14.8.07

Até morrer

Foi no século que o Bahia ainda jogava pela primeira divisão do campeonato nacional. Então tínhamos o prazer de assistir ao Flamengo jogar na Fonte Nova, onde o time baiano mandava os seus jogos. E aquele domingo valeu a pena. Acabamos com eles. O Mengão venceu por 2x1. Queixão, que amarrara sua toalha do Flamengo no pescoço, estava de Super Mengo e carregava uma bandeira improvisada com o lençol do seu time favorito. Eu, que havia levado uma queda ridícula num ponto de ônibus três dias antes, tinha o braço direito engessado e pintado de rubro-negro.

Deixamos o estádio e resolvemos voltar para a Lapinha a pé. Queríamos desfilar nossa felicidade por mais uma vitória na vida e passar nalgum boteco para comemorar. Descemos e subimos ladeiras cantando o hino, narrando gols e relembrando títulos de 15 anos atrás. "PORRA! CARALHO! VÁ TOMAR NO CU! QUEM MANDA NESSA ZORRA É A TORCIDA DO URUBU!". Enfim, a noite era vermelha e preta.

Foi quando cantávamos pela sétima vez o hino do Mengão que avistamos uma trinca de torcedores do Bahia do outro lado da rua. "Vai, baiano de merda!" – gritou um deles – "torcendo pra time do Rio!". Em resposta, sacudi bem sacudido o meu ovo na direção deles e mandei todos tomarem no cu. Aí é que está. Quem foi que disse que o baiano é de paz? "É O QUÊ, GORDO?" – berrou um deles. Pelo jeito que os três atravessaram a rua, ignorando os carros, deduzi que o caldo ia engrossar. Nem pensei em correr. Eles me alcançariam. Aliás, fica registrado que gordos realmente precisam ser legais com todo mundo, não devem sair por aí mostrando o ovo pra ninguém e nem mandando ninguém tomar no cu.

- Tem medo de morrer não, gordo? – perguntou um deles se aproximando.
- Depois desse 2 a 1 eu morro feliz. – eu disse.
- Rasga essa bandeira suja – disse um deles tentando pegar a bandeira de Queixão.
- Vai chorar no pé do caboclo, meu irmão – Queixão disse – Achou pouco a surra no campo?
- METE A PORRA! – alguém gritou, não sei de onde.

Foi então que coloquei em prática minha filosofia de sempre dar um primeiro golpe e lasquei meu gesso na cara de um dos filhos da puta, que caiu estendido. Só vi de relance o vulto do soco que levei na cara. Despenquei feito uma jaca. Do solo, pude ver Queixão dar uma bandeirada em um e levar outra no queixo. Tentei me defender, mas ganhei uns três chutes na barriga, mais uns dois na costela e um na cara. Também chutaram Queixão como quem chuta uma mala velha. Eu já estava me acostumando aos pontapés, quando, não sei por que, os cornos se mandaram.

Ficamos um bom tempo ali, arriados na calçada. As costas doendo, a cabeça latejando, a bandeira e a capa do Super Mengo, rasgadas. "Tudo otário" – disse Queixão. BÓRA MENGÃO! – eu ainda consegui gritar. Ficamos rindo, pelo menos até o quanto as dores nos permitiam. Minha visão escureceu. Eu via tudo preto e vermelho sangue.

9 comentários:

Joana disse...

sacanagem. que torcedores cretinos!
lembrei das historias de meu pai, da época que ele frequentava estadios. vitoria doente, ele não se contentava com a alegria de ver o time fazer gol e tinha que desbancar pra torcida do bahia pra comemorar e tirar onda com a cara do povo. isso no meio da bamor. ele escapou de tomar uns catiripapos. ele teve um adesivo horrivel do escudo do vitoria no parabrisa do uno por duas vezes e as duas vezes alguem quebrou. tinha tambem uma mandinga braba com o short e a camisa, de ter que usar toda vez que fosse assistir o jogo, que a gente - eu e minhas irmas - so fomos sentir a seriedade quando escondemos, uma certa vez. nunca vi meu pai tão puto.
sinto que perderei uma parte saborosa da vida se nao agregar logo o futebol à minha rotina de emocoes, mas ainda estou em tempo, fiz um amigo prometer que me levaria ao proximo bavi.
beijos!
;)

Breno Barretto disse...

Viu sacana!!!Surra merecida!!!
Depois dessa, nunca mais você mexe com os torcedores do Baêa!!!
Mas não se preocupe, no próximo ano nos encontraremos na segundona!hahahahhahahahhaa
BORA BAÊA MINHA PORRA!!!!

Jana disse...

Rapaz Paulo,

eu tava gargalhando aqui. Eu não queri rir pq tava fingindo que tava tabalhando e comecei a gargalhar. Horrível vc ter apanhado, mas o jeito que vc descreveu a luta foi hilário.

Se faz vc se sentir melhor com relação a vc, já levei vaia de cima de trio elétrico e da torcida contra do estadio de futebol.

Tem dias que eu tô meia assim, verdureira...

Anônimo disse...

Eita que vc dá (pra ser) até hooligans!

Menáge à Trois disse...

Isso é o que eu chamo de violência!!!
Uma vez me disseram que todo homem tinha que apanhar pelo menos uma vez na vida. Acho que a sua chance foi sangrenta.

Bom post
Bjos

Como ninguém

4rthur disse...

nunca, nunca entrei numa briga. já tentaram impelir-me a fazê-lo, mas não sou muito bom nessas coisas. agora, em matéria de torcer pro mengão... tô contigo, baiano!

"Belezas e Encrencas" por um Assessor de Imprensa disse...

Dei boas risadas com o seu comentário lá no "Belezas e Encrencas". E não vejo a hora de ler novos textos seus!

abraço!

Ane Brasil disse...

hehehehe! É por isso que adoro os homens, sempre tem boas histórias!

Anônimo disse...

Gostei do texto, mas em se tratando de Baea vc merecia umas tapas mesmo. Esse jogo deve ter sido o q quebrou a freguesia de 11 anos sem ganhar do tricolor.