19.12.07

Conto de Natal

Era a época dos malditos panetones. As ruas estavam lotadas. Os pobres gastavam seus últimos centavos. O shopping era a própria visão do inferno. Sempre odiei passar pela porta de um shopping center nesses dias de dezembro, mas eu precisava ver para acreditar. Queixão e eu nos infiltramos na multidão e nos escondemos ao lado de uma loja de calçados. Era possível ver sem sermos vistos. E vimos. Era verdade. Era ele. Era ele que estava ali, de vermelho e barba branca, sentado numa poltrona no meio do shopping, com um guri em seu colo. Era o nosso velho amigo Daniel, dos tempos da Lapinha, vestido de Papai Noel. Começamos a rir quase sem acreditar.

Mas com toda certeza aquilo era possível. Não por um milagre natalino. Mas por se tratar de Daniel. Daniel era gordo, mas tinha uma puta auto-estima. Era um cara muito engraçado. Vivia balançando a pança para fazer graça. Eu ria muito quando ele mostrava os ovos para as putinhas que passavam na ilha de Barra do Pote. Agora, ele estava ali dizendo ho, ho, ho para os guris e pousando para fotografias. Parecia ser mais uma de suas brincadeiras. Ainda mais cercado de três deliciosas putinhas vestidas de Mamães Noéis. Aquilo era um sacana. Mas a verdade é que Daniel só estava tentando arranjar um troco. O bicho estava pegando. Daniel já era casado e coisa e tal.

Brincadeira ou trabalho, Queixão e eu tínhamos que sacanear. Em nome dos velhos tempos. Então tivemos uma idéia. Saímos do shopping e procuramos um guri com cara de escroto. Não foi difícil. Havia centenas trabalhando nos camelôs ali perto. Fizemos a proposta. Cinco reais para ele sentar no colo do Papai Noel e dizer que, como presente de natal, gostaria de pegar nos peitos de Carmem. Dona Carmem era a senhora mãe de Daniel. O guri topou na hora e ainda riu.

Lá fomos nós. Colocamos o guri na fila e esperamos ao lado da loja de calçados. Até que chegou a hora. O guri sentou no colo de Daniel. Conversaram por alguns segundos. Até que Daniel se levantou da poltrona bruscamente e deixou o guri cair no chão. Foi possível ouvir o Papai Noel dizer, QUE PORRA É ESSA, GURI? O guri saiu danado pela multidão. Queixão e eu ríamos como loucos. Daniel esticou a cabeça para todos os lados até nos encontrar e berrou, SÃO VOCÊS NÉ, SACANAS? EU SABIA! Algumas crianças bobocas na fila começaram a chorar, e as mães ficaram atordoadas sem saber o que estava acontecendo. E Daniel ainda completou, SEGURA AÍ, QUE DAQUI A POUCO A GENTE TOMA UMA!

Aconteceu que naquela noite bebemos até tarde. Num copo sujo ali na Carlos Gomes. Bebemos e mexemos com as vagabundas na mesa ao lado. Bebemos e rimos, relembrando os detalhes daquela tarde e os acampamentos em Barra do Pote. Foi muito bom. Era dezembro. Era mais um fim de ano. Eu podia não ter um emprego, mas naquele tempo, eu ainda tinha alguns amigos para fazer brincadeiras escrotas e depois tomar uma.

Na saída, Daniel ainda abriu a sacola e me ofereceu um Panetone que ele ganhou do Shopping. Eu disse para ele mandar para Dona Carmem. Então Daniel mandou Queixão levar para Dona Maria do 02 de Julho. E Queixão mandou eu levar para Dona Maria do IAPI. Nós rimos, nos despedimos, e cada um saiu para o seu lado.

* Um bom Natal e um 2008 do caralho para todos.
Acho que vou tirar umas férias do blog. Sei não, estou pensando.

3.12.07

O Cara e a Menina

Lá fora, o sol de Salvador queimava os miolinhos do povo. E não havia nenhuma gostosa naquele ônibus capaz de me fazer esquecer o trânsito da Sete Portas. Daquelas que chegam com um decote safado ou com uma saia fina o bastante para desenhar belas ancas. Na verdade, não havia ninguém sentado ao meu lado. As pessoas simplesmente entravam e procuravam um lugar mais confortável para acomodar suas bundas, o que não seria ao lado de um gordo, é claro. Eu entendia a situação. Também possuía minhas preferências na busca por assentos em ônibus. A prioridade era ao lado de uma puta gostosa. Se não fosse possível, que fosse ao lado de uma mais ou menos. Se não fosse o caso, que fosse do meio para o fundo para evitar algum velho sacana. O fato é que eu estava sozinho e sem gostosas por perto para ativar a minha imaginação. Já estava desempregado novamente. Não tinha comigo a porra do mp3. Enfim, não havia muito no que pensar. Então passei a observar o cara e a menina que estavam sentados três bancos à minha frente. Não se conheciam. Ela chegou depois.

O cara era uma versão piorada de Seu Jorge com mullets. Era o típico galã do subúrbio soteropolitano. A menina tinha cabelos curtos e vestia um terninho alinhado. Era provavelmente uma estagiária de Direito, dessas que morrem de vergonha de serem vistas em pontos-de-ônibus. Ainda assim, o cara imaginou que tivesse alguma chance. Discreto, meio tímido, ele puxava conversa. Devia fazer comentários sobre o calor da cidade ou sobre aquele engarrafamento. Uma coisa patética e até engraçada. A menina mal olhava para o cara. Apenas gesticulava com a cabeça ora um sim ora um não.

Logo mais adiante, entrou um baleiro no ônibus. Como eu já desconfiava, o cara catou moedas no bolso, comprou um monte de balas e ofereceu à menina. Ela nem tchum. Que tipo de idiota ele era? Com aquelas balas vagabundas, talvez ele conquistasse suas menininhas no Pero Vaz. Mas com aquela menina não daria certo. Claro que não. Aquele tipo de menina só aceita, no mínimo, um Trident, e olhe lá. Aliás, se não for um Santoro da vida, não se conquista ninguém com uma porra de um caramelo.

Por um instante, aquele cara me lembrou o Plínio dos tempos do segundo grau. Plínio virou especialista em pegar aqueles ursinhos idiotas de máquinas eletrônicas. Ele ia todo santo dia no shopping, pegava um ursinho e presenteava a Rafinha, a pequena por quem era apaixonado. Rafinha apenas agradecia, sorria como ela só, dava um beijinho insosso no rosto de Plínio e dizia que ele era um amor. Porra. Não se conquista putinha nenhuma com urso de pelúcia. Nem com flores. Nem com gabarito de prova. Nem com caixas de bombons. Nem com Trident. Muito menos com balas vagabundas. E eu que, nesse tempo, pensava que, por arranhar na viola Stairway to Heaven ou versinhos do Kid Abelha, alguma menininha ia se apaixonar por mim. Balela. Aquele filme romântico é só um filme. Aquela poesia é só poesia. Em outras palavras, romantismo de cu é rola. Para um Santoro da vida traçar uma putinha, basta oferecer um quebra-queixo.

Só sei que, assim como Plínio, o cara não conquistou o coraçãozinho da sua princesinha. A menina saltou logo no Vale do Nazaré e ele ficou lá chupando todas aquelas balas sabores melancia, pinha, tangerina e uva.

O ônibus correu normalmente. Homens e mulheres preferiam seguir em pé a sentar a meu lado. Uma albina ainda pensou em sentar, mas desistiu. Eu fingia não me importar. Peguei um palito de dente na minha pasta e o coloquei na boca. Estiquei o braço no apoio do assento. Eu era o senhor daquele banco. Até que um gordo pediu licença e sentou. Um gordo filho da puta e sem a mínima noção de física.

Química perfeita foi quando sentou uma putinha lá na frente, na mesma direção do cara de mullets, mas na outra fila. Era branquinha do cabelo ralo. Usava um short e um top folgado que sustentava seus peitinhos. O cara ficou ligado na mesma hora. Mas então ele tinha outra atitude. Em momento nenhum ele pensou em oferecer balas. Ele apenas olhava para os peitinhos da menina que eram realmente pontiagudos e apetitosos. Ele praticamente dizia, eu te como toda, sua puta. Ela percebeu que estava sendo assediada. Manteve-se firme olhando para frente, mas eu percebia um sorriso no canto de sua boca. Talvez o cara agora tivesse sorte. Porque aquilo sim tinha o jeito de um começo de uma verdadeira história de amor na cidade de Salvador. Infelizmente, não sei no que deu, porque saltei do ônibus logo depois, em Ondina.