Foi uma das festas improvisadas aos sábados na Lapinha. A história de sempre. Não comi ninguém, e logo um imbecil trocou o Chico Science por algum pagode do momento. A saída foi beber. Queixão foi de cerveja. Eu de 51. Bebemos até não mais escutarmos uma nota de cavaquinho. Foi uma noite e tanto. Por isso estávamos ali, naquele início de tarde de domingo, estendidos na porta da igreja, com um copão de caldo-de-cana na mão.
- Por que não deu uns pegas na Paloma – perguntei a Queixão?
- Tô enjoado daquela dentuça.
O caldo-de-cana estava gelado. Descia bem.
- E você – perguntou Queixão – pegou alguém?
- Porra nenhuma.
- Sabe qual seu problema? Esse cabelo. Corta essa porra.
- Vai tomar no cu, Queixão.
- Por que tá deixando essa porra crescer?
- Porque eu quero.
- Os caras já tão te chamando de Paulo Medonho.
- Foda-se.
Detonei o caldo-de-cana e comecei a brincar com o gelo. Queixão soltou um peido e começou a rir. Só consegui virar o rosto. O fedor não passava. O domingo não passava. Só quem passou foi uma das putinhas que estava na festa. Umas das que, em nenhum momento, cogitou a possibilidade de ir lá nos fundos comigo ver as estrelas. Essas putinhas me achavam um cara super legal. Buceta, que é bom, nada. Ela acenou e sorriu. Acenamos de volta.
Queixão levantou-se e foi dar uma de suas consultorias aos guris no fliperama. Continuei estendido na porta da igreja. Sem pressa. Meio que acostumado com aquilo tudo. Acostumado com a derrota. Contra o pagode e as mulheres. Já passavam das duas da tarde. Mas a porra do domingo não passava. Aquela dor de cabeça não passava. Até o fedor do peido de Queixão ainda pairava. Os anos 90 passavam devagar. E eu não tinha vontade alguma. Talvez já adivinhasse que aquele seria o pior ano da minha vida.
Quem se aproximou foi Leitão. Não sei porque tinha esse apelido. Era bem magro. Gente boa. Vinha com um copo de caldo-de-cana na mão. Tinha os olhos inchados. Deitou na porta da igreja e bebeu seu caldo-de-cana rapidamente.
- Cadê Queixão?
- Tá no fliperama.
- A festa foi de fuder, não foi?
- Foi.
- Peguei Juliana.
- Legal.
- Conta uma piada aí, Paulinho.
- Vá se foder, Leitão.
- Só uma, na moral.
- Vá se foder, Leitão.
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40 comentários:
Paulo,
odeio ser repetitiva, mas mais um texto magnifico. E finalmente vc colocou uma foto pra gente ver a sua cara de safado.
Poxa vida, apesar de ter passado os anos 90 inteiro casta, achei eles do caramba. Eu era casta, não santa. Naquela época eu me guardava porque eu tinha a insana teoria fundamentada em sei lá o quê, que dá feita que desse uma vez eu ia virar uma eterna ninfomaniaca. Tinha a paranóia que da feita que eu desse, só ia dar pra isso. E tinha muitas, muitas tantas outras coisas que eu queria conhecer antes que eu fosse totalmente escravizada pelo sexo.
E cruzes, ainda bem que eu não morava na Lapinha.
Beijo.
Buceta que é bom, nada. Depois o cara pega a Juliana, conta vantagem e quer que tu divirta ele com uma piada? Vai se foder, Leitão!
quanto à tua graça lá na minha página, tens razão: é foda fugir do estigma quando se é magro, organizado, limpo, com quase 30 anos e morando sozinho. Ainda bem que eu tenho uma namorada e pouquíssima preocupação do que neguinho pensa a respeito das minhas "preferências".
Texto foda. Deu sede.
ahahahahahhaa
meu, bota fogo nesse leitão!
Em domingos como esse o que a gente menos quer é gente que se dá bem na vido ou, até, na noite anterior.
cara, te linkei lá porque vivo vindo aqui e demoro procurando o endereço. Agora tá garantido: não me perco mais.
Beijos!
até que eu me divertiria morando na lapinha
Imagino que deva ser difícil para quem não é, como eu, linda, loira, alta e japonesa... Ah. E mentirosa.
Mas é verdade que vindo aqui, me torno repetitiva: você é ótimo, PAULO. Sou freguesa.
voltando da escola, aprendendo pais e filhos, meu cabelo crescendo e experimentando o mundo... anos 90.
rapaz, eu também trabalho em frente a Cira!!!
abração Bono
Buceta, que é bom, nada.
gênio.
hauhaauahauahau
muito bom seu blog....
adorei... passerei mais por aqui -)
=)
Anos noventa, apenas sobrevivendo de playmobils e nintendo e vendo os meus irmãos promoverem churrascos e pondo diversos CDs do Pearl Jam na época. Eu não sei bem de mim, até mesmo porque eu era uma moleca velha de pouca idade: hoje, apenas bebida e conversa furada. Foda, viu?
"Nem tão longe que eu não possa crer, que um dia eu chego lá, nem tão perto que possa acreditar, que o dia já chegou"
Dei muita risada com seu texto,valeu a pena...
O pagode do momento foi hilário!
Beijos!
Gostei do texto, parceiro.
abração
A Jana fechou o blog pros pessoal tudo?
me perguntou o que mais eu poderia sugerir pra vc ler (logo eu, meu pai, tão pouca). mas eu respondo: tu mesmo. eu gosto tanto do que cê escreve, paulinho! (de buk, já leu 'a mulher mais linda da cidade'? acabei esses dias, tão facinho. e tão bom! vc vai se ver no espelho, se ainda não leu) beijos da pega itingaaa!
domingos de ressaca são uma merda. Principalmente entre a ressaca de sábado e a perspectiva da segunda.
também gostei muito do que li aqui. A tal expressão idiomática me deixou com a impressão de que jormalista não é gente mesmo, sendo mulher a coisa piora (eu não tinha noção disso antes de escolher fazer parte de uma subespécie).
vou linkar você, tá.
beijos
Melhor definição para os anos 90: passaram devagar. Até o fedor do peido pairava naquela merda!
de fuder, paulinho.
ahh, leitao babaca.
Eu curti os anos 90 - ok, eu era muito novinha - , mas curtia mesmo assim. Ate a musica...mas isso so na primeira metade dos anos 90. Depois virou putaria. Mas sinceramente? nessa epoca da decada, eu tava mais interessada nos meninos que eu pegava e na dor de cotovelo que eu sentia depois que eles me davam os foras. Eh...pelo menos os anos passaram jah!
beijao, adorei a cronica, Paulo!
Um caldo de cana depois da bebedeira desce que é uma maravilha.
Puta texto, Paulão! Abraço
Adoro papo de homem, gente. Vocês peidam com uma naturalidade que me causa inveja. Eu sofro muito por causa disso...
Anos 90, New kids, meu primeiro beijo, minha primeira menstruação, meu primeiro porre, meu primeiro emagrecimento tipo extreme make over e finalmente meu primeiro amor.
Grandes anos.
Chega de falar de mim, vamos ao texto. O seu relato me lembrou algo meio provinciano que também acontece na minha terra, gente bebendo perto da igreja, paqueras rolando ao lado da igreja e muita sacanagem atrás da igreja. Deus vê tudo!
òtimo post
Como ninguém
Tu vê como é o lance da idade... Como ninguém deve ter nascido nos anos 80, porque quem é do fim dos anos 70 ouvia Guns N'Roses e não New Kids - que deviam, aliás, ter sido batizados de New Menudos.
Histórias do cotidiando que ficam guardadas na memória
Essa foi escancarada, eu diria.
risos.
Esse tipo de festa, queria eu...
Um abraço
Num é que se parece mesmo com o Ed Mota?
Esse teu humor bahiano, escancarado, (machista... esquece!)
muito bom, além de voce escrever bem demais, bonitinho, bonitinho..
Parabéns, Paulo..Seus textos lembram o mar da Bahia, os cheiros de Salvador..
Beijos
bela crônica
paulo, me conta uma piada?
"(...)me achavam um cara super legal, mas buceta que é bom, nada"
Caralho! isso foi hilário... acho que, meus anos 90, poderia ter escrito a versão feminina pra isso: "me achavam uma guria super legal, mas pica que é bom, nada"... ces't la vie!
sorte e saúde pra todos - menos pra quem não quis te dar!
Manda o Leitao frequentar esse blog q ele ouve varias piadas... abs
esse teu post me lembrou um professor meu, que disse que na época de colégio dele, uns 15 anos atrás, ele sempre foi o inteligente engrçado, mas as gurias ficavam amigas dele, e diziam: ah, vamos levar o fulanino na festinha ele é tão querido.
sendo querido caracterizado como fofo, e não pegável...
e o pior que no colégio sempre tinham esses guris que andavam com as gurias... eram super queridos por elas, mas claro, que não rolava...
eu era uma dessas... dá até uma peninha... hehehehehehe...
mas os homens tb tem que pensar que isso acontece com mulheres tb... várias vezes eu fico amiga do cara, mas pelos sinais dele, é só amizade... fazer o que, toca a vida em frente, que vem gente!
hehehehe...
bjus!
p.s.: esse comentário ficou muuuuito longo, sorry!
os famigerados anos 90... eu sofri muito nos 90.
abração, hermano.
muito bom.
você é de Recife?
sim, é de matar alguém trocar Chico Science por um pagode qualquer.
beijos
au revoir
Interessante. Vcs homens tem uma compulsão em escrever textos a lá Bukowski, um círculo vicioso de bares, mulheres e superego.
Um alívio q vc faz isso bastante bem. Me tornei leitora.
hahahahahahhahahahah eu ri tanto com o seu recado. Adorei.
Beijos, Adri
ressaca é aquela coisa que faz a gente passar o dia seguinte prometendo que nunca mais vai fazer de novo... mas é só a noite chegar que a gente esquece das promessas. diz aí?
Ô Paulo, vê isso aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=hY4n6DPIx_4
"Labamba é o caralho, vai tomar nesse seu cu largo!"
Eu ri tanto que babei.
Beijos!
Post novo quando??? Saudades!
Campanha por texto novo!
hehehehe!
saudades Bono,
Abraço!
é, paulo! escreve aí caraio.
:P
beijão
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