27.7.07

Efeito Dominó

Quatro engradados de cerveja vazios, uma tábua no colo e as pedras surradas de Seu Coquinha. Se a vida fosse simples como uma roda de dominó. Exatamente o tipo de emoção que eu precisava. Então fui ao dominó da Adelaide, que tem esse nome por acontecer ao lado do boteco da Adelaide. Uma tradicional roda de dominó que pega fogo à sombra de uma velha árvore que não sei o nome.


Quando cheguei, as pedras já estavam rolando. A rapaziada já detonava uma cerveja e beliscava uma josefina suja na farofa. "Vai jogar, Paulinho?" – perguntou Rabuge. "Vamos lá" – eu respondi. "Depois daí é a nossa" – ele completou. Para passar o tempo, pedi uma caipirinha na Adelaide. Quem trouxe a bebida foi Gerusa, filha caçula da coroa. Ela me passou um sorriso sacana. A danada tem uns peitinhos durinhos. Ainda como essa moleca deitada naquele freezer velho do boteco. Entrei numa discussão rápida com os que estavam fora da mesa sobre os laterais da seleção. Rabuge aproveitou pra perguntar se eu não queria comprar um relógio bacana. "Não uso relógio, Rabuge. Valeu". Adelaide colocou Zeca Pagodinho na vitrola. Bom sacana. Eu até gostava dele, mas depois da sacanagem na propaganda da cerveja, sempre o acho um bom filho da puta. Dinheiro é bom, cerveja também, mas hombridade melhor ainda.

Acabou a partida. Engole Hora e Seu Coquinha bateram o jogo. Era a nossa vez de enfrentá-los. O combinado de sempre. Duas peças, levanta. Eu estava preparado, joguei muito dominó nos tempos da Lapinha, aprendi alguns macetes. Porém, Rabuge e eu éramos apenas bons pixotes comparados aos cabelos brancos e ao entrosamento de Engole Hora e Seu Coquinha, parceiros de longa data. Eles, sim, sabiam o caminho das pedras. Mas eu não ligava, e Rabuge muito menos. Mexemos as pedras, fizemos chacotas e juramos surras homéricas nos coroas. Aliás, o dominó tem isso. Mesmo quando você sabe que não joga porra nenhuma, em algum momento, ganhando alguma partida, mesmo por obra do acaso, você sai cantando vitória e contando sua estratégia lógica e matemática de imperador do dominó.

O jogo corria normalmente. E como dizia o Mestre Calado, quando o dominó quer, não tem jeito. Quando não quer, não tem jeito também. Às vezes a sorte ajudava, eu saía com cinco duques na mão e botava pra fuder encima de Engole hora, que soltava um "Puta que pariu" e dava as três batidinhas com uma pedra na tábua pra avisar que tinha passado. Outras vezes eu vinha com quatro buchas e não tinha nada a fazer, só restava apanhar. "Souzinha, quer comprar um relógio bacana?" – perguntou Rabuge a outro que se aproximou da mesa. "Rabuge, jogue sua porra" – berrou Seu Coquinha.

Eles fizeram uma peça primeiro. O jogo estava duro, mas emocionante. Engole hora coçava o ovo antes de jogar, eu demorava pra pensar e Rabuge falava pelos cotovelos. Seu Coquinha ficava puto com tudo. Aliás, o dominó também tem essa capacidade, fazer as pessoas falarem. Uma roda de dominó é um verdadeiro fórum de economistas, sociólogos, políticos, técnicos de futebol e noveleiros. Já vi roda de dominó vir a baixo por causa da falta de ética de uma personagem da Renata Sorrah. Se bem que falar no Dominó da Adelaide não acarreta maiores problemas, no máximo uma úlcera em Seu Coquinha. Problema mesmo é se fosse na feira. Dominó na feira é um esporte pra machos. Falar demais a ponto de esquecer de quem é a vez de jogar é motivo de tapa na cara. Se o falatório for demasiado o bastante a ponto de provocar um gato, ou seja, de colar uma pedra errada e atrapalhar o jogo, é justa causa para espancamento a socos e pontapés. Meu amigo Rabuge estaria fodido.

Quando Engole hora pediu mais uma cerveja, aproveitei pra pedir outra caipirinha à tesudinha da Gerusa. Mais uma vez ela soltou um sorriso maroto. Rabuge percebeu. “Vai ali, Paulinho?” – ele perguntou. “Tô indo em você de novo, quanto mais nela” – eu respondi. “Lá ele” – Rabuge completou. “Deixa a filha dos outros e joga essa porra logo” – bradou Seu Coquinha.

Não sei como, mas conseguimos empatar a partida. Nesse momento eu já havia esquecido o que era briefing, target e anúncio 1/4 de página pra amanhã. O dominó e seus milagres. Por sinal, outra propriedade desse jogo é refletir bastante a personalidade de cada jogador.

Seu Coquinha, por exemplo, tem esse apelido por só beber Coca-Cola de 300ml e do rótulo branco, sem aquela tarja vermelha em volta. Isso mostra que o velho sabe das coisas e prefere sempre o que é certo e autêntico. Então, no dominó, eu sei que Seu Coquinha joga na ofensiva, mas é precavido, só vai na boa. Se ele deixou aquela peça de sena ali é porque a ponta é dele.

Engole Hora, por sua vez, é o tipo que anda comendo a velhota que mora na rua da sorveteria, uma velha desgraçada, da bunda seca, boca mucha e peitos caídos. Não que Engole Hora seja esse macho todo, mas é um malandro. Ouvi dizer que a velha de vez em quando joga cem conto na mão dele. Enfim, Engole Hora é uma raposa, do tipo que guarda, literalmente, uma bucha pro final da partida porque sabe que pode lucrar alguma coisa.


Rabuge é Rabuge. Na verdade não sei nem porque Rabuge vem jogar dominó. Deve ser só pra bater um papo. Não quer nada com a hora do Brasil, vive de bico em bico. Ou seja, é do tipo cola-pedra, o parceiro que você não pode confiar.

Quanto a mim, sou do tipo gordo, careca e preguiçoso, daqueles que não são bons no que fazem e botam a culpa no mercado. Tento no dominó como tento na vida. Cheio de dúvidas. Não sei se mordo. Não sei se vou na manha. E acabo na merda. Sou aquele mais ou menos, que só passava com média sete, que joga na mediocridade do jogar por jogar. Terno ou quina? Tanto faz.

Voltando ao dominó da Adelaide, sei que Seu Coquinha jogou muito bem nesse dia, mas quando o dominó quer não tem jeito. Rabuge fechou o jogo, sem saber, com 15 pontos na mão. Acontece que, da mesma forma que sou do tipo que sempre leva um palito de dente na carteira pra qualquer emergência, guardei também um branco de ás pro final. Assim fizemos menos pontos e ganhamos. Seu Coquinha ficou puto com a nossa cagada. "A gente bota pra fuder" – berrou Rabuge, batendo em minha mão, simbolizando o gesto da vitória.

Jogar dominó não é coisa de quem não tem o que fazer. Ao contrário, é uma razão. É um princípio, um meio e um fim. Já recusei alguns passeios em clubes de luxo pra não perder um bom dominó. E dona Fátima, a senhora de Seu Coquinha, nem ousa o chamar pra ir ao mercado na hora do dominó da Adelaide. A gente se diverte nessa porra. Acho que porque é simples. Aliás, se a vida fosse mesmo simples como uma roda de dominó, estaríamos cagando pra vitórias ou derrotas, e celebraríamos tudo com um premiado e saboroso sarapatel da Adelaide com os amigos.

15.7.07

Com outros olhos

Conheci Biandra quando eu ainda acreditava que o Brasil seria o país do futuro. Estudávamos na mesma escola, mas foi no velho ônibus Santa Mônica que a vi pela primeira vez. Pele alva, cabelos pretos, lábios delicados. Os olhos eram seu segredo. Castanhos. Mas não era uma questão de cor. Era outra coisa impossível de descrever. Segredo. Trocamos palavras, criticamos a Matemática e a Educação Física, citamos filmes e bandas prediletas, essas coisas. Ela sorria. Eu era bom nisso, quando esquecia da merda da timidez que o segundo grau cravava em mim. Mulher alguma naquele Santa Mônica lotado tinha o segredo dos olhos de Biandra. Eu sabia que não era pro meu bico. Mas quando conheci Biandra, eu ainda acreditava nas comédias românticas da Sessão da Tarde, nas quais os otários, como eu, ficavam com a menina mais bonita no final.

Viramos amigos. Nessa época eu ainda não sabia que isso era um balde de bosta nas minhas pretensões. Mas que tática eu podia usar? “Biandra, eu tô a fim de você. E aí?” Piada. Eu era feio, gordo, otário e jogava botão. Nesse meio tempo, ela já devia saber que meu apelido na sala era Nikima, e que eu era sempre um dos últimos a ser escolhido no baba. Ouvir, dar conselhos, fazer rir, enfim, ser a porra do amigo era o único jeito de poder ver de perto aqueles olhos.

Naquele tempo eu ainda mandava bilhetes com versos da Legião Urbana pra tentar conquistar as menininhas. Comigo nunca deu certo. Biandra até gostava, me passava coisas do Cazuza. Parava por aí. Eu nunca seria o seu Eduardo, nem ela a minha Bete Balanço. Mesmo assim gastávamos horas no telefone. Conversando bobagens. A voz era o segundo segredo de Biandra. Quando ela dizia “Alô”, eu implorava “Diz alô de novo!”. Lembro que ela gostava muito de Harry e Sally - Feitos um para o outro, eu dizia “Você é mil vezes mais bonita que a Meg Ryan”, e ela completava “A beleza está nos olhos de quem vê”. Encantadora.

Certo dia, Biandra topou um cinema. Nem acreditei. Economizei, fiz planos para a pipoca, o milk shake, o que ela quisesse. Luzes apagadas. Balbuciávamos comentários sobre o filme, no qual eu não conseguia me concentrar. Outro filme passava por minha cabeça. O filme no qual eu andava pela escola de mãos dadas com a menina mais bonita do mundo. Cenas que se aceleravam até o dia que a gente casava na Igreja da Lapinha. O coração do gordinho disparado, mãos que transpiravam. Para não sofrer um infarto, eu me virei para Biandra, olhei bem para aqueles olhos e disse “Biandra, eu tô muito a fim de você”. Calada por alguns instantes, Biandra mastigou lentamente umas duas pipocas que tinha em sua boca. Depois disse “Paulo, por favor, não sinta nada por mim”. “Você não sente nada por mim?”, perguntei. Ela disse “Sinto amizade, vamos ser só amigos, tá bom?”. Eu disse “Tá” e voltamos ao filme. Gordo idiota.

A vida prosseguiu e continuamos amigos. Biandra havia me colocado no meu devido lugar. Até que um dia, no velho Santa Mônica, a encontrei abraçada ao Allan. Não consegui sentir ciúmes. Allan era o que chamamos de covardia. Loiro, alto, olhos azuis e jogava na seleção de vôlei da escola. Ainda por cima era um cara bacana, de risada contagiante. Allan e Biandra trocavam beijos e falavam de amenidades comigo. Os olhos de Biandra diziam “Paulo, por favor, não sinta nada por mim”. Eu entendia. A menina mais bonita deveria ficar com o menino mais bonito. Óbvio. E eu era um apêndice de merda no mundo.

A partir desse dia, Biandra e eu nos afastamos aos poucos. Mais por vontade dela. Eu ligava vez em quando, pra saber novidades ou avisar sobre o lançamento de um algum novo disco. A coisa ia se resumindo a troca de acenos pelos corredores. Meu filme terminara faz tempo, o segundo grau acabou, nunca mais nos vimos e nem mais um telefonema.

Acontece que, um dia desses, eu vi Biandra. Num ônibus que não era o Santa Mônica. Ela não me viu. Fiquei observando por alguns instantes. Eu olhava para Biandra agora com outros olhos. Parecia diferente. Cabelos mastigados, peitos sem vida, corpo sem ritmo, sem graça alguma. Os olhos continuavam muito bonitos, na verdade, mas era como se parte de seu segredo tivesse sido revelado. Biandra tinha cara de uma pobre amante jovem, usufruída e enrolada por algum homem casado. Pensei em falar com ela, mas desisti. São outros tempos. Depois de assistir a todos os filmes da Sessão da Tarde; de descobrir que esse país de merda não vai pra lugar nenhum; depois que a putinha do Balão Mágico pousou na Playboy; depois do porre de capeta em Berlinque; depois de uma trepada com uma mulata maluca num barquinho na Ribeira; depois do yakisoba da Nina; depois do 11 de setembro; depois de Bukowski, e agora que o Renato Russo não canta mais porra nenhuma, eu reparei bem que Biandra não vale nem uma punheta.