31.8.07

Remixes e Empadas

Eu estava com fome. Além disso, precisava e queria esquecer um pouco aqueles malditos textos. Resolvi sair e procurar alguma coisa. Entrei na primeira lanchonete. Era uma rede especializada em empadas. Decoração aconchegante, belas mesas e garçonetes que usavam aventais e bonés verdes e incrementados. Era empada com valor agregado. Resumindo, devia ser caro pra porra. Pensei em voltar. Mas por preguiça de procurar outra coisa, fiquei.

Escolhi uma das últimas mesas no canto, bem no canto. Uma das garotas de avental e boné apareceu com o cardápio. Era um belo cardápio. Inúmeros sabores de empadas, preços e fotos. Como não tenho paciência para escolher nada em cardápios bacanas, pedi uma dica à garota. Ela disse que a de camarão tinha uma ótima saída. Topei. Pedi um tal de empadão de camarão e uma Coca-cola. “Só gelo, pelo o amor de Deus!”.

Havia umas mulheres bonitas por ali. Algumas fumavam, outras fofocavam, outras esbanjavam as grifes de suas bolsas. Deviam ser as proprietárias dos carrões lá fora. Não era o meu ambiente. Eu só queria comer a minha parada de camarão o mais rápido possível e sair dali. A garota ajudou e trouxe logo o meu pedido.

Era uma bela empada, de tamanho razoável. Parecia saborosa. Veio acompanhada de garfo e faca. Era a primeira vez que eu comeria uma empada com garfo e faca. Eu esperava que nem um dos caras da Lapinha me visse. Eu ainda tinha uma certa reputação. Parti a empada e levei um pedaço até a boca. Estava quente. E tinha um gosto maldito. Azeitona. Tinha uma porra de uma nojenta de uma azeitona no meu empadão de camarão. Senti ódio e tristeza ao mesmo tempo. São duas as coisas que mais odeio na vida: vascaíno e azeitona. Quando a garota me viu dar um soco na mesa e beber minha Coca-cola ferozmente, se aproximou.

- Algum problema, senhor? – ela perguntou.
- Azeitona – eu disse.
- Mas é um pedaço bem pequeno, senhor – ela disse – o senhor não vai nem reparar.
- Um pedaço de azeitona desses – eu disse – é capaz de empestar uma empada do tamanho do Maracanã, minha filha.

A garota foi atenciosa. Pediu desculpas. Disse que não eu precisava pagar pela empada. Eu disse que não havia problema algum. Perguntei apenas se existia ali alguma empada que não fosse condenada por um pedaço de azeitona. A única salvação era a de queijo. “Ótimo, traz uma de queijo”. Aproveitei e pedi para embalar o empadão de camarão. Eu o levaria para a recepcionista ou para as meninas do administrativo. Recepcionistas e meninas do administrativo sempre comem de tudo. Logo a garota trouxe minha nova empada, de queijo. Não tão grande quanto à de camarão.

Enquanto eu comia minha empada de queijo e bebia minha Coca-cola, notei a garçonete. Ela me encarava. Eu apenas mastigava e fazia que não era comigo. Mas quando eu olhava, lá estava ela, olhando para mim. Disfarçava às vezes. Olhava para seu bloquinho de pedidos, mas depois voltava a me encarar. Talvez apenas me achasse o homem mais feio que já havia entrado naquela lanchonete de empadas. Ou então queria jogo. E ela parecia habilidosa. Tinha seu charme escondido debaixo daquele avental e, sob aquele boné, um cabelo doido para ser puxado. Talvez não rolasse nada naquela noite. Mas no domingo eu poderia levá-la para tomar um sorvete de duas bolas na Ribeira. Ela ia gostar. Pedi a conta. E antes que eu falasse, ela mesma partiu pro ataque.

- Desculpa, senhor – ela disse – é que eu achei o senhor parecido com aquele cantor.
- Ed Motta – completei.
- Isso! – ela disse – o filho do Tim Maia, né?
- Sobrinho.
- Sobrinho? Ah, eu pensei que era filho.
- É, sobrinho.
- Eu adoro ele – ela disse.
- Na verdade eu faço cover dele – eu disse.
- Jura?
- Juro.
- Ai, que legal!
- É, na verdade eu queria fazer cover do Renato Russo, mas a galera não gostava.
- Hum, Renato Russo também é bom – mas eu adoro o Ed Motta.
- É, ele manja – eu disse, mostrando-lhe o cartão de débito automático.
- O senhor tem que ir no caixa – ela disse – pra digitar a senha.

Eu me levantei e fui até o caixa. Minha mais nova admiradora me seguiu. Entreguei o cartão à moreninha sem peito do caixa.

- Olha só – disse a garçonete – ele faz cover do Renato Russo e do Ed Motta!
- Sério? – a moreninha sem peito perguntou.
- Não exagere, filha – eu disse – Só faço cover do Ed.
- Nossa – disse a moreninha sem peito – canta um pouquinho pra gente.
- É – disse a garçonete – aquela da novela.
- Desculpe, meninas – mas é que eu cantei ontem. E o fonoaudiólogo disse que eu tenho que me poupar durante vinte e quatro horas.
- Que pena – disse a garçonete – é o médico da voz – disse ela, explicando à moreninha sem peito, que acabava de me entregar o comprovante do cartão.
- Olha – eu disse – eu canto aqui mesmo no Rio Vermelho. Naquele bar de portões amarelos de frente à praia, porra, eu sempre esqueço o nome!
- Hum, eu sei qual é – a moreninha sem peito disse.
- Pois é – eu disse – apareçam, mas vão numa quinta, porque tem outro cara legal também, que faz cover do Lobão. Vocês vão gostar. A partir das dez.
- Nós vamos, né? – perguntou a moreninha sem peito à garçonete.
- É – disse a garçonete – eu adoro o Ed Motta.
- Vão mesmo – eu disse – agora deixem eu ir. Muito obrigado. Apareçam.
- Obrigado, o senhor – disseram as duas.
- Volte sempre – disse a garçonete – a gente vai mesmo.

Então peguei o empadão da recepcionista ou das meninas do administrativo e deixei a lanchonete especializada em empadas. Pensei ter alguma chance com a garçonete. Pelo menos até ela descobrir que eu não canto porra nenhuma.

Voltei a pensar nos textos. A noite seria longa na agência. Por um momento lembrei do pastel do tio da unha preta, lá de Feira de Santana. Talvez a única coisa autêntica daquela cidade. Era muito bom. Mesmo quando não premiado com carne. Ao menos não tinha azeitona, e custava apenas cinqüenta centavos. Incomparavelmente crocante. Fazia “Crock!” quando a gente mordia. E ajudava muito nos brainstorms da vida.

33 comentários:

Jota disse...

Nem empadinha nem pastel de vento. Pra ajudar nos meus poucos, parcos textos, nada como uma cervejinha. Só uma. Médio gelada. E quando eu estiver com fome, que é pra ela descer redondinha e ramificar melhor pros dedos.

depois disso, digito que é uma maravilha.

Menáge à Trois disse...

Eu também odeio azeitona, mais que empada. Aquela montanha de massa descendo goela abaixo para mim é um martírio sem nome. Tinha pelo menos camarão???
Paulo, adorei o post, e pela descrição lembrei de algumas coisas que vi, quando fui a Salvador no começo do ano. Ai que vontade de voltar!!!!!
Bjos

Como ninguém

FOXX disse...

gente
um texto sobre uma empada?
meu deus!
eu qro chegar a esse ponto
transformar um tema simples
num texto maravilhoso

BABI SOLER disse...

Texto criativo.
Parabéns!

namorada disse...

só não gosto porque se deprecia tanto... gordo,feio,careca,barrigudo,etc?!peloamordedeus.
menos,né?
mantenha a verve contigo,assim como faz aos teus textos.
beijo,

Tamires disse...

Grande garoto!
Reune tuas historias em um livro,seus textos tem uma inteligencia muito bem humorada,a leitura seria um passa-tempo contagiante e divertido.
Abraço

gigi disse...

Toda empada tem azeitona, Paulo! Isso não é novidade pra ninguém! Adorei o texto. Se eu morasse na Bahia, comeria a azeitona pra você.

beijos vascaínos.

Paulo Bono disse...

Jota,
sim, por aqui a cerveja é a pedida da maioria, acompanhando um bom acarajé pra rolar as idéias.

Como Ninguém,
Sim, Salvador tem aqui seus encantos, e tem muitos outros sabores que deixam as empadas e as azeitonas no chinelo.

Foxx,
pelo que vi seus textos já são um banquete.

abraço a todos

Paulo Bono disse...

Soler,
valeu pela visita.

namorada (de quem?)
que bom que gosta dos textos

Tamires,
um dia vou ver se publico essas paradas. mas pass-tempo, pra mim, só o recheado sabor alpino.

Vascaína gigi,
não adianta só tirar a azeitona da empada. uma vez azeitonada, condenada pra sempre.

grande abraço pra vocês

"Belezas e Encrencas" por um Assessor de Imprensa disse...

Eba, texto novo!!!
Me divirto lendo suas obras. Dia desses fiquei até tardão vasculhando os arquivos, me rendeu boas risadas!

grande abraço.

Jana disse...

Das coisas que eu mais odeio no mundo:

- Gente que fala fazendo aspas no ar. Ele "fez" ela. Querem eufemizar e colocam as aspas aéreas do tipo: todo mundo e tão imbecil qto eu, e qdo eu falar "fazer" não vão entender que é "comer" por isso preciso das aspas. Isso me soa mais imoral do que um simples, seco, direto e SEM aspas aéreas - ele trepou com ela.

- Beterraba;

Pra brainstorms eu uso churrasco de que-diabos-de-bicho-é-esse. A beleza está em decifrar a carne enquanto vc tenta tirar o que está enganchado com a sua língua. Ai, vc toma sua coca só com gelo e parte pro arroto da vitória.

Beijo grande!

Patrício Jr. disse...

valeu pelo coment, broder. mantenha-se plogado.

Bruno disse...

"Recepcionistas e meninas do administrativo sempre comem de tudo". Essa vai pras minhas anotações. E ainda adoram reclamar e se lamentar porque estão gordinhas.

Isadora A. disse...

nos meus brainstorms eu uso azeitonas.

tá, zoei !

mas toda empada tem azeitona, com certeza. daí uma das coisas que eu mais odeio no mundo: cantada. "você é a azeitona da minha empada".

mas a garçonete toparia.

vera maya disse...

olha só que coisa boa...Eu descubro um blog legal que indica outro, que indica outro e acabando chegando aqui, e amando!!!

Muito bom seu blog, excelentes textos (ainda nao vi tudo, mas vou ver!)..

E eu não tenho blog, mas adoro visitar os bons e vou voltar, sempre!!
Espero que nao se importe de encontrar meus comentários..

E adoro Ed Motta..

pronto...tietei..!

Beijos

Paulo Bono disse...

Vera Maya,
fico contente que goste da leitura. e fique à vontade para comentar, elogiar e criticar.
e sim, esses blogs entrelaçados nos levam a lugares espeteculares. nesses meus links no canto esquerdo só tem coisa boa.

abração

Jota disse...

Paulo, valeu pela dica de filme. Ainda não assisti a Dogma, mas já tá na minha lista de aquisições/locações futuras.

Abraço!

ADRI disse...

meu.. adorei esse texto. Sou como vc, mas, meu terror é a chata da cebola. Puta merda, viu. Beijus.. Adri

Breno disse...

...Esse negocio de não comer empada com azeitona é frescura,mas não podia esperar outra coisa de um camarada que diz: "macho que é macho toma é sorvete de flocos!"
Saudações tricolores!!!

Jana disse...

Puta que o pariu pelo que tu falou lá no meu blog.

É por isso que vc é George Costanza pra minha Elaine!

Beijos!

4rthur disse...

Gigi tem razão, tu deu mole mesmo. Eu também odeio azeitona. Azeitona é o típico recheio de empada. Então, se for pedir empada, pergunta da azeitona antes.

Odeio pimentão também. E você tem razão: uma vez que o pimentão ou a azeitona passaram pelo recheio do quitute, já era, não dá mais pra salvar.

Mas e aí, "comeu"? (entre aspas, só pra provocar nossa amiga banana aí em cima).

Flocos disse...

coxinha de rodoviário é o caminho

thiago

gigi disse...

Arthur é viado, não sabe o que é bom. Pimentão é a melhor coisa do mundo depois do Jonathan Haagensen. Tenho alergia mas como meRmo, como até meu ouvido coçar desgraçadamente.

Atualiza aê, Paulo!

Olha, perdi um dia de trabalho hoje só lendo seus arquivos. Você é excelente, viu?

bjs cariocas e vascaínos com muito orgulho, com muito amô-or.

Paulo Bono disse...

Jana,
vc acertou. o Sr. Constanza é um dos meus ídolos.

Arthur,
só "como" agora empadas de queijo.

Flocos,
pra ajudar a descer a coxinha, só um catchup de terceira aguado.

Gigi,
Deixa o Arthur ser feliz.
e é trampo mesmo, aliado a uma preguiça baiana que não deixa eu atualizar.

abraço a todos.

Marcelo Mendonça disse...

Oi Bono
estou auzente pq estou em paris trabalhando esses dias (fino) abcao

gigi disse...

eu achei esse papo de cota um desaforo supremo e cancelei minha ida ao evento. odeio essas coisas discriminatórias.

vc é gordo mesmo, paulo bono?

bjs

Emerson Wiskow disse...

Bono, coloquei alguns desenhos meus no blogue. Ilustrações de um cartunista fracassado. Agradeço tuas visitas, parceiro.
abraço

Ane Brasil disse...

Cover do Ed Mota? kuaa! esse caô é novo!

Azeitona? inclua-me fora dessa, por favor!
sorte e saúde pra todos!

ACANTHA disse...

Bem... empada sem camarão e azeitonas e/ou frango seriam meu ideal..
Você "espalitou os dentes" após a refeição?

patricia disse...

Ed Mota, adorei o texto, resta uma dúvida: quem são as meninas do administrativo????????
"Sem dor Rock"

Lola disse...

Eu tenho horror a azeitonas tanto quando tenho horror a baratas. Oh, coisinha que impregna!

Marcelo Mendonça disse...

Rapaz vc escreve muito bem!!! gostaria de te pedir um texto curto, pequeno mesmo, desses bem baianos como só vc sabe, para eu postar lá no caralhaquatro um dia, pode ser? claro que sem te atrapalhar. abraço

Anônimo disse...

bom comeco