20.12.08

Presente de Natal

Árvores de natal me fazem pensar. E eu estava apenas ali. Matando uma garrafa de vinho e concentrado em minha árvore de natal. Uma árvore velha e torta, é verdade. Mas com pisca-pisca novo. Eu lembrava do meu primeiro grande presente de natal. Um Papa Tudo Trapalhões. Deus do céu, como gostei de ganhar aquele brinquedo. Tinha umas bolinhas coloridas e as caricaturas do Didi e do Mussum. Era bem divertido. Bem diferente desse ano. Eu queria o Flamengo na Libertadores. Não ganhei. Queria um emprego novo. Não ganhei. Para não dizer que passei em branco, um velho amigo padeiro me presenteou com um pão de natal. Com passas, ameixas, frutas cristalizadas e azeitonas. Para ser o autêntico pão que o diabo amassou, só faltava vir com uma bandeirinha do Vasco.

Bem, eu podia passar horas ali. Só olhando a minha árvore. Lembrando de muitas coisas. Pensando muitas coisas. E chegava à conclusão que o mais novo, chato e previsível clichê é criticar o Natal e chamar o Papai Noel de velhinho pedófilo, quando bateram na porta.

- Paulo Bono? – ela disse.
- Sim – eu disse.

A menina entrou, fechou a porta e saltou sobre meu pescoço, chupando minha língua e minha alma. Depois correu a mão sobre meus ovos e me empurrou contra o sofá. “Eu vou te dar meu cuzinho” – disse enquanto chupava minha orelha e rebolava em meu colo. E como rebolava. Parecia estar possuída. Foi tudo muito rápido. Logo ela já se arrastava em direção ao meu pau. A danada era gostosa. Pele branca, cabelo preto, olhos azuis, peituda. Um corpo lindo. Dessas que nunca, nunca, nunca me dariam bola. E eu nem a conhecia. Mas pensei, deve ser o milagre do Natal. Definitivamente, fuder aquela morena ia ultrapassar o Atari que ganhei em 84 e assumir o primeiro lugar no ranking dos meus presentes de natal. Mas quando tirou minha cueca, a sacana começou a rir e disse:

- Feliz Natal!

A morena se levantou e saiu. Claro que não entendi nada. Claro que eu ainda estava de pau duro. E ia voltar para minha árvore quando tocou o telefone.

- Feliz Natal! – Era o Caju. Dando a maior gargalhada.
- E aí, Sacana? – eu disse.
- Gostou do presente?
- A putinha escrota foi coisa sua?
- Gordo safado!
- Porra, Caju!
- Meu pau em seu cu!
- E aí?
- Tá fazendo o quê?
- Agora tava pensando em bater uma punheta.
- A gente tá aqui na casa de Chatão. Venha pra cá. Traga alguma coisa e venha.

Dizem que podem causar incêndio. Por isso desliguei o pisca-pisca. Depois peguei o pão de natal e fui beber com os amigos.

É um velho clichê, mas é de verdade:
Feliz Natal e Feliz Ano Novo.

10.12.08

Rascunho

O dia foi a mesma merda de sempre. Teve um velho amigo que me prometeu um emprego. Mas o resto foi a mesma merda. De qualquer forma lavei o rosto e sentei para escrever. Achei um título – O Dia dos Loucos – mas a primeira linha não valia um centavo. Apaguei e recomecei. Ainda estava uma droga. Apaguei e recomecei novamente. Dois parágrafos. Duas bostas. Apaguei. Lavei o rosto e recomecei. Mas travou outra vez na primeira linha. Talvez o problema estivesse no título. Talvez eu não soubesse escrever. Maldito o dia que achei que eu soubesse escrever. A verdade é que eu queria escrever como se estivesse vomitando. Mas nunca levei um soco do meu pai. Nem passei fome, nem frio, nem dormi com os ratos. Fui uma criança feliz. Daquelas aptas a escrever sobre piratas, caça ao tesouro e beijo no final. Mas eu queria escrever sobre a noite. E sobre brigas de bêbados. Inclusive queria escrever sobre os maiores derrames de cachaça que a noite dessa cidade já viu. Mas fico besta logo na segunda dose. E odeio a noite de Salvador. Eu queria escrever sobre mulheres. Mas comi tão poucas bucetas nessa vida. Nunca comi, por exemplo, uma mulher capenga. Eu queria escrever sobre os loucos. Por isso aquele título. E já tinha até achado o fio da meada quando bateram na porta.

Era o Tijolo.

- E aí, Bono – disse Tijolo.
- Tijolo – cumprimentei.
- Vim pegar o texto da cartilha. Eu trouxe o pen-drive.
- Tá maluco, Tijolo? Já mandei pro seu email.

Tijolo disse, “Ah, tá”, entrou e sentou no sofá.

- Tem visto o Paranhos? – perguntei.
- Vou fazer o concurso da Petrobrás.
- Bacana. Vai fazer pra quê?
- Já sei como vai ser o traço da cartilha. Vai ser aquele da Turma da Mônica. Posso fazer o contorno mais grosso, das Meninas Super Poderosas, eu sei fazer...
- Vai fazer o concurso pra quê, Tijolo?
- ...fica bem colorido. E naquela parte que você botou o garrafão de água caindo eu posso fazer um splash e...
- O concurso, porra! Vai fazer pra quê?
...e posso dividir a página em três colunas...

Sempre foi difícil manter um diálogo com Tijolo. Ele é um ilustrador que conheci na velha agência. Para ser exato, no meu primeiro dia na velha agência. Teve um momento que fiquei sozinho com ele. Eu estava lá escrevendo alguns títulos idiotas quando o escutei rindo e falando sozinho enquanto desenhava qualquer merda no Corel Draw. Eu não conseguia entender o que ele dizia, parecia outro idioma. Mas devia ser engraçado porque Tijolo ria pra caralho. Pensei, porra, é verdade, publicitário é tudo maconheiro. E a verdade é que dizem que a maconha e outras drogas fuderam a cabeça de Tijolo.

- Tijolo, manda essa arte até sexta. Preciso dessa grana, tá ouvindo? Hein, Tijolo?
- Vou me inscrever pra Segurança, nível médio.

Tijolo disse apenas isso, se levantou e foi embora. Maluco de merda. Então voltei a lavar o rosto e sentei no computador. Cheguei a mais um parágrafo. Mais uma bosta. O filho da puta do Tijolo havia cortado meu pensamento. Então mudei o título e escrevi esse texto. Não tem nada demais. Como nunca tem. Aliás, nunca quis escrever nada demais. Um cara até disse certa vez, “Ei, Bono, acho suas histórias repetitivas!”. E eu disse, “Cara, meus dias são repetitivos!”. E um dia desse, um amigo, até o mesmo que me prometeu o emprego, veio me sacanear, “Bono, porra, você chama isso de escrever? Assim até eu! É só dizer, ah, hoje conheci uma putinha, aí depois comi a putinha, aquela sacana! Isso eu também escrevo, seu porra!”. E eu disse, “Então escreva, porra!” É mais ou menos isso. Só escrevo. Escrevo porque preciso. Como preciso cagar e vomitar. Ultimamente escrevo porque não consigo dormir. Se um dia essa merda toda vai ser publicada? Não sei. Se alguém gosta? Não sei. Foda-se.
Mentira, sou vaidoso pra caralho.

Pronto. Acho que terminei mais um.

28.11.08

Marianinha

Odeio entrevistas com bandas de rock. Ou pelo menos a maioria delas. Geralmente são os vocalistas que se acham os visionários. Saem com frases de efeito, tiradas polêmicas, respostas vazias. Para dizer que são excêntricos e espontâneos. Acham que conseguem explicar a humanidade. Mas só falam merda.

Marianinha, uma prima do interior, passou um tempo lá em casa. Depois de escutar bandas nacionais, o que ela mais gostava de fazer era dormir. E teve um domingo que foi mais ou menos assim.

- Porra, Mari – eu disse – te acordei?
- Não – ela disse – pode continuar tocando. Eu tava ouvindo.
- Mas também você dorme pra caralho.
- Fui domir tardão. Estudando.
- Simulado?
- Ham ham.
- Odeio essas porras.
- Não sei o que faço. Não sei nada de Biologia.
- Bobagem. Eu sempre me fudia em redação.
- Paulo.
- Oi.
- Eu queria te pedir uma coisa.
- Lá vem merda.
- Eu queria que você tocasse em meu aniversário.
- Não existe.
- Por favor!
- A gente pede pro Fabão tocar. Ele sabe de verdade. E bota Kinho pra cantar. Ele é mais bonito.
- Idiota.
- Eu posso servir as bebidas.
- É sério.
- Tô falando sério.
- Isso se...
- O quê?
- Você sabe.
- O quê?
- Se eu chegar lá.
- Deixe de besteira, Mari. Mais fácil EU não chegar. Olhe pra mim. Posso ter um infarto tentando alcançar aqueles Cd´s.
- Besta. Ah, seus cd´s. Esqueci lá em casa. Eu trago semana que vem.
- Você é minha prima mais bonita. Não tem pressa.
- Êta! Já vai dar uma hora.
- Tem isso. Se quiser ser médica, vai ter que acordar mais cedo.

Tempo depois, eu estava longe de casa. Comendo besteira, engordando mais ainda, escrevendo bobagens, ao lado de pessoas que nada tinham a ver comigo, enfim, sozinho. Quando minha mãe ligou, justamente numa tarde de domingo, para dizer que Marianinha havia saído do jogo. É estranho receber esse tipo de notícia quando se está sozinho. E eu andava praticando a canção do Kid Abelha que ela tanto gostava para cantarmos juntos em outubro. Ainda tive que escutar minha mãe chorando e dizendo que uma semana antes, Marianinha havia mandado meus Cd´s de volta. Marianinha era um doce. Preguiçosa pra caralho, mas era um doce.

Mas como eu estava dizendo, é incrível como vocalistas de bandas de rock parecem nunca crescer. São eternos adolescentes. Daqueles adolescentes idiotas que só falam merda. Mais ou menos naquela época tive que escutar o vocalista do Capital Inicial dizer na TV que preferia ter um câncer no pulmão do que ser gordo. E disse isso sorrindo. Brilhante. Esses caras se acham o máximo.

21.11.08

Adeus, Bono Vídeo!

Meu sonho era ter uma vídeo-locadora. Com filmes bacanas, posters e uma máquina de sorvete. Seria mais um sonho a longo prazo. Porque naquela tarde, sem porra nenhuma pra fazer, meu sonho era apenas pegar um bom filme para assistir no meu quartinho.

O problema é que não se encontra bons filmes por aqui. Naturalmente as locadoras do IAPI atende às preferências do povo do IAPI. Só se encontra os últimos lançamentos do Vin Diesel e do Steven Seagal. Ou títulos como A Vingança Maldita dos Vermes e Rajada Mortal 3. Uma vez procurei por Despedida em Las Vegas, e a putinha da locadora disse que eu estava enganado, que não tinha Nicolas Cage nesse filme, e que o nome do filme era Despedida de Solteiro em Las Vegas. Só não mandei ela tomar no cu porque Nina estava comigo, e ia encher meu saco me chamando de estúpido. É uma merda não ter uma boa locadora por perto. Já pensei em me mudar por causa disso. A salvação sempre foi a Locadora do Ernesto. Lá ainda se encontrava algumas coisas do Woody, do Charlie e do Kevin. O Ernesto fica no largo. Dá pra ir a pé. Mas como sou um gordo preguiçoso peguei meu busu e cheguei lá rapidinho.

Por Deus, era melhor não ter ido no Ernesto. Fazia tempo que eu não aparecia por lá. A locadora estava mais vazia que a minha tarde. Não havia mais os posters no portão de entrada. Nem o painel anunciando promoções. Nem as putinhas procurando comédias sem graça. Não havia fila. Não havia um pé de gente. Só Ernesto e sua esposa baixinha atrás do balcão. Ernesto assistia Luciano Huck na TV. Pensei em chorar nessa hora. “E aí, Bono” – ele disse. Eu disse “Ernesto, meu rapaz”. Ernesto era a depressão em pessoa. Achei melhor não falar muita coisa. Fui direto nas prateleiras.

Aquilo parecia a grade de programação da Sessão da Tarde. Rocky Balboa ainda estava entre os lançamentos. Prateleiras vazias, ocas, sem sentido. Olhei para trás, e Ernesto ainda assistia Luciano Huck. “Não encontrou nada, Bono?” – Ernesto perguntou. Eu não podia dizer, porra, Ernesto, acho que vou esperar o Supercine. Talvez Ernesto estivesse esperando só acabar o Luciano Huck para se matar. Eu precisava pegar alguma coisa e escolhi o primeiro que vi pela frente, Blade Runner.

- Não já assistiu esse, Bono? – Ernesto perguntou.
- Pra ver se entendo o final dessa porra.
- Não vai levar mais nada?
- Ernesto, meu rapaz, o tempo tá curto.
- Ó, tô vendendo a casa.
- Sério, Ernesto?
- Desisti.
- O bicho tá pegando?
- Essa coisa da pirataria.
- É foda.
- Sabe quantos funcionários eu tinha aqui? Você lembra. Sete! Sete funcionários. Com carteira assinada! Mas aí, meu amigo, com esse povo vendendo quatro filmes por dez reais não dá pra mim.
- EU TENHO VONTADE DE MATAR ESSES FILHOS DA PUTA! – berrou a esposa de Ernesto.
- Eu, eu, não compro filme pirata. Eu odeio filme pirata – eu gaguejei.
- E QUERO QUE TODO MUNDO QUE COMPRA FILME PIRATA SE FODA!
- Aquelas capas xerocadas, fudidas. É um povo imbecil.
- Bono, esses aí dessa prateleira eu tô vendendo. Quatro reais – disse Ernesto.
- Tem os Goonies?
- Os Goonies não.
- E quanto é que eu devo, Ernesto?
- 2,50. Mas você pode levar por dois reais.
- Ernesto, meu rapaz, que é isso. Toma aqui.
- Obrigado, Bono.
- Entrega na segunda?
- Pode ser na terça.

Pois é. Foi percebendo que os piratas venceram, e até o velho capitão Ernesto resolveu abandonar o navio que desisti da minha locadora. Minha locadora ia ter até um blog. Mas apesar da minha raça flamenguista, não vou querer remar contra a maré. Deixa lá. É só mais um sonho não realizado. Eu também sonhava em ser baixista de uma banda de rock, e nunca aprendi tocar contra-baixo. Aliás, ia dá na mesma merda. Porque ainda tem o lance do eMule.

Só sei que quando cheguei em casa ainda liguei para a GPW. Acho que é a melhor locadora da cidade. Tinha muito filme bacana. Inclusive aquele, A Família Savage, que eu queria muito assistir. Mas a putinha disse que infelizmente eles não entregavam no IAPI. Graças a Deus, Luciano Huck já tinha acabado. Mas também não assisti ao Blade Runner. Apenas dormi. E não não sonhei mais nada.

8.11.08

O Cavaleiro Jedi e a Pequena Hannibal

A manhã estava calma. A rua estava calma. E eu também estava calmo. Apenas sentado na porta de casa, esperando Hulk dá suas mijadinhas nos pneus e nos postes. Foi quando vi o garoto se aproximar. Era o filho dos novos vizinhos. Devia ter uns seis anos e trazia uma espada de plástico. Vinha em minha direção. Pensei, lá vem merda. É que tenho medo de crianças. Do que elas pensam a meu respeito e fazem questão de expressar. Não estou preparado para tamanha espontaneidade. Uma vez um guri de colo ao me ver abriu o maior berreiro. O contrário também. Bebê que estava chorando e quando me viu entrou em estado de choque. Não sei lidar com situações como essas. E lá vinha o garoto. Na certa ia perguntar por que sou tão gordo. É o que sempre perguntam.

- Você tem uma espada? – perguntou o guri.
- Não. – respondi.
- Minha mãe que me deu. Tem o escudo também.
- Mas eu já tive uma.
- A sua veio com escudo?
- Escudo não. Mas era uma espada massa.
- Esse cachorro é seu?
- É de minha irmã.
- Sua irmã?
- É. Mas ela me empresta de vez em quando.
- Eu não tenho medo dele.
- Ele não morde.
- Mas meu pai disse que ele faz zuada.
- Seu pai disse?
- Foi. Eu tenho o boneco do Kung Fu Panda.
- Hum. Patas da fúria. Legal.
- Meu pai comprou na MacDonald.
- Yeah, gostoso, né?
- Mas eu não como o pão. Só como a batata frita.
- Batata frita é bom. Depois você pede pra seu pai comprar Pringles.
- Quê?
- Prin-gles.
- Quê?
- É uma batata.
- Uma vez eu comi mil batata frita.
- Mil?
- Hum hum.
- Cara, você bateu meu recorde.
- Foi na casa de minha tia Cléo.
- Rapaz, mas vou te dar uma dica. Como é seu nome?
- Lucas.
- Lucas. Meu nome é Bono. Lucas, não coma muita batata frita.
- Por que?
- Porque faz mal.
- Por que?
- Porque senão você vai ficar assim que nem eu.
- Assim como?
- Assim, gordão.
- Mas não importa seu tamanho.
- Por que não importa?
- Não importa seu tamanho. Eu vi no Horton e o Mundo dos Quem.
- Horton e o Mundo dos Quem?
- É.
- Esse eu não vi.
- Eu vi no cinema. Eu já vou. Vou fazer xixi.
- Tá certo.
- Tchau.
- Hei, Lucas.
- Hum?
- Que a Força esteja com você.
- Quê?

Com certeza aquele guri estava com a Força. E acho que, de certa forma, ele a transmitiu para mim. Porque comecei a me sentir bem. Claro que não importava o meu tamanho. Claro, porra. Sou um cara legal do caralho. Sou redator, sou engraçado, tenho um blog maneiro, tenho uns amigos bacanas, jogo o meu dominozinho, torço pro melhor time do mundo, boto pra fuder, e naquela noite eu tinha uma festa para ir.

Era o aniversário do meu ex-chefe e velho amigo Alevino. Embora meu tamanho não importasse nenhum pouco, fui todo de preto. Para emagrecer um pouquinho. Todo mundo da velha agência estava lá. E como era na casa de Alevino, tinha um bom vinho, é claro. A noite estava curtida, e eu estava com a Força toda. Tinha também a sobrinha de Alevino que morava no Rio. Loirinha, bonitinha, peitudinha. Eu contava os casos engraçados da velha agência. Contei a piada do bêbado e do manco. A loirinha adorou. Acho que ela estava na minha. O bom que ela voltaria para o Rio na segunda. Então era só fuder. Nada mais. Só alegria.

Foi quando Júlio chegou. Júlio era um parceiro Diretor de Arte. Chegou com a mulher e a filhinha. Aí fudeu. Porque começou a bater um certo pânico. Já tínhamos ouvido muitas histórias sobre a pequenininha. Reza a lenda que uma vez Júlio foi dar uma bronca nela, algo a ver com os lápis de cera, uma coisa assim, ele deu a bronca, e ela retrucou, “Papai, você tem a sua razão, eu tenho a minha”. E ela falou mais alguma coisa, e no final completou, “Eu te perdôo, papai”, e Júlio saiu chorando. A guria meio que manipula a mente do pai. Isso com quatro anos de idade. Sem contar o lance de monopolizar o controle remoto, ameaçar Júlio de contar para a mãe toda vez que ele olha pra bunda de outra mulher. Pois é, eu tinha razão para estar aflito. Era a primeira vez que eu ia me deparar com aquela guria. E ela não se parecia nada com uma Jedi. E quando a família se aproximou, cumprimentei meu amigo Júlio, a esposa e tentei não encarar a menina, mas não teve jeito. Ela olhou pra mim e disse, “Ó, mãe, o Shrek!”.

Guria filha da puta!

Todo mundo riu, inclusive a putinha loirinha. Foi aquele qui-qui-qui-cá-cá-cá, e alguém ainda disse, “Ah, como ela é sabida!”, e outro sacana completou, “Porra, Bono, Shrek, parece mesmo!”. Pronto. Eu estava desmoralizado. A loirinha não ia querer mais nada comigo. Virei a piada da festa, e eu não sabia o que responder àquela pequena mente diabólica que acabara com minha noite.

Fui parar no espelho do banheiro. E comecei a admitir que realmente eu era apenas um ogro de merda. Um ogro gordo e careca. Que só trabalha com propaganda porque não sabe fazer mais nada nessa vida. Que só sabe escrever sacanagens. Que só conta as mesmas piadas de sempre. Que tem uns amigos escrotos com filhas mais escrotas ainda. Que não aguenta mais nem cinco minutos jogando futebol. Ora, porra. Até o Flamengo tinha levado três a zero no Maracanã naquela noite de merda. É, eu precisava conversar novamente com aquele guri, o Lucas. Ou pelo menos alugar o tal Horton e o Mundo dos Quem.

17.10.08

Até o Pau Amolecer

Um dia desses encontrei Nina. Estava mais bonita. Parecia feliz. Tenho a impressão que toda mulher que me dá um pé na bunda se sente feliz e realizada.

- Como é que você tá? – ela perguntou.
- Ainda tô gordo.
- Besta.
- Você tá mais magra.
- Nunca mais comi pizza.
- Como é que tá o pirata? – perguntei, me referindo a seu novo namorado. Um tipo malhado, que ganhava a vida vestido de pirata fazendo uns coquetéis idiotas numa boate idiota.
- Tá bem. Trabalhando.
- Aposto que sua mãe gosta dele.
- Não começa, Paulo. Me conta, ainda tá na agência?
- Fala a verdade, ele te leva pra ver filme do Vin Diesel.
- Vai começar?
- Se fudeu. Agora tem que esperar ele lustrar o carro, e ver filme do Vin Diesel.
- Eu vou embora.
- Tô brincando. O pirata é gente boa. Mas como é nome daquele filme? A Batalha de Ridículo?

Ela foi embora.

Quando penso em Nina, a primeira coisa que me vem à cabeça é o yakisoba que ela fazia. A segunda é uma foda hardcore que batemos numa tarde qualquer quando estávamos os dois desempregados. A geladeira vazia. Ela fez uma panela de pipoca. E rachamos um restinho de suco de maracujá. Não tinha porra nenhuma na TV. Nada pra fazer. Nina perguntou “Vamos fuder?” E eu disse “Chupa aqui!”. Foi só o tempinho do último gole do suco. Ela deixou meu pau todo engordurado de pipoca, ela mesma limpou. Nina era incrível. Além de fazer um puta yakisoba, era uma boa puta na cama. Deitei-a de bruços e a comi do jeito que ela gostava. Com toda força que me restava na vida. Lembro que começou a chover. A janela aberta. Já estávamos nos molhando. Mas ficamos ali até gozarmos feitos dois monstros. Acho que foi a maior gozada da minha vida. Certa vez um amigo me disse que amar era fuder e, quando acabar, não ter vontade de dar um soco na cara da putinha. É mais ou menos isso. Fiquei ali. Deitado e enterrado sobre as costas de Nina até o pau amolecer, e lhe disse sobre sua nuca encharcada de suor “Eu te amo, porra!”. Ela estava ofegante. Mas acho que ela disse assim “Eu também”.

10.10.08

19.9.08

Serra Limpa

Era uma caipirinha fuderosa. A melhor de todos os tempos. Preparada com essa tal de Serra Limpa. Eu já estava na quarta dose, quando Psico, um amigo que tinha cara de psicopata, chegou com um guardanapo e uma caneta Bic.

- Bono, me ajuda.
- Tô duro.
- Escreve alguma coisa aí. Praquela menina.
- Vá te fuder, Psico.
- Eu tô amando, cara.
- Bebe uma dessa que passa.
- Escrevi um negócio massa. Ela não gostou.
- Escreveu o quê?
- Olha só.
- "Oi, gata...". Tomar no cu, Psico. "Oi, gata" é foda.
- Então! Escreve uma coisa legal aí.
- Nunca peguei mulher nenhuma escrevendo, porra. Não sei escrever essas coisas.
- Seu gordo filho da puta! Escreve logo esse caralho!
- Calma, Psico!
- Escreve!
- Quem é a putinha?
- A de casaco branco.
- Porra, bicho. Ela dá na sua cintura.
- Te pago duas caipirinhas.
- Três.
- Tá bom, três.
- Com Serra Limpa.
- Com Serra Limpa.
- Mais uma coisa.
- O quê?
- Confesse. Você já matou alguém?
- Quase.
- Me dá a caneta.

Era verdade. Eu nunca havia comido ninguém escrevendo bilhetinhos. A última vez que mandei um bilhete foi na oitava série. A menina cuspiu um Bubbalo no papel e jogou fora. Mas Psico estava exaltado, e não me saía da cabeça que ele já tinha matado alguém e podia atacar de novo a qualquer momento. Sei lá. A pequena também serviu de inspiração. E tinha também as quatro caipirinhas na cabeça. Demorou um pouco. Foram apenas quatro linhas. Mas saiu alguma coisa. Mostrei a Psico.

- Tá maluco porra? – ele disse.
- Vá por mim. Ela vai gostar.
- Pensei que você ia fazer um poema.
- Porra de poema.
- Ela vai chamar a polícia...
- Manda essa porra, Psico. E pode pedir minha caipirinha.

Enfim, Psico chamou o garçom e mandou o tal do bilhete. Em dois minutos o garçom estava de volta. Com a minha caipirinha. Uma beleza. Logo depois, a pequena se levantou e veio em nossa direção. Psico era louco, mas não era besta. A pequena era realmente qualquer coisa. Tinha um jeitinho doce, de menina. Mas não me enganava. Era a Chapeuzinho Vermelho mais safada daquele bar e estava doida para ser lanchada por um lobo doido, varrido e psicopata.

- Oi – disse a pequena.

Com aquela voz, eu podia apostar que a danada tinha uma tatuagem embaixo daquele umbiguinho safado.

- Oi – nós dissemos.

Psico se levantou. Eu apenas levantei a caipirinha até minha boca.

- Então, gata – disse Psico –, foi meu amigo que escreveu aquela parada, mas sou eu que tô amando você.
- Foi a coisa mais linda, mais engraçada, mais criativa e, ao mesmo tempo, mais arrogante que alguém já me disse – A pequena disse olhando para mim.

Tomei mais gole da caipirinha.

- Sabia que ele já matou uma pessoa? – eu disse a ela.
- Sério?

Foi mais ou menos nessa parte que a Pequena sentou ao lado de Psico, e os dois começaram a conversar. Rapidinho já estavam se beijando. Como se eu não estivesse ali. Então detonei minha caipirinha e pedi outra. A pequena falou algum segredinho safado no ouvido de Psico. Foi nessa hora que vi a tatuagem. Errei por pouco. Era no ladinho da cintura.

Dedicado a Chaveirinho e Casagrande, que se casam mês que vem, me chamaram para ser padrinho e prometeram uma garrafa de Serra Limpa só pra mim.

24.8.08

Deco

Quando vi Deco pela primeira vez, senti um alívio. Eu não seria o mais gordo da turma. Você sabe, segundo grau, o foco das piadas, essas coisas. Deco era imenso. Eu me perguntava, meu Deus, será que vou ficar assim? E não adiantava vestir preto, não dava para disfarçar. Deco era gordo e tinha jeito de gordo. Ele e suas calças largas. Por falar nisso, agora lembro que foi Deco quem me indicou a Loja do Gordinho, lá no Comércio.

Bem, eu poderia contar aqui várias histórias engraçadas sobre Deco. Claro, todo mundo sabe que as histórias com gordos se fudendo são sempre as mais engraçadas. Mas eu não queria falar sobre isso. Embora Deco fosse gordo, não era um bobão. Era uma figura de tirar o chapéu e um puta amigo.

Lembro uma vez que estávamos jogando vôlei. Quer dizer, eu estava jogando com a turma. Deco apenas assistia. Aí, não lembro bem por que, discuti com um dos marombeiros que estava de fora. O cara ameaçou entrar na quadra e partir pra cima de mim. Foi quando Deco puxou seu velho canivete. "É melhor ficar na sua, filho da puta!". O marombeiro ficou na dele, e confesso que até eu fiquei com medo de Deco naquela noite. E teve outra bem parecida. Essa com mais ação. Foi no meio do baba. Mais uma vez discuti com um sacana. E já que não era um dos marombeiros, mandei tomar no cu e dei o primeiro soco. O segundo foi ele que deu na minha cara. A porrada foi generalizada, e Deco foi o primeiro a me ajudar. Veio correndo lá do gol e sentou o braço no primeiro sacana que viu pela frente.

Eu poderia parar por aí. Falar apenas que Deco era um gordo valente. Mas eu estaria escondendo sua melhor versão. Deco era um gordo romantico. E se falar em romantismo na adolescência já é uma piada, imagine um Deco apaixonado. Estou querendo dizer um adolescente gordo apaixonado. É o cúmulo da perda de tempo. Deco mandava flores, caixas de bombons, recadinhos. Um dia ele se apaixonou por uma branquelinha lá da sala, e vivia me mostrando os bilhetes que escrevia para ela, perguntando o que é que eu achava, se estava bom ou não, se deveria enviar. Foda é que, não sei por que milagre, essa branquelinha começou se engraçar pra o meu lado. Era bonitinha e tudo. Mas Deco estava apaixonado, e eu, com meus princípios de jedi, jamais lhe daria uma facada nas costas. Nem peguei a garota, nem ela pegou ninguém, e Deco seguiu apaixonado até o fim daquela porra de segundo grau.

Depois disso, Eu e Deco nos encontramos muitas vezes junto com a turma. Cada um numa faculdade, mas a gente sempre marcava um baba, um cineminha ou umas biritas. E a vida seguiu assim. Até chegar aquele maldito ano. E numa certa noite, Mulata, um amigo nosso, ligou e contou o que tinha acontecido. Deco sofrera um acidente. Um acidente de carro. Foi num pega, e Deco estava no carona. A porra bateu, pegou fogo, e Deco ficou preso no cinto, uma coisa assim. Foi feio, o grande Deco não resistiu e caiu fora do jogo.

É o seguinte, não vou ficar aqui falando como uma telefonema daquele é capaz de pirar a cabeça de alguém. Ao invés disso, vou lembrar uma história engraçada com Deco. Uma vez ele se acabou na vodka, ficou na merda, e tivemos que levá-lo pro chuveiro. Deco ficou desesperado, berrando, pelo amor de Deus, que ninguém comesse o cu dele. Ri muito naquele dia. É o que eu disse, as histórias de gordos se fudendo são sempre as mais engraçadas. E o motivo da cachaça é que, pra variar, Deco estava apaixonado.

6.8.08

A Última Pizza

- Eu ainda quero ter um pug – eu disse.
- Um quê? – Regina perguntou.
- Um pug. Aquele cachorro bonitinho com cara de chefão.
- CACHORRO?!
- Hum.
- Eu não cuido.
- Eu cuido da minha porra.
- Não, Paulo. Não invente cachorro.
- Pensei que você não gostava de criança.
- Nem de um nem de outro.
- Gostou do filme, pelo menos?
- Uma monte de besteira. Não sei o homem falava a verdade, não sei se era mentira.
- Tim Burton é massa.
- O que virava peixe?
- Falar nisso, a mariscada de Augustão foi sensacional.
- Foi, mas não me deixe sozinha nessas festas. Você fica lá, tocando aquela porcaria de Legião Urbana, e não sei o quê mais, com seus primos, e eu fico sozinha. É foda.
- Mas puta que pariu, a farofinha de dendê tava sacanagem.
- Tô com fome. Vamos pedir?
- Vamos. Garçom!
- Tá aí. Eu gostei de M.I.B, Homens de Preto.
- Chefe, você me traz uma família. Meia peperoni, meia...
- Marguerita – completou Regina.
- Meia peperoni, meia marguerita. E traz mais uma Coca-Cola. Só gelo. Sem limão, só gelo.

Marguerita. Aí já era demais. Daqui a pouco ela ia começar a falar de concurso público, que eu devia largar propaganda, que eu ganhava pouco e ainda pagava a assinatura da ESPN, ou pior, ia falar que odiava Zico. Eu precisava acabar com aquela punheta ou estaria fudido o resto da minha vida de merda.

- O concurso do MP tá em cima, e ainda não peguei no livro – Regina disse.
- Regina. Vamos acabar.
- Acabar o quê?
- Acabar, porra. Acabar.
- Acabar o quê?
- Tô pirando. Não tá dando certo, sei lá.

Caiu a primeira lágrima. Ela limpou rapidamente. Era difícil Regina chorar. A mulher era tinhosa. Só chorava quando estava com raiva, com ódio e vontade de matar.

- É outra mulher? – Ela perguntou.
- Que porra nenhuma.
- Alguma puta da agência?
- Não tem puta. Só não dá mais. Tá muito foda.
- É porque eu falei o negócio do cachorro?
- Regi, você quer uma onda, eu quero outra.
- Que onda, cacete? Que onda? Você quer ter cachorro, tenha a porra do seu cachorro.
- Vamos terminar na manha.
- Tudo pra você é na manha, Paulo. Dois anos, e do nada “Vamos terminar na manha”! Vá se fuder.

Então veio aquele silêncio. Aproveitei, soltei um peido e detonei minha Coca-Cola. Havia uma remela no olho direito de Regina. Das grandes. Aquilo me lembrou a primeira vez que saímos. A mesma pizzaria. De repente percebi que o olho direito de Regina estava sujo. Eu avisei. Ela limpou constrangida. Para quebrar o gelo, eu disse que volta e meia acontecia o mesmo comigo. Depois contei uma história antiga e engraçada sobre remela, e rimos. Mas nessa noite eu não queria quebrar porra de gelo nenhum. E as lágrimas faziam a remelona escorrer. Já flutuava no meio da bochecha.

- Eu nunca te traí – ela disse.
- Porra, valeu.
- Já deram em cima de mim. Homens ricos. Mas nunca te traí.
- Foi o sacana do Humberto?
- Não importa.
- Foi o sacana do Humberto.
- Já teve gente que me disse, Regina, como é que você tá com um homem desse?
- Foi sua irmã?
- Não importa.
- Foi sua irmã.
- Por favor, Paulo...
- Ôpa! A pizza!

E enquanto o garçom servia a pizza, eu já me sentia mais leve. Cheguei a lembrar que ia passar um filme na TV. Eu ia assistir em paz, comendo um pacote de Bono, sem ninguém para atrapalhar. Regina acrescentou azeite, e eu caprichei na pimenta calabresa e no queijo ralado. Regina mastigava lentamente sua pizza de mato. A remelona ainda estava por lá. É foda, o sacana colocou o limão na Coca-Cola. Tirei e tomei um gole.

- Ah, pug é aquele cachorrinho do M.I.B – eu disse.
- Vou te pedir um favor.
- Hum.
- Não conta a ninguém que foi você que terminou.
- Claro.
- Pra ninguém de sua família, nem da minha.
- A gente diz que terminamos juntos. Que a gente conversou e terminou na manha.
- Nem pra seus primos.
- Melhor ainda. Pode dizer que foi você que terminou. É mais fácil de acreditar.
- Perdi a fome.
- Vai comer só uma fatia?
- Já vou. A gente se fala. Depois devolvo seus cd´s.
- O do Zeca tá com você?
- Tá com Andréa. Eu te devolvo.
- Não quer levar a pizza?
- Tchau.

Foi a última vez que vi Regina. Ela até ligou na noite seguinte. Insistiu alguma coisa. Só isso. Depois mandou um boy deixar meus cd´s na agência. A porra ainda emprestou meu cd à puta da irmã. Quem te viu, quem te vê, Paulo Bono. Terminando com uma mulher. Gordo metido. Gordo, feio, careca e esnobando uma advogada de terninho e carro zero. Eu já estava até vendo. Com certeza, iam dizer, tá maluco, porra? Como é que você vai arranjar outra, assim? Assim como? Assim como você é. Já se olhou no espelho? E cá pra nós, você é chato pra caralho. Era verdade. Talvez levasse anos para achar outra mulher. Talvez décadas. E como sou gordo, e posso morrer a qualquer instante, talvez esse dia não chegasse. Enquanto isso, eu podia ficar apenas olhando aquela loirinha ali no canto, sujando sua boca cor-de-rosa de queijo catupiry. Ou podia comer aquela garçonete orelhuda. Que moleca orelhuda, mas era bonitinha. Ou podia apenas matar minha peperoni. Só não ia comer a Marguerita. Mais por orgulho. Marguerita. Vai tomar no cu, Regina. É, foi melhor assim.

20.7.08

Paçoca X Pé-de-Moleque

Deixei a velha agência por volta das sete. Cansado. Engana-se quem pensa que passar o dia escrevendo títulos idiotas não cansa. O ponto estava cheio. Os rostos de sempre. Pessoas que eu conhecia e que me conheciam, de vista, há pelo menos dois anos. Estavam ali o engravatado de cavanhaque, a putinha do Bompreço, a coroa de farda cinza, o carinha do cachorro-quente, o grupinho de secretárias, a baixinha gorda com um sinal enorme na cara, o alemão e o jovem casal surdo-mudo. Às vezes tenho a impressão que um casal surdo-mudo é mais apaixonado e carinhoso que qualquer outro casal. Mas os mudinhos não estavam bem naquela noite. Discutiam através de gestos agressivos. A menina parecia querer gritar e mandar o namorado se fuder. Aquilo me fez perceber que um surdo-mudo impaciente e com raiva é mais angustiante que qualquer outra pessoa impaciente e com raiva. Outro rosto conhecido era o de Paçoca, um vendedor ambulante. Estava lá com seu balde cheio de paçocas. Parecia pensativo.

- Pensando no Vitorinha, Paçoca? – perguntei.
- Mengão.
- Que é que manda?
- Tô aqui fazendo umas conta.
- Passou algum Santa Mônica?
- Passou um nesse instante.
- Merda.
- O movimento tá fraco, Mengão. Tá foda. Não tô vendendo nada. Os cara tão pegando pé-de-moleque. Disse que tá vendendo pra caralho.
- Pé-de-moleque?
- Não gosto daquela porra. Não desce. Minha porra é paçoca. O pessoal me conhece como Paçoca.
- Você É o Paçoca!
- Como é que eu vou vender pé-de-moleque?
- Se bem que é tudo amendoim, né...
- Porra, sim, mas...
- Não sei se pego um cachorro-quente...
- Pega, porra. Um real com guaraná.
- Eu sei, mas se o busu chegar, é foda, uma melança da porra. Deixa lá.
- Se eu fosse pra outro país, Mengão. Os gringo não ia agüentar quando provasse paçoca.
- Me dá uma paçoquinha aí.

Dei 50 centavos. Ele me veio com duas paçocas, e as guardei no bolso.

- Eu ia ganhar dinheiro, não ia não?
- Como?
- Na Europa, Estados Unido, com paçoca?
- Porra, Paçoca. Tem vezes que a gente lê assim, siga seu sonho, corra atrás da porra do seu sonho, tipo, se você acreditar, você consegue. Aí vem uns caras e dizem, velho, tem que fazer o que o mercado manda, o que mercado quer, o que dá dinheiro. Uns falam uma coisa, outros falam outra.
- Eu ia ganhar dinheiro.
- Lá vem meu busu.
- Vá lá, Mengão.

Dei um tapinha nas costas de Paçoca e o deixei com suas dúvidas. O ônibus não estava cheio. Um milagre. Havia ainda uma cadeira vazia. Ao lado de uma coroa sapatão. Nenhuma putinha para puxar conversa. Mas ir sentado já era uma vantagem. Quem sabe o ônibus lotasse, e uma bucetuda viesse roçando no meu ombro. E antes de chegar no Iguatemi, entrou um ambulante. Fiz um sinal. Ele tinha pé-de-moleque, paçoca, nego bom e jujuba. Pedi dois pés-de-moleque. 50 centavos. Comi ali mesmo, e fiquei imaginando que a viagem seria longa. Os carros mal se moviam. Salvador estava ficando metida. Era uma cidade moderna. Até metrô ia ter um dia desses. Devia ser por isso que Feira de Santana morria de inveja da capital. Porque Salvador era uma puta metrópole. Com ricos, pobres e miseráveis. Com Burger King, pirataria e uma população cada vez mais obesa. Com ambulantes, hora do rush, luzes, luzes pra caralho, com um viaduto inútil, e com um longo tapete vermelho de faróis acesos pela frente.

9.7.08

Conversa de Viado

Acho que o Triguinho é viado desde que nasceu. Pelo menos lembro que ele já falava diferente quando entrou para nossa turma, na primeira série. “Esse menino é estranho!”, “Parece uma menina!”, “Já viu como ele fala?”. Não sei como o cara vira viado. Ainda mais assim, quando é desde criança. Triguinho pode não ter nascido viado. Mas ele nasceu para isso. Sua vida sempre foi uma estrada rumo à viadagem total. Começou naquele tempo, quando ao invés de jogar bola, Triguinho preferia brincar de elástico com as meninas. Depois, no segundo grau, resolveu assumir e usar calças apertadas. Depois vieram o cabelo longo e o shortinho enfiado. Logo depois, o papel de jovem cabeleireiro em um salão de quinta categoria. Até chegar às noites de sexta e sábado, quando Triguinho se transforma num travesti feio, fudido e mal pago. Exceto por sua mania de pedir tudo que vê pela frente, bala, chiclete, qualquer coisa, Triguinho até que é uma figura bacana. Sexta passada, o encontrei no ponto de ônibus.

- E aí, Triguinho. Chupando muita rola?
- Tô precisando chupar mais pra pagar minhas contas.
- Nem me fale, cara. Tô com o celular cortado.
- Vi você no Orkut de uma amiga minha. Você tem um blog!
- Tenho umas paradinhas lá.
- Eu disse, esse menino estudou comigo. Ela nem acreditou!
- É bonita essa putinha?
- É um viado, Bono! Gilsinho. Quer conhecer?
- Vá se fuder!

Nessa hora, um grupo de evangélicas passou por trás da gente e disparou uma série de comentários contra Triguinho. É o demônio, que safadeza, essas coisas.

- Ái, Bono, não agüento mais essa gente provinciana.
- Deixe de viadagem.
- Porque não é com você.
- Todo mundo fala de todo mundo. Você acha que não falam de mim? “Porra, lá vai o gordo, deve tá indo comprar biscoito”. Pense aí o que é que as mulheres gordas não sofrem? Todo mundo fala de mulher gorda. Se o cara é magro demais também falam. Todo mundo fala de todo mundo, Triguinho. Se você é preto, falam. Se é rastafari, mais ainda. Se é maconheiro, falam. Se é rico, falam. Se é pobre, falam. Se você é albino, falam. Todo mundo fica olhando quando aparece um albino. Aposto que você também fica falando ou pensando, ah, coitado, ele é albino. Se a putinha pinta o cabelo de verde, falam. Quer ver só? Todo mundo fala dos crentes. Eles falam de todo mundo e todo mundo fala deles. Eu mesmo detesto esses crentes.
- Eu odeio crente!
- Uma vez uma puta dessas não quis ficar comigo porque só podia namorar alguém da religião dela. E outra, ela dizia que não gostava de música do mundo. Vá se fuder. Quer ver mais uma coisa? Até acarajé essas pestes estão fazendo agora. Imagine. Você já viu? Tem até tabuleiro, acarajé, abará, vatapá, o nome é Acarajé Aleluia. Aposto que esses porras vivem falando mal de Baiana de acarajé, dizendo que é coisa de macumba, do diabo, sei lá.
- Eu não como acarajé feito por crente.
- Rapaz, eu comi um e tava bom.
- Não como mesmo.
- Ainda tem isso agora. Além de gordo, sou careca. Todo mundo fala de gordo e careca. Agora olhe pra você. Você é o suprassumo da viadagem, Triguinho. Qual é sua altura?
- 1,88.
- 1,88 de puro viado. Com esse cabelo grande. Com esse short enfiado no cu. Com essa bolsa ridícula, quer mais o quê? Todo mundo vai falar, porra. Você é especial? Ninguém pode falar de você? Falam de mim, não vão falar de você? Todo mundo fala de todo mundo, Triguinho.
- Quero saber não. Ainda meto a mão na cara de uma dessas. Odeio crente, Bono.
- Por isso que todo mundo fala de viado.
- Que é isso? É pastilha?
- Magnésia bisurada. Tô com uma azia desgraçada.
- Ái, me dá uma. Tô com uma queimação da porra também.
- Viu o lance de Ronaldo?
- Viado burro. Podia tá fudendo com ele até hoje. Ah, se fosse eu.
- Porra nenhuma. A porra parecia mulher mesmo. Era bonita. Dava pra confundir. Você é feio pra caralho, Triguinho.
- Você não sabe o que tá perdendo, Bono.
- Por mim você fica sem pagar suas contas, seu porra. Deixa eu ir, que lá vem meu busu.
- Escreve uma história sobre mim lá no blog.
- Deixe de viadagem.

Fiquei pensando. O cara tem que ser macho para ser viado. Triguinho passou por seu processo evolutivo, de bichinha saltitante à traveco escandaloso sempre de cabeça erguida, sempre indiferente às piadas nas esquinas. Mas já devia está de saco cheio. Tolerância à intolerância tem limite. Mas eu queria ver se além de viado, ele fosse gordo. Aí sim ele ia ouvir. Já pensou uma bicha gorda? Ainda bem que não sou viado. Gordo, careca e viado seria foda. Acho que eu já teria me matado.

25.6.08

Numa Sala de Reboco

Foi numa cidadezinha do interior da Bahia. Fazia frio. Muito frio. Mas fazia frio lá fora. Porque naquela garagem onde improvisaram um salão o forró pegava fogo. E de repente a sanfona puxou Numa Sala de Reboco. Minha favorita. Sou gordo e tímido, não costumo chamar ninguém para dançar. Mas o Rei do Baião e algumas doses de licor de jenipapo fazem milagres. Ataquei a moreninha de vestido florido que assistia ao forró quietinha.

- Vamos?
- Eu não sei dançar.
- Dois pra lá, dois pra cá.
- Desculpa. Eu não sei.

A minha auto-estima que é menor que um amendoim impediu que eu insistisse. Então fiquei apenas batendo o pé e assistindo ao povo dançar, exatamente como alguns tabaréus feiosos que havia por ali e que não comiam ninguém.

Ainda assim a festa era agradável. Era um São João de verdade. Bem diferente de alguns que tem por aí nessas cidades maiores. Certa vez eu estava numa dessas. Havia um palco grande no meio da praça. E havia uma dessas bandas famosas, Calcinha daquilo ou Jabá com-não-sei-o-quê. A banda ficava lá tocando qualquer porcaria e umas putinhas com as calcinhas enfiadas nos rabos dançavam parecendo mais Chacretes na abertura do Fantástico. E o povo todo parado. Ninguém dançava. Só assistia. Um porre.

Mas naquela garagem não. Estava gostoso. E tocava Numa Sala de Reboco. Ao invés de “gente bonita”, como dizem que há nas grandes festas, havia gente de verdade, caipiras de verdade. Todo mundo arrastando o pé. Um roça-roça da porra. Havia um casal que não parava um minuto. Os dois baixinhos. Dançavam acelerados, muito à frente do ritmo da música. Dançavam encaixados. E de rostos colados. Acho que podiam soltar uma bomba de mil ali dentro, que eles não iriam se desgrudar. Com certeza, depois daquele forró, quando voltassem para a roça, iriam fazer outro filho. Aquilo explicava porque o São João é uma puta festa romântica.

Os tocadores eram uns tipos engraçados. O sanfoneiro mandava bem e mancava de uma perna. O velho da zabumba não tinha os dentes da frente. E o rapazinho do triângulo, bem, não sei nem o que falar do rapazinho do triângulo. O que tem para falar de alguém que toca triângulo? Eu estava observando. Dinheiro fácil do caralho. Acho que a maior injustiça desse universo é um tocador de triângulo ganhar o mesmo que o resto do grupo. Aquele sacana bebia mais licor do que tocava. Mas o que tinha para tocar? Era tinguinlinguinlim e licor para dentro, tinguinlinguinlim e licor para dentro. Enquanto o sanfoneiro e o zambumbeiro se fudiam com seus instrumentos infinitamente mais pesados. E volta e meia aquele filho da puta ainda olhava o repertório colado no chão, como se fizesse alguma diferença a música que viria a seguir. Aposto que ele tirava onda para cima das menininhas, “Sou músico, toco numa banda”. Mas duvido que dissesse que tocava triangulo. Cara-de-pau.

A verdade é que São João me traz boas lembranças. Sempre gostei da festa. Já fui bom nisso. Muito bom. Nos tempos de escola, eu sempre participava das quadrilhas juninas. E não é por nada não, mas eu era o melhor naquela parte que tinha que imitar um bêbado cabaleando enquanto a mocinha adulava. Lembro também que imitei o Sandro Becker na quarta série. Minha calça era cheia de retalhos, inclusive com um coração costurado no meio da bunda. E até hoje tenho uma foto de quando fui eleito o Rei da Laranja no jardim de infância. Se bem que nessa foto estou chorando porque não queria ficar grudado à Rainha do Milho. Mas aí o tempo passou, veio a barriga, veio a careca, e nunca mais ouvi Sandro Becker. Inclusive a menina que foi a Rainha do Milho ainda mora no bairro, tem pernas maravilhosas, mas nem sabe que existo. Hoje nem a moreninha de vestido florido quer dançar comigo. Hoje fico apenas batendo o pé.

E foi logo quando Numa Sala de Reboco chegou ao fim, que meu amigo Joe se aproximou. Joe era tão feio quanto eu e também não pegava ninguém. E ainda tinha um agravante. Joe tinha cara de tabaréu, e quando dizia seu nome verdadeiro, Joílson, aí é que as meninas achavam que ele era da região e não queriam nada com ele.

- E aí, Joe, pegou alguém?
- Tentei uma sararazinha ali, mas a peste não queria nada.
- Na boa, você imagina alguém pedindo um triângulo de presente de natal?
- O quê?
- Esquece. E se a gente fosse no brega?
- Esquece. Hoje dei carona à Paty na moto. Quando cheguei em casa bati uma.
- Porra. Bateu uma punheta e não come mais ninguém hoje?
- Esquece. Vamo pegar licor.
- Tô enjoado de jenipapo. Pega maracujá agora.

E quando nos afastamos para comprar mais uma garrafinha de licor, o sanfoneiro puxou outra. E para minha surpresa, quando olhei, a moreninha de vestido florido dançava com um bonitão. E dançava muito. Chegava a saia girar. Putinha faceira. Mas ela estava perdoada. Porque estava tocando aquela, Olha pro Céu, outra bacana do Rei do Baião.

11.6.08

Dona Marivânia

A solidão mora num quarto de hotel. Algo parecido só o caminho de volta ao hotel. Quando você se pergunta, aonde vim parar? É quando dizem, fulano está sumido. E o fulano é você. E você está ali. Ali onde? Ali, caminhando a passos curtos, num fim de noite, de volta a um quarto de hotel e sua companheira de quarto, a porra da solidão.

Solidão como a de Dona Marivânia. A recepcionista. Quando a vi atrás do balcão, sozinha, sem TV, sem um radinho, apenas escutando a noite passar, pensei estar olhando para a pessoa mais solitária desse planeta. Dona Marivânia era novinha. Devia ter o quê? 20, no máximo. Sei que ainda fazia o segundo grau. Ela me lembrava muito aquele tipo de menina que a gente conhece na escola, magrinha, feinha, que só senta no canto da sala e ninguém dá nada por ela. Mas aí o tempo passa, e um dia você a vê na rua, e descobre que a moleca ficou jeitosinha. Então você diz, porra, aquela é fulana? Quem diria? Dona Marivânia era assim. Podia não ser um mulherão, mas era uma menina formosa, com seus peitinhos durinhos e gostosos. Por norma do hotel, mantinha sempre o cabelo preso. Usava um batom cor-de-rosa claro e uns óculos cafonas. Tinha também um lencinho no pescoço e a saia azul que desenhava seu rabinho. Parecia ser uma menina tímida. Pelo menos, nunca a vi dando bola a ninguém.

- Boa noite, seu Bono – ela disse – chegou tarde hoje.

Dona Marivânia podia não fazer o tipo sedutora, mas fazia meu pau levantar toda vez que me chamava de “Seu Bono”.

- Boa noite, Dona Marivânia. É verdade, o dia foi longo. E você, como está?
- Tô bem, graças a Deus.
- Deve ser um porre ficar sem fazer nada a noite inteira.
- É bem chato sim. Eu aproveito pra estudar.
- Estudar é importante. É prova?
- Concurso.
- Vale a pena tentar.
- Desculpa perguntar, Seu Bono, mas o que o senhor faz?
- Nada demais, Dona Marivânia. Nada demais. Eu devia estar estudando pra concurso também.
- Eu gosto daqui, mas quero tentar algo melhor.
- Claro. Mas Dona Marivânia, eu preciso de um favor.
- Pois não, Seu Bono?
- Você podia me arranjar um prato limpo e uma faca bacana?
- Arranjo sim, Seu Bono. O senhor pode ir pro seu quarto que eu já levo pro senhor.
- Vou deixar a porta aberta.

O quarto estava lá. Do jeito que deixei. Pequeno e triste. A solidão estava na cama lendo Dostoiévski. Eu precisava de um banho. A ducha era fraca, mas a água era quente. Mais quente que a de lá de casa. Sempre é. Pensei em bater uma punheta, mas resolvi apenas curtir a água quente no pescoço. Quando saí do banheiro levei um baita susto. E fiquei por um tempo contemplando aquele susto. Era Dona Marivânia. Ela estava junto à cômoda, cheirando profundamente uma das minhas cuecas.

- Cheira aquela azul marinho que você vai gostar – eu disse.
- Seu Bono! – Disse Dona Marivânia num puta susto – Desculpa, Seu Bono. Me desculpa! Meu Deus, que vergonha! Desculpa, seu Bono! Aqui seu prato, desculpa!
- Tá desculpada. Mas você não prefere...chega aqui.

Tirei a toalha e me aproximei dela. Dona Marivânia gaguejou, tentou pedir mais algumas desculpas, mas depois deu um sorriso. Um sorriso tímido e maroto. Quem diria? Ela deu dois passos e pegou de leve no meu pau. Depois sentou na cama, deu beijinhos e cheirou de verdade. Deu também umas chupadas de leve como se estivesse manuseando uma taça de cristal. Que bom que não bati aquela punheta, eu pensei. Mas Dona Marivânia não parecia ser uma especialista no assunto. Puxei-a para cima e desabotoei sua blusa branca. Arrastei o sutiã e deixei à mostra um dos peitinhos durinhos. Segui o jogo dela e chupei de leve. Então a levei para a mesa, levantei sua saia e arrastei a calcinha. Dona Marivânia tentou soltar o cabelo. Não deixei. “Deixe assim. Eu quero comer você: Dona Marivânia”. Então comi de leve. Comi olhando o tempo todo para seu peitinho. Seus gemidos também eram tímidos. Volta e meia ela balbuciava um “Ai, Seu Bono”. Aquilo endurecia cada vez mais meu pau. Levei Dona Marivânia para a cama e a deixei de quatro. Comi devagar. Comi bem devagar. Eu poderia passar o resto das minhas diárias naquele hotel ali, enfiado em Dona Marivânia. Até que ela soltou um último “Ai, Seu Bono”, e eu gozei.

Ficamos por um tempo deitados, olhando para o teto.

- Foi bom, não foi, Seu Bono?
- Você é um pudim, Dona Marivânia. Um pudim de leite. Um pudim delicioso.
- Seu Bono.
- Diga.
- O senhor gosta de Leila Pinheiro?
- Sei lá, ela é bonita.
- Vai ter show dela aqui amanhã. Meu namorado não quer ir. O senhor quer ir comigo?
- Porra, Dona Marivânia, você tem namorado?
- Tenho. Mas não sei se gosto dele. Também não sei se ele gosta de mim.

Então o telefone da recepção tocou. Àquela hora noite, as chamadas pareciam gritar.

- Telefone - eu disse.
- Que hora é essa, Seu Bono?
- Deve ser umas duas.
- É a esposa do Seu Rocha do 502. Ela sempre liga essa hora. Eu preciso atender.
- Ok.
- O senhor vai?
- Pra onde?
- Pra Leila Pinheiro, amanhã?
- Não vou poder, Dona Marivânia. Desculpa.
- Tudo Bem. Boa noite, Seu Bono.
- Boa noite, Dona Marivânia.

Então Dona Marivânia ajeitou sua roupa, bateu a porta, e fique sozinho. Sozinho não, com a solidão, que agora jogava cartas sobre a mesa. Se bem que não tenho problemas em ficar sozinho. Se tiver um joguinho na TV ajuda. Mas em geral gosto da minha companhia. É o que me salva. Porque quartos de hotel só servem para mostrar o quanto você é você só. Quartos de hotel enlouquecem. Deve ser por isso que quartos de hotel pedem um copo de whisky. Mas eu não bebo whisky. Então me levantei e fui tomar outro banho quente.

30.5.08

Parceria de Cu é Rola

Um dia esse tal Saviola ligou e disse que precisava de três histórias. Quadrinhos. Eu nunca havia escrito uma página de quadrinhos. Nem sabia por onde começar. Mas o dia 12 estava próximo. É quando as contas começam a chegar. Eu precisava da grana. Pedi 600 conto. Ele disse que era apenas um piloto. Que o projeto tinha grande chance de crescer. Quem sabe até circulação nacional. Aí daria um bom dinheiro. Mas que por enquanto só poderia pagar 300. Aquilo era ridículo. Por um instante pensei estar em Feira de Santana. Mais um escroto pela frente. Parece uma sina. Eu só me meto com esses caras. Os que falam demais. Os que prometem muito. Falei em 400. Ele gaguejou e disse “Tá legal, parceiro. Vou ter que tirar do meu, mas tá fechado”. Bom sacana.

Era uma revistinha para crianças. Para uma empresa do ramo de saúde. Eles já tinham os personagens. Precisavam dos roteiros. Enfim, histórias infantis com alguns merchandisings infames. Tirando a tarefa de inserir uma espécie de sabonete para bucetas adultas numa história em que as personagens tinham, no máximo, 10 anos de idade, o processo foi tranqüilo. Muller, um puta ilustrador, que saca tudo de quadrinhos e deveria estar na Europa ganhando dinheiro e comendo um monte de gringas liberais, fez a arte.

Dois dias depois do trabalho pronto, o tal Saviola ligou novamente.

- E aí, parceiro?
- Que é que você manda?
- Cara, ficou muito bom. Parabéns. Ri muito na parte dos marcianos.
- Valeu.
- Parceiro, é o seguinte...

“Parceiro, é o seguinte”. Depois duma frase como essa só vem merda. O tal Saviola disse que precisava criar três anúncios para serem veiculados na revista. “Beleza, mais uma grana”, pensei. Mas ele disse que tinha que ser no pacotão dos 400. O problema deve ser essa minha cara de otário. Perguntei se ele estava de sacanagem. Ele veio com aquele papo. Disse que não ganharia nada, que haveria outros projetos, pediu na moral e disse “Bono, meu lance é parceria”. E eu respondi “Então vá tomar no cu, parceiro, porque não vai rolar não”.

Depois daquela resposta, deduzi que até os 400 conto iam demorar de sair. Já era dia sete. Mas eu bebi meu Nescau tranqüilo naquela noite. Gelado. Talvez eu ligasse para o Tilápia, que me devia uma grana, mas pelo menos não falava demais. Poderia tentar os meninos da Pituba que até hoje me devem um cartão de Natal, mas estão sempre em contato. Quanto ao tal Saviola, se fosse preciso, eu falaria com uns parceiros de Camaçari, e POW! PLAFT! BIFF! BUM! CRASH! KABONG!, sei lá, nunca fui bom em onomatopéias.

16.5.08

Pititinga

Lembro da primeira vez que eu e mais quatro amigos da Lapinha saímos de carro para beber. Foi na Estação da Cerveja. Era o “point” da época. Éramos apenas garotos. Não tínhamos a manha. Também não tínhamos grana. Pedimos cerveja e bolinho de queijo. Vieram seis bolinhos. Cada um pegou o seu, o último foi no zerinho ou um, e alguém ainda disse “Vocês parecem que nunca viram comida!”.

Hoje eu fujo do bolinho de queijo. É caro e não dá para quem quer. Agora só peço pititinga. O peixinho é, sem dúvida, o melhor tira-gosto do universo. Com um bom molho tártaro, então, é uma beleza. Uma bela porção de pititinga é gostosa, barata e pode durar um tempo de jogo.

Um dia desses, por exemplo, eu estava num bar com um amigo, o Cidade. Não passava jogo algum, mas a pititinga veio caprichada. Já acompanhava a segunda caipiroska. Cidade é um designer que conheci na velha agência. Na verdade, trabalhamos juntos durante pouco tempo. Não sei por que viramos amigos. Talvez porque ele tenha me apresentado ao velho Buk e a algumas bandas. Bem, eu nunca lhe apresentei nada de bom. Quer dizer, apresentei a Lucinha, mas não deu certo. E também nunca fui a nenhum show de sua banda. Prometo sempre, mas aquilo é uma bosta que ninguém ouve.

- Gordo – disse Cidade –, aquela menina tá olhando pra você.
- Qual?
- A de azul.
- A de azul claro?
- Porra, só tem uma mulher de azul.
- Bonita pra caralho.
- Sim, e aí?
- E aí, o quê?
- Porra, ela tá dando mole.
- Tá, não. É assim mesmo. Deve tá me achando parecido com o Ed Mota.
- Porra nenhuma.
- Você vai ver. Daqui a pouco ela chama a amiga, aponta pra mim, e ficam as duas rindo. Você vai ver.
- Ela não tá nem prestando mais atenção na conversa das amigas.
- Esquece. Diz aí, como é que tá Batatinha? Reparou que o Medeiros parece Batatinha do Manda Chuva?
- Bono, ela tá te dando um mole da porra.
- Isso não existe.
- O quê?
- Gata, com aquele cabelinho curto da Fernanda Takai e aquele peito gostoso? Não existe uma mulher daquela dar mole pra mim.
- Você é um gordo viado, isso sim.
- Rapaz, mulher nenhuma nesse mundo sai do trabalho à noite, prum barzinho no Rio Vermelho, pra dar mole prum gordo.
- Mas ela não tira o olho de você. Vai lá, porra.
- Eu não tenho essa auto-estima toda não.
- Você é doente.
- É porque você não passou pelo que passei no segundo grau.
- Vá tomar no cu, Bono. Todo mundo passou pelo segundo grau. Acha que eu peguei alguém no segundo grau? Como é que você acha que eles tratavam quem tinha cabelo crespo como eu?
- Diga logo, cabelo duro.
- Cabelo duro, cabelo ruim. Toda hora os caras passavam a mão assim no meu cabelo e dizia “Porra, isso espeta!”.
- Colé, Cidade. Isso não é nada. Uma vez subi até a quadra com um papel colado em minhas costas dizendo “Sou um viadinho feliz!”. Eu só escutava as gargalhadas.
- Porra, mas eu tinha espinha, cara. Meu rosto era fudido. No segundo ano, até as meninas me chamavam de Chokito.
- Chokito?
- Chokito. Ele não é assim cheio de carocinhos, tem aqueles...
- Porra de Chokito, Cidade! Eu já era gordo, porra! Gordo! Sabe o que é ser gordo no segundo grau?
- É, você ganhou.
- Tô dizendo.
- Mas meu rosto era todo pocado. Era foda. Todo dia minha mãe vinha com um creme diferente.
- Rapidinho, aquele garçom não parece o Vanderlei Luxemburgo?
- Porra, a cara!
- É todo.
- Falar nisso, você viu aquele vídeo do Selton Melo e Seu Jorge?
- Sobre Tarantino? De fuder.
- De fuder, né? Viu aquele negócio dos sósias...
- É, só achei meio forçado dizer que Tarantino parece com aquele cara.
- Federer. Lembra pra caralho, Bono.
- Lembra. Mas diga se o Morrissey não é a cara do Oscar?
- Oscar?
- Que joga basquete...
- Porra! É mesmo.
- Principalmente quando ele ganhou, acho que o Pan-americano. Ele era novo. A cara do Morrissey.
- Velho, na boa, a menina não tira o olho de você.
- Porra, me deixa em paz.
- É sério.
- Deixe ela lá e eu cá. Tá bom assim. Já tô acostumado. Vou pra casa, bato uma punheta e pronto. Ó lá, ó lá, olá...já tá rindo com a amiga. Eu não disse? Tá aí o que você queria. Devem tá rindo de mim, da minha careca. Agora fudeu de vez. Acabou com minha noite. Você é foda, Chokito!
- Você que é um viado gordo.
- Chokito de merda...
- Viadinho feliz...
- Porra, tava pensando numa coisa...
- Outra pititinga?
- Não. Já pensou, o Oscar jogando com uma rosa enfiada no cu?
- Hahaha...
- Tá bom, vamo outra pititinga. Chama aí o Luxemburgo.

5.5.08

Taco dentro, Bola fora

Pouca gente conhece um corcunda. Digo um corcunda de verdade. Eu conheço um. O Miguel. Um corcunda clássico. Ele tem aquela bolota nas costas e anda todo curvado. Não entendo dessas coisas, mas talvez ele seja mais que corcunda. Porque seus braços e suas pernas também têm problemas. Miguel não anda direito. São passinhos curtos. O movimento dos braços também é limitado. Não sei o que Miguel tem. Para a turma, ele é apenas corcunda. Como acho que deve ser raro ter um amigo corcunda, ter Miguel como amigo é um privilégio. Portanto foi bom reencontrá-lo. Não via Miguel há dois anos. Desde que saí da velha agência. Encontrei na Mouraria. Corcunda e ousado como sempre. “Porra, Mengão, você tá mais gordo!”, “E sua mãe, Miguelito, como é que tá?”. Conversamos alguns minutos. Estava bem, o sacana. Largou o emprego no escritório de advocacia e montou um barzinho, um copo sujo por ali mesmo. E o melhor, com duas mesas de sinuca. Esse é o velho Miguelito Corcunda. Conheci Miguel justamente numa mesa de sinuca.

Foi na sinuca do Chiqueirinho. Um copo sujo que ficava perto da velha agência. Pequeno, chão de cimento, algumas mesas de plástico e duas mesas velhas de sinuca. O proprietário morava nos fundos. Hoje o Chiqueirinho não existe mais. Em seu lugar, estão construindo um flat, uma coisa assim. Mas durante um tempo o Chiqueirinho foi palco de históricas partidas de sinuca. Geralmente, redatores contra diretores de arte. Modéstia à parte, eu e o velho Marcelo Jack éramos os maiorais. Páreo duro, só quando Tilápia, o diretor de criação e especialista em conhaques, fazia dupla com Miguel, o corcundinha do escritório de advocacia do sétimo andar.

Miguel era um corcunda filho da puta. Não sei como, mas ele conseguia jogar. Tinha a manha. Demorava séculos para dar a volta na mesa com os passinhos miúdos, inclinava ainda mais o corpo, mirava, esticava o bracinho e PUUM! Bola seis na caçapa do meio. Assistir a Miguel Corcunda jogar era presenciar um verdadeiro milagre. O pessoal ainda passava a mão em sua corcova para dar sorte. Ele não ligava. “Passa a mão aqui na minha bola que dá sorte!”. Muitas vezes funcionava. Até o Paranhos, um diretor de arte que não jogava porra nenhuma, acertava algumas caçapas depois de passar a mão no corcunda. Eu passei uma vez, deu um azar do caralho, e nunca mais. “Passa a mão na minha bola, Mengão!”. “Vai tomar no cu, Miguelito!”.

Mas havia um bom motivo para eu me tornar amigo de Miguel. Ele era o maior flamenguista corcunda que eu conhecia. Flamengo doente. Quando estávamos fora da mesa, o assunto era nosso time. “Adílio era foda, Mengão. Ô neguinho bom de bola!” – ele dizia. Nesse ponto, Miguel realizava outro de seus milagres. Ele tinha um dom. Era capaz de acertar todos os resultados do Flamengo. Não os placares. Mas sabia se o Mengo ia ganhar, empatar ou perder um partida. Flamengo X Santos pelo Brasileiro. O Flamengo caindo pelas tabelas, e Miguelito: “Não se preocupe, vai dar Mengão!”. Batata. Ou então ele dizia “Se anima não, vamo perder essa!”. A última que ele acertou, antes de perdemos o contato, foi que o Flamengo ganharia a Copa do Brasil contra o Vasco. Eu disse “Porra, Miguelito, essa é mole, até eu sei!”.

Na última noite que estive com Miguel, lembro que as mesas de sinuca do Chiqueirinho estavam em manutenção. Não podíamos jogar, mas ficamos ali. Miguel, Paranhos e eu. Beliscando uma moela e esperando aliviar o trânsito da Avenida ACM. Miguel falava sobre as escrotidões dos advogados, quando Paranhos mudou de assunto.

- Eu queria mesmo era dar uma encaçapada hoje.
- Eu topo – disse Miguel – Tem outra sinuca boa aqui perto.
- Porra de sinuca – bradou Paranhos.
- Acorda, Miguelito – eu disse – Ele tá dizendo “fuder”, justamente o oposto de sinuca. Taco dentro e bola fora.

Foi o suficiente para falarmos sobre mulher e sacanagem. Paranhos contou que comeu a dona de um brega durante um fim de semana inteiro, eu falei da minha foda maluca com uma nega maluca, num barquinho maluco na Ribeira, e Miguel não contou nada. Conversa vai, conversa vem, descobrimos o segredo do corcunda. “Miguel, você é virgem?”, “Fala baixo porra!”, “Quantos anos você tem, Miguelito?”.

- Bicho, olhe pra mim – disse Miguel – Que mulher vai querer trepar comigo? Mulher só olha pra mim com medo ou curiosidade, com aquela cara “Gente, ele é corcunda!”. Ou então com pena, o que é pior. “Aí, pobrezinho, ele é corcunda!”. Que mulher vai querer fuder com uma aberração? Essa porra nas minhas costas pode dar sorte, mas não dá tesão a ninguém. Foda-se. Eu posso viver sem isso.

Bem, Miguel era realmente muito feio. Além de corcunda, tinha uma cara de inseto da porra. Um cabelinho ralo, um bigodinho mais ralo ainda. Um cara como eu até gosta de ter um Miguel por perto porque sabe que não é mais feio do pedaço. Mas é aquela coisa. Miguel era gente fina e, principalmente, flamenguista. Além disso, todo mundo tem o direito de fuder nessa vida.

- Miguelito – eu disse –, olhe pra mim. Eu sou feio pra caralho também. Você só ganha de mim por causa dessa bolota nas costas. Em compensação, sou gordo. E até eu dou minhas fodinhas de vez em quando. Você também pode.

Foi mais ou menos nessa direção que a conversa tomou rumo. Até que Paranhos afirmou que não descansaria na vida enquanto não ajudasse a Miguel a comer uma mulher. E seria naquela noite. Estava decidido. Paranhos estava de carro, iríamos até o Centro e arranjaríamos uma puta para Miguel. “Eu não preciso disso, vou pra casa!”, “Você precisa, fuder é bom demais”. No final, arrastamos o corcunda.

Fomos até o centro da cidade. Paranhos dirigindo, eu no carona e Miguel no banco de trás. O Centro é a área de Paranhos. Ele conhecia todos os cantos e becos. Logo achou uma puta. A menina era bonita. Seu nome era Priscila. Parecia uma paquita. Além de diretor de arte, Paranhos era também um consultor em putaria. Já conhecia Priscila e sabia lidar com a situação. Disse que quem estava no banco traseiro era nosso chefe, e ele queria atenção naquela noite. A puta olhou para Miguel e nem tchum, nem cara de medo, nem de curiosidade, nem de pena. É o que eu digo, profissionalismo é um dom. Então deixamos Miguel e a puta no motel mais próximo. Paranhos pegaria o casal quatro horas depois. Acontecia então outro milagre. Era a primeira noite de Miguelito Corcunda. Foi a última vez que vi Miguel, pois viajei no dia seguinte.

Por isso foi uma satisfação reencontrá-lo. O corcunda estava mesmo muito bem, tocando seu barzinho. Sobre aquela noite, não contou detalhes, mas disse que eu tinha razão, que fuder era bom demais. Então veio a novidade. Disse que uma semana depois marcou com a mesma puta. Na semana seguinte, mais uma vez. Depois, duas vezes na mesma semana. E assim foram fudendo. Até ele convencer a menina a largar aquela vida. É verdade. Os dois juntaram os panos de bunda e foram morar juntos. Hoje, Priscila atende pelo nome de Carla Cristina, a senhora esposa de Miguel, e o ajuda no copo sujo. Quase não acreditei, mas gostei de saber daquilo tudo, que Miguel encaçapou a bola oito e matou o jogo. E o melhor, meu amigo Miguelito Corcunda contou por último: “Mengão, amanhã vamo ser campeão!”.

*Encontrei Miguel no último sábado, 03/05. E como puderam ver, o cara não erra uma. O Mengão levou a taça.

23.4.08

10 Anos

O dia está lento. E não é domingo. Nem um futebolzinho na TV. Nada que me faça parar de pensar. Tem até um livro ali no canto. Mas já desisti dele. Não passo da página 23. Já li a página 23 umas sete vezes. Não adianta. Hoje eu podia ficar parado. Olhando a parede. Olhando a parede o dia todo. Mas resolvo sentar no computador, tentar escrever um daqueles contos. Não sai nada. Só um parágrafo muito parecido com a página 23 daquele livro. Eu sou uma farsa. Vou ao banheiro e dou uma cagada. Passo um tempo ali sentado me olhando no espelho. Cara, como eu sou feio. Dias assim me deixam gordo e careca. Penso em tomar um banho. Já é alguma coisa. Ficar embaixo do chuveiro, cantar baixinho, bater uma punheta. Yeah. Mas o chuveiro está quebrado. Não tem água quente. Acho que nunca tive um chuveiro decente. Com água quente de verdade, que fica aquela fumacinha. Como nos hotéis bacanas. Lá fora, a vizinha toca um pagode qualquer. O dia fica completo. Dias assim envelheço uns 10 anos. Muito tempo. São duas Copas do Mundo. Prefiro até achar que é muito tempo mesmo. Quando penso que é pouco fico deprimido. Lembro onde eu estava há 10 anos atrás. Saía da faculdade, achava que ganharia o Profissionais do Ano, participava de rodinhas de violão. Como se fosse ontem. Mas foi há 10 anos. E se eu for um pouco mais longe? Voltar mais 10 anos. Eu via pela primeira vez o Flamengo ser campeão brasileiro e ganhava meu primeiro campeonato de botão na Lapinha. Dias como o de hoje são longos, mas 10 anos passam rápido. Se penso nesse tempinho de merda à frente, terei 40. E antigamente eu chamava quem tinha 40 de coroa. Ou seja, mais alguns míseros 10 anos, só mais duas Copas do Mundo, e eu serei um coroa. Mais gordo e mais careca. Dias assim me faz pensar cada bobagem. Eu queria ser igual a Aninha, minha irmã. Gostar de axé e ser alegre o tempo todo. E ainda falta mais de uma hora para começar a reprise do Seinfeld. O pior que são em dias como o de hoje que chegam as perguntas mais difíceis. Logo hoje minha mãe sentou do meu lado e fez a pergunta que há 10 anos eu temo, mas sabia que um dia ia chegar. “Paulo, meu filho, o que aconteceu com você?”. Eu não tinha resposta. “Tá com medo de ter que pagar meu Nescau a vida toda, né Maroca?”. Respondi assim e sorri. Só para ela sorrir também. E para o dia ter alguma graça. Foda é que daqui a 10 anos vou continuar sendo eu mesmo. O mesmo de 10, 20 anos atrás. Pior ainda, o mesmo de hoje. Dá um medo da porra. O problema é saber que a minha vida depende de mim. Aí então que estou fudido. Porque eu não sei consertar nem um chuveiro.

11.4.08

A Buceta Amiga

Tenho saudade da Flavinha. Costumávamos conversar durante horas. Estagiamos juntos. Três meses e pouco, mais ou menos. O suficiente para ela me passar a manha do estágio e tomarmos algumas biritas no Comércio.

Aconteceu numa daquelas noites. Eu falava das putinhas da faculdade. De como eram ricas e metidas, e eu não tinha a menor chance. E quando eu disse que a mulher mais próxima era a Dani, uma grande amiga, e, por isso, não rolava nada, nem eu queria, a Flavinha me veio com essa:

– Me diga uma coisa, Paulinho. Por acaso você trepa com inimiga?

Bem, ela estava certa. Acho que ninguém transa com inimigo. Aliás, sei lá. Nunca se sabe. Só sei que não falei mais nada. Continuamos bebendo e falando mal do estágio. Mas logo depois de pedirmos a conta, eu perguntei:

– Me diga uma coisa, Flavinha. Por acaso, nós somos amigos ou inimigos?

Rolou. Rolou no seu apartamento, em Brotas. Flavinha morava com uma amiga, que estava viajando. Fudemos ao som do Smashing Pumpkins. Foi bacana. Uma boa foda standard, que começou no meio da sala e terminou no meio da cama. Então Flavinha foi tomar uma ducha, e eu fiquei lá, tomando a Coca-Cola da vitória. Por um momento fiquei pensando, como é que uma menina como Flavinha resolve dar pra mim? Bonita, inteligente, vozinha rouca. O mundo precisava de mais amizades assim. Quando ela saiu do banheiro, foi até a cozinha e voltou com um pote de batata Pringles. Nunca conheci ninguém que gostasse mais de Pringles do que Flavinha. Ela se jogou na cama e pediu um gole da Coca-Cola. Flavinha ainda estava nua.

- Só dou se você abrir a perna – eu disse.
- Só porque eu tô com sede! – ela respondeu.

Flavinha abriu as pernas bem devagar. Safada. Revelando a bucetinha branquinha. Eu lhe passei a lata do refrigerante e deitei. Deitei com a cabeça entre suas pernas. Eu só queria ficar olhando. Só olhando. Cheirando também. Cheirando e beijando. Enquanto isso Flavinha mandava ver na Pringles.
- Raspadinha assim é melhor de chupar – eu disse.
- Dá um trabalho da porra, você nem sabe. Às vezes a pele fica irritada.
- E fica parecendo um brinquedinho. Eu bato a cara assim ó, faz toin, toin, toin, tipo uma almofadinha.
- Você prefere assim?
- Flavinha, minha filha. Buceta, pra mim, é que nem pizza sem azeitona. Eu como todas.
- Homem é tudo besta.
- Sabe qual era o meu sonho quando era criança?
- Ham?
- Transar.
- Besta.
- Sabe qual era meu medo?
- Qual, Paulinho?
- Morrer donzelo.
- Por que todo homem assim? Tá ligado, Jéferson, do financeiro? Puta que pariu, parece que nunca viu mulher. Ele é muito nojento. Sabe quem ele tava queixando?
- Ham?
- A Dulce.
- Dulce tem uma cara de sacana da porra. É gostosinha.
- Pelo amor de Deus, Paulinho.
- Flavinha, o objetivo de todo homem é fuder.
- Não exagera.
- Deixa eu explicar uma coisa. A gente nasce pra isso. Pra comer uma coisinha fofa como essa aqui. Olha só, que coisa linda. Buceta é a coisa mais linda do mundo, Flavinha. Sério. A primeira vez que vi uma mulher pelada, eu era pequeno, sei lá quantos anos eu tinha. Devia ser uma Playboy, não lembro. Parecia que tava no meu espírito, meu pauzinho ficou duro na mesma hora vendo aquele triangulo preto. Eu nem sabia que mulher tinha cabelo na xoxota. Aliás, eu lá sabia o que era xoxota. Mas meu pauzinho já sabia, sacou? Depois a gente vive querendo ver outras, em revista, filme. Era o amigo que pegava escondido a Playboy do pai, era tentando ver a empregada tomar banho, o que fosse. Era o maior esquema pra comprar uma Playboy na banca. Eu tinha umas seis, sete revistas. Ficava embaixo da cama. Rezando pra minha mãe não encontrar. Os caras tinham várias. Lembro que o Duda tinha uma cassetada, Playboy, quadrinhos, um monte de sacanagem. A gente cresce com isso. Pensando, meu Deus, eu quero ver uma buceta, me deixa comer uma buceta. Lembro uma vez, acho que na sexta ou sétima série, um amigo meu, Alex, disse “Minha vizinha deixou eu ver os peitos e a xoxota dela”. Que inveja da porra. E o pior, o tempo vai passando, e você sem comer ninguém. Sabe o que é ver seus amigos dizendo “Cara, transei. É bom pra caralho!”, “Velho, comi fulana!”, e você só na punheta? É foda. Lembra aquele filme, O Último Americano Virgem? Pois, é. É por ali. Aquele filme é quase um documentário. Quando transei pela primeira vez, não deu nem pra reparar, nem vi nada, sei lá, foi tão rápido, mas depois fiquei pensando “Yeah, transei, eu transei, valeu, Deus!”. Flavinha, se um dia eu me casar, vai ser pra eu ter uma buceta só pra mim. É a coisa mais linda do mundo, a coisa mais gostosa que tem. Pode raspar, deixar a trança que for, vai continuar gostosa. Buceta é um como um troféu.
- Então dê um beijo em seu troféu.
- Assim?
- Sim.
- Ou assim?
- Assim também é bom.
- Safada.
- Vou te contar um segredo. Eu já chupei uma buceta.
- Eu sabia que você colocava velcro.
- Colava o quê?
- Velcro.
- Como você é idiota. Meu Deus!
- E essa fofinha aqui? Será que ela não quer uma Pringles?

A buceta de Flavinha estava deliciosa. Fresquinha. De banho tomado. Com um delicioso cheirinho de buceta. Não chegamos transar novamente. Ficamos só conversando. Sobre sacanagem e sobre o pessoal do estágio. Até altas horas. Até bater o sono. Eu dormi ali mesmo. Com a cabeça encostada na minha almofadinha.

29.3.08

O Troco

Os mercadinhos têm essa mania. Fui comprar um Bono. 95 centavos. Dei um real, e a menina do caixa me deu de troco uma bala. Assim, sem perguntar se eu aceitava uma bala. Uma porra de uma bala de melancia. Olhei bem para o crachá da putinha. Lisandra. Ok, Lisandra – eu pensei – só não mando você enfiar essa bala de melancia no seu cuzinho porque hoje eu tô bem. E estava mesmo. Estava empolgado. Tinha um pouco de esperança. Havia conseguido marcar com o diretor de criação de uma agência para mostrar meu portfólio. É difícil encontrar esses caras. Estão sempre em reunião. “Venha amanhã” – disse o criativo – “Venha cedo, porque depois vou ter uma reunião”. Enfim, era uma esperança. Era preciso comemorar. Por isso o biscoito Bono. Devorei enquanto assistia a um jogo da Champions League.

No dia seguinte, fui com meu velho portfólio. Há muito eu não colocava nenhuma peça nova. As últimas agências por onde passei também não renderam nada de interessante. Era o mesmo de não sei quantos anos atrás. Inclusive estava faltando um parafuso. Tudo bem. Já li uma vez um redator renomado dizer que é melhor um suporte proporcional ao valor das peças. Meu portfólio era tão velho que eu ainda o chamava de portfólio. Faz algum tempo que os criativos já o chamam de “Pasta”.

Logo de cara, na recepção, havia uma espécie de totem, pirâmide, sei lá. Uma porra colorida com símbolos da Bahia, penduricalhos e dizeres motivadores. Essa turma é criativa pra caramba. A recepcionista me olhou de cima a baixo. Pediu para eu esperar. Uma cara de burra da porra. Devia ser comida de alguém da agência.

Tirando a obra de arte da recepção, gostei do lugar. Já desisti das grandes agências. São grandes demais para os meus títulos. Mas aquela era uma agência pequena. A criação devia viver reclamando da falta de verba para a produção de filmes ou de boas fotografias. O tamanho certo para mim. Claro, o diretor de criação era igual a qualquer outro. Chegou vestido de criativo, todo de preto, despojado. O cara me olhou de cima a baixo. Tenho a impressão que essa turma de agência, quando me vê pela primeira vez, me acha com cara de motorista de kombi. “A sala de reunião tá ocupada” – disse o criativo – “Se importa da gente conversar na varanda?”. Por mim, tudo bem. Proporcional ao meu portfólio.

Sentamos num banco da varanda, e o sacana começou a folhear o portfólio. Olhava as peças muito rapidamente, com certo desprezo. Eu podia apostar que ele procurava um anúncio para o novo Honda Civic. Meu portfólio não tem peças para o novo Honda Civic. Tem, no máximo, um varejão de fim de semana para uma concessionária de Salvador. Sabe de uma – eu pensei – foda-se. Dei uma relaxada e cocei meus ovos enquanto observava um passarinho dar uma bebericada nas plantinhas. Vi também que tinha um restaurante a quilo ali perto. Devia ser caro. Mas era praticamente na porta. Se eu trabalhasse na agência, com certeza almoçaria ali.
- Esse conceito é seu? – perguntou o criativo se referindo a uma campanha do portfólio.
- É.
- Muito bom. Tão usando até hoje.
- Eu vi.
- Só a arte que é assim, assim.
- O cara teve que fazer nas coxa.
- Cara, no momento a gente não tá contratando ninguém, mas você tem uma boa pasta.
- Valeu.
- Agora vou dar uma dica.
- Botar peça fantasma?
- Isso. Tá faltando uma grande sacada.
- Já me falaram.
- O pulo do gato, entendeu?
- Não tenho saco pra fantasmas.
- O pessoal quer ver até onde você pode chegar.
- Eu chego no gol.
- Ham?
- Eu chuto pro gol. Pro cliente aprovar, vender o peixe dele, a agência faturar e correr todo mundo pro abraço, sacou? Foda-se o gato.
- Saquei. Mas é uma dica, pense nisso.
- Valeu. Mas e aí, é você que tá comendo a putinha da recepção?
- Quem dera! É o Mídia.
- Sempre o Mídia!

A entrevista morreu ali. O criativo foi para a reunião dele, e eu peguei meu ônibus de volta. Eu e meu velho portfólio. Voltei tranquilo. Na verdade, insisto na publicidade porque é a única coisa que sei fazer, e olhe lá. Se ao menos eu soubesse dirigir, talvez fosse motorista de kombi. Mas uma kombi do caralho, com pulo do gato e tudo.

Ainda desempregado, só me restava relaxar. E nada melhor que um Bono. Então passei novamente pelo mercadinho. Peguei o biscoito e procurei o caixa da Lisandra. Ela estava lá. Dei a ela 90 centavos e a bala de melancia. A putinha não entendeu. Peguei meu biscoito e fui embora. Devorei o pacote ouvindo Gilberto Gil. E segui a vida engordando.

13.3.08

A Batalha de Benigni

Difícil dizer como e quando essas coisas começam. Quem invadiu a fronteira de quem primeiro. A gente nunca lembra. Principalmente quando somos nós os culpados. Memorizamos apenas algumas feridas. Para ter motivo de armar um contra-ataque. Ainda que esse contra-ataque só venha dias, meses, anos depois. A tática é atirar. Mesmo sem vontade. Mesmo sem saber. Afinal, quem é o diabo do inimigo? Não sei. Sou apenas um recruta de merda. E mesmo cansado, não deixei nem a poeira baixar. Mal apareceram os créditos, disparei o primeiro golpe.

- Uma merda.
- Eu gostei – disse Nina.
- Uma merda – eu disse –, chato pra caralho.
- Como você pode dizer isso? Você dormiu no meio do filme.
- Claro! Filme chato da porra.
- Só porque foi eu que aluguei.
- Não começa.
- Só você aluga filme bom. Você é o porreta. Como você mesmo diz, você é "foda".
- Vai chorar porque eu não gostei da porra de um filme que você alugou?
- Não se preocupe, não vou chorar. Mas você só gosta do que vem de você. Só seus amigos são legais. A gente tem que ir a todas as festas de seus amigos, porque “vai ser legal, é todo mundo gente boa!”. Só os filmes que você pega são “do caralho!”.
- Qual foi a festa que você não gostou?
- Não me chame mais pra nada na casa do Sardinha!
- Ok, eu não chamo. Mas eu vou.
- Eu chamo pra ir no caruru de Lore, “Não posso, tenho um freela pra fazer!”. Agora, eu tenho que ir no aniversário do Sardinha, ver um monte de homem jogando dominó, falando de futebol, e mulher falando de Big Brother!
- Todo mundo lá gosta de você. Ao contrário de suas amigas, que me detestam. Essa Lore já disse que eu não acrescento nada em sua vida. Não vou mesmo na casa dessa puta mal fudida!
- Não fale assim dela.
- Eu gostei daquele, dos fanáticos suicidas. Você que pegou.
- Paradise Now.
- O nome é idiota. Mas eu gostei. Mas esse, achei uma merda.
- Teve uma cena, que ele conversava com ela, quando ela tava em coma. Você ia gostar.
- Já sei. Ele ficou falando a poesia dele, e dizendo “Vitória!”, “Vitória!”, “Eu te amo, Vitória!”. Cara chato!
- Diga isso. Você não gosta dele!
- Que seja. Pronto, a partir de hoje, quem me perguntar, eu digo “Detesto Benigni!”.
- Você disse que gostou de A Vida é Bela.
- Gostei. Mas eu pensei que ele tinha morrido ali. É o mesmo cara nesse filme!
- Como você é chato.
- Eu sou. Mas ele também. “Vitória!”, “Vitória!”, “Não sei o quê, Vitória!” Puta que pariu!
- Porra, Paulo. Você peidou?
- Graças a Deus.
- Nojento!
- “Vitória!”, “Vitória!”, “Vitória!”, Vá se foder ele e a Vitória dele.
- Eu pedi tanto a Deus um homem educado, que não palitasse os dentes, que não arrotasse, que não peidasse junto de mim.
- Eu só pedi uma buceta.
- Seu ogro!
- Tô com fome. Vou comer alguma coisa.
- Egoísta!
- Porra, quer comer, diga “eu também tô com fome!”
- Já sei. Tem o restinho da feijoada. Pedi primeiro!
- Egoísta!

Nina esquentou a feijoada sem dizer uma palavra. Eu também não falei mais nada. Se eu abrisse a boca, seria para gritar da janela “Vá se fuder, Benigni!”. A única coisa que tinha para comer era pão com mortadela. Não gosto de mortadela, mas era o que tinha. Então recorri a minha arma secreta. Queijo ralado. Queijo ralado salva tudo. É infalível. Dois cacetinhos com mortadela e queijo ralado na chapa. As bordas ficaram douradinhas. Talvez eu ficasse o resto da noite com aquele chato na minha cabeça falando “Vitória!”, “Vitória!”, “Meu poema é você, Vitória”. Mas o pão com mortadela e queijo ralado amenizou um pouco o sofrimento. Um resto de Fanta sem gás ajudou a descer. Como de costume, Nina terminou de comer primeiro. Percebi que olhava para o meu sanduíche. Bebia devagar seu refrigerante. Olhava de canto de olho. O pão estava uma delícia. Era só uma questão de tempo. Não demorou, ela pediu “Me dá um pedacinho, tá com uma cara boa”. Pediu penico. Ganhei. “Tome, mas não tire desse pedaço aqui, que tô guardando pro final!”. Meu golpe de misericórdia. Eu sou foda.

Ao contrário do que acontecia com a Regina, que quando falava mal da Legião Urbana, eu tinha vontade de explodir uma granada em sua boca, eu nunca quis ganhar nem uma batalha contra Nina. Por mim, ela ganhava todas, até na dama. Ela achava que eu queria estar certo o tempo todo. Mas muitas vezes eu torcia para estar errado numa aposta contra ela. Gostava de vê-la vencedora, sorrindo, orgulhosa, tirando onda porque estava certa. Toda gostosa. Mas naquela noite não ia ter perdão. Agüentar Benigni foi foda. Eu queria vingança. Era só uma questão de tempo. O suficiente para ela descansar da feijoada. Logo, eu a atacaria pela retaguarda.

1.3.08

Nos Tempos do Orlando

Era uma noite agradável. Na verdade, as noites eram sempre agradáveis na Lapinha. Ainda mais quando sentávamos na escadaria do grande palanque. Para falar de futebol ou mulheres, ou simplesmente fazer o tempo passar. Naquela noite, Capenga, Queixão, Duda e eu discutíamos os rumos do Flamengo no campeonato brasileiro. Não lembro quem estava com a palavra quando escutamos o grito daquele homem.

Era um homem que acabava de saltar de um táxi em movimento. Rolou pelo chão de paralelepípedos, saiu catando ficha e gritando “Socorro! Ladrão! Socorro! Socorro!”. O táxi desgovernado foi certeiro na velha árvore em frente à casa de Dona Carmem. De dentro do carro, saiu outro homem. Ele se arrastou pelo chão, levantou-se e disparou dois tiros na direção do primeiro homem. “É tiro!” – berrou Capenga, o primeiro a rolar escada a baixo. Despencamos todos sobre o chão de pedras portuguesas. Depois não ouvimos mais nada, apenas outro grito. “Ele correu pra trás da igreja!”.

Uma multidão cercou o homem, que tinha o braço e o rosto feridos. Devia ter sido da queda, pois os tiros não o acertaram. “Vamos lá ver”, disse Queixão. E após beber um gole d´água, o homem contou o que havia acontecido. Ele era taxista. O homem que correu para trás da igreja era um ladrão que havia acabado de assaltar uma farmácia, e que entrou no seu táxi lá pelas bandas da Caixa d`Água e mandou que lhe deixasse na Lapinha. O taxista disse que dirigiu o tempo todo com uma arma apontada para a cabeça. Disse também que obedeceu todas as ordens do bandido, mas que, ainda assim, o sacana ficava repetindo que depois que saltasse, daria dois tiros em seus miolos. Por isso, logo quando entrou no largo, ele achou que era o lugar certo para escapar e saltou do veículo.

Por coincidência, assim que o taxista acabou de contar sua história, ouvimos o ronco do velho e assustador Opala preto. Era Orlando, que entrou no largo, como sempre, cantando os pneus do seu Opala. Deu a volta no palanque e parou em frente à barraca de Seu Antônio. Ele saltou do carro e perguntou “Qual é o caso?” O taxista ferido não conseguia falar direito. Mas o filho de Seu Antônio, os outros taxistas e Capenga trataram de contar o ocorrido. “Foi tiro que não acabava mais, Orlando!”, “Ele queria matar o cara!”, “Correu pra trás da igreja, vai descer a ladeira!”. Mal Orlando ouviu os depoimentos, entrou no Opala, disse “Cinco minutos!” , e saiu cantando os pneus. A ladeira da Lapinha termina em Água de Meninos. O plano de Orlando era descer a Soledade, dar a volta e pegar o cara de surpresa. Assim como dois mais dois são quatro, o filho da puta estava fudido.

Acontece que Orlando era um psicopata da Polícia Militar. Já havia sido suspenso inúmeras vezes devido a seus métodos nada convencionais. Sua filosofia de vida era que bandido tinha que morrer. E se ninguém segurasse, era qualquer bandido. Até pivete ladrão de carteira. Eu mesmo já tinha visto Orlando torcer os braços e encher de cascudos alguns moleques arruaceiros. Orlando era alto, branco, quase sarará. Tinha o rosto quadrado e deixava o cabelo curto e espetado. Queria parecer e parecia mesmo o Schwarzenegger, como o Exterminador do Futuro. E Orlando exterminava. Com ele, era na bala. Uma vez deu 12 tiros na cabeça de um cara só porque ele assaltou a padaria da esquina.

Queixão e eu tínhamos acabado de comprar um acarajé, quando os pneus do Opala cantaram novamente. Orlando desceu do carro, pediu uma carteira de cigarros na Barraca de Seu Antônio e chamou o taxista. A multidão cercou o Opala. Orlando abriu o porta-malas e perguntou “Era esse aqui?”. Não sei como o taxista reconheceu. O filho da puta estava lá, torto, no porta-malas do Opala. Todo brocado. Havia tanto sangue que era impossível definir onde estavam os buracos das balas. No dia seguinte, havia uma pequena nota no jornal. Dizia algo como seqüestro de taxista acaba em troca de tiros.

Nos tempos de Orlando era assim. Ninguém se metia com a Lapinha. Nem mesmo os marginais do Queimadinho e da temida Avenida Peixe. Era como um protetor do bairro. Até minha vó, certa vez, quando foi assaltada por uns ladrõezinhos de merda, berrou “Chama o filho de Mariene pra pegar aqueles bandido!”.

Lembro da tarde que estávamos batendo um baba em frente à igreja, e Orlando parou seu Opala bem no meio do largo, atrapalhando o futebol. Ele desceu do carro com o que parecia uma metralhadora nas mãos e deitou no capô dizendo “Acabou o baba!”. Fez mais algumas chacotas e perguntou das novidades. Lembro que ele disse, “Paulinho, essa camisa tá apertada! Vá emagrecer, porra!” Eu disse, “Vá se foder, Orlando”. Ele ficava lá, rindo e tirando onda com a sua metralhadora. Os meninos ficavam fascinados pela arma. Queriam ver de perto. Queriam saber quantos bandidos Orlando havia matado naquela semana. Mas eu sempre me afastava. Era um perigo ficar do lado de Orlando. O cara era visado por tudo que era bandido. Sei lá, podia sobrar uma bala perdida. Uma vez acertaram o seu pé. Ninguém viu de onde saiu o tiro. Mas um dia pegaram Orlando de jeito. Disseram que foi o irmão de umas de suas vitimas. Amarraram Orlando num beco e metralham seu corpo todo. Dizem que antes de dar o primeiro tiro, o cara ainda falou “Hasta la vista, filho da puta!”.

Não sei como anda a Lapinha nos dias de hoje. Mas quando Orlando era vivo, era tranqüilo viver naquele largo. Era um tempo de paz. Um tempo que as famílias ainda sentavam na porta de casa, que os casais podiam fuder em paz no muro do Sanatório Bahia, que as crianças brincavam de esconde-esconde ao redor da igreja, e que podíamos conversar na escada do grande palanque até alta madrugada. Um tempo em que ainda existia o grande palanque da Lapinha.

13.2.08

Feijoada com Pimenta

Pedimos caipirinhas. O barrigudinho do balcão garantiu que seriam preparadas com a melhor cachaça. O Velho Pimenta mandou descer ainda um caldinho de feijão. Só para começar. O velho tinha a manha. Só mesmo o Velho Pimenta para descobrir aquele boteco. Talvez o menor da cidade. Mas além das três mesinhas, cabia ainda, ali no canto, o que parecia ser uma roda de samba. Um cavaco, um pandeiro e quatro bundas astronômicas e saltitantes. Não sei como o botequinho suportava aqueles rabos gigantescos. O mais incrível é que, apesar do pouco espaço, era tudo muito confortável. Como se o boteco fosse mágico. Por sinal, a caipirinha estava uma delícia.

- Comendo muita gente lá em Fortaleza? – eu perguntei ao Velho Pimenta.
- Até que não, Bono – ele respondeu.
- Sua modéstia me ofende, Pimenta.
- Sério. Fortaleza tem mulheres maravilhosas. Muito fogosas, por sinal. Mas tenho preferido a companhia dos livros.
- Você pensa que me engana, velho.

O Velho Pimenta é arteiro. Conhece bem o caminho para as bocetas. “Você tem que cercar a fêmea”, ele costuma dizer. É do tipo que leva bombom todos os dias para a menina da lotérica até abocanhar o grande prêmio. Já deve ter comido fêmeas de todas as partes desse mundo. Sempre foi um dos meus ídolos. Diz ele que tem dez filhos. Mas reza a lenda que o Velho Pimenta tem um filho em cada estado brasileiro.

- Sabe a ONG que trabalhei no interior do Pará? – perguntou o Velho Pimenta, dando início a uma de suas histórias. Confesso que não prestei o mínimo de atenção. Nessa hora, eu estava concentrado num dos rabos gigantescos que sambava ali no canto. Era uma morena. Suava que era uma beleza. Suas carnes chacoalhavam dentro de uma lycra amarela enfiada no rabo. Tinha cara que não fazia idéia do que era uma porra de uma ONG, mas devia saber fuder como ninguém.

- Muito bom o caldinho do feijão – disse o Velho Pimenta.
- Tá do caralho. Mas me conta, como é a vida no Ceará?
- Agradável. Muito agradável. Você ia gostar muito. Fortaleza tem uma sutileza que Salvador não tem. Como é que eu posso dizer? É uma cidade aconchegante. Tem uma padaria lá perto, você ia gostar, faz o melhor pão que já comi. É de um casal de portugueses. Passo lá todo fim de tarde.
- Porra, adoro pão português.
- As pessoas são bem humoradas, trabalhadoras, atenciosas...
- É isso que me irrita aqui, em Salvador. As pessoas não são atenciosas. As pessoas daqui não sabem atender. Preguiça, sei lá. Ontem mesmo, fui comprar umas pilhas, e a putinha do caixa me atendeu enquanto pintava a porra da unha.
- Aí é gente mal-educada. Tem em todo lugar. O fortalezense é atencioso. Mas tem muita gente grossa também. Uma vez, fui pagar a conta de energia na lotérica...
- Fala a verdade, você comeu essa menina da lotérica.
- Comi não. É muito nova.
- Porra nenhuma. Você comeu.
- Deixa eu falar, porra. Eu fui pagar a energia. Eu não sabia se podia pagar ou não na lotérica. Perguntei pro rapaz “Eu posso pagar a conta de luz aqui?” O filho da puta mal olhou pra minha cara. Ele apontou pra uma placa que dizia “Não recebemos conta da luz”. E depois resmungou “Já tem essa placa aí tem dois meses, e o povo ainda pergunta!”. Eu disse “Desculpa, meu amigo. Eu só queria saber se existia algum cearense educado que pudesse me ajudar, mas pelo jeito aqui não tem”.
- Caralho, Pimenta. É isso que invejo em você.
- O quê?
- Essa sua classe. Não consigo dar respostas inteligentes e educadas, assim de pronto. Eu começo a gaguejar. Eu teria respondido “Vai tomar no seu cu, seu filho da puta da cabeça chata!”. Rapidinho, vamos pedir a feijoada? Tô com uma larica do caralho.

O Velho Pimenta só parou de contar suas aventuras quando chegou a feijoada. Ele tacou pimenta, jogou farinha e mandou brasa. A feijoada estava mesmo uma coisa. Uma puta feijoada dessas que só se encontra nos cantinhos mágicos de Salvador. Uma boa feijoada como, segundo o Velho Pimenta, não se encontra em Fortaleza. “Eles não sabem fazer feijoada”, disse ele.

Enquanto palitávamos os dentes, o Velho Pimenta contou mais algumas. Contou que foi perseguido por um matador de aluguel no interior da Bahia, contou das suas dificuldades com o idioma em Nova Iorque, dos bastidores da Copa do Mundo de 90 na Itália, falou da comida em Trinidad e Tobago, das mulheres africanas, e contou também que comeu uma famosa cantora paulista. Enquanto eu disse apenas que não estava conseguindo comer ninguém em Salvador. Quando perguntei se ele havia encontrado sua cidade definitiva, ele disse “Não sei Bono. Sabe, eu já passei dos sessenta. Tenho pouco tempo pela frente. Quero conhecer mais algumas coisas.” Aquele era o Velho Pimenta. Apesar de viver agora numa cidade sutil e aconchegante, de viver à beira-mar, deitado em sua rede, lá para as bandas do Mucuripe, ouvindo seu radinho AM e comendo camarão a R$ 7,00 o quilo, ele não estava satisfeito. O Velho Pimenta de sempre, que me faz perceber o quanto minha vida é como uma feijoada fortalezense.

Como de costume, o Velho Pimenta fez questão de pagar a conta sozinho. “Quer mais alguma coisa, filho?”, ele perguntou. “Só se for aquele rabo”, eu disse apontando para a rabuda de lycra amarela ali no canto. Então, o Velho Pimenta, generoso que só ele, se levantou e foi falar com a morena suada. Cochichou alguma coisa no ouvido da nêga e apontou na minha direção. A rabuda sorriu, balançou a cabeça negativamente e voltou para o samba. Pelo jeito, o Velho Pimenta sabia das coisas, mas não fazia milagres. Então eu peguei mais um palito, agradeci ao barrigudinho do balcão, e deixamos o boteco mágico.

28.1.08

A Foda Standard

Pegamos o táxi na porta do shopping. Eu comentava qualquer coisa sobre o filme, e Regina não dizia uma palavra. Estava constrangida. Àquela hora da noite, com destino à Av. Jorge Amado, o taxista certamente já sabia que estávamos a caminho de um motel. Ir ao motel de táxi talvez não seja mesmo a coisa mais confortável do mundo. Aliás, não há nada de confortável em ter de se deslocar para foder. Nunca gostei de motéis. Vou quando não tem jeito.

Portaria de motel é o ponto alto da minha incapacidade de tomar decisões rápidas. Aquela tabelinha cheia de quartos, preços, períodos, promoções. Eu nunca sei o que escolher. É como se eu já tivesse que acertar o diabo do ponto G ali mesmo. Pior quando é um motel cheio de nove horas feito aquele, com todo tipo de suíte, da Standard ao tipo Ilha da Fantansia, com cachoeira e o escambau. Então ficam a putinha da portaria e o taxista torcendo para que o lerdo tome logo uma decisão na vida. Como Regina era metida à besta, queria a Suíte Super Luxo. O período era de quatro horas. Eu disse, tudo bem. Suíte Super Luxo. Eu estava fodido. E enquanto o sacana do taxista procurava a suíte, eu já calculava na cabeça quantas fodas eu daria naquelas quatro horas.

O lugar era grande, é verdade. Permitia várias possibilidades de fodas. Sala de estar, sala de jantar, sauna, piscina, cama redonda. Regina devia adorar aquilo tudo. Eu não dava à mínima. Havia também uma tal poltrona do sexo. Com certeza, eu não saberia utilizar aquela porra. A única coisa que me chamou a atenção foi um sofá grande de couro. Imaginei logo que uma das fodas seria naquele sofá. No frigobar, todo tipo de bebida. No cardápio, banquetes pelos quais só os idiotas pagam achando que há algum refinamento nisso. Neste ponto, Regina descia do salto e era muito prática. Ela já havia passado nas Lojas Americanas e comprado uns petiscos e alguma bebida. Para mim, quatro Coca-Colas. Uma para cada gozada.

Mas não deu nem tempo de começar a festa. Eu já estava pelado no meu sofazão quando Regina disse que o ar-condicionado não ligava. É incrível. Aonde quer que eu vá tem sempre um eletrodoméstico que não funciona. Suíte Super Luxo de merda. Ligamos para a recepção e reclamamos. Tivemos de trocar de quarto. E como estávamos a pé, o caminho mais curto até a suíte mais próxima foi através do corredor de serviço. Acho que passamos por quase todos os funcionários daquele motel. Passamos pelas meninas da copa e suas bandejas e também por uns caras que assistiam ao finalzinho do Supercine. Eu cumprimentava a todos, soltava um “boa noite", e Regina seguia travada. Parecíamos mais os supervisores do motel vistoriando aqueles corredores. Alguns funcionários estranhavam, outros cochichavam. Ouvíamos alguns risos. Pensei até ter escutado um “o gordo se deu bem!”. Mas a verdade é que a noite não foi nada excitante. Depois daquilo tudo, Regina ficou um porre. E eu bebi apenas duas Coca-Colas, uma a pulso.

É por essas e outras que detesto motéis. Nunca gostei do sexo programado, endereçado, cronometrado. É aquela coisa, na sexta, a gente vai foder. Abre a porta da suíte e diz, é aqui que vamos foder. O filme foi ótimo, a paella estava uma delícia, mas agora abaixa essa calcinha. E chupa logo que o tempo está passando. Não adianta ir com calma, tentar criar clima, stripteaser, beijinho no pé, essas coisas, porque no fim das contas, é o seguinte, pronto, vamos foder, ok?

Prefiro mesmo a foda standard. A que não precisa necessariamente de espelho no teto. E quando digo foda standard, não me refiro a uma fodinha básica, ao papai-mamãe apenas. Pode ser uma verdadeira foda-Matrix, cheia de acrobacias e efeitos. Mas é aquela boa trepada que rola onde quer que seja e leva o tempo que for necessário. Não lembro de nenhuma foda standard com a Regina. Deve ser porque só transávamos em motéis. E uma boa foda standard acontece ali mesmo no sofá, que não precisa ser de couro, durante o intervalo do jogo. Ou apoiado na máquina de lavar. Ou enquanto a pipoca não fica pronta. A foda standard clássica começa muitas vezes com uma piada ou com um cheiro no cangote, e, de repente, quando você vê, já está fodendo. Motel não tem dessas coisas. A foda standard simplesmente acontece. Ou então não acontece, fica só no dedinho e na vontade.