6.6.07

Dia de mercado

- Você pega os tomates? – perguntou Nina.
- Não sei escolher tomate – eu respondi – é melhor você pegar.
- Homens – ela disse com o sorriso no canto da boca.
Quanto orgulho em saber escolher um tomate. Nina era assim. Fazia questão de me assessorar nos assuntos práticos e sentia-se feliz por isso. Sabia o que estava faltando em casa, avaliava os preços, escolhia tudo, ponderava as quantidades, e eu apenas empurrava o carrinho cheio de tédio, papel higiênico e tomates.

Nina escolhia minuciosamente os legumes para um yakisoba.
- Tem que ter molho shoyo – eu disse.
- Vamos chamar Claudinho e Camila? – Nina perguntou enquanto escolhia cenouras.
- Pra que?
- Pro yakisoba.
- Claro que não.
- Por que não?
- Não quero dividir o yakisoba – eu respondi – outro dia a gente faz um cachorro quente e chama eles.
- Deixa de ser guloso – ela disse – Deus é mais.
- Não pode esquecer do shoyo.

Terminamos os legumes, Nina pegou umas pêras, e continuamos o processo. Frango congelado, lasanha congelada, salaminho, leite, Nescau e, é claro, palito de dente. Ela seguia na dianteira e eu estacionava o carrinho nos lugares mais estratégicos pra facilitar a logística. Sou muito bom nisso.

Cada um tinha direito a um exagero. Nina caprichou nos iogurtes. Era maluca por iogurtes. Pegou várias placas de frutas e de chocolate e garrafinhas de Ninho Soleil. Abriu uma e bebeu ali mesmo. Quanto a mim, peguei dez pacotes de biscoito Bono. “Você é muito previsível” – ela disse.

- Eu escolho o vinho – disse Nina ao chegarmos nas bebidas.
- Ok.
- Que tal? – ela perguntou mostrando uma garrafa – bebemos desse na festa de Amorim, lembra?
- Ham, ham – eu disse – pega duas garrafas.
Nina sorriu. Sabia que eu não lembrava do vinho. Bebo, gosto muito, mas não entendo porra nenhuma de vinho. Já cambaleei pelas praças da Ilha de Itaparica bebendo vinho São Jorge, o da garrafa de plástico. O que vier agora é lucro.

Continuamos o itinerário. Detergente, sabonete, desodorante, shampoo. “Pega um pra cabelos normais” – eu disse. “Que cabelo você tem?” – Nina perguntou rindo e me beijando.
Percebi que um bigodudo se perguntava como um bicho feio como eu pegava um mulherão como Nina. Ela era realmente muito gostosa. Alta, seios fartos, aquela bunda no jeans e um jeito distraído que toda mulher especial tem. Por outro lado, eu estava mais para um ogro. No lugar do bigodudo eu também estaria indignado.

Caminhamos para o caixa. O carrinho estava cheio, ia doer no bolso. Com a fila grande deu tempo pra fazermos piadas sobre todo mundo.
- Aquela ali peida embaixo do lençol. O careca tá fudido.
- Você vai ficar igual a ele.
- E você, peidar igual a ela.
- Você é podre.
- Cadê o shoyo?
- Putz!
- Porra, vá pegar.

Quando chegamos em casa tinha aquela porra toda pra arrumar. Já era noite, estávamos cansados. Fazer mercado cansa. Foi quando abri um dos iogurtes de morango que Nina escolhera com tanto carinho. “Lá vai você beber meu iogurte” – ela disse. Então tirei a calça, baixei a cueca e derramei o iogurte sobre meu pau. “Morango no palito” – eu disse. Nina riu e me chamou de descarado como só ela sabia chamar. Foi aí que Nina realizou um dos mais perfeitos e gulosos boquetes que já vi. Ela era maluca por iogurte e gostava do meu pau. Sua língua era lenta e louca. Babava, lambia os lábios, degustava como uma criança sapeca o mais novo sabor da Danone. Além de uma boca gostosa, Nina tinha como uma de suas virtudes a gratidão. Então ela se levantou, pegou um pacote de biscoito Bono, tirou a roupa e deitou-se no chão. Nina era safada. Espalhou biscoitos por todo o corpo. “Bono, agora com novo recheio” – ela disse. Mandei ver. Comecei pelo biscoito equilibrado em sua boca de morango. Desci no pescoço e estacionei nos peitões, cada um com um Bono. Chupei os peitos, lambi os recheios e mordi os mamilos. O meu paraíso era a barriga branca de Nina coberta de biscoitos. Até que cheguei ao melhor dos biscoitos Bono, o mais recheado, o mais achocolatado, o guardião da xoxota de Nina. “Coma” – ela implorava. Então comi. Comi uma deliciosa Nina e um delicioso biscoito bono ao mesmo tempo. Gozamos e ficamos deitados na sala, rindo de tudo, entre restos de iogurte e biscoito.

Fazer mercado é uma merda. Tem que ter paciência e dinheiro. Coisas que eu não tenho. Mas lembro que eu gostava de ir ao mercado com meus pais quando garoto. Enchia o carrinho de biscoitos e de brinquedos. O meu pai sempre tirava os brinquedos sem eu ver. Mas era muito bom chegar em casa e comer logo todas as gostosuras. E foi um prazer reviver tudo isso.
- Você vai me ajudar a arrumar as compras – disse Nina apoiada no cotovelo.
- Puta que pariu – eu disse.
- Vamos – disse Nina – pelo menos as coisas da geladeira.

13 comentários:

a dama da livre poesia disse...

sensacional!!!!! AMO SEUS TEXTOS!
voce broca, rei.

bjo joana

gabi disse...

literalmente, de fuder!

Paloma, a Sá. disse...

eu sempre acabo vindo aqui pelo sopro pós moderno.
sorte a minha!
fodão!
vamos palavrear!
beijo,

Paloma, a Sá disse...

ah! esse texto me lembrou muito um palavreiro amigo meu- o xico sá!
Vou mostrar para ele.

brain of J disse...

velho, na moral...
tu escreve bem pra caralho.
dá gosto de se ler.

Ricardo Cidade disse...

Cara, acho q temos de conversar uma quadrinização de algo aí. O material tá cada vez melhor. Altos e Baixos é meu predileto.

Menáge à Trois disse...

Nina sabe negociar!!!
A proposito, adoro super mercados e a parte das frutas é a menos gostosa!
Bjos

Como ninguém

poupéezinha disse...

Rsrsrsrs!!
Fartura gostosa..
Beijooosss!!

Jana disse...

fiz uma careta de desgosto. Não sei se pelo "bono mais recheado" ou se pq nao pensei nisso antes.

Jana disse...

há uma corrente que reaolmente acredita que o africano estava me queixando. Acho que por isso ele me trouxe sementes outro dia...

Agora uma dúvida, vc só espalita os dentes ou fica rodando o palito com a língua?

Jana disse...

li no pequeno dicionário online idiossincrático ganês que sementes de pimenta (as que ele me deu) significam: quero que vc case comigo e com meus 7 irmãos.

Agora, estou usando um pigente de jaguar que é o tóten da tribo inimiga da dele, pra ele saber que o nosso amor é impossivel.

Te linkei no meu blog!

Dan disse...

Como sempre poderoso em seus textos e suas percepções das coisas mais íntimas da vida! Demais!!!
Comecei um curso de Roteiro e Direção de Cinema, TV e Vídeo que só me lembrou de você. Aliás... ainda vou acabar transformando pelo menos uma de suas histórias num roteiro.

4rthur disse...

cara, tu não percebeu, há alguns anos já, que mudaram a porra do bono e que o sabor do biscoito hoje não é mais como era antigamente?

a não ser esses que você comeu, claro.