12.4.07

Pierre Cardin

Verdade, não dou a mínima para grifes. Sou gordo e gordos contentam-se apenas em encontrar uma roupa. Basta caber. Para mim, fashion é a camisa que não desenha essa minha barriga de merda.

Está certo. Se ainda eu fosse um publicitário com algum talento e grana da Avenida Tancredo Neves, talvez só vestisse t-shirts – como os viados entendidos de moda se referem a camisetas – das melhores marcas. Mas sou um pobre redator pobre. Sempre comprei minhas roupas na C&A e nunca me diminui por isso, pelo contrário, sempre me senti gordo.

E nesse dia a C&A estava um inferno. Faltava espaço para aquela população afoita por uma roupa nova e contente por poder dividir tudo em até dez vezes no cartão da loja.

Eu procurava uma calça, um jeans, sei lá, uma porra de uma calça que fechasse sobre essa minha segunda bunda que são os meus pneus. Mas a C&A não é a mais a mesma. Onde estavam as calças de elástico? Antigamente era fácil. Eu pegava uma GG e pronto. Hoje são esses depressivos números que só chegam ao 46. Não importa se minha barriga dobrou de tamanho, a C&A não é a mais a mesma.

Ainda assim fingi ter esperança. Perambulei como um filho da puta, de cabide em cabide. Quem estivesse observando pelas câmeras de segurança poderia certamente estar dizendo “Olha só aquele o gordo, doido pra achar uma extra-larga-special-plus!”. Eu nem prestava atenção aos modelos. Apenas dedilhava, como um habilidoso arquivista, as etiquetas com os números que ratificavam minha condição de excluído da moda.

Mais adiante, encontrei na última fileira de cabides, no canto esquerdo, atrás das calças 46, um modelo 48 e um 50. Era uma chance. Sabia que a 48 era só com um milagre dos emagrecimentos instantâneos, mas peguei as duas e me dirigi ao provador. Vou dizer uma coisa. Gordos suam mais ainda em provadores. Nem a porra da 50 fechou. Barriga de merda. Mas como nunca perco a classe, não poderia deixar a moreninha que tomava conta do provador perceber que sou gordo, e devolvi apenas a 48. Vou ficar com essa aqui, eu disse, mostrando a 50. Joguei a calça fubenta no primeiro cabide que vi pela frente e saí da loja. Fui banido da C&A.

Entrei na Riachuelo. É até mais barata que a C&A. O problema é que as calças de lá são mais fodidas que as putas de Feira de Santana ou pelo menos não resistem a um gordinho. Em pouco tempo, o atrito entre minhas pernas gordas quando ando vai transformando o jeans em um lenço vagabundo até rasgar. Por isso todas as minhas calças compradas na Riachuelo têm aparência de novas, mas com buracos embaixo dos ovos.

Porém gordos não escolhem. Gordos ficam felizes quando encontram na Riachuelo promoção de jeans por 19 conto até o número 52. Minha cruzada em busca de uma bendita calça parecia haver chegado ao fim. Fui ao provador. Suei como um porco. Nada. A 52 até fechou, mas ficou apertada. Sufocava meu pau e empurrava minha banha para frente. Era impossível. Gordo tem mais que se foder, já dizia o Ribas, um amigo ex-gordo que operou o estômago e hoje tira sua onda de magro, podendo comer as meninhas de ladinho.

Amanhã começo uma porra de regime, amanhã não, segunda, mas amanhã já não vou comer mais biscoitos, aliás, sabe de uma? Foda-se a C&A, foda-se a Riachuelo, fodam-se os modelitos da Rede Globo, não vou fazer regime porra nenhuma e também não vou comprar porra de calça nenhuma. Vou andar com essa mesmo. Está boa. Um pouco surrada, mas está boa. Tem esse buraquinho embaixo dos ovos, mas não dá para ninguém ver. Está ótima. Esses foram meus pensamentos enquanto me esquivava da multidão do shopping center. Até que vi a Rimoli.

A Rimoli é uma loja relativamente cara. Mas não é como essas lojas de grife, onde os vendedores pertencem a uma raça infinitamente superior, de seres super-humanos e magros, de meninos e meninas brancos, de gente bonita que tem verdadeiro horror quando gordos, cafonas ou pobres entram em suas lojas. Como me encontro nas três categorias, passo longe desses lugares com receio de ser incinerado.

Mas como ia dizendo, a Rimoli vende roupas de grife, mas é diferente. É para homens maduros e experientes que querem se vestir bem, mas não têm frescura. E por isso os vendedores não são frescos. São pais de família que convivem com as sogras, homens comuns que comem, bebem, cagam, peidam, mijam, jogam bola e compram botijão de gás, e, acima de tudo, são profissionais veteranos. Enfim, a rapaziada é legal.

E sendo assim, na Rimoli foi tudo tranqüilo. Vocês têm jeans 54? Temos sim, amigo. Vamos dar uma olhada em alguns modelos. Fui ao provador. Nem suei. 54 era o número. Perfeito. Quanto custa? 180 reais. Porra! Mas é uma Pierre Cardin. E eu faço um desconto. Sai por 160. Divide? Claro. Então pronto. Obrigado, amigão. Obrigado, você. Volte sempre.

Não entendo de grife. Não sei se essa Pierre Cardin é boa mesmo. Mas custou 160 conto e coube na minha cintura. Mas depois pensei. 160 conto. Puta que pariu. Dava para comprar oito calças na Riachuelo. Quando abrisse um buraco embaixo dos ovos jogava fora e usava outra. O Ribas é um sábio. Eu precisava relaxar um pouco, esquecer os 160 conto. Então passei na Perini. Pedi uma coxinha, um croissant e uma Coca-cola.