4.11.07

Berg

Cheguei em casa por volta das vinte horas. Estava cansado do dia. As correspondências lotavam a escada. Havia muitas contas e uma carta. Recebo contas todo mês, mas fazia anos, talvez uma década, que não recebia uma carta. E era uma boa surpresa. A carta era de Berg. Berg é um amigo que conheci em Feira de Santana. Mas é honesto.

Berg é um armário negro. Alto, mal encarado e feio. Seu nariz gigante parece de borracha. Seu rosto todo parece de borracha. Berg me lembrava muito umas das criaturas dos Trapalhões na Terra dos Monstros. Era temido nos babas e nos bares. Mas encantava as crianças. Ele as carregava nos braços, fazia aviãozinho e, naturalmente, fazia caretas. As crianças adoravam Berg. Todo mundo gostava de Berg. Até porque ele era o melhor, o mais completo e mais barato profissional da agência.

Berg foi contratado para ser segurança. Mas como ele estava em promoção, era também jardineiro, lixeiro, eletricista, pintor, mensageiro, telefonista, boy, babá e pegador de quentinhas. Por sinal, Berg vivia querendo me armar com a telefonista das quentinhas.

Berg era realmente um bom amigo. Volta e meia, me ajudava a chegar em casa depois de umas cachaças. Era também nosso zagueiro. Ninguém puxava briga com Berg em nosso time. Quando a recepcionista saía para o almoço, era ele que atendia os telefonemas. Então eu ligava para a recepção, e Berg atendia com toda classe “Agência de Propaganda, boa tarde!” . Eu berrava “Vá tomar no cu, Berg!” e batia o telefone. Berg só fazia ri. Mas ele riu muito mesmo quando levou uma cesta básica num sorteio em nossa festa de São João. Sem ele saber, colocamos o seu nome em todos os papeizinhos.

Berg tinha muita sorte na vida. Tinha uma família, um emprego e muitos amigos. Ele costumava dizer que sua maior sorte era seus filhos, que eram bons filhos, estudiosos e não gostavam de beber. “A minha mais velha vai ser enfermeira!” – ele dizia. Berg tinha até uma bicicleta.

A merda é que Feira de Santana é foda. A bicicleta de Berg foi roubada. Então fizemos uma vaquinha para comprar outra bicicleta para ele. Berg disse que conseguiria uma por um bom preço no Feiraguai. Feiraguai é uma espécie de centro comercial de produtos roubados. Uma instituição sagrada de Feira de Santana. Eu não conhecia o lugar e acompanhei Berg. Foi quando descobri seu talento para pechinchar. Assim que Berg encontrou um modelo do seu agrado, ele segurou a bicicleta e perguntou ao vendedor “Quanto é essa bicicleta, rapaz?”. “80 conto!”, disse o vendedor. Berg perguntou novamente, elevando um pouco mais a voz “Quanto é essa bicicleta, rapaz?”. “Tá bom, negão, pra você, eu faço 70!”. “Quanto É Essa Bicicleta, Rapaz?”. “Posso fazer por 65!”. “QUANTO É Essa Bicicleta, Rapaz?”. “Cinquentinha, e eu já tô no prejuízo!”. “QUANTO É ESSA BICICLETA, RAPAZ?”. Só sei que Berg levou sua bicicleta nova por 35 reais, o vendedor saiu vivo e não se falou mais nisso. O negão era raçudo.

Berg tinha tanta determinação que enfrentava o curso de alfabetização com quarenta e tantos anos nas costas. Por isso foi uma puta surpresa receber uma carta de Berg. O velho Berg agora sabia ler e escrever.

Foi difícil ler aqueles garranchos esforçados e tão feios quanto ele. Mas no pouco que entendi, Berg dizia que sua filha mais velha terminou o segundo grau. Dizia também que encontrou a telefonista da quentinha e que ela estava com saudades de mim. Berg sempre foi um mentiroso. Dizia que também levou um toco da agência, e que disseram na frente do juiz que ele nunca trabalhou lá. Berg deve ter ficado puto. Por fim, Berg dizia ter saudades das nossas rodas de dominó e mandava eu aparecer qualquer dia.

Terminei de ler a carta de Berg pensando que, infelizmente, não sentia vontade de realizar a última frase daquele amigo. Então larguei a carta sobre a mesa. Deixei para ver as contas mais tarde e fui tomar um banho. Eu realmente estava cansado daquilo tudo.

40 comentários:

"Belezas e Encrencas" por um Assessor de Imprensa disse...

É Bono, esses feriados dão uma nostalgia...

Abraço cara!
Renan.

Marcos Carneiro disse...

Pq Berg, man?

Fábio Domingues disse...

Vi seu comentário lá no baheaminhaporra, então passei aqui pra deixar meu comentário. De fuder, seus textos. Agora, deixando a viadagem de lado... tá a fim de escrever um texto lá pro blog não? abraço.

Menáge à Trois disse...

Quero um Berg para levar para a feira!!!!
Falando sério, esse texto sobre Berg, o negro de borracha me lembrou um texto do Luis Fernando Verissímo que se eu não me engana se chama Dois negrões. Acho que se ele tivesse tido a sorte de conhecer o Berg, só precisaria de um.
bjos

Como ninguém

Alberto Pereira Jr. disse...

mais outra crônica muito bem escrita.. mas fiquei na dúvida, pq não tens vontade de voltar a feira de santana e rever o amigo?

she is a lover of life, but a player with paws disse...

Outro dia, acordei e tinha uns 10- envelopes em cima da mesa esperando por mim. Muito feliz, eu disse p uma de minhas criancas: olha so, quantas cartas p mim!
surpresa minha, eram so contas. Ainda nao me acostumei a essa vida de adulta, mas estou chegando la.
Quanto a Berg, entendo sua saudade e sua nao vontade de reve-lo. Eu sou visitada por esses sentimentos ambiguos o tempo todo - e ser humano, eu acho.

um beijoa,e otimo texto!

Jana disse...

vc falando do Berg todo em passado. já no segundo parágrafo me apeguei a ele. Quase não quis terminar de ler o post pois achei que vc fosse falar "depois daquela carta, soube a noticia que berg havia morrido".

Dia de finados coisa e tal, foi um feriado pesado. Já estava assumindo a minha posição do Schroeder do Snoopy para mandar um comentário, sem terminar o texto.

Resolvi pensar antes de falar. Meu corpo não foi adequado para essa experiência tão extrema. Foi horrível. Mas ao chegar no final do texto e saber que o Berg não morreu, me fez ficar feliz. Fiquei feliz pelo mesmo motivo que me fez surtar no post passado.

"O Berg não morreu! Ele apenas está tomando no cu por causa do capitalismo"

Bom, para terminar em uma nota mais leve, "Berg" em alemão significa montanha. E amigo, a montanha foi até vc :)

Acantha disse...

Triste, PAULO querido. Muito triste. Mas perfeitamente escrito, como sempre.

gigi disse...

quero conhecer o berg.

KARLA JACOBINA disse...

Olá Paulo!

Vc viu por aí uma mulher P, mais P, mais P da vida com um tal de zé galinha? Só espero que Berg não esteja envolvido nisso.

Veja só o FUZUÊ que está rolando no FALÓPIO.

http://versosdefalopio.blogspot.com

Beijos!

Breno Barretto disse...

Com certeza o Alberto não conhece o ambiente de Feira de Santana. Por isso não sabe pq ele não quer voltar lá!
Muito bom texto Bono, se vacilar a bicicleta que ele comprou era a mesma que lhe foi roubada dias antes.

Grande abraço!

Marcelo Mendonça disse...

O Baiano Explorado Rude Genteboa (BERG)é o retrato DA FEIRA DE SANTANA. Vc falando com tanta fidelidade de uma cidade, por um amigo-personagem tão fiel. Parabéns Bono!

Ana Paula Barros disse...

Meu Bukowski,

Começo assim, porque sei, que lhe enche de orgulho ser chamado como o “velho safado”!

É bem verdade que não queria me expor, mas diante de tanta ascensão na qualidade de seus textos, sinto-me na obrigação de, aqui também, deixar meus elogios e críticas.

Meu amado contista, redator e roteirista estou muito feliz em poder ler seu amadurecimento literário, hoje posso identificar em seus contos um estilo literal, através desses elementos: o uso de uma linguagem oral, coloquial, direta e também obscena, entre outros. Além de ver claramente definida sua temática central: a marginalidade, (no sentido literal, não o dado hoje em dia a quem comete qualquer delito), o anti-heroísmo, o realismo obsceno, o cinismo, a sátira feroz, a ironia, além do seu excepcional senso de humor ferino e auto-irônico.

Quem por acaso fizer uma pesquisa no google, sobre esses elementos que apontei, vai da de cara não só com o “espalitandodente”, mas, (e é isso de que quero realmente falar!), vai ver surgir páginas e páginas mostrando tais elementos inseridos nos contos de Dalton Trevisan, Rubem Fonseca, Marcelino Freire, Caio Fernando Abreu, Roberto Drummond, Silviano Santiago, Ignácio de Loyola Brandão, Miguel Sanches Neto, Fernando Bonassi, Marçal Aquino, além dele, claro, Charles Bukowski, entre outros. Gente boa, gente REALMENTE, muito boa.

E esse é meu orgulho e minha felicidade: ver seus textos sendo moldados dentro da estética dos melhores (sejam eles antigos, novos ou moderníssimos) contistas do Brasil e do mundo, olha o velho Buk aí, novamente, que não me deixa mentir!

Para mim que amo a prosa e sou apaixonada pela poesia, o modo de vida do Paulo Bono, com palavrões, pessimismo, escrotidão, sexo, e coca-cola ao extremo, me parece sem propósito, mas o que me atraí em seus textos é como você consegue tornar visual os seus contos, e de como eles são muitíssimo bem humorados, além do tema urbano, a linguagem direta, compreensível e, não posso negar, a semelhança com o Rubem Fonseca, apesar dele ser um vascaíno doente...

Bem estou sentindo um imenso orgulho de saber que não só estou ao seu lado, como também faço parte do seu amadurecimento literário, seja com minhas críticas bobas, seja apontando uma porrada de livros pra você ler, seja achando muito bom um texto, ou achando muito cheio de palavrões e putarias outro, seja como for, o importante é que me sinto parte disso: como leitora e sua mulher.

Tenho certeza de que lerei em muitas contra-capas: Paulo Bono é contista, redator, roteirista, flamenguista, casado, pai de dois filhos e orgulha-se de ter sido criado na Lapinha, fonte de toda sua inspiração.

Com todo amor,

Ana Paula Barros de Paulo Bono,
assim como Thea de Rubem Fonseca, Linda Lee (a última!) de Bukowski, Lila Brik de Maiakovski, Dolores Dutra de Carlos Drummond de Andrade e Elza de Nelson Rodrigues, heroína que depois de tudo, cumpriu o pedido do marido mulherengo: de, ainda em vida, gravar o seu nome ao lado do dele na lápide, sob a inscrição:

"Unidos para além da vida e da morte. É só".

4rthur disse...

Gente boa como o Berg sempre se fode nas mãos dos pilantras das agências da vida.


E já sei porque é que a Gigi quer conhecer Berg, o Montanha.

carla granja disse...

havia de havermais berg´s por aí :)
bjo e uma boa semna para ti
bjo
carla granja

HAIRYBEARS disse...

PUTZ ...

COITADO DO BERG

HAIRYBEARS
http://hairybears.blogspot.com/

alvarêz dewïzqe disse...

porra, massa cara, bem aquela história de lembrar de um período legal do passado, mas que já passou e o negócio é tocar pra frente. curti.

Croma disse...

agora, apenas resta fazer "vista grossa" diante o passado.
mas uma coisa é certa: ser um sujeito negro de sorte do Brasil, é mesmo que faturar uma merreca na loteria.

na verdade, 90% dos passados são negros e nos condenam (sem querer ser racista, lógico).

enfim, puta texto.

Yara Regina disse...

Vi seu blog no coment do Versos de Falopio.. Gostei daqui, da linguagem simples e direta...engraçada mas sarcastica.. Só nao entendi tbm o pq nao tem vontade de rever Berg...
Beijooks!!
www.literaturainside.blogspot.com

Maz disse...

e por fim vc pegou a telefonista?

BABI SOLER disse...

eu também adoro pechinchar, mas igual ao Berg não dá,rs


beijo.

fábio domingues disse...

Paulo, não tem problema.
Pro pessoal que torce para times vagabundos como o seu (brincadeirinha...), nós temos um espaço lá no blog. É "O Bahia para quem não tem porra nenhuma com o Bahia". Pegamos as impressoes dos torcedores dos outros times sobre o nosso querido Bahia. Tem um texto de um sao paulino que gerou a maior polemica la. Se quiser nos honrar com um texto seu, agradeceria bastante. Li seu texto "até morrer". Muito bacana... falo do texto e não do que aconteceu com você. É uma pena que em toda torcida sempre tem idiotas que apelam para a violencia. Abração!

ACANTHA disse...

Nossa PAULO!!! Escrever bem, no seu caso, é de família?? Excelente a crítica que sua mulher faz da tua escrita, muito legal!! Ela também escreve na net?
(Aqui em casa, segundo eles mesmos, o pessoal não escreve nem lista de supermercado..)

Joe99 disse...

Hahahaah, massa lembrar de Berg. Você descreveu com precisão científica. Pareceu um retrato falado.

Você esqueceu de contar aquele dia que assistimos ao primeoro Shrek, Berg ria só em o burro aparecer.

E outra coisa a nível turístico: não é "feiraguai" é "feira do rato" Feiraguai vende produtos importados.

Se houvesse um comercial com berg "aliás até teve" mas ele como protagonista, seria aquele "Berg é gente que faz".

Valeu Bono, bela lembrança.

Maz disse...

Berg ainda em foco, a telefonista era muito feia? Ou vc estava envolvido com a senhorita das Licitações?
nada que um vinho barato não resolva :)
e fique avontade para aparecer por lá :*

Paulo Bono disse...

Boa lembrança, Joe.
Berg se acabava assistindo ao Shrek. e eu lembrava que havia duas feiras nessa cidade, troquei os nomes.

abraço, velho amigo

yara disse...

Caramba.. fucei seu blog de ponta a ponta e nao achei o tal do berg..
Beijos

Yara disse...

Caramba.. verdade.. nao tinha pensado nessa hipótese..;o***

Maz disse...

rapaz, está linkado tb!
:D
o que você disse, sobre não se dar bem com menininhas, me fez lembrar um velho conhecido que gostava só de mulheres maduras e de preferencia sem dentes, pq era mais gostoso para certas coisas ahhaha...ô vida!
um cheiro :*

poupéezinha disse...

Apesar dos assuntos serem tão regionais nas suas crônicas, vc continua me passando uma sensação quase noir, parece que sussura suas crônicas. Vc é muito cool.

Hj é meu dia lá no Falópios. Passa lá-

PS: Não tens Orkut bróder? O meu é Syssy Virtuale.

Beijoo!!

gigi disse...

atualiza!

FOXX disse...

vou fazer uma comunidade no orkut

BERG RULES!

Ane Brasil disse...

Porra, mermão, cê vai escrever por cabra, não vai?!?!
aí, vi uma mina te chamando de Bukowski... conta pra mim: tu tá pegando, né?

Aí, a definição do B.E.R.G. confere?

Ah, eu preciso dizer que o texto foi bom pra caraio?
Sorte e saúde pra todos!

carla granja disse...

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*´¨) мιℓ вєιנoѕ♥*♥
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passando para ver se havia algo de novo para ler e para te desejar um bom domingo
bjo
carla granja

SAMANTHA ABREU disse...

Paulo!
fico encantada com tua naturalidade e cotidianidade (meu Deus, existe essa palavra??!!!)

Um beijO!

Padre Alfredo disse...

Que bom que ter um BERG nesta Feira de Santana que é foda mesmo.
parabéns Bono

Bruno disse...

Gente boníssima, o Berg.

Anônimo disse...

Feira de Santana é mágica. É o único lugar do mundo que se pode encontrar um "gente boa" como o Berg. Que tem FDP tem, mas onde não tem?

Laura disse...

Onde se vende bicicleta roubada ou usada é na Feira do Rolo, perto do terminal central. No Feiraguai vc encontra tudo que é pirata e contrabandeado.Ele teria conseguido uma bicicleta por 15 paus na Barroquinha ou em S.Joaquim em Salvador. O duro é voltar pedalando para Feira.

Anônimo disse...

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