1.5.07

Barba, cabelo e bigode

A barbearia não tem nome. Aliás, se tem não sei. Pelo menos não há placa alguma. Sempre digo que corto o cabelo nos três coroas, perto da feirinha. Quatro reais. Um bom trabalho de três veteranos que já cortaram os cachos de pelo menos quatro gerações do IAPI.

Tem o Seu Valdo, que não desliga o velho rádio AM marrom, cravado em notícias que deixariam o Normam Bates enojado – Você viu que mulher miserável, Paulo? Esquartejou o marido e fritou os pedacinhos – Tem o Seu Zelito, o maior colecionador de Playboys que conheço. E o Seu Ivanildo, que sempre está comendo alguma coisa e me lembrando que puxei a meu pai – Você tá com quantos anos, Paulo? Seu pai ficou careca com uns 30. Eu cortava o cabelo de seu pai quando ele ainda tava no colégio militar – O curioso é que os três não se falam. São sócios, mas não compartilham nem um pente. Dizem que o motivo da discórdia é que em outros tempos um comeu a mulher do outro. Nunca perguntei se é verdade.

Não tenho preferência entre Seu Valdo, Seu Zelito e Seu Ivanildo. Os três são exímios profissionais. E cortar cabelo de careca também não tem segredo. Por isso sento na primeira cadeira vaga. Nesse dia Seu Valdo rebaixava os cabelos brancos de um e Seu Zelito raspava a barba de outro. Seu Ivanildo ainda não havia chegado. Então, sentado numas das cadeiras brancas de plástico, do lado de fora da barbearia, eu olhava as putinhas passarem para lá e para cá, enquanto esperava minha vez.

Seu Zelito me chamou. Rapaz, você tá mais gordo. Eu sei, Seu Zelito. E aí, rebaixa? Rebaixa essa porra. Tirei os óculos e os coloquei sobre a mesa junto ao talco. Seu Zelito amarrou um pedaço de pano azul em volta do meu pescoço e começou o trabalho. Do espelho sobre a mesa eu podia ver o que acontecia na rua. E a cada movimento que Seu Zelito fazia na cadeira era possível ver o IAPI de um ângulo diferente. Primeiro eu via o ponto de ônibus e a população descendo dos veículos. Então Seu Zelito girava a cadeira um pouco e eu podia ver a barraquinha de jogo do bicho e a mulher lá dentro lixando as unhas. Mais um movimento e avistava-se o açougue e a feirinha. Mais um pouco para a direita e eu conseguia ver um pedaço das pessoas sentadas, bebendo cerveja no boteco ao lado, onde por sinal sai um sarapatel de primeira. E quando a cadeira retornava à posição inicial eu voltava a ver o ponto de ônibus.

Mas o dia a dia do IAPI já estava monótono. Tem revista nova, Seu Zelito? Tem a da mulher do Big Brother. Ele pegou a revista atrás do espelho e me deu. Dei uma folheada, o pau endureceu um pouco e memorizei alguma coisa. Mas era a mesma porcaria de sempre.

- A Playboy não mostra nada, Seu Zelito.
- É. As mulher tudo de perna fechada.
- Diz que é arte essa merda.
- Só dá pra ver os pentelhinho, e de longe.
- Putaria é na internet.
- Já me disseram.
- Boceta de todo tipo: loira, morena, ruiva, preta, japonesa, velha, nova. Até de anã tem.
- Crendospai!
- É sério, Seu Zelito.
- E dá pra ver tudo mesmo?
- Tudo arreganhada.
- Tem as mulher da televisão?
- Todas essas putas. Mas eu prefiro as amadoras.
- Amadoras?
- As putinhas que ninguém conhece. Os namorados comem, tiram foto e depois botam na internet pra todo mundo ver.
- Que safadeza.
- Tem até uma daqui do IAPI.
- Daqui do IAPI? Quem é?
- Sabe a filha de Seu Dorian, que mora do lado do depósito?
- A mais velha?
- Não, a caçula.
- Aquela galega? – Seu Zelito chegou a interromper o trabalho.
- Sim. Parece que deu um corno no namorado, e o sacana, pra se vingar, colocou na internet as fotos dele comendo ela num motel lá no largo Dois de Julho.
- E a aquela galega é bonita.
- O senhor precisa ver. Eu guardei as fotos. Depois eu trago pro senhor.
- Rapaz, traga mesmo.
- Trago.
- Aquela galeguinha de Seu Dorian?
- É uma safada.

Enfim, Seu Zelito terminou o corte. Com ajuda do velho espelho grande mostrou o resultado. Sinalizei positivamente. Passou talco em volta do meu pescoço e penteou meu cabelo. Dei cinco reais. Ele achou um real de troco na gaveta. Peguei meus óculos e dei uma última olhada no espelho. Vou trazer a foto, Seu Zelito. Traga mesmo. Na saída encontrei Seu Ivanildo. Terminava de chupar uma laranja. Cadê seu pai, Paulo? Sua careca tá aumentando hein, Paulo.

O resto do dia foi contraditório. De um lado eu e meu cabelo novo; e do outro, dívidas antigas e os clientes de sempre com suas desculpas de sempre para não pagar os freelas de sempre. Novidade mesmo só lá pelas oito e pouca da noite. Eu coçava meu ovo enquanto assistia uma virada espetacular do São José sobre o Araçatuba. Quando ouço baterem na porta. Era Seu Zelito.

- Que novidade é essa, Seu Zelito?
- Paulo, é que eu fechei a barbearia agora e...
- O senhor quer ver a galega.
- É, porque...
- Chega aí.
- Desculpa a hora, é que...
- Deixa de onda, velho safado. Vamos acabar logo com isso.
- Tá certo. Não vou demorar não...
- Olha só. Tem vinho na geladeira. Tá a fim?
- Não, Paulo, obrigado. Tô tomando remédio.
- O senhor que sabe.

Levei Seu Zelito até o computador. Acessei a caixa de e-mail. Estava lá: “Loirinha do IAPI”. Quando baixei as fotos Seu Zelito quase entrou em transe.

- Mas é a galega mesmo, Paulo.
- Eu não disse, porra?
- É o xibiu mais bonito que já vi.
- Raspadinha.
- Rosinha.
- Olha só essa aqui.
- Minha nossa senhora!
- Olha o que o cara fez com ela.
- E a bicha agüenta. Quem vê nem diz.
- Isso é uma putinha.
- E ela sabe que a foto dela tá aí?
- Já deve saber.
- E Seu Dorian?
- Até ele deve ter ficado de pau duro.
- Isso é que é xibiu.
- Olha ela de quatro.
- Que coisa mais linda. É rosinha.
- O senhor ia nela, Seu Zelito?
- Fazia barba, cabelo e bigode – Nessa hora percebi que Seu Zelito se ajeitava no banco bulinando seu velho pau. Achei melhor parar por ali.
- Faz o seguinte, Seu Zelito. Eu vou imprimir umas fotos e o senhor termina de ver em casa.
- Tá certo.

Imprimi três fotos. Seu Zelito pediu também a que a galega estava deitada no sofá com o peitinho rosa à mostra. Imprimi. Seu Zelito nem parecia o mesmo velho tímido que bateu na porta. Saiu com pressa e feliz. Só deu tempo de prometer que meu próximo corte de cabelo seria por conta da casa.

12 comentários:

gabi disse...

coitada da galega do iapi se ver esse seu blog! vai dar pulos na frente do computador. gostei de vc! aparece lá pelo vida. abraçs

Conde MOAI disse...

E depois disso seu Zelito nunca mais apareceu na barbearia!

poupéezinha.. disse...

muito bom...
adorei!

poupéezinha.. disse...

Obrigada lindo-
Sempre bem-vindo; o seu tb tá entre os favoritos.
bjo!

poupéezinha disse...

paulo, linkei teu blogue ao meu- posso? é que gostei merrmo dele..
bjo!

Marcelo Mendonça disse...

Rapaz...que massa! nada como a verdade escrita. Parabéns e valeu a visita no Caralhaquatro.

www.caralhaquatro.blogspot.com

Genérica Paraguaia disse...

Muito cômico.. quando era mais novinha, tinha mania de cortar cabelo em barbearia, e acompanhar meu pai nas borracharias... conversas doidas sobre assuntos diversos... imagens de calendários com nú, entre espuma de barbear, talco ou porcas...
Adorei o texto!

Allan disse...

faaaaala monstro... o velho paulinho hehehe
Massa cara seus textos, vi la no seu msn e vim dar umas lidas...
Li o texto de queixao, ta fudido assim eh? q merda hein?!
... me identifiquei com seu texto tb o lance dos freela.. cliente eh uma coisa pra pagar mesmo!!! ehhehe

Meu site atual é ensinando a galera coisas de javascript, ajax, html e css.
Estou desenvolvendo um novo que vai ter tudo isso ae e meus produtos para sites ;)

poupéezinha disse...

quelo têxtio novu..

a dama da livre poesia disse...

grande texto! dei muita risada. beijos

Dan disse...

Em tempos globais fico extasiado a cada visita por aqui com suas analíticas e saudosas visões sobre o ambiente que lhe cerca e sobre os "causos" que se passam a sua volta. Casos que nas suas mãos viram saborosos causos. Parabéns!

4rthur disse...

tu vê, homem é foda, né? tava ainda puto com a história do texto depois desse, mas aí tu começa a descrever a lorinha do IAPI... e eu já pensando em te pedir: manda as fotos pra mim, porra!