31.5.07

Altos e Baixos

As coisas podiam ser mais óbvias como eu imaginava que seriam. Faculdade aos 17, publicitário criativo como os das novelas das sete, casamento aos 25, carrão, filhos na escola e por aí vai. Sempre fui tão idiota. O bicho pega, meu irmão. Tem que sambar pra vencer na vida. Mas em Salvador nem todo mundo é Carla Peres. Na maioria das vezes a porra empena, como aconteceu com o bom e velho Couto que por sinal já vi num pagode e samba mal pra caralho.

Couto ligou eram nove e pouca da noite. Estava bêbado. Precisava conversar e me chamou até seu apartamento. Moramos próximos. Fui até lá.

A porta estava encostada. Entrei. Couto estava sentado no chão da sala, encostado no sofá. As mãos ensangüentadas. Segurava uma garrafa de 51 e alisava Arouca, o seu gato. Eu gelei.
- Marluce é uma puta, Bono – disse Couto – Você sabia?
- Porra, Couto, o que você fez? – perguntei fechando a porta e procurando o corpo de Marluce pela cozinha e pelos quartos.
- O que EU fiz? Porra, até você? – perguntou Couto aos berros – Pra todo mundo a culpa é minha. Vai tomar no cu todo mundo!
- Ok, o que houve? Cadê Marluce? – perguntei depois de não encontrar nada.
Sentei no sofá.
- Aquela puta foi embora. Cachorra, nigrinha.
- De quem é esse sangue?
- É meu, porra. O sangue é meu. Posso ter sangue pelo menos?
Havia manchas de sangue no pêlo de Arouca. O marrom-claro do pêlo misturado com o tom avermelhado do sangue resultou numa cor interessante.
- Que foi isso nas mãos? – eu perguntei.
- Tropecei nessa porra de tapete com o copo na mão. Nunca quis esse tapete. Foi idéia daquela puta.
Havia mesmo cacos de vidro pelo chão.
A noite ia ser longa. Um ronco de motor na rua assustou o punk Arouca, que deixou o colo de Couto e correu para a cozinha. Couto estava virado na porra e me contou o que aconteceu.

Couto tinha um verdadeiro império na CEASA do Rio Vermelho. Era dono de sete barracas. Vendia de tudo. Verduras, temperos, frutas regionais, frutas chiques, carnes, peixes, camarões, azeites, queijos, presuntos, doces e sequilhos de inimagináveis sabores. Couto era o rei. Conhecido por todos. Marluce, sua bonita e simpática esposava, o ajudava nos negócios.

Vale lembrar que por causa de Couto até pensei em largar esse papo de textos e propaganda e montar minha barraca de biscoitos. O comércio tem um dinamismo excitante. Os altos e baixos das vendas fazem com que você esteja bem num dia e duro no outro. Ao contrário da propaganda, que você é fodido o tempo todo. Além disso, na CEASA, as pessoas parecem mais autênticas e felizes.

Voltando a Couto, ele era mesmo um grande empreendedor. Contudo, como estamos nesse país de merda, nesse estado de bosta e nessa cidade de cu, têm os impostos cretinos, os encargos e outras escrotidões que Couto não teve como suportar. Baixaram fiscais e autoridades, rolaram processos de empregados e a porra empenou. Couto perdeu todas as barracas, tentou ficar com uma, mas não deu, perdeu tudo.

Por mais alienado que eu seja, a sensação era de revolta ao ouvir a história de Couto. “Deixe eu dar uma golada dessa porra” – eu disse me referindo à 51. Couto passou a garrafa, bebi um pouco na tora e a devolvi. Couto continuou.

Depois de perder seu império, Couto, é claro, ficou na merda. Mas era raçudo. Queria dar a volta por cima. Ia começar tudo de novo, do zero. Pegou então seu velho Gol e se mandou para Várzea do Poço, um interior de merda, seco, desses da Bahia. Pegou todo tostão que lhe sobrara, até o último centavo, e comprou bananada e requeijão para revender em Salvador. Mas no caminho de volta, Couto foi surpreendido pelos homens. A mercadoria não tinha nota, claro. Não queriam conversa, queriam propina. Couto disse que não tinha nada, que usara todo dinheiro que tinha na vida para comprar a mercadoria, chegou a mostrar a carteira vazia e oferecer bananada e requeijão para todos. “Bananada e requeijão não paga a escola das crianças, vagabundo” – chegaram a falar. Mandaram Couto retirar a mercadoria do carro e botar no acostamento. Os filhos da puta tocaram fogo em toda bananada e todo requeijão, bem na frente de Couto. Ele disse que pensou em fazer uma besteira na hora. Tomar a arma de um e matar pelo menos um dos sacanas.
- Mas eu não tinha mais forças, Bono – disse Couto – Não conseguia levantar nem mais um músculo, nem um dedo. Segui o resto da viagem pensando em meter o carro no primeiro poste. Chorei pra caralho, Bono, confesso.
- Filhos da puta – eu disse. A única coisa que consegui dizer.

Arouca voltou da cozinha. Devagar, preguiçoso e sem saber o que estava acontecendo, acomodou-se nas mãos ensangüentadas de Couto, que continuou a história.

Tudo isso aconteceu naquele dia. Couto só desistiu de se matar porque lembrara de Marluce e de Aline, sua filhinha de oito anos. Pensou em chegar em casa e não contar nada, ser o mais discreto possível para não deixar a esposa desesperada. Daria um jeito em tudo. Mas quando chegou em casa encontrou um bilhete de Marluce grudado sob um ímã na geladeira. Ela chamava Couto de burro, dizia que ele estragara tudo e confessava que se apaixonara por outro homem. Dizia também que ia levar Aline, que ele podia ficar com o gato e pedia desculpas.

Enquanto dizia as palavras exatas do bilhete de Marluce, Couto chorava e acariciava Arouca.
- Vagabunda – eu disse.
- Não é? – ele disse olhando com os olhos molhados.
- Vagabunda miserável – eu insisti.
- Bono, sinceramente? Eu tô pensando em me matar.
- Deixa de viadagem, Couto. Você nunca foi tão sensível assim.

Acho que qualquer pessoa, na situação de Couto, pensaria em suicídio. Eu mesmo já teria colocado fim nessa história antes mesmo da bananada e do requeijão. Mas não podia dizer isso a Couto. Ele não teve culpa por nada. Eu soube de um cara que tinha culpa no cartório mesmo. Ele se matou depois que a Coelba descobriu seu gato de energia de mais de cinco anos. A multa era astronômica. Não agüentou a pressão e a vergonha e meteu bala na própria cabeça. Mas com Couto é diferente. Foi tudo uma grande merda. Couto só estava tentando sambar. Mas eles queriam derrubá-lo de qualquer jeito. Só tem filho da puta. Sacanagem em cima de sacanagem.
- Foda-se – eu disse.
- Que? – perguntou Couto.
- Foda-se a Receita, foda-se Marluce, foda-se a goiabada...
- Bananada...
- Não importa, foda-se – eu disse – Tem que ser um pouco mais miserável, Couto, mais gente ruim, mandar tudo pra puta que pariu! Tem que pensar muito não.
Couto permaneceu calado por um tempo. Mandou ver na cachaça.
Arouca lambia os próprios ovos.
- Não tem que se matar – eu disse – Aliás, é isso que eles querem.
Couto bebeu mais um gole da cachaça.
- Tem razão. Foda-se todo mundo – disse Couto – Eu ainda tenho meu gato.
- Pois é, foda-se. Vamos beber.
- Toma – disse Couto me passando a 51.
- Não agüento essa porra. Não tem mais nada?
- Acho que tem um vinho pela metade. Não sei se presta. Foi a nigrinha que comprou.
- Foda-se a nigrinha.
Fui até a cozinha e trouxa a garrafa de vinho pela metade.
- Tá a fim de ver um dvd? – perguntou Couto.
- O que você tem aí?
- Bruno e Marroney, Calypso...
- Vai tomar no cu, Couto.
Liguei a TV e passava a Grande Família.
- Bono, você tem algum pra me emprestar? – perguntou Couto – Ainda tenho o aluguel pra pagar.
- Sou redator freelance, porra. Tá de sacanagem?
Ficamos bebendo e assistindo, Couto e eu. Arouca pegou no sono. Couto não ria de nada. Eu também não.

10 comentários:

droggo disse...

dos textos que já li aqui, esse foi o mais foda...

Lola disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Lola disse...

Puta que pariu, esta sou eu esta noite. Por que a vida não pode ser como uma suave brisa? Diz pra mim, você me daria um beijo, se eu pedisse?

Joana disse...

PQP! Que texto fabuloso! estou impressionada. Grande historia, maravilhosamente bem contada. meus parabens. tomara que estejam aproveitando esse seu talento todo no free lance. beijos!!

Anônimo disse...

adoro o seu blog. mas vc. deveria atualiza-lo com mais frequencia...tao legal entrar aqui e encontrar uma historia nova!!!

poupéezinha disse...

Rapái..
Fodíssimo esse txt!
Porra, que situação essa do seu amigo Couto- Tb já cheguei a estaca zero, trocada, falida e fodida; Sem um puto no bolso, nem perspectiva pro mesmo, e uma pequenita pra criar- sozinha. Confesso que caminhei pela av. Sumaré, chorando- nem pro maço de cigarro tinha- nem pro bumba; Os mantimentos da casa no talo. Pensei em pôr fim a essa existência miserável. Aí lembrei da minha pequena- Como assim?? Ainda tinha $ pra tomar um café- queria era uma pinga, but- Enquanto sorvia aquele licor dos deuses do momento misturado ao sal das lágrimas, o telefone tocou. Era sobre um contrato-
Ok, ok.. quase uma sessão da tarde americana, mas tb sei que essa sorte foi a minha. Tudo de bom pra vc e pro teu bródi aí.
Bjo!

Duda Bandit disse...

Esse Couto é uma figura... ah, se quiser sócio pra banca na feira, podemos pensar.

Allan disse...

É foda, mesmo qd vc faz td certo as vezes da um mole e a porra empena bonito... ja passei por isso... tb ja pensei em meter o balao na cabeca, mas eh isso, seguir em frente!
Esse couto eu n conheco n, mas figura vcs dois ae e o nome Arouca so me lembrou queixao n sei pq ehuiehiuehue

Abs vei

Tamires disse...

RAPÁ.EU CONHEÇO VARZEA DO POÇO! HUAHAUHUAHA UM CÚ.KKKKKKKKKKK ADOREI ESSE LUGAR,Tô EM CRISE DE RISO VELHO.

4rthur disse...

agora fiquei meio puto... por mais que todo mundo queira elogiar sua destreza na escrita, não consigo superar o ódio que dá saber desse tipo de história, dos canas filhos da puta que queimam a única chance decente do cara de continuar batalhando pela própria subsistência, do número de pessoas que passam por esse perrengue diariamente e ainda têm que sorrir e levar a vida adiante...

maldito sistema exploratório!