28.11.07

Da Turma Tricolor

Publicado no BaheaMinhaPorra em 18/11/07, uma semana antes da tragédia da Fonte Nova.

Sou Flamengo. Minha religião é a flamenguista. Até gosto da Bahia. Mas o amor por um time não tem sotaque nem fronteiras. Sou Flamengo e fudeu. Não sou Bahia, mas gostaria de ser. Queria torcer pelo Bahia. É isso. Queria ser um torcedor do Bahia. Para poder participar das rodas no boteco do Giló. Para ter alguém para sacanear. Até para ser sacaneado. Porque é aí que está a graça disso tudo. Eu queria ser um torcedor do Bahia porque é a melhor coisa que esse time tem. A torcida do Bahia é do caralho. Numerosa. Apaixonada. Verdadeira como a do Flamengo. Queria torcer pelo Bahia também, é claro, para ir sempre à Fonte Nova, como fui naquele dia, juntamente com Caju, Chatão e Minhas Cores.

O jogo era Bahia contra Barras do Piauí. Terceira divisão. Uma noite de quarta. Tudo para ser deprimente. Mas valeu a pena. Não pelo jogo, mas pela torcida. Pelo clima que envolvia essa torcida.

Começou fora do estádio. Uma espécie de concentração à base de churrasquinho de gato. Gostoso que só a zorra. Chatão foi de cerveja. Minhas Cores, Caju e eu ficamos na batida de gengibre que Minhas Cores preparou no capricho e guardou numa garrafa pet de Coca-Cola. Era uma mesa-redonda prévia. Chatão estava empolgado porque Moré ia jogar. Caju lamentava a ausência de Nonato. Minhas Cores entornava o gengibre. E eu acabava com um churrasquinho de coração de galinha. Um ambiente harmonioso. Tudo de muita classe.

Não posso falar o mesmo do time. O jogo até começou quente. O Bahia abriu o placar. Estávamos na BAMOR. Uma puta torcida que não parava de batucar e fazia aquela porcaria de arquibancada tremer. Vibrei com o gol do Bahia. Vibrei de verdade. Queria que o Bahia ganhasse. Tanto que fiquei puto quando um baixinho arisco e escroto fez o que quis na zaga do Bahia e empatou o jogo. Mas estávamos na Bahia. Estávamos na BAMOR. Tome-lhe batucada.

Não havia apenas tambores ali. Havia bandeiras. Figas e patuás. Caju puxou o hino. A rapaziada acompanhou. Arrepiava. Havia paixão naquela torcida. Uma puta de uma incondicional paixão. O time não jogava bem. Mas a turma estava ali aos berros. “BÓRA, MINHAS CORES!”, gritava Minhas Cores quase chorando. Era como se, mesmo com o time jogando mal, aquelas pessoas estivessem felizes. Sofriam. Mas era um sofrimento que valia a pena. Não eram as contas do aluguel, nem do Hipercad, não era Brasília, nem a morte de ACM, não era um briefing mal feito, nem a falta de emprego, não era um par de chifres, muito menos um amor de verão. Era o Bahia. Era a paixão pelo Bahia. O que realmente importava na vida.

Por falar em paixão, foi naquela arquibancada que o finado Jorge Bigode conheceu dona Cecília. Gabava-se de ter conhecido sua morena durante a gloriosa campanha de 88. Velho Jorge Bigode. Morreu tem uns dois anos. Ela nunca deixou de vir à Fonte Nova. Devia estar por ali a viúva.

Se dona Cecília estava presente, viu através dos seus óculos fundo de garrafa o Bahia desempatar o jogo. Viu também o Barras empatar novamente. O primeiro tempo acabou por aí. O segundo também. O jogo foi uma merda. Enfim, 50 mil apaixonados e um time que não merece a torcida que tem.

Na saída do estádio, palavrões de todos os tipos. Todos justos, por sinal. Para piorar, ainda roubaram a camisa de Minhas Cores. Quando ele se deu conta, não estava mais pendurada em seu ombro. Minhas Cores abordou o primeiro negrinho que passou com uma camisa na mão. “Devolva minha camisa, seu filho da puta!”. Foi uma putaria para acalmar o coroa. Minhas Cores saiu bêbado e revoltado. Dizia que nunca mais voltaria a pôr os pés na Fonte Nova para ver aquele time jogar. Mas ele voltaria. Com certeza.

14.11.07

O Elevador das Seis

Passam das seis da noite. Hora do rush nos elevadores. O prédio possui quatro elevadores. Todos cheios. Até pouco tempo, eu fazia um favor à humanidade. Não entrava no elevador nessas horas. Quando a porta se abria, as pessoas lá dentro, apertadas, davam um sorriso amarelo, como se dissessem, pelo amor de Deus, gordo, não entra. Eu retribuía com outro sorriso, mais amarelo ainda, de gente boa, de gordinho gente boa, como se eu dissesse, tudo bem, pessoal, espero o próximo. Mas ando sem paciência e com uma vontade danada de mandar alguém tomar no cu.

Então chega mais um elevador. A porta se abre. Está lotado. Mas antes que pinte qualquer sorriso, eu entro. As pessoas se apertam. Ouço um muxoxo. Foda-se. Estou doido para mandar alguém tomar no cu. Mas ao invés disso, dou um “boa noite”. Um seguro “boa noite”. Seguro, porque o elevador está cheio de advogados. Não se pode dar mole com essa raça.

Advogados. O prédio está cheio deles. Com seus ternos, seus narizes, seus terninhos, seus topetes, seus códigos, seus pedestais e suas caras redondas combinando com suas gravatas. Sou o único no elevador com uma camisa pólo vermelha e surrada e um jeans surrado com um buraquinho embaixo das pernas. Mas mantenho a cabeça erguida. Faço questão de olhar nos olhos. Você aí, engomadinho, por exemplo, com seu olhar superior. Você é um grande merda. Em primeiro lugar, odeio sua gravata. Eu posso vir trabalhar todo surrado. Eu poderia vir trabalhar de bermuda, se eu quisesse, como já fiz uma vez. Mas você não pode. Eu sou publicitário. Sou um gênio criativo. Meu nome é Paulo Bono. Por acaso, você tem um nome tão legal quanto esse, seu Rodolfo Amorim Barros de Sá? E ponha uma coisa nessa cabeça de merda. Doutor é a puta que te pariu. Você não é doutor. E volto a dizer, essa sua gravata é uma bosta. Pensa que mulher gosta de gravata? Por sinal, a morena no outro canto é uma coisa. Rabuda. Chega a ser aleijada. Isso fode como uma louca. Se estivéssemos sozinhos nesse elevador, ela ia ver o que é uma vara criminal.

Já tive um caso com uma advogada. Regina. Usava terninho. Tinha sempre uma pasta nova e orgulhava-se de seu Pálio do ano. Vivia dizendo que eu precisava me vestir melhor. Um dia ela me deu uma gravata de presente. Nunca usei. Regina tinha aquele nariz empinado e se fazia de elegante e sexy. Mas era uma tábua na cama. Tinha a bunda fria. Para trocar de posição era um Deus nos acuda. Muitas vezes, quando ela ia tomar banho, eu recorria à velha bronha para me satisfazer. Não sei bem por que deixamos de sair. Lembro que, no início, ela queria porque queria saber quanto eu ganhava, se propaganda dava dinheiro. Isso me incomodou. Mas não foi por isso. Lembrei. Foi porque eu era muito previsível, porque eu queria fazer sempre os mesmos programas e almoçar sempre nos mesmos lugares. Eu só queria ir ao cinema, e ela queria ir ao restaurante Yemanjá, caro que só a porra. A única coisa que Regina deixou de bom foi uma dica. Um dia, eu lhe perguntei se havia problema se eu mandasse um advogado tomar no cu. Ela disse que sim, que poderiam me processar por isso ou por aquilo, alegar um monte de coisas. Não se pode dar mole com essa raça. Só por isso que não mando ninguém tomar no cu nesse elevador. Mas estou com uma vontade danada.

Quando o elevador chega ao térreo, sou o primeiro a sair. Assobio uma canção do Radiohead. Os advogados estão logo atrás. Deixo o prédio. A aleijada passa na minha frente, apressada. Desliga o alarme do seu carro e entra no veículo. Sigo em frente para pegar meu busu. Sou o único a cumprimentar o porteiro. Pergunto pelo Vitória dele. Advogados não falam com porteiros. Mas eu sou legal. Sou publicitário. Falo com todo mundo. Se bem que um elevador cheio de publicitários seria também qualquer coisa cancerígena.

4.11.07

Berg

Cheguei em casa por volta das vinte horas. Estava cansado do dia. As correspondências lotavam a escada. Havia muitas contas e uma carta. Recebo contas todo mês, mas fazia anos, talvez uma década, que não recebia uma carta. E era uma boa surpresa. A carta era de Berg. Berg é um amigo que conheci em Feira de Santana. Mas é honesto.

Berg é um armário negro. Alto, mal encarado e feio. Seu nariz gigante parece de borracha. Seu rosto todo parece de borracha. Berg me lembrava muito umas das criaturas dos Trapalhões na Terra dos Monstros. Era temido nos babas e nos bares. Mas encantava as crianças. Ele as carregava nos braços, fazia aviãozinho e, naturalmente, fazia caretas. As crianças adoravam Berg. Todo mundo gostava de Berg. Até porque ele era o melhor, o mais completo e mais barato profissional da agência.

Berg foi contratado para ser segurança. Mas como ele estava em promoção, era também jardineiro, lixeiro, eletricista, pintor, mensageiro, telefonista, boy, babá e pegador de quentinhas. Por sinal, Berg vivia querendo me armar com a telefonista das quentinhas.

Berg era realmente um bom amigo. Volta e meia, me ajudava a chegar em casa depois de umas cachaças. Era também nosso zagueiro. Ninguém puxava briga com Berg em nosso time. Quando a recepcionista saía para o almoço, era ele que atendia os telefonemas. Então eu ligava para a recepção, e Berg atendia com toda classe “Agência de Propaganda, boa tarde!” . Eu berrava “Vá tomar no cu, Berg!” e batia o telefone. Berg só fazia ri. Mas ele riu muito mesmo quando levou uma cesta básica num sorteio em nossa festa de São João. Sem ele saber, colocamos o seu nome em todos os papeizinhos.

Berg tinha muita sorte na vida. Tinha uma família, um emprego e muitos amigos. Ele costumava dizer que sua maior sorte era seus filhos, que eram bons filhos, estudiosos e não gostavam de beber. “A minha mais velha vai ser enfermeira!” – ele dizia. Berg tinha até uma bicicleta.

A merda é que Feira de Santana é foda. A bicicleta de Berg foi roubada. Então fizemos uma vaquinha para comprar outra bicicleta para ele. Berg disse que conseguiria uma por um bom preço no Feiraguai. Feiraguai é uma espécie de centro comercial de produtos roubados. Uma instituição sagrada de Feira de Santana. Eu não conhecia o lugar e acompanhei Berg. Foi quando descobri seu talento para pechinchar. Assim que Berg encontrou um modelo do seu agrado, ele segurou a bicicleta e perguntou ao vendedor “Quanto é essa bicicleta, rapaz?”. “80 conto!”, disse o vendedor. Berg perguntou novamente, elevando um pouco mais a voz “Quanto é essa bicicleta, rapaz?”. “Tá bom, negão, pra você, eu faço 70!”. “Quanto É Essa Bicicleta, Rapaz?”. “Posso fazer por 65!”. “QUANTO É Essa Bicicleta, Rapaz?”. “Cinquentinha, e eu já tô no prejuízo!”. “QUANTO É ESSA BICICLETA, RAPAZ?”. Só sei que Berg levou sua bicicleta nova por 35 reais, o vendedor saiu vivo e não se falou mais nisso. O negão era raçudo.

Berg tinha tanta determinação que enfrentava o curso de alfabetização com quarenta e tantos anos nas costas. Por isso foi uma puta surpresa receber uma carta de Berg. O velho Berg agora sabia ler e escrever.

Foi difícil ler aqueles garranchos esforçados e tão feios quanto ele. Mas no pouco que entendi, Berg dizia que sua filha mais velha terminou o segundo grau. Dizia também que encontrou a telefonista da quentinha e que ela estava com saudades de mim. Berg sempre foi um mentiroso. Dizia que também levou um toco da agência, e que disseram na frente do juiz que ele nunca trabalhou lá. Berg deve ter ficado puto. Por fim, Berg dizia ter saudades das nossas rodas de dominó e mandava eu aparecer qualquer dia.

Terminei de ler a carta de Berg pensando que, infelizmente, não sentia vontade de realizar a última frase daquele amigo. Então larguei a carta sobre a mesa. Deixei para ver as contas mais tarde e fui tomar um banho. Eu realmente estava cansado daquilo tudo.