18.5.07

O dia anda bem complicado

A porta giratória. Para variar, não gira. Travada. Eu já sabia. Nunca vi essa porra girar assim, macia, de primeira. Pelo menos comigo. E olha que sempre passo devagar, como um tabaréu cismado ou como se fosse uma questão jeito. Chego a empurrar a porta com a delicadeza de uma bailarina loira de cabelos finos. Cada passo é uma conquista, uma esperança. Mas não adianta. Lá vou eu novamente. Travada. Porra.

Sou a favor das portas giratórias nos bancos. Como sou a favor da abordagem dos policiais nos ônibus, tirando o tapa nos ovos e o fato de não mandarem as putinhas descerem do veículo para serem bulinadas também. Sei lá. Tem que se fazer alguma coisa para evitar que levemos um tiro na caixa dos peitos, pelo menos dentro do busú ou dos bancos. No caso dos bancos talvez houvesse uma tecnologia mais engenhosa e menos irritante.

Lá vou eu. Travada. Caralho. Esfrego o rosto. Respiro fundo. E dessa vez acabo impedindo uma velhota de sair. Ela olha para baixo e para cima da porta, achando que ela é a incompetente da história. Síndrome de invalidez. Volto. Deixo a porta livre. Aliviada, a velha sai.

Tenho que fazer o que não gosto. Dou a volta. Ponho o celular naquele compartimento idiota e volto até a giratória. Sem tirar os olhos do celular, é claro. Sempre acho que algum brasileiro vai passar a mão. Duas putinhas vão à minha frente. Elas conseguem. Vagabundas. Lá vou eu. Travada. Puta que pariu.

Dou a volta. Ponho as chaves e setenta e cinco centavos que tinha no bolso junto ao celular. Retorno. Lá vou eu. Travada. Vai tomar no cu. Parece que todos no banco ouviram minha sugestão. Pelo menos seis pessoas atrás mim fazem muxoxo e reclamam porque tem um gordo que não deixa ninguém passar. Impedido de sair, um aposentado baixinho, provavelmente da Polícia Rodoviária, dispara um olhar que atravessa o vidro da porta e me atinge em cheio com o veredicto CULPADO. Saio da frente. Deixo o veterano sair. Deixo todo mundo passar. Sorrindo em minha direção, um boy empurra a porta com o indicador, como se estivesse dizendo – tem que ter a manha, gordo.

O guardinha lá dentro vê tudo com aquela cara de sonso dele. Deve estar se divertindo. Já me disseram que eles que ficam apertando um controle remoto, julgando quem pode entrar ou sair sem ser sacaneado. Mas encaro firme e gesticulo. Que porra é essa? Faço questão que ouça e leia meus lábios. O escroto vê que não estou de brincadeira. Sinaliza para que eu dê a volta novamente. Ok. Com os polegares no cinto, ele se aproxima e, pela greta do vidro, pergunta se não tenho mais algum objeto de metal na pasta. Abro a pasta e encontro o velho guarda-chuva enferrujado. Não tem mais nada. Ponho junto com o celular, as chaves e os setenta e cinco centavos. Retorno. Vamos lá. Devagarzinho. Vamos, Paulo Bono. Fé. Olho para baixo e para cima da porta. Ôpa. Parece que agora vai. Isso. Na manha. A porta gira. Yeah! Vai, porra. Estou dentro do banco.

Olho para trás. Uma garotinha feliz e saltitante empurra a porta, encantada com a linda porta giratória. Mamãe, eu quero uma porta dessa no meu quarto. Caralho de porta de merda. Vou apressado até o compartimento idiota e, graças a Deus, o celular ainda está lá. Hora de esquecer a porta giratória e pegar aquela fila.

7 comentários:

poupéezinha disse...

Puta cara, muuiiitoooo bom rapá- Eita frutração maió que é esse portal pros infernos.... E vc? Já passou pelo bulinar dos cops muitchias veizi? Sempre me safei menino; Seria por ser uma das "putinhas"?, Sabe que uso saia e tals.. risooosss!!

Ah: Segundo Stendhal, são 7 as fases do amor; se quiser, passo-te uma por uma em pequenitos bilhetinhos virtuais; que tal?

Ps: Muito agradecida pelo link..
bjoo!!!

droggo disse...

sobre o texto abaixo:

xibiu...

taí uma palavra que não conhecia e que gostei de ter conhecido

já tinha visitado o seu blog antes e volta e meia apareço aqui pra ver se tem coisa nova.

Duda Bandit disse...

ô, cara... monta essa puta editora... edições putana... meu livro sai depois do seu. ah, vamos botar uma porta giratória nela e fazer bulinar putinhas. publica o droggo também que o cara escreve pra caralho. abração.

Lola disse...

Eu tenho uma pequena morte social sempre que me param na porta giratória! Eu deveria processar os bancos por isso!

Adri disse...

kkkkk é um caralho mesmo, né? Eu evito essa cena, tento fazer tudo pela internet. Só para não deparar com a merda da porta giratória. Um dia eu perguntei pro cabra lá da segurança, se ele queria que eu tirasse meu piercing do umbigo... rsss
Beijos, Adri

Roberto L. disse...

Vc escreve bem, cara. Vê se escreve com mais frequência. Abraços.

Dan disse...

Mestre Rosel tinha razão quando dizia: "essa sala está repleta de talentos a serem lapidados". Coê tá botando para fuder com esses textos... simples, bem construídos com uma narrativa envolvente e uma simplicidade lógica que envolve os leitores.
Valeu pela sugestão do Charles Bukolski, o escritor das sajetas e obscuros recintos da noite americana - acho que é assim que escreve. (Realmente foi em sua homenagem que puseram o mesmo nome no "olhudo" e atrapalhado mostro do filme de animação gráfica Monstros S.A.)