3.12.07

O Cara e a Menina

Lá fora, o sol de Salvador queimava os miolinhos do povo. E não havia nenhuma gostosa naquele ônibus capaz de me fazer esquecer o trânsito da Sete Portas. Daquelas que chegam com um decote safado ou com uma saia fina o bastante para desenhar belas ancas. Na verdade, não havia ninguém sentado ao meu lado. As pessoas simplesmente entravam e procuravam um lugar mais confortável para acomodar suas bundas, o que não seria ao lado de um gordo, é claro. Eu entendia a situação. Também possuía minhas preferências na busca por assentos em ônibus. A prioridade era ao lado de uma puta gostosa. Se não fosse possível, que fosse ao lado de uma mais ou menos. Se não fosse o caso, que fosse do meio para o fundo para evitar algum velho sacana. O fato é que eu estava sozinho e sem gostosas por perto para ativar a minha imaginação. Já estava desempregado novamente. Não tinha comigo a porra do mp3. Enfim, não havia muito no que pensar. Então passei a observar o cara e a menina que estavam sentados três bancos à minha frente. Não se conheciam. Ela chegou depois.

O cara era uma versão piorada de Seu Jorge com mullets. Era o típico galã do subúrbio soteropolitano. A menina tinha cabelos curtos e vestia um terninho alinhado. Era provavelmente uma estagiária de Direito, dessas que morrem de vergonha de serem vistas em pontos-de-ônibus. Ainda assim, o cara imaginou que tivesse alguma chance. Discreto, meio tímido, ele puxava conversa. Devia fazer comentários sobre o calor da cidade ou sobre aquele engarrafamento. Uma coisa patética e até engraçada. A menina mal olhava para o cara. Apenas gesticulava com a cabeça ora um sim ora um não.

Logo mais adiante, entrou um baleiro no ônibus. Como eu já desconfiava, o cara catou moedas no bolso, comprou um monte de balas e ofereceu à menina. Ela nem tchum. Que tipo de idiota ele era? Com aquelas balas vagabundas, talvez ele conquistasse suas menininhas no Pero Vaz. Mas com aquela menina não daria certo. Claro que não. Aquele tipo de menina só aceita, no mínimo, um Trident, e olhe lá. Aliás, se não for um Santoro da vida, não se conquista ninguém com uma porra de um caramelo.

Por um instante, aquele cara me lembrou o Plínio dos tempos do segundo grau. Plínio virou especialista em pegar aqueles ursinhos idiotas de máquinas eletrônicas. Ele ia todo santo dia no shopping, pegava um ursinho e presenteava a Rafinha, a pequena por quem era apaixonado. Rafinha apenas agradecia, sorria como ela só, dava um beijinho insosso no rosto de Plínio e dizia que ele era um amor. Porra. Não se conquista putinha nenhuma com urso de pelúcia. Nem com flores. Nem com gabarito de prova. Nem com caixas de bombons. Nem com Trident. Muito menos com balas vagabundas. E eu que, nesse tempo, pensava que, por arranhar na viola Stairway to Heaven ou versinhos do Kid Abelha, alguma menininha ia se apaixonar por mim. Balela. Aquele filme romântico é só um filme. Aquela poesia é só poesia. Em outras palavras, romantismo de cu é rola. Para um Santoro da vida traçar uma putinha, basta oferecer um quebra-queixo.

Só sei que, assim como Plínio, o cara não conquistou o coraçãozinho da sua princesinha. A menina saltou logo no Vale do Nazaré e ele ficou lá chupando todas aquelas balas sabores melancia, pinha, tangerina e uva.

O ônibus correu normalmente. Homens e mulheres preferiam seguir em pé a sentar a meu lado. Uma albina ainda pensou em sentar, mas desistiu. Eu fingia não me importar. Peguei um palito de dente na minha pasta e o coloquei na boca. Estiquei o braço no apoio do assento. Eu era o senhor daquele banco. Até que um gordo pediu licença e sentou. Um gordo filho da puta e sem a mínima noção de física.

Química perfeita foi quando sentou uma putinha lá na frente, na mesma direção do cara de mullets, mas na outra fila. Era branquinha do cabelo ralo. Usava um short e um top folgado que sustentava seus peitinhos. O cara ficou ligado na mesma hora. Mas então ele tinha outra atitude. Em momento nenhum ele pensou em oferecer balas. Ele apenas olhava para os peitinhos da menina que eram realmente pontiagudos e apetitosos. Ele praticamente dizia, eu te como toda, sua puta. Ela percebeu que estava sendo assediada. Manteve-se firme olhando para frente, mas eu percebia um sorriso no canto de sua boca. Talvez o cara agora tivesse sorte. Porque aquilo sim tinha o jeito de um começo de uma verdadeira história de amor na cidade de Salvador. Infelizmente, não sei no que deu, porque saltei do ônibus logo depois, em Ondina.

32 comentários:

Acantha disse...

História sem final feliz ou infeliz, PAULO??? Injusto, injusto, injusto...
E, bala de pinha existe???
EU PRECISO DESESPERADAMENTE EXPERIMENTAR!

Marcos Carneiro disse...

Valeu por mais esse, Bono!

Ane Brasil disse...

Cara, a vantagem de ser durango e ter qu andar de busão é que, quando a gente não põe a leitura em dia, a gente encontra inspiração pra esse tipo de história.
Paulão, além de uma ótima história, vc ensinou pra galera uma coisa preciosa: periguéte é o que há!
kuaaaaaaaaaa!
Sorte e saúde pra todos!

http://paixoeseencantos.blogs.sapo.pt disse...

nossa! eu ando tanta vez de ónibus e nunca reparei nessas cenas :) gostei da tua historia e da maneira como reparas nas coisas boas e não tão boas :)
se kiseres vem ver um video k deixei pa um amigo com um poema e me dix se gostas
*´¨)
¸.*´¸.*´¨)¸.*¨)
(¸.*´ (¸.*` * Beijos...e uma boa
semana
carla granja

Maz disse...

o lance é fazer como eu. coloco meu óculos escuro, e meu fone de ouvido. e fico ausênte...
:*
se cuida
espero que ele tenha traçado a putinha e que seu caminho tenha sido ao menos divertido!

"Belezas e Encrencas" por um Assessor de Imprensa disse...

Cara,
Texto du caraleo!
Como sempre, pura diversão.

Abraço,
Renan.

Joana Rizério disse...

puta que pariu, caralho, paulo bono você é foda, porra, não tem outra coisa que expressa meu entusiasmo toda vez que eu te leio fora meus reconditos xingamentos, aqui eu deixo de ser mocinha, PQP, voce bota pra foder... ops, pra ferver, eu disse. hahaha.

Stephanie disse...

às vezes a gente precisa estar sem mp3, revista ou qualquer coisa que distraia pra repararmos nas pessoas em volta

e quando prestamos atenção, vemos que caçada sempre se repete...só com pequenas variações entre o ônibus e o colégio... (que merda hein)

muito bom o texto. Tomara que cara tenha se dado bem.

beijo!

Djean Felipe disse...

Rapaz... essa sua (aparente) falta de pretenção, leva seu texto pra um lugar onde se funde com a real verdade das coisas. Muito bom!!

Djean Felipe disse...

http://pluriverso-paralelo.blogspot.com/

FOXX disse...

ah,
agora eu qro uma pesquisa
te encarrego

o que aconteceu com a puta e o krinha de mullets?

Djean Felipe disse...

É... eu ia comentar isso. Escrevemos no mesmo dia, historias com alguma semelhança. É o tal do inconsciente coletivo. haha. Abraço!

BABI SOLER disse...

vc me deixou curiosa...

Adriano Carôso disse...

Esta história me fez lembrar uma crônica que escrevi chamada Reservado Para Idosos Gestantes e Deficientes. Espero que goste.
Um abraço
http://adrianocaroso.blogspot.com/2007/04/reservado-para-idoso-e-deficientes.html

gigi disse...

"um gordo filho da puta e sem a mínima noção de física". AMEI. VC É GENIAL.

Bem... é aquilo... vc pode fazer a firula que for, mas o que comunica mesmo é o bom e velho 'descascava e chupava todinha'. Vc saca na hora se tem alguma chance. Em tempos de reservas e preconceitos, o enunciador semantiza o enunciado. O receptor interpreta o que for da forma que melhor aprouver. É foda. Me lembra de postar sobre isso?

beijo

Anônimo disse...

Que povo preconceituoso. rsss Eu já conheci uns caras bem legais em metrô, ônibus, fila... vai ver é porque eu sou mesmo uma comunicóloga, né? hehehehehe

Anonima, de novo

Adri
http://drikaninha.zip.net/

Como ninguém disse...

Paulo você tem toda a razão em gênero número e grau quando diz que romantismo para cu é rola. Adorei esse texto, é sem dúvida um dos melhores que eu ja li.
Ps ( Você conhece o universo feminino)


Como ninguém

The Immature Girl disse...

sei lá... paquera em ônibus é estranho... aqui em porto alegre, a gente já acha que é início da assalto... hehehehehe...

alvarêz dewïzqe disse...

cara, agora que me liguei, o que tu escreve lembra joão antônio. massa pra caraio.

4rthur disse...

porra, velho, sensacional. fantástico. talvez o seu texto que li com mais prazer. vou correr agora pra ver a porra do Police antes que os velhos morram, mas volto pra comentar o texto com mais propriedade.

SAMANTHA ABREU disse...

Puxa! Ufa! Nossa...
muito bom!

é bom demais ler aqui!

um beijo, Paulo!

mississipi disse...

saber falar com uma rapariga - taí a verdadeira metafísica desse universo.

poupéezinha disse...

Pois eu te digo que mané é a menina que se instiga mesmo é com um Santoro. Nunca foi este o quesito que me encantou nos rapazes. De qualquer forma, entre o safado e o pseudo-romântico, mais certo foi o rapaz que teve a atitude perante a menina, e ao invés de se colocar como "sensível", foi ousado. No mínimo, um sorriso gostoso e uma lavada na auto-estima dela ele arrancou. Mas no fundo, o ideal é o rapaz que encontra no olhar da guria as suas verdades, e apresenta as mesmas. Tolinha deste lado? Pode ser..
Beijo grande.

Jana disse...

P-a-u-l-o,
Gosto do teus textos como gosto de café. Escuro, forte, meio amargo e deixa um gostinho ácido na boca.

Jota disse...

"Verdadeira história de amor na cidade de Salvador."

Dá até pra sentir o cheiro da maresia. Como eu ouvi muito aí em Salvador, "é isso aí mermo, num muda nada."

Muito, muito boa, Paulo.

De novo.

Aquele abraço.

Bruno disse...

Meu velho, estou aqui pensando num comentário mais inteligente pra fazer, mas não me vem nada. Outro show de bola, puta texto!

Abraço

4rthur disse...

Curto muito um passeio de ônibus. Sou meio anti-metrô, só uso em casos de pressa. Prefiro mesmo é o passeio pela cidade, com um livro ou o mp3 atiracolo, o jogo de sorte na roleta que traz a paisagem feminina, ou isso mesmo: as histórias insólitas de ônibus.

Vou contar até uma aqui, rapidamente: o bêbado tava lá jogado no penúltimo banco, ônibus lotado, aí entra um camarada, olha pro bêbado e pede pro cara levantar. O bêbado nem dá idéia. O cara engrossa a voz, fala que vai chamar a polícia. O bebum nada. Quando o cara começa a dar uns chuites no pe´do bêbado e pedir pro piloto parar pra ele chamar a polícia, umas velhinhas se assustam e descem do ônibus (não sei se aí é que nem aqui: nego tem uma paranóia com lance de violência tão grande, que qualquer estouro de escapamento de carro provoca taquicardia no povo). O piloto diz que não vai fazer nada, que o bêzabo pagou a passagem e tal. O cara fica indignado, mas como as velhinhas desceram do ônibus, o puto acabou se resignando e sentou no lugar das coroas.

Fiquei puto com o cara por importunar o bêbado que só queria dar uma descansada pra passar o pileque. Sempre torço pro anti-herói da história. Mas infelizmente, no teu conto ficou pequeno pro galã do subúrbio soteropolitano.

Lais Mouriê disse...

Que conto delicioso e sacana! Parabéns!!!!!

Jana disse...

O moço já viu um filme chamado "Anti-herói Americano"?
Senão, assista.

Abraço.

josé guilherme fidelis disse...

muito bom seu texto. me lemboru fante e outros caras de escrita solta. parabéns mesmo. sem tanto estilo, também mentenho um blog. dá umaq olhada se quiser: http://artificcional.blogspot.com/

abraço. reconheço os bons, e vc é!
parabéns.

bostamcity disse...

Já me vi nessa situação diversas vezes. Ainda bem que você teve a compensação de transformar esse infortúnio em cronica. Parabéns.

Acantha disse...

Não é hora de um conto de carnaval???