8.9.07

A Negociação

A primeira pensão onde passei a noite em Feira de Santana parecia aconchegante. Tive certeza quando encontrei pela manhã um rato sambando à vontade sobre farelos de cream cracker pelo chão. Depois encontrei uma pensão um pouco mais familiar. Tinha um jardim, crianças correndo pela sala, porta-retratos coloridos e brigas como em qualquer família. Certa noite, o marido, também proprietário da pensão, espancou a socos e pontapés a esposa, na frente da filhinha de sete anos e de todos que assistiam ao Jornal Nacional. Ele pegara a cachorra servindo o próprio rabo a um dos jovens hóspedes no quarto dos fundos. Deu polícia e tudo. Dormi aquela noite no chão da agência. Só no dia seguinte fui parar na pensão de Dona Natália.

Era uma pensão só para homens. Uma casa grande e escura com paredes desbotadas, móveis embutidos que guardavam louças esquecidas e um tapete manchado na sala principal. Era dessas casas de Feira de Santana que um dia despertara inveja e hoje estampa uma decadência vulgar. O lugar parecia com a própria Dona Natália. Uma coroa deprimente, de carnes flácidas, mas que possuía no rosto traços fortes e no corpo uma elegância ainda que desgastada. Devia ter sua classe em outros tempos. Dona Natália morava com a filha e a empregada. Não admitia hóspedes do sexo feminino porque, segundo ela, as mulheres sempre davam mais trabalho e traziam problemas para sua pensão. Negociamos. Sem direito a café da manhã e janta, chegamos num valor que eu poderia pagar, e larguei minha mochila num dos quartos. Durante a negociação, senti de perto um grave problema em Dona Natália. A coroa tinha mau hálito. Aliás, tinha um péssimo hálito. Ou pior, sua boca era mais um dos bueiros mal tratados da cidade.

Os primeiros dias na pensão de Dona Natália foram tranqüilos. Até porque eu passava a maior parte do tempo na agência ou naquelas ruas óbvias. Meu café da manhã era o pastel do tio da unha preta. Meu almoço era uma quentinha que ganhei como benefício na agência, e a janta era um bom pão com manteiga da padaria. Eu só chegava na pensão à noite, quando Dona Natália já estava sentada no escuro da varanda iluminada apenas pela chama de seu cigarro. “Boa noite, Seu Paulo”. Eu podia sentir o bafo. Depois de um banho frio, eu ia para a cama. Tentava ler alguma coisa, mas o cansaço sempre vencia. O colchão duro me ajudava a dormir, para recomeçar tudo.

A única noite que não consegui pregar o olho foi quando Dona Natália colocou outro hóspede no meu quarto. Era um estudante de psicologia que ia passar apenas uma noite. Achei tudo muito estranho. Seu cabelo de maluco e seu nariz de Zeca Baleiro não me deixavam parar de pensar que se tratava de um psicopata e que, a qualquer hora da noite, poderia arrancar à força o meu cérebro. Passei a noite em claro por causa daquele doido varrido de merda.

Outra grande merda era a filha de Dona Natália. Devia ter seus vinte e poucos anos. Mas parecia uma velha rabugenta ou uma beata infeliz que nunca viu uma rola. Suas sobrancelhas grossas realçavam ódio e prazer quando dava broncas na empregada. Era feia. Devia sentir raiva ou inveja da mãe, que mesmo apodrecida pelo tempo e pelo hálito, tinha mais energia e menos pudor na vida. Eu não procurava muita conversa. Sobretudo depois da noite que, antes de dormir, a desgraçada colocou uma porra de uma senha na TV que impedia que alguém ligasse o aparelho. Ela sabia que o Flamengo ia jogar naquela noite.

Mas as coisas só pioraram mesmo quando ganhei intimidade com a cidade e com seus habitantes. Tornei-me um deles e passei a cultivar uma espécie de Feirense Way of Life. A mesa de poker às terças, as caipiroskas às quintas e alguns gastos desnecessários por puro exibicionismo esgotavam os 350 conto que eu recebia como redator de uma agência de propaganda renomada da cidade. A primeira conta a atrasar foi justamente a pensão de Dona Natália. Da varanda escura, a coroa me lembrava sobre a dívida. “O salário atrasou, Dona Natália, mas eu vou pagar” – eu dizia. Eu achava Dona Natália até uma mulher paciente, mas ela era, na verdade, uma cidadã feirense.

Já passava da meia-noite. Eu tentava dormir quando escutei as batidas na porta. Era Dona Natália e sua camisola preta de seda. Viera acertar as contas. Forçava uma pose quase sensual. Entrou no quarto sem pedir licença, mas pediu para que eu fechasse a porta.

A coroa realmente devia ter muito estilo em seus bons tempos. Sentou na cama de pernas abertas e foi direta ao assunto. Disse que sua casa não era abrigo, e que eu precisava pagá-la de qualquer forma. Disse que se eu a deixa-se me chupar, eu quitaria uma semana da minha dívida. Eu gaguejei, não sabia o que dizer nem o que fazer. Mas podia sentir. Senti de longe aquela boca fétida, e pensei que jamais colocaria meu pau naquele bueiro. Então lhe fiz uma contraproposta. Eu disse que não gostava de boquetes. Mas eu poderia comê-la. Mas que aquilo sanaria o mês inteiro da minha dívida. A coroa apenas sorriu. Abriu bem as pernas e mostrou aquela boceta cabeluda e sem graça. “Então faça direito” – ela disse. Acabei comendo a Dona Natália. Foi razoável, mas eu sei que ela perdoou a minha dívida, e ainda ganhei o direito de comer um pão com ovo pela manhã.

Os dias se passaram. Eu ainda tive que lascar a coroa mais umas duas vezes. Até que pintou a oportunidade de morar com uma feirense que tinha uma boca cheirosa e bem gostosa. Foi nesse dia que deixei a pensão de Dona Natália.

De certa forma é fácil viver em Feira de Santana. O custo de vida é relativamente barato. Aliás, tudo em Feira de Santana é barato. Quase gratuito. Porque as pessoas dessa cidade são felizes com restos e migalhas. Como a maioria dos personagens dessa história: o rato, o marido traído, sua esposa, o jovem amante, Dona Natália, sua filha nojenta e eu.

22 comentários:

FOXX disse...

Deus do céu!
uau!
que texto!
Incrível!!
Lembra Nelson Rodrigues, ao mesmo tempo Jorge Amado... tem um Q dos dois...

estou te linkando lá

Adri disse...

eita, em São Paulo vc pagaria bem mais caro hahahahaha
Beijos

Menáge à Trois disse...

Não sei porque senti um tom sexual quando o nome dela foi cidado pela primeira vez. Definitivamente, apesar do halito ruim, você saiu em vantagem!!!
Adorei o texto, fluído e intrigante.
Bjos

Como ninguém

Jota disse...

O "...e eu." no final do texto deu uma arrematada que foi uma paulada seca e de mão aberta, Paulo Bono-Style.

Um primor de texto. Levante o dedo quem não ficou meio enjoado com a visão da velha abrindo as pernas em cima da cama.

Agora, quando a cachorrinha feirense ler isso aqui e vir seu benfeitor sendo tratado pela alcunha de "jovem amante", vai dar uma piscadela de olho e abanar o rabinho, toda faceira e cheia de orgulho!

Um abraço, companheiro!

Jana disse...

Ia te chamar de nojento mas lembrei que uma vez um velho me pediu uma calcinha, e eu negociei com uma cara pra usar. Ai pensei, "fica quieta"

Essa ai, é a versão masculina da História do Ratão.

Beijos.

Tamires disse...

Nossa!O que terá feito o psicopata com a coroa?
Realmente nojento ter que pagar encarando o bueiro,e alias,que salário de merda esse pra tanto trabalho.
Valeu Sr. Bono,muito bom.

Danilo Lemos disse...

Só faltava aquela "comi-minha-chefe-e-ela-engravidou".

Eu já passei por essa, meu caro. Nada bom!

Grande texto!
Abraços!

"Belezas e Encrencas" por um Assessor de Imprensa disse...

Ótimo negociador, afinal, um pão com ovo de lambuja é sempre bem vindo! Lucro total!

Os seus textos são incríveis e instigantes!

Vida longa ao 'Espalitando Dente!'

Abraço brother! Dá uma passada no 'Belezas' quando puder!

Breno disse...

Acho que você aproveitou mal sua estadia pela pensão. Bastava comer, tambem, a filha dela que você teria com certeza uma cama melhor pra dormir, e café com leite para acompanhar o pão com ovo.
São os sacrificios da vida!hehehe. Abraços

Paulo Bono disse...

Breno, meu amigo.

a filha era deprimente, triste, amargurada, enraivada, petrificada.
devia até fazer mal comê-la ou beber um leite tão azedo quanto ela.

abraço

gigi disse...

Bom demais. Arrasou. Espero que teu pau não tenha ficado com seqüelas. Meu post de hoje, coincidentemente, fala de boca mal cuidada.

Vc já vazou dessa cidade, né?

beijinhos.

Patrício Jr. disse...

veja pelo lado bom: pelo menos a velhota não pediu um beijo de boca depois de gozar...

4rthur disse...

Se Dostoievski tivesse nascido na Bahia, escreveria mais ou menos que nem tu.

E, claro, provavelmente teria um nome diferente.

BABI SOLER disse...

Simplesmente envolvente esse texto.
E todo o destaque para o grande final,rs
Boa semana!

poupéezinha disse...

Quem nunca teve uma oportunidade de belle de jour nessa existência....
adoro passar aqui;
beijo pra vc-

Bruno disse...

Olha, aqui em Curitiba faltam umas boas donas Natálias nas pensões. Só tem umas donas alemãs polonesas ucranianas murchas azedas e mal-comidas.

E o pão com ovo definitivamente foi o grande lucro na história. Boa, cara!

Abraço

Jana disse...

Pra mim foi o guarda que pegou o Lingueta. E para os filhos vascaínos, eu tenho exatamente o que você precisa. Uma figura horrível mitológica, que soma todos os medos, ele vai ser avô um dia (filho da vovó Lucifer) e é um coronel, ou seja, pra mim todas as patentes se resumem a Guarda.

Ele é o meu pai.

Te mando fotos dele fardado, vc pendura em cada cômodo da casa e diz que vovô Papau está de olho nele. E vovô Papau se alimenta da piroca de vascaínos.

Tcharam- vc erá um filho não-vascaíno, mas o efeito colateral é que ele corre o risco de ser gay.

Isadora A. disse...

pão com ovo é a pior parte da coisa, deus meu...

aqui, vc pagaria TÃO mais caro !!

Ane Brasil disse...

Quanta amargura nesse último parágrafo, meu véio!
Mas o texto é bom, ah, se é.
sorte e saúde pra todos - sobretudo pra filha de dona Natália... coitada!

Marcelo Mendonça disse...

Herói! Eu já ficaria com a primeira opção.

Josilene Cerqueira disse...

Nossa, fiquei deslumbranda com o texto..realmente,tem um Q de Jorge Amado juntamente com um Drama caracteristico de Nelson Rodrigues.
gostei.

E olha que eu somente, estava à procura de custo de vida REAL em FSA.

Iury disse...

Muito bom o texto Bono, para variar né!!!
Principalmente porque se deu bem...rs