22.2.07

Dor no Ovo.

Um dia desses encontrei um grande amigo dos tempos da Lapinha, o Queixão, e quase não o reconheci. Estava magro, com a cara chupada e deprimido. Disse que entrou numa dieta miserável. O colesterol estava na casa da porra. Não podia comer isso, não podia comer aquilo, um pastelzinho frito de vento para relembrar os velhos tempos nem pensar. Logo ele que já havia cultivado com orgulho uma invejável barriguinha de chopp e traçava fácil uma travessa de barro inteira de cozido. Colesterol de merda. E Queixão deve ter uns 27.

O pior é que tem muita gente nova e boa por aí se lascando com essas doenças malditas que a gente só ouvia os avós e os tios velhos do interior reclamarem. É uma úlcera ali, uma apendicite aqui, os triglicerídeos lá em cima, o pau lá embaixo, um com reumatismo, outro com a coluna fodida. Ouvi dizer que até a Cris, uma amiga gostosa do segundo grau, sofreu um derrame e anda agora toda torta.

Essas novidades chegam a dar medo, confesso. É mais ou menos como ver todos os amigos a sua volta se casarem. Um perigo real e imediato. É assim – cuidado, sacana, tem alguma coisa acontecendo. Não cuide dessa barriga de bosta aí não, que o seu está guardado.

E o que esperar de um gordo sedentário que há 29 anos come biscoito de chocolate e bebe Coca-Cola? É óbvio que não agüento mais nem cinco minutos de baba. É normal que eu não consiga mais me levantar sem sentir a ferrugem na bacia. E tão certo quanto o Obina fazer um gol é ouvir a minha mãe comentar que morre de medo quando assisto a um jogo do Flamengo porque sou gordo e meu coração pode dar um treco. Porra, ando sofrendo até de gases. Tem dias que acordo todo entrevado, rezando por um peido.

Outro dia sentir uma dor no ovo. Uma puta dor no ovo. Como se tivesse levado um chute mesmo. E dor no ovo é como se fosse uma dor na alma. A gente segura os ovos e, ao mesmo tempo, não sabe onde exatamente é a dor. A dor no ovo é uma dor em todo lugar, até fora da gente. Quando meu pai me encontrou, eu estava branco, suando e me contorcendo.

- Tá sentindo o que, Paulo?
- Uma dor no ovo.
- No ovo?
- Sim, no ovo.
- Há quanto tempo você não dá uma?
- Sei lá, umas nove horas.
- Quer ir no médico?

Fui parar no Urologista. Quando vi, aquele senhor distinto já apertava meus ovos e mexia meu pau para um lado e para o outro. Quase fiquei com pena da minha varinha tamanha a sua insignificância naquele momento. Vou dizer uma coisa. É preciso muito desprendimento e uma personalidade forte para se tornar um Urologista. Imagino o quanto esse cara sofreu com as piadas quando escolheu seguir essa profissão literalmente escrota. Só sei que ao fim de toda aquela bulinação, o sacana disse que ia fazer alguns exames, mas que certamente eu estava com cálculo renal, que o meu pai tinha e eu também devia ter. Primeiro foi a porra da careca, agora essas rochas nos meus rins. Meu pai é foda.

O pessoal costuma dizer que eu sou saudosista, nostálgico, sei lá, que vivo preso ao passado. Mas como não ter saudade da porra do tempo que as únicas dores que eu sentia era a de um joelho brocado depois de uma queda na picula e a do coração partido pela menina mais bonita da sala? Agora é essa merda. Contas a pagar e colesterol a baixar. Contas e colesterol. Nem uma empadinha seca no bar da esquina o Queixão pode comer. Perigo real e imediato antes dos trinta. Chá de quebra-pedra antes dos trinta.

3 comentários:

Ricardo disse...

pUTZ!

André Avelino disse...

Putz, Paulinho! Pra um gordinho escroto ate que você está se saindo
bem escrevendo, quase sinto a dor no ovo. Mas a culpa toda é desse pai, viu! Porque resolveu nascer filho desse cara, hem, num podia arrumar um pai menos careca e menos dor nos rins do que esse, não... Agora, vou te falar:a culpa é tua! Que deixou de ser redator pra ficar comendo biscoito de goma disfarçado de trabalho.

Nick. disse...

Cara, não te conheço mas, tô fã de seu blog. Tô lendo desde o primeiro e me acabando de rir...

Me identifiquei muito com essas dores desgraçadas que vem com a idade. Vira e mexe eu acordo todo entrevado com dor nas costas, até pra respirar dói!