelo menos você teve a chance de devolver a maldita bala. E nem precisou enfiar onde queria! Viu só?
Beijos!

Ivan Dmitri disse...

Li uma vez uma plaqueta numa banca:
"Se n�o facilitar o troco, leva bala"
Acho que al�m da pasta, voc� deveia reunir os posts daqui, fazer uma impress�o dos 10, 15 melhores e alternar a ida numa ag�ncia com uma ida a uma editora.Existe isso aqui na Bahia?
Cara, isso aqui j� d� um livro.
Al�m dos textos invejo voc� pela senhora Bono. Ah como eu sonho um dia a senhora Dmitri aceitar meu desejo por putinhas de recep�o...

jana disse...

Odeio os Mídias mais que bala de melância. Eles são tão sem graça quanto.

Não sei qantas vezes eu fui pra agencia procurar vaga de redatora e perguntaram se eu não queria ser atendimento. Idéia do porquê não tenho a menor.

Beijo, rei.

Fica, gina.

Marcelo Mendonça disse...

o mundo pequeno dos criativos de preto, do tamamho da bala de melancia. abraço meu velho.

fabioluiz disse...

É mais um texto com o "Q" de qualidade que só se vê aqui. Concordo com a senhora bono, concordo com a putinha da recepção, concordo com a putinha do caixa e concordo com o padre Alfredo, Por sinal ele é padre mesmo? bom pelo menos na foto ele está de preto!
rsrsrsrsrsr

Abração Primo

Her disse...

Olá,

Muito bom seu texto, como já disseram, acho que os seus contos é que deveriam estar no seu portfólio cara!!!

Até mais.

SAMANTHA ABREU disse...

ahahahahaa...
Passo momentos divertidíssimo aqui, Bono!
Obrigada por isso.

E tenho duas coisas a dizer: primeiro, eu adoro bala de melancia - não que elas devam ser dadas como troco, mas são boas demais;
segundo, eu tenho uma kombi, e amarela, diga-se de passagem.
Se vc resolver um dia, tá à venda! rs.

Um beijo, amore!

Tatiara Costa ; ) disse...

Olá! Primeiro comentário...

Se eu tivesse juntado todas as balas que recebi de troco certamente compraria muitas coisas....

Beijão chuchu!

absurdosabstratos disse...

Hahahaha.

Muito divertido.

Eu sei como redator sofre na hora de mostrar pasta viu... dar explicação sobre a arte alheia é de foder o peão.

Aqui em SP, precisamente nos restaurantes da vila olimpia, o pessoal nem se preocupa mais em dar os 5 centavos de troco. E quando pedimos, parece que estamos mendigando.

Lerei mais alguns posts aqui logo mais e comento ocasionamente.

Um abraço.

4rthur disse...

Criativos, padres, viúvas e metaleiros andam de preto.

O Bono aqui no Rio custa mais ou menos dois reais.

Bala de melancia é uma merda. Na próxima, entrega 19 balas pelo biscoito e testa a paciência da Lisandra.

Aliás, entre ela e a recepcionista do Mídia tu comia quem? As duas ao mesmo tempo, né? Foi o que imaginei.

Dou a maior força pra tu comprar a kombi da Samantha. Pode render um troco, já tem até cor de táxi (aqui no Rio, pelo menos, os taxis são amarelos com uma faixa azul no meio).

O foda vai ser o frete do sul até a Bahia. Mas tem umas kombis que fazem esse tipo de serviço.

Go Geena!!!

"Belezas e Encrencas" por um Assessor de Imprensa disse...

Caralho, Ducaraleo.
Texto bom é daqueles que no final, fica um hiato gigante -entre a vontade de querer mais e o emputecimento de não ter mais- foda!

salve Bono, mister Bono!

Patricia Rangel disse...

e esse conceito, é seu? rs!
vou adicionar seu blog nos meus favoritos.
beijos

Bianca Feijó disse...

Hahahahahaha...

Não tem como não rir dos dias que estamos felizes que até bala de melancia desce...

A Lizandra recebe para fazer isso, "dê bala de troco",deve mandar o chefe dela.

É, Bono, nessa de empresa privada eu já desisti, to só no concursos públicos...

B.E.I.J.O.S

Rodrigo disse...

Ahaha
Genial seu texto, meu caro. Muito bom.
--
www.terradeninguemba.blogspot.com

Adriano Caroso disse...

Bono,

Antes de conhecer o seu blog, eu escrevia mais contos. Agora fico sem rumo. Escrever um conto depois de ler os seus, é tarefa muito difícil. Ou carrego a sua influência, ou sai tudo uma merda. Por isso, estou exercitando a poesia. Pena que não é o seu forte, mas saber que você visita meu espaço me dá um orgulho do caralho. Quem escreve como você, é sempre uma grande referência, mesmo quando não gosta, tem sempre algo a acrescentar. Definitivamente, eu sou seu fã, e, a cada dia, venho aprendendo contigo. Valeu cara!

Adriano Caroso disse...

Irmão, não conheço nenhum dos autores que citou. Vou procurar para ler pois se eles o influenciaram, só podem ser muito bons. Sou um cara pobre de leitura e, embora admire demais o seu trabalho, já vi que tenho um gosto, bem diferente do seu. Não sei o que te indicar, mas sei que preciso conferir as suas indicações. Leitura pra mim é como música. Sou uma puta safada. Vou com todo mundo, desde que pague bem. A moeda pra mim neste caso, é a força que o texto tem para me prender. A melhor história de ficção que já li até hoje, foi "Cem Anos de Solidão" de Gabriel Garcia Marquez! E o Espalitando, é bom pra caralho! Não falo pra rasgar seda. Falo com sinceridade.
Abraços!

Poliana Paiva disse...

o criativo é foda!
muito bom!

Banana disse...

"Lisandra"... !

Arqueólogos do Desconhecido disse...

Porra, soh quem vive nesse meio sabe... eh bem por ai...

SAMANTHA ABREU disse...

Bonooo,
quem come um, pede Bis.
Quero! Quero!

FOXX disse...

eu sou o mídia!
kkkkkkkkk

Bruno disse...

Você devia é incluir o blog na seu portfolio, Paulão.

juniupaulo disse...

Eu ainda não escrevo contos. Tavam na ponta da língua (ou dos dedos) até eu vir aqui. Vai demorar mais um pouco então, até eu achar que consigo escrever com marra e não com parenteses e afetação de principiante. Me fudi.
Mas vou voltar aqui.
Devo ser masoquista.

Ane Brasil disse...

bom pra caralho!
Agora, me diz uma coisa: cê teve mesmo a caradura de perguntar pro cara se tava comendo a mina da recepção?
Cara, eu adoro os homens por issso, sempre tão honestos!

alvarêz dewïzqe disse...

Sério, essa de Bono por 95 centavos é alguma manha pra fazer o texto mais literário, sei lá, né? Aqui na capital Catarinense essa maravilha de guloseima custa quase dois reais!

criativo isso, criativo aquilo hahaha muito boa.

Rackel disse...

Vou tentar pagar biscoito com bala pra ver no q dá...
rsrsrs
=)