1.3.08

Nos Tempos do Orlando

Era uma noite agradável. Na verdade, as noites eram sempre agradáveis na Lapinha. Ainda mais quando sentávamos na escadaria do grande palanque. Para falar de futebol ou mulheres, ou simplesmente fazer o tempo passar. Naquela noite, Capenga, Queixão, Duda e eu discutíamos os rumos do Flamengo no campeonato brasileiro. Não lembro quem estava com a palavra quando escutamos o grito daquele homem.

Era um homem que acabava de saltar de um táxi em movimento. Rolou pelo chão de paralelepípedos, saiu catando ficha e gritando “Socorro! Ladrão! Socorro! Socorro!”. O táxi desgovernado foi certeiro na velha árvore em frente à casa de Dona Carmem. De dentro do carro, saiu outro homem. Ele se arrastou pelo chão, levantou-se e disparou dois tiros na direção do primeiro homem. “É tiro!” – berrou Capenga, o primeiro a rolar escada a baixo. Despencamos todos sobre o chão de pedras portuguesas. Depois não ouvimos mais nada, apenas outro grito. “Ele correu pra trás da igreja!”.

Uma multidão cercou o homem, que tinha o braço e o rosto feridos. Devia ter sido da queda, pois os tiros não o acertaram. “Vamos lá ver”, disse Queixão. E após beber um gole d´água, o homem contou o que havia acontecido. Ele era taxista. O homem que correu para trás da igreja era um ladrão que havia acabado de assaltar uma farmácia, e que entrou no seu táxi lá pelas bandas da Caixa d`Água e mandou que lhe deixasse na Lapinha. O taxista disse que dirigiu o tempo todo com uma arma apontada para a cabeça. Disse também que obedeceu todas as ordens do bandido, mas que, ainda assim, o sacana ficava repetindo que depois que saltasse, daria dois tiros em seus miolos. Por isso, logo quando entrou no largo, ele achou que era o lugar certo para escapar e saltou do veículo.

Por coincidência, assim que o taxista acabou de contar sua história, ouvimos o ronco do velho e assustador Opala preto. Era Orlando, que entrou no largo, como sempre, cantando os pneus do seu Opala. Deu a volta no palanque e parou em frente à barraca de Seu Antônio. Ele saltou do carro e perguntou “Qual é o caso?” O taxista ferido não conseguia falar direito. Mas o filho de Seu Antônio, os outros taxistas e Capenga trataram de contar o ocorrido. “Foi tiro que não acabava mais, Orlando!”, “Ele queria matar o cara!”, “Correu pra trás da igreja, vai descer a ladeira!”. Mal Orlando ouviu os depoimentos, entrou no Opala, disse “Cinco minutos!” , e saiu cantando os pneus. A ladeira da Lapinha termina em Água de Meninos. O plano de Orlando era descer a Soledade, dar a volta e pegar o cara de surpresa. Assim como dois mais dois são quatro, o filho da puta estava fudido.

Acontece que Orlando era um psicopata da Polícia Militar. Já havia sido suspenso inúmeras vezes devido a seus métodos nada convencionais. Sua filosofia de vida era que bandido tinha que morrer. E se ninguém segurasse, era qualquer bandido. Até pivete ladrão de carteira. Eu mesmo já tinha visto Orlando torcer os braços e encher de cascudos alguns moleques arruaceiros. Orlando era alto, branco, quase sarará. Tinha o rosto quadrado e deixava o cabelo curto e espetado. Queria parecer e parecia mesmo o Schwarzenegger, como o Exterminador do Futuro. E Orlando exterminava. Com ele, era na bala. Uma vez deu 12 tiros na cabeça de um cara só porque ele assaltou a padaria da esquina.

Queixão e eu tínhamos acabado de comprar um acarajé, quando os pneus do Opala cantaram novamente. Orlando desceu do carro, pediu uma carteira de cigarros na Barraca de Seu Antônio e chamou o taxista. A multidão cercou o Opala. Orlando abriu o porta-malas e perguntou “Era esse aqui?”. Não sei como o taxista reconheceu. O filho da puta estava lá, torto, no porta-malas do Opala. Todo brocado. Havia tanto sangue que era impossível definir onde estavam os buracos das balas. No dia seguinte, havia uma pequena nota no jornal. Dizia algo como seqüestro de taxista acaba em troca de tiros.

Nos tempos de Orlando era assim. Ninguém se metia com a Lapinha. Nem mesmo os marginais do Queimadinho e da temida Avenida Peixe. Era como um protetor do bairro. Até minha vó, certa vez, quando foi assaltada por uns ladrõezinhos de merda, berrou “Chama o filho de Mariene pra pegar aqueles bandido!”.

Lembro da tarde que estávamos batendo um baba em frente à igreja, e Orlando parou seu Opala bem no meio do largo, atrapalhando o futebol. Ele desceu do carro com o que parecia uma metralhadora nas mãos e deitou no capô dizendo “Acabou o baba!”. Fez mais algumas chacotas e perguntou das novidades. Lembro que ele disse, “Paulinho, essa camisa tá apertada! Vá emagrecer, porra!” Eu disse, “Vá se foder, Orlando”. Ele ficava lá, rindo e tirando onda com a sua metralhadora. Os meninos ficavam fascinados pela arma. Queriam ver de perto. Queriam saber quantos bandidos Orlando havia matado naquela semana. Mas eu sempre me afastava. Era um perigo ficar do lado de Orlando. O cara era visado por tudo que era bandido. Sei lá, podia sobrar uma bala perdida. Uma vez acertaram o seu pé. Ninguém viu de onde saiu o tiro. Mas um dia pegaram Orlando de jeito. Disseram que foi o irmão de umas de suas vitimas. Amarraram Orlando num beco e metralham seu corpo todo. Dizem que antes de dar o primeiro tiro, o cara ainda falou “Hasta la vista, filho da puta!”.

Não sei como anda a Lapinha nos dias de hoje. Mas quando Orlando era vivo, era tranqüilo viver naquele largo. Era um tempo de paz. Um tempo que as famílias ainda sentavam na porta de casa, que os casais podiam fuder em paz no muro do Sanatório Bahia, que as crianças brincavam de esconde-esconde ao redor da igreja, e que podíamos conversar na escada do grande palanque até alta madrugada. Um tempo em que ainda existia o grande palanque da Lapinha.

21 comentários:

SAMANTHA ABREU disse...

Cara! Teus textos são fantásticos... parecem uma história que consigo folhear... vendo as fotos, as imagens, como um quadrinho.. sabe?
Imaginei Orlando de roupa de couro preta, cigarro de canto na boca. Há! Orlando era o cara.
E tenho até vontade de conhecer a Lapinha.
Sabe o que é isso?!
Melancolia causada por um puta texto.
êÊÊÊê!
Adorei.

Um beijooo!

V,P disse...

A Lapinha era e é magnífica até hoje. Apesar do Orlando. A poesia estava na praça, nas conversas sobre o Fla, na cumplicidade dos amigos, no rebolado das morenas que passavam gingando, de chinelos, com cheirinho de banho tomado. Orlando era o drama que todo lugar tem, o drama da violência que ainda se podia suportar. Sua força era desproporcional ao seu tempo. Porque a Lapinha sempre foi o templo da poesia da velha Bahia. Poesia visual, física, humana da vida das pessoas que viviam nos seus becos e ruas.

Stephanie disse...

é impressionante que essa figura do justiceiro provoque tal medo e fascínio que às vezes nem se pense que um cara desses é louco e se tivesse escolhido outro caminho a coisa seria bem pior... o texto está do caralho!


Paulo, aquele diálogo é mesmo um passatempo. Pro blog não ficar parado, e eu não enferrujar sem escrever em tempos de pouca criatividade.

mas hoje tem um post menos sem vergonha que aquele lá no depósito, depois dá uma conferida.

beijo

gigi disse...

o que é bater um baba?

Marcelo Mendonça disse...

justiça com as próprias mãos, em terra de coronéis é assim... coincidência mas ontem fiquei sabendo da morte de peixe-frito. O Orlando do Alto das Pombas - polvorosa para a comunidade.

"Belezas e Encrencas" por um Assessor de Imprensa disse...

Que Juvenal Antena que nada. Orlando sim é o exemplo de coronel.

4rthur disse...

Caralho, parece roteiro de filme dos irmãos Coen. Na Lapinha, os fracos não têm vez?

ps - quando eu já achava que o texto ia terminar sem mencionar uma foda, eis que tu me surpreende no último parágrafo.

J disse...

Bono,

eu simplesmente não sei o que comentar. Passei por uma situção escrota esse final de semana, ainda estou ressaltada. Minha noção de bandido e mocinho anda zero.

Quando pensar em algo inteligente, volto.

Abraço, rei.

Ane Brasil disse...

Cara, consegui vizualizar toda a história na minha frente.
A humanidade é mesmo um troço doido.
Whats porra is "bater um baba"?
Sorte e saúde pra todos!

Her disse...

Olá,

Preocupante é a vida meu caro! Esse seu texto é um thriller moderno, muito bem escrito.
Senti saudades da sua Lapinha.

Até mais.

BABI SOLER disse...

Não consigo desgrudar daqui - socorroooooooooooo,rs

Tem um presentinho pra vc lá no meu.
Já percebi que não é adepto aos selos, mas fica a homenagem ao Espalitando.
Um beijo

FOXX disse...

perfeito como sempre
como pude passar tanto tempo sem deleitar-me entre suas letras...

Adriano Caroso disse...

Depois de Orlando será que a Lapinha continua sendo a mesma? Pena que precisa existir os "Orlandos" para que lugares como a Lapinha fiquem na tranquilidade. Fiquei pensando no comentário de Samantha. Ela nem conhece a Lapinha, imagina se conhecesse. Aquela mulher é foda, está sempre com a razão!

Renato Alt disse...

Parabéns, cara. Muito boa sua escrita, suas imagens, seus relatos. Foi uma grande descoberta este seu canto.
Abraços.

Her disse...

Olá,

Que tem muitas Nicoles Kidmans lenhadas por aí eu tenho certeza, Bono. Mas a minha Jolie é o meu ideal, é onde quero chegar. Quanto ao Brad ele é casado com ela, tem mais o que dizer?

Até mais.

Jota disse...

Bicho... Vou só registrar aqui que eu li esse texto. Tô sem palavras por demais pra dizer qualquer outra coisa.

Bruno disse...

Engraçado que, quando era moleque, eu conhecia um cara meio assim, o Pingo da Bica de Pedra. E bem nesse esquema: era o herói da molecada. Claro que, belo dia, encontrou quem lhe furasse o bucho.

Texto foda, como sempre, Paulão. Legal como vai fluindo, fluindo e parece que eu posso até ouvir o Orlando gargalhando e tirando uma da gurizada.

Abraço!

Padre Alfredo disse...

Quando essa maravilha virar clip, a trilha tem que ser: "quando eu morrer, me enterrem na Lapinha"
Cadê ORLANDO???!!!!!!!!!!

Fábio Souza disse...

É esse eu não gostei muito não!!!!

Abraços Primo.

Juliana Rocha disse...

É... a Lapinha... eu conheço a Lapinha... Conheço os irmãos Alan, Leo e Aline, filhos de tia Sônia e tio Luis. Conheço Netinho e Iguinho, Guelton, Ivo, Cabeça... uma onda... ia muito na Lapinha na minha adolescência...
Orlando me lembrou muito um outro ilustre morador da Lapinha chamado Olavo!!! hahaha Conheço cada história de Olavo da porra! Q ele fique por lá pq aqui tá chovendo...

Anônimo disse...

Parabéns belo belíssimo texto!!
Saudades daquela época!!
Muito boa e detalhista, sua memória.
Só quem viu e conheceu o Soldado Olavo, sabe o quanto ele era Orlando.