27.10.07

Licitação é Foda

Já passavam das três da manhã. Eu ainda escrevia os anúncios. Tony ainda coloria os storyboards. Segurávamos a barra com uma garrafa de catuaba que Tony trabalhara no rótulo há uns tempos atrás. Mas ainda havia muita coisa para finalizar. Licitação é sempre a mesma história. Pelo menos em agências de pequeno porte, onde há apenas uma dupla de criação e a falta de estrutura nos obriga a fazer tudo de última hora. A entrega dos envelopes estava marcada para as nove horas. Havia um certo pânico nas fisionomias.

Mas eu não sentia pânico. Sentia sono e revolta. Queria mandar tudo aquilo para o inferno. Sempre odiei licitações. A raiva aumentava quando eu lembrava das palavras do diretor de criação “Bono, tem uma licitação pra gente participar. Parece que é coisa séria. Sem carta marcada”. Em que mundo ele vive? Quantos anos ele tem? Estamos no Brasil. Por que participar de uma concorrência se você não tem uma trinca de ases na manga ou não come o cu de um Royal Straight Flush. Por que participar se não vai sequer competir? Não é como chegar em último na maratona. Não existem aplausos. Não existe medalha de honra. Não existe honra. Existe, no máximo, uma pizza na madrugada. Porque eu sabia que não ia receber nenhum um extra por me foder dia e noite nessa farsa. E eu não queria passar a noite com meus títulos. São bastante medíocres para serem amados. Mas o que vale minha opinião? Eu sou apenas o redator. Pior, sou um redator gordo. Pior ainda, em tempos de licitação, eu engordo muito mais. Em resumo, eu estava fudido. Para piorar, o escroto do mídia ainda sugeriu a criação de um busdoor. Isso às cinco e tanta da manhã. A vontade era cair de porrada em cima dele. Mas eu estava sem forças. Não lembrava a última vez que dormira de verdade.

Respirei fundo e levantei da cadeira. Fui até o banheiro dar uma mijada e lavar o rosto. Na volta, ouvi umas risadas e uns gemidos na sala de vídeo. Fui ver o que era. Chinelo, nosso boy e Rodrigão da produção assistiam a um filme de sacanagem. Na tela, uma loira dava o rabo. Fiquei um tempo por ali. A catuaba começava a fazer efeito. Eu precisava fuder. Mas antes precisava criar um maldito busdoor.

De pau duro, terminei os últimos textos quando o relógio marcava sete e alguma coisa. A garrafa de catuaba estava vazia. Acabaram as pizzas. O filho da puta do mídia roncava sobre o teclado. Faltava apenas Tony finalizar mais alguns arquivos. Logo, Chinelo e Rodrigão sairiam para fazer as impressões. Não precisavam mais de mim. Deixei a agência. Peguei o primeiro ônibus que passou, e a licitação era coisa do passado.

Em 15 minutos eu estava na porta de Laurinha. Fui recebido pela diarista. Mas logo Laurinha apareceu. “Que surpresa. Pensei que a gente só ia se ver à noite”. Laurinha vestia um short vagabundo e tinha os cabelos assanhados. Pediu para que eu sentasse enquanto ela se arrumava. Conheci Laurinha no Pelourinho. Saímos juntos durantes uns tempos. Era professora. Ensinava Comunicação Comparada. Vivia analisando meus outdoors. “É tudo uma merda” – eu dizia. Laurinha voltou com o cabelo preso, um cigarro na mão e o mesmo short vagabundo. Sentou no sofá à minha frente, acendeu o cigarro, deu uma tragada e cruzou as pernas, deixando aparecer suas celulites. Bem feminina. Era ali que eu gostava de dar uns tapas. Ficou me olhando durante alguns segundos e depois sorriu. Laurinha tinha um belo sorriso.

- Eu comprei aquele vinho que você gosta – disse Laurinha.
- Que horas essa menina vai embora? – eu perguntei.
- Daqui a pouquinho.
- Manda logo embora senão ela também vai cair no samba.
- Que foi, meu lindo?
- Vou te foder toda hoje, Laurinha.
- Ô, querido. Hoje eu não posso – ela disse – Estou naqueles dias.
- Se vire.

Foi nesse dia que comi o cu de Laurinha. Foi nesse dia que a cama quebrou e, como se nada tivesse acontecido, continuamos fudendo. Foi nesse dia que fudemos como se o mundo fosse acabar, como se faltassem alguns minutos para a entrega de umas porras de uns envelopes de licitação. Só rimos de tudo muito tempo depois. Ali, arriados com a cama. Minutos depois, Laurinha foi ao banheiro. Fiquei no mesmo lugar, olhando para o teto. Eu estava finalmente relaxado. E quando, sem querer, comecei a lembrar da licitação, Laurinha voltou com uma garrafa de vinho e dois copos. Nua. Morena. Com seus pentelhos negros e seu belo sorriso. O meu Royal Straight Flush.

15.10.07

Sem Vontade

Foi uma das festas improvisadas aos sábados na Lapinha. A história de sempre. Não comi ninguém, e logo um imbecil trocou o Chico Science por algum pagode do momento. A saída foi beber. Queixão foi de cerveja. Eu de 51. Bebemos até não mais escutarmos uma nota de cavaquinho. Foi uma noite e tanto. Por isso estávamos ali, naquele início de tarde de domingo, estendidos na porta da igreja, com um copão de caldo-de-cana na mão.

- Por que não deu uns pegas na Paloma – perguntei a Queixão?
- Tô enjoado daquela dentuça.

O caldo-de-cana estava gelado. Descia bem.

- E você – perguntou Queixão – pegou alguém?
- Porra nenhuma.
- Sabe qual seu problema? Esse cabelo. Corta essa porra.
- Vai tomar no cu, Queixão.
- Por que tá deixando essa porra crescer?
- Porque eu quero.
- Os caras já tão te chamando de Paulo Medonho.
- Foda-se.

Detonei o caldo-de-cana e comecei a brincar com o gelo. Queixão soltou um peido e começou a rir. Só consegui virar o rosto. O fedor não passava. O domingo não passava. Só quem passou foi uma das putinhas que estava na festa. Umas das que, em nenhum momento, cogitou a possibilidade de ir lá nos fundos comigo ver as estrelas. Essas putinhas me achavam um cara super legal. Buceta, que é bom, nada. Ela acenou e sorriu. Acenamos de volta.

Queixão levantou-se e foi dar uma de suas consultorias aos guris no fliperama. Continuei estendido na porta da igreja. Sem pressa. Meio que acostumado com aquilo tudo. Acostumado com a derrota. Contra o pagode e as mulheres. Já passavam das duas da tarde. Mas a porra do domingo não passava. Aquela dor de cabeça não passava. Até o fedor do peido de Queixão ainda pairava. Os anos 90 passavam devagar. E eu não tinha vontade alguma. Talvez já adivinhasse que aquele seria o pior ano da minha vida.

Quem se aproximou foi Leitão. Não sei porque tinha esse apelido. Era bem magro. Gente boa. Vinha com um copo de caldo-de-cana na mão. Tinha os olhos inchados. Deitou na porta da igreja e bebeu seu caldo-de-cana rapidamente.

- Cadê Queixão?
- Tá no fliperama.
- A festa foi de fuder, não foi?
- Foi.
- Peguei Juliana.
- Legal.
- Conta uma piada aí, Paulinho.
- Vá se foder, Leitão.
- Só uma, na moral.
- Vá se foder, Leitão.

2.10.07

Reis

Esse conto eu tive a honra de publicar num blog que é a cara da Bahia: Caralhaquatro
Então vão todos pra casa do caralho.
grande abraço