27.6.07

Um bom homem

Não acho que um enterro seja a melhor pedida para uma tarde de domingo. Mas quem saiu do jogo foi o seu João. Um senhor que veio morar aqui na rua e – não sei porque bosta – resolveu me adotar como seu neto. Quando não reclamava das malditas doenças do tempo, o velho me contava suas estripulias da mocidade, como a vez que comeu uma gorda no banheiro de uma repartição pública. Enfim, seu João era um homem experiente. Um bom homem. Foi preciso desistir do futebol na TV. Eu tinha que ir à porra do enterro.

Cheguei cedo ao velório. Resolvi não entrar logo. Irrita ver as pessoas abraçando a viúva e dizendo coisas pra lá de confortantes como “Perdemos nosso João” ou “Ele era tão bom e se foi”. Então encostei a uma barraca próxima ao cemitério e pedi uma Coca-cola pra aliviar a cabeça. Light, em homenagem a seu João. O velho sempre me chamava pra seu aniversário. Era sempre caruru, e eu não perdia. Ele nem podia comer, na verdade. Mas encarava e depois corria pro quarto pra tomar lá seus remédios. O velho sabia como espremer a vida até a ultima gota.

Eu lembrava da noite que seu João e eu disputamos um joguinho de damas quando um caboclo de bigode e boné se aproximou da barraca e pediu uma cerveja gelada.
- Uma gelada, Edson – o caboclo pediu ao dono da barraca.
- A noite foi boa? – o tal do Edson perguntou.
- Sabe aquela sarará, caixa da padaria?
- Comeu?
- Emadeiramento.
- Ela é gostosa – Edson disse.
- Puta que pariu – o caboclo exclamou – a mulher chupou tanto minha pica que eu pensei que a cabeça do pau ia afinar.
Nesse momento, terminei minha Coca-cola e pedi um chiclete.
- Pensei que ela tinha namorado – Edson disse.
- Diz ela que terminou – o caboclo disse – a gente tava lá tomando uma no China, uma cachaça da porra, ela me dando um mole da porra, quando deu umas duas da manhã levei pro motel e lasquei em bandas.
- E a patroa? – Edson perguntou.
- Eu disse a ela que a cachaça foi forte e fui dormi na casa do Martelo – o caboclo respondeu.
- Tá danado – Edson disse.
- Fui – o caboclo disse, detonando a cerveja, deixando umas moedas no balcão e partindo.

A história do boquete supersônico me divertiu e me fez esquecer, por alguns instantes, que eu não ouviria mais seu João me chamar pra contar que sentira falta de ar à noite e os filhos da puta da Vitalmed levaram duas horas pra chegar. Paguei a conta ao tal do Edson e entrei no cemitério.

Lá dentro, pessoas amontoadas em volta de seu João. Permaneci distante. Uma mulher que vestia um decote sacana me lembrou a Sandrinha, uma velha amiga que me confessou já ter chupado o namorado durante um funeral. O resto foi tudo a mesma merda de sempre. Muito choro, um padre escroto que chega correndo e diz umas palavras apressadas, umas cantigas depressivas e o lacre do caixão. A velha viúva estava triste, claro, mas não chorava. Parecia concentrada numa missão. Pensei até em ajudar a carregar o caixão, mas vai que deixo cair. Seu João não merecia isso. Deu-se início a procissão até onde seu João seria deixado. Quando vejo, o coveiro era nada mais nada menos que o caboclo que lascou a sarará em bandas. Lá estava ele, com seu boné, seu bigode e seu pau afinado, à espera de seu João. Devia estar numa ressaca desgraçada. Nessa hora é um silêncio esquisito. Parece que as pessoas querem cochichar alguma coisa, mas sabem que não devem. Até que o caboclo quebrou o silêncio.
- Boa tarde – disse o caboclo a todos – vocês não me conhecem, mas seu João me conhecia, e eu conhecia seu João. E é uma honra estar aqui porque seu João era um grande homem. Pai nosso que estais no céu...

O caboclo tirou o boné e prosseguiu em sua oração. Todos nós o acompanhamos. Quando terminou a oração, o caboclo recolocou o boné na cabeça. Mas uma senhora distinta prosseguiu “Ave Maria cheia de graça...”, e o caboclo voltou a tirar seu boné rapidamente.

Terminadas as orações, e novamente usando seu boné azul, o caboclo concluiu seu trabalho. Guardou perfeitamente o velho corpo de seu João ali dentro, e todos voltaram pra suas casas.

O resto do dia foi uma merda. Nada na TV, nada na geladeira, o Flamengo havia perdido. Tudo rimava, tudo lento, sem graça alguma. Então pensei que, talvez, enterros combinem bem com as tardes de domingo.

Eu também chamava o seu João de Vô.

16 comentários:

Duda Bandit disse...

Meu colega, eu, vc e o Droggo temos nosssos pontos autos e baixos, adorei este texto em especial, essa cronica-conto tem um sabor delicioso de rua, de subúrbio... acho que vc escreve pra caralho, a gente tem uma certa afinidade de temas, de estranhamento, essas coisas...
pensa em publicar?


abração.

saulo db.

a dama da livre poesia disse...

porra paulo, toda vez que eu vejo texto novo por aqui eu vibro. esse é o blog que eu mais gosto de ler, voce tem uma sensibilidade, um timing, um ritmo na escrita que sao impressionantes. é engraçado, sincero, estimulante. todo elogio é pouco. meus parabens e beijos
joana

Jana disse...

minha vó, vó mesmo, não postiça ou adotada, é hardcoremente católica.
Antes de eu vir morar aqui em Fortaleza, eu morava em Belém, mas vinha passar as férias por aqui. Todos os domingos de manhã eu a acompanhava na missa. Ela segurava na minha mão orgulhoso que a netinha tinha ido, eu passava a missa vendo o passarinho fazer ninho no ventilador de teto e pensando no cuzcuz e na tapioca que eu ia comer qdo chegasse em casa.


Hoje, sempre tem novena na casa dela. E quando é o terço das crianças, ela me liga pra eu ir lá rezar. E acredite, eu nos meus 26 anos sou a criança pela faixa etária que acompanha a novena.

Todo mundo acha bonitinho que eu me importe, as outras coroas dizem que queriam ter netas como eu. Mas a verdade é que eu sou uma puta de comidas típicas. Vou até colocar uma placa:

"Rezo novena por cuzcuz"

Beijos.

Emerson Wiskow disse...

Opa! Não conhecia o blogue. Bons textos.
Abraço

Adri disse...

Já decidi, quero ser cremada. Se eu sou de SSA? Putz, qué isso? rsss Quer dizer que vc é RP? Eu também. Tá foda emprego pra nós, né? Se cuida. Grande beijo, Adri

Flocos disse...

cara, tu é foda!
só tô deixando o comentário pra você saber que mais pessoas andam lendo isso aqui.

thiago

Marcelo Mendonça disse...

Muito bom. A vontade como quem arrasta os chinelos, elegante como quem usa ternos.

brain of J disse...

Eu também quero ser cremado. Aproveitou o que pôde ser aproveitado, bota fogo logo, que enterrar é mórbido e anti-higiênico.

Não fui a muitos enterros, mas fico imaginando que o mais agoniado ali é o morto, com aquela lamentação toda e aquelas músicas de quem quer ser enterrado junto com o esquife. A gente ainda pode sair de perto, fingir que tá com vergonha de chorar na frente de todo mundo, ninguém se importa com quem se afasta em enterro, todo mundo respeita. O morto, coitado´, é que tem que ficar e ouvir aquela ladainha toda.

É de lascar...

gabriela disse...

paulo, seus textos sao deliciosos de se ler!!! E vc. tem um ritimo na escrita que e impressionante. Adoro quando eu entro aqui e tem coisa nova!

Jana disse...

Todos nós sabemos que o meu Status Quo é boi de pinhara.

Abraços e bom domingo pra ti.

HanneBaby disse...

Olá, Paulo.
Vi seu comentário lá no blog e resolvi vir aqui conhecer o seu.
Sem decepções.
Até por que vi que temos um " amigo" em comum,e que vc escreve Bem, rapaz.
Seguimos linhas diferentes, porém o que seria da literatura completa se não fossem os ramos opostos?

Abraço, e bom domingo.

Droggo disse...

Fala Paulo... a vida anda bem corrida (tenho estudado direto, presto concursos) e quase não tenho tempo de postar ou responder aos comentários. Mas fico feliz por saber que você aparece sempre no blog... Aliás, sempre que posso dou as caras aqui, pra ver se tem texto novo. Até

Roberto L. disse...

Te indiquei para responder um "meme". Abraços.

http://museuanosoitenta.blogspot.com

Isadora disse...

"Seus Joãos" sempre fazem muita, muita falta. principalmente, aos domingos.

"Belezas e Encrencas" por um Assessor de Imprensa disse...

Texto incrível! Sensibilidade a flor da pele e um puta tranquejo com os recursos textuais. Muito bom!

Abraço brother!

ACANTHA disse...

Tem que existir um céu para os "vô João"... Encantada com seus textos!