15.7.07

Com outros olhos

Conheci Biandra quando eu ainda acreditava que o Brasil seria o país do futuro. Estudávamos na mesma escola, mas foi no velho ônibus Santa Mônica que a vi pela primeira vez. Pele alva, cabelos pretos, lábios delicados. Os olhos eram seu segredo. Castanhos. Mas não era uma questão de cor. Era outra coisa impossível de descrever. Segredo. Trocamos palavras, criticamos a Matemática e a Educação Física, citamos filmes e bandas prediletas, essas coisas. Ela sorria. Eu era bom nisso, quando esquecia da merda da timidez que o segundo grau cravava em mim. Mulher alguma naquele Santa Mônica lotado tinha o segredo dos olhos de Biandra. Eu sabia que não era pro meu bico. Mas quando conheci Biandra, eu ainda acreditava nas comédias românticas da Sessão da Tarde, nas quais os otários, como eu, ficavam com a menina mais bonita no final.

Viramos amigos. Nessa época eu ainda não sabia que isso era um balde de bosta nas minhas pretensões. Mas que tática eu podia usar? “Biandra, eu tô a fim de você. E aí?” Piada. Eu era feio, gordo, otário e jogava botão. Nesse meio tempo, ela já devia saber que meu apelido na sala era Nikima, e que eu era sempre um dos últimos a ser escolhido no baba. Ouvir, dar conselhos, fazer rir, enfim, ser a porra do amigo era o único jeito de poder ver de perto aqueles olhos.

Naquele tempo eu ainda mandava bilhetes com versos da Legião Urbana pra tentar conquistar as menininhas. Comigo nunca deu certo. Biandra até gostava, me passava coisas do Cazuza. Parava por aí. Eu nunca seria o seu Eduardo, nem ela a minha Bete Balanço. Mesmo assim gastávamos horas no telefone. Conversando bobagens. A voz era o segundo segredo de Biandra. Quando ela dizia “Alô”, eu implorava “Diz alô de novo!”. Lembro que ela gostava muito de Harry e Sally - Feitos um para o outro, eu dizia “Você é mil vezes mais bonita que a Meg Ryan”, e ela completava “A beleza está nos olhos de quem vê”. Encantadora.

Certo dia, Biandra topou um cinema. Nem acreditei. Economizei, fiz planos para a pipoca, o milk shake, o que ela quisesse. Luzes apagadas. Balbuciávamos comentários sobre o filme, no qual eu não conseguia me concentrar. Outro filme passava por minha cabeça. O filme no qual eu andava pela escola de mãos dadas com a menina mais bonita do mundo. Cenas que se aceleravam até o dia que a gente casava na Igreja da Lapinha. O coração do gordinho disparado, mãos que transpiravam. Para não sofrer um infarto, eu me virei para Biandra, olhei bem para aqueles olhos e disse “Biandra, eu tô muito a fim de você”. Calada por alguns instantes, Biandra mastigou lentamente umas duas pipocas que tinha em sua boca. Depois disse “Paulo, por favor, não sinta nada por mim”. “Você não sente nada por mim?”, perguntei. Ela disse “Sinto amizade, vamos ser só amigos, tá bom?”. Eu disse “Tá” e voltamos ao filme. Gordo idiota.

A vida prosseguiu e continuamos amigos. Biandra havia me colocado no meu devido lugar. Até que um dia, no velho Santa Mônica, a encontrei abraçada ao Allan. Não consegui sentir ciúmes. Allan era o que chamamos de covardia. Loiro, alto, olhos azuis e jogava na seleção de vôlei da escola. Ainda por cima era um cara bacana, de risada contagiante. Allan e Biandra trocavam beijos e falavam de amenidades comigo. Os olhos de Biandra diziam “Paulo, por favor, não sinta nada por mim”. Eu entendia. A menina mais bonita deveria ficar com o menino mais bonito. Óbvio. E eu era um apêndice de merda no mundo.

A partir desse dia, Biandra e eu nos afastamos aos poucos. Mais por vontade dela. Eu ligava vez em quando, pra saber novidades ou avisar sobre o lançamento de um algum novo disco. A coisa ia se resumindo a troca de acenos pelos corredores. Meu filme terminara faz tempo, o segundo grau acabou, nunca mais nos vimos e nem mais um telefonema.

Acontece que, um dia desses, eu vi Biandra. Num ônibus que não era o Santa Mônica. Ela não me viu. Fiquei observando por alguns instantes. Eu olhava para Biandra agora com outros olhos. Parecia diferente. Cabelos mastigados, peitos sem vida, corpo sem ritmo, sem graça alguma. Os olhos continuavam muito bonitos, na verdade, mas era como se parte de seu segredo tivesse sido revelado. Biandra tinha cara de uma pobre amante jovem, usufruída e enrolada por algum homem casado. Pensei em falar com ela, mas desisti. São outros tempos. Depois de assistir a todos os filmes da Sessão da Tarde; de descobrir que esse país de merda não vai pra lugar nenhum; depois que a putinha do Balão Mágico pousou na Playboy; depois do porre de capeta em Berlinque; depois de uma trepada com uma mulata maluca num barquinho na Ribeira; depois do yakisoba da Nina; depois do 11 de setembro; depois de Bukowski, e agora que o Renato Russo não canta mais porra nenhuma, eu reparei bem que Biandra não vale nem uma punheta.

16 comentários:

Jana disse...

Paulo,

tive pelo menos uns três sorrisos diferentes lendo teu texto.

Um de empatia porque achei ele muito doce e pessoal, outro de deboche pela Simoni, e o terceiro foi meio que engasgado pois tinha me convencido que vc tinha conseguido passar um texto inteiro sem falar "pica, buceta... " ai sua última palavra foi 'punheta'.

Adorei a referência ao Bukowski, amo aquele véifeladaputa.

Qto aos personagens, acho que eu seria a ceguinha de A Vila.

Beijo!

Anônimo disse...

paulo...pobre Biandra trocou um cara inteligente feito vc. por um bonitao qualquer e terminou sozinha. DE NOVO: Voce escreve MUITO bem. Seu texto e envolvente e sempre gostoso. Beijo grande, querido.

Marcelo Mendonça disse...

brilho nos olhos de quem nada viu. Massa o texto

gabi disse...

se vc me permite a trilha sonora: hj eu vendo sonhos, ilusões e romance... (bem anos 80, igual sua crônica!) e viva aos otários da escola!

Lola disse...

Nenhum amor das antigas passa ileso pelo efeito do tempo. Com certeza, gostar provoca impressionantes distorções. Ah, se Biandra pudesse ver o que perdeu!
Texto maravilhosamente delicioso como sempre!

Anônimo disse...

RSRSRSRRSS
INTERESSANTE SUA HISTORIA,ALIAS,TODOS OS TEXTOS SÃO BEM ENGRAÇADOS.APESAR DO SEU HUMOR TOTALMENTE DEPRAVADO,CONFESSO QUE GOSTO MUITO DESSE LUGAR.
ABRAÇOS.

Joana disse...

massa! muito bom como sempre. tava demorando... voce tem que lançar um livro com ineditos, eu ajudava a vender, até. rs

beijoS!

Joana

Madstore disse...

pois é, e quantas são as paixoes que acabam em decepções.



gostei, legal aqui.

forte abraço

Isadora disse...

as coisas mudam com o tempo, n� !?
chega a assustar, por aqui.

ps: o coment�rio da Jana, sobre a punheta, � v�lido aqui tamb�m !!

ADRI disse...

Pois é... o mundo gira e a lusitana roda. É do nosso tempo essa. Beijos, Adri

camila disse...

então se confirma: o tempo faz bem para alguns. [passando por aqui, paulo, adorando, como sempre! beijos camilinha-pega-itinga]

Flocos disse...

eu tava olhando isso aqui tem dias...

felomenal

poupéezinha disse...

É meu caro.. cada um com seu tapa na cara. Eu tive uma professora de arte incrível de pequena, que dizia às meninas: esqueçam os populares, que daqui uns 15 anos, vão estar carecas além de chucros.
Maravilhosa a forma que vc expõe a candura platônica da época da escola, e a realidade dela adulta. A verdade é que sofremos mesmo a perda da inocência, e da mulher, ela é esperada de forma contínua. Enfim, não deixa de ser um princípio machista que se mantém- alimentado por todos, inclusive nós, mulheres.
Foda como sempre-
Bjo!

4rthur disse...

não vale uma punheta, mas, fala sério, tu bateu assim mesmo, não foi?

Ane Brasil disse...

É, meu bruxo, o embarangamento chega pra todo mundo... até pro primeiro amor de um homem!
Sorte e saúde pra todos - sobretudo pra Biandra, coitada...

Mwho disse...

Bono,
Seu texto flui de uma forma incrível! Você realmente tem estilo! Fico até com vergonha de escrever...
O tempo é cruel, não?
Aposto que se você escrevesse um conto para ela hoje, ela ia mudar de idéia...
Os valores mudam!
Pena que ela mudou demais...
Abração,