22.9.07

A Prateleira

Admiro o profissionalismo. Parece sinal de nascença para alguns. Como Gaguinho. Ele cumpre os dizeres de seu cartão de visitas – Antônio dos Santos. “O Gaguinho”. Marceneiro. Preço, Prazo e Qualidade – e chega por volta das dez. Conforme o combinado. Veio terminar o serviço. Instalar a prateleira que lhe encomendei. Uma prateleira nova que há muito tempo meus livros reclamam.

- Tu.tu.do beleza, gordinho?
- Tudo na manha, Gago. Bote pra fuder.

Deixo Gaguinho com seus pregos e vou até a cozinha. Preparo, sem jeito, um chá de hortelã com capuccino. Ando viciado nessa coisa. Volto e ofereço uma xícara a Gaguinho.

- Que.que.é isso, ordinho?
- Beba essa porra, Gago.

Gaguinho experimenta a bebida e aprova. Detona em um só gole.

Ao som de uma fudareira, resolvo checar os e-mails. Há um pedido de freelance. Mas vem de um filho da puta mau pagador. Deleto. O resto é o de sempre. Putaria. Os caras não param de enviar putaria. A maior parte é de fotos amadoras. Nada extraordinário. Apenas uma morena peituda de cabelos cacheados me lembra uma nativa da ilha de Barra do Pote. Uma menina danada. Aproveito também para ler alguns blogs. Muita coisa boa. Alguns me fazem rir. Outros são como tapas na cara. Outros me despertam inveja. Minha leitura chega ao fim quando Gaguinho avisa que terminou o trabalho.

- Vê se.se gostou, ordinho.

Ao que parece, a prateleira fica do jeito que eu a imaginei.

- Muito bem, Gago. Tá ótima.
- Me arranja uma va.va.vas.soura que eu lim.lim.po isso aqui.

Trago a vassoura e a pá. Enquanto Gaguinho varre algum pó pelo quarto, penso em puxar conversa. Talvez por puro preconceito deduzo um assunto em comum com o marceneiro Gaguinho.

- E aí, Gago. Vai ver seu Bahia hoje?
- Po.porra nenhuma. Sou.sou Bahia não.
- Vitória?
- Nenhum nem.nem.nem outro. Eu sou.sou.só gago.
- É, acho que você é feliz assim.
- Vo.vo.vo.cê é Fla.Flamengo, né, ordinho?
- É, além de gordo, sim.
- Eu até go.gos.ava de fut.e.bol. Mas hoje não.não gosto mais não. Eu era Vi.vi.tória. Mas hoje não sou orra nenhuma.
- Qual foi o caso?
- Go.gordinho, eu ta.tava numa obra lá no.no ampo do Vi.vi.vitória.
- Barradão.
- Isso, arradão. Fo.foi na. naquela época que Be.be.beto jogava. Lem.lembra?
- Sei.
- Po.po.pois então. Fo.fo.foi nessa época. Eu ta.ta.tava aju.ando na obra. E te.teve um dia que tava esse Be.be.beto con.conversando com um dos homens. E eu ava de junto. Eu ava co.co.colando cimento assim na ar.ar.arquiban.bancada. Eu ava assim como nós aqui e eles ne.nessa por.porta. Ordinho, sa.sa.sa.be o que eu ouvi aquele sa.sacana falar? Ele fa.falou pro homem que da.da.daquele je.jeito não dava por.porque se.se.se.setenta mil não da.da.va pra ele sobreviver com a fa.fa.familia dele.
- Porra, Gago.
- Sa.sabe o que eu fiz, go.gordinho? Ju.juro por.por Deus. Eu pe.pe.peguei minha coisas, dali mesmo, e fu.fui embora. Nem olhei pra trás.
- Caralho, Gago. Você botou pra fuder.
- Eu sou.sou. algum sa.sa.sacana, ordinho? Pra.pra ou.ouvir aquele fi.filho da puta fa.lar que não dá pra vi.ver com se.se.setenta mil?
- Esses caras são uns escrotos.
- De.de.depois desse dia, nun.nunca mais eu quis sa.saber de fu.futebol.

Gaguinho me entrega vassoura e a pá ainda com o ódio vivo dentro dele. Esse é um homem de princípios, eu penso. Entrego a Gaguinho o restante do pagamento e o levo até a porta.

- Gor.gor.dinho, qual.quer coisa, ta.ta.tamos aí.
- Pode deixar, Gago.

Volto ao quarto ainda pensando na revolta de Gaguinho. Bebeto é um bom filho da puta mesmo. Ele já havia traído o movimento punk quando trocou o Flamengo pelo Vasco. Esses caras ainda utilizam o tal profissionalismo como desculpa. Esqueço um pouco a raiva observando a minha mais nova prateleira. De perto, percebo que acabamento não é o forte de Gaguinho. Tudo bem. O sacana do Bebeto também não ajudava na marcação e ainda queria receber mais que setenta mil. Além disso, é uma prateleira correta. Bem resolvida. Feita pelo profissional Antônio dos Santos, o Gaguinho, onde vão caber perfeitamente meus livros. Por sinal, vejo que realmente tenho poucos livros. Passei a vida toda vendo TV. Devia ter seguido o conselho de meu pai. Ler mais quando garoto. Talvez hoje eu pudesse escrever tão bem quanto àqueles blogueiros. Preciso adquirir alguns títulos. Conhecer novos autores. Mas os livros estão caros. Penso em arrumar a prateleira. Mas bate a preguiça e resolvo deitar. Ligo a TV. Está passando uma maratona de Seinfeld. Bacana. Assisto até dormir e sonhar com uma morena peituda de cabelos cacheados.

14.9.07

Expressões Idiomáticas

Era um desses bares freqüentados por artistas e publicitários. Muita gente metida à besta. Nessa noite, eu estava mais besta que o de costume. Era aniversário de meu amigo Araba. Talvez o designer mais pernóstico da redondeza. Eu só conhecia o aniversariante. Mas, surpreendentemente, eu estava à vontade. Participava de todas as conversas da mesa. Soltava algumas piadas. Opinava. Como sempre, discordava. Mas fazia sucesso. Com careca, barriga e tudo. Sendo apenas eu mesmo. Por alguns instantes, voltei a ser o velho Paulinho dos tempos da Lapinha. Tudo tão diferente que até a jornalista bonitinha e magricela escolheu sentar ao meu lado. Conversamos a noite inteira ao som dos Smiths.

- Todo jornalista se acha inteligente – eu disse.
- Eu sei que meu Q.I. é 140 – ela disse.
- Publicitário não é gente.
- Ô raça!
- E diz o relações públicas que é um ser evoluído.
- Tenho uma amiga RP que é assim – ela disse – E produtor cultural?
- Já é putaria – eu disse.
- Você nunca atuou como RP?
- Eu não evoluí – eu disse – não uso camisa por dentro, e tem que ser bonito.
- Você não é feio – ela disse – você é sexy ugly!
- O quê?
- Sexy ugly!
- Ah, tá.

Tomei um gole do meu gin.

- Vamos pedir uma batatinha pra gente? – ela perguntou.
- O quê?
- Batatinha, topa?
- Claro.

Não lembro se a batatinha estava salgada. Não lembro de mais quase nada. Acho até que nem me despedi de Araba. Só sei que fui parar no apartamento daquela mulher. Não recordo a posição que fizemos sexo. Se ela gozou, eu não sei. Sei que eu não gozei. A porra simplesmente saiu. E enquanto aquela jornalista magricela tragava o seu cigarro, discursando sobre Lars Von Trier e a continuação de Dogville, eu me questionava o real significado de Sexy Ugly. Que diabos seria Sexy Ugly? Parecia mais um elogio de consolação. Uma tirada de tempo talvez. Passei o resto da noite na merda. Eu estava tão bem.

8.9.07

A Negociação

A primeira pensão onde passei a noite em Feira de Santana parecia aconchegante. Tive certeza quando encontrei pela manhã um rato sambando à vontade sobre farelos de cream cracker pelo chão. Depois encontrei uma pensão um pouco mais familiar. Tinha um jardim, crianças correndo pela sala, porta-retratos coloridos e brigas como em qualquer família. Certa noite, o marido, também proprietário da pensão, espancou a socos e pontapés a esposa, na frente da filhinha de sete anos e de todos que assistiam ao Jornal Nacional. Ele pegara a cachorra servindo o próprio rabo a um dos jovens hóspedes no quarto dos fundos. Deu polícia e tudo. Dormi aquela noite no chão da agência. Só no dia seguinte fui parar na pensão de Dona Natália.

Era uma pensão só para homens. Uma casa grande e escura com paredes desbotadas, móveis embutidos que guardavam louças esquecidas e um tapete manchado na sala principal. Era dessas casas de Feira de Santana que um dia despertara inveja e hoje estampa uma decadência vulgar. O lugar parecia com a própria Dona Natália. Uma coroa deprimente, de carnes flácidas, mas que possuía no rosto traços fortes e no corpo uma elegância ainda que desgastada. Devia ter sua classe em outros tempos. Dona Natália morava com a filha e a empregada. Não admitia hóspedes do sexo feminino porque, segundo ela, as mulheres sempre davam mais trabalho e traziam problemas para sua pensão. Negociamos. Sem direito a café da manhã e janta, chegamos num valor que eu poderia pagar, e larguei minha mochila num dos quartos. Durante a negociação, senti de perto um grave problema em Dona Natália. A coroa tinha mau hálito. Aliás, tinha um péssimo hálito. Ou pior, sua boca era mais um dos bueiros mal tratados da cidade.

Os primeiros dias na pensão de Dona Natália foram tranqüilos. Até porque eu passava a maior parte do tempo na agência ou naquelas ruas óbvias. Meu café da manhã era o pastel do tio da unha preta. Meu almoço era uma quentinha que ganhei como benefício na agência, e a janta era um bom pão com manteiga da padaria. Eu só chegava na pensão à noite, quando Dona Natália já estava sentada no escuro da varanda iluminada apenas pela chama de seu cigarro. “Boa noite, Seu Paulo”. Eu podia sentir o bafo. Depois de um banho frio, eu ia para a cama. Tentava ler alguma coisa, mas o cansaço sempre vencia. O colchão duro me ajudava a dormir, para recomeçar tudo.

A única noite que não consegui pregar o olho foi quando Dona Natália colocou outro hóspede no meu quarto. Era um estudante de psicologia que ia passar apenas uma noite. Achei tudo muito estranho. Seu cabelo de maluco e seu nariz de Zeca Baleiro não me deixavam parar de pensar que se tratava de um psicopata e que, a qualquer hora da noite, poderia arrancar à força o meu cérebro. Passei a noite em claro por causa daquele doido varrido de merda.

Outra grande merda era a filha de Dona Natália. Devia ter seus vinte e poucos anos. Mas parecia uma velha rabugenta ou uma beata infeliz que nunca viu uma rola. Suas sobrancelhas grossas realçavam ódio e prazer quando dava broncas na empregada. Era feia. Devia sentir raiva ou inveja da mãe, que mesmo apodrecida pelo tempo e pelo hálito, tinha mais energia e menos pudor na vida. Eu não procurava muita conversa. Sobretudo depois da noite que, antes de dormir, a desgraçada colocou uma porra de uma senha na TV que impedia que alguém ligasse o aparelho. Ela sabia que o Flamengo ia jogar naquela noite.

Mas as coisas só pioraram mesmo quando ganhei intimidade com a cidade e com seus habitantes. Tornei-me um deles e passei a cultivar uma espécie de Feirense Way of Life. A mesa de poker às terças, as caipiroskas às quintas e alguns gastos desnecessários por puro exibicionismo esgotavam os 350 conto que eu recebia como redator de uma agência de propaganda renomada da cidade. A primeira conta a atrasar foi justamente a pensão de Dona Natália. Da varanda escura, a coroa me lembrava sobre a dívida. “O salário atrasou, Dona Natália, mas eu vou pagar” – eu dizia. Eu achava Dona Natália até uma mulher paciente, mas ela era, na verdade, uma cidadã feirense.

Já passava da meia-noite. Eu tentava dormir quando escutei as batidas na porta. Era Dona Natália e sua camisola preta de seda. Viera acertar as contas. Forçava uma pose quase sensual. Entrou no quarto sem pedir licença, mas pediu para que eu fechasse a porta.

A coroa realmente devia ter muito estilo em seus bons tempos. Sentou na cama de pernas abertas e foi direta ao assunto. Disse que sua casa não era abrigo, e que eu precisava pagá-la de qualquer forma. Disse que se eu a deixa-se me chupar, eu quitaria uma semana da minha dívida. Eu gaguejei, não sabia o que dizer nem o que fazer. Mas podia sentir. Senti de longe aquela boca fétida, e pensei que jamais colocaria meu pau naquele bueiro. Então lhe fiz uma contraproposta. Eu disse que não gostava de boquetes. Mas eu poderia comê-la. Mas que aquilo sanaria o mês inteiro da minha dívida. A coroa apenas sorriu. Abriu bem as pernas e mostrou aquela boceta cabeluda e sem graça. “Então faça direito” – ela disse. Acabei comendo a Dona Natália. Foi razoável, mas eu sei que ela perdoou a minha dívida, e ainda ganhei o direito de comer um pão com ovo pela manhã.

Os dias se passaram. Eu ainda tive que lascar a coroa mais umas duas vezes. Até que pintou a oportunidade de morar com uma feirense que tinha uma boca cheirosa e bem gostosa. Foi nesse dia que deixei a pensão de Dona Natália.

De certa forma é fácil viver em Feira de Santana. O custo de vida é relativamente barato. Aliás, tudo em Feira de Santana é barato. Quase gratuito. Porque as pessoas dessa cidade são felizes com restos e migalhas. Como a maioria dos personagens dessa história: o rato, o marido traído, sua esposa, o jovem amante, Dona Natália, sua filha nojenta e eu.